A tale of Nevareth

6 De como ela não conseguiu segurá-lo


Durante quase quatro semanas, Jhony a tratou como se ela estivesse doente. Proibiu terminantemente qualquer trabalho na guilda, esforços insignificantes — como se esticar para alcançar um livro na estante ou se abaixar para pegar uma caneta que tivesse caído debaixo da mesa —, caminhadas longas e até mesmo subir e descer escadas, o que a deixou possessa. De meia em meia hora, ele fugia do que estava fazendo e corria até o quarto para se certificar de que ela e seu filho estavam bem. Observava que Whuthering estava pálida — como sempre fora, aliás — e ameaçava jogar o médico numa masmorra se ele não resolvesse aquilo. Então, quando Jhony saía novamente, ela rolava os olhos com tédio e reclamava para a criada sobre como os homens eram tão medrosos.

À noite, ele deitava ao seu lado e, feito bobo, ficava acariciando gentilmente a barriga dela, ainda sem volume algum. Encostava o ouvido sobre o umbigo de Whuthering e permanecia em silêncio, esperando escutar qualquer coisa lá dentro, o que obviamente era impossível.

— Como você acha que devemos chamá-lo? – ele perguntou numa dessas noites.

— Ou chamá-la.

— Eu sei que será um garoto.

Como você pode saber?

— Eu sou o pai, oras.

Whuthering riu de toda aquela prepotência masculina.

Se for um garoto, vamos chamá-lo de Devon. – ela disse. — Mas se for uma menina, seu nome será Anya.

Mas nenhum Devon ou Anya viriam àquele mundo, não daquela vez. Duas noites depois, Whuthering sonhou que estava na praia de Porto Lux, submersa até à cintura enquanto as ondas vinham e a sacudiam devagar, e acordou sentindo a cama molhada. Então quando Jhony acendeu a vela sobre a mesinha de cabeceira, eles viram que os lençóis estavam manchados de vermelho e Whuthering deitada sobre uma poça de sangue.

Do sangue do filho que se fora.

O grito de dor e desespero de Whuthering jamais saiu da memória de Jhony.

Por todo o sempre, ela se culpou por não ter sido capaz de segurar aquele bebê, por não ter sido forte o suficiente para mantê-lo vivo e aquecido dentro da barriga, por não ter conseguido protegê-lo. O sonho deles estava arruinado por uma mancha de sangue que jamais poderia ser removida.