A sua cor

48 Truly Madly Deeply – parte 2


Notas iniciais
Ah, Alan...

Severo acordou algumas horas mais tarde sentindo a claridade alcançar o quarto, amaldiçoando que as cortinas não fossem tão escuras. Mas qualquer mau humor que tivesse tentando vingar simplesmente murchou quando ele sentiu o corpo quente ao seu lado, se abraçando a ele, dormindo um sono tranquilo e mandando leves sopros de respiração no seu peito.

Os cachos estavam para todos os lados no travesseiro, e ele sorriu para a jovem mulher maravilhosa ao lado dele. Naquele momento nada que estivesse do lado de fora do quarto importava a Severo, apenas a bruxa nos braços dele. Ele pode fingir por alguns minutos que ele era só um cara normal casado com uma jovem bruxa teimosa, com uma casa no campo e um laboratório de poções no fim do corredor.

— Está tudo bem? – ouviu Hermione perguntar, a voz ainda fraca de sono.

Snape sorriu para ela, extremamente suave, e beliscou a testa com um beijo. – Sim, está. Bom dia.

— Bom dia. – ela disse no meio de um bocejo, enterrando o rosto novamente na curva do pescoço dele.

Snape enrolou os dedos nos cachos dela, acariciando levemente as mechas bagunçadas. Ele ponderou por um momento antes de finalmente falar.

— Você pode ler algo para mim? – ele sabia que isso a despertaria completamente.

— Ler algo para você? — questionou, curiosa.

— Sim. – sorriu, divertido pelo entusiasmo dela.

— Claro. Algo específico?

— Na verdade, sim. Um poema.

— Poema? – franziu a testa, cética – Severo Snape lê poemas? Não esperava por essa.

— Não conta para ninguém.

— Não vou. – Hermione riu depois de uma piscadela cúmplice – Tudo bem, qual poema? – ela levantou a sobrancelha num gesto muito característico quando o bruxo saiu da cama em direção a capa estendida nas costas da cadeira. Do bolso, ele tirou livro minúsculo. Num movimento silencioso de varinha o objeto minúsculo foi tomando forma original. Ele voltou para a cama e o entregou a ela.

Hermione analisou o livro da capa a contracapa, detendo-se no título – Pablo Neruda. Não lembro de ter visto nada dele por aqui.

— Não estava aqui. – comentou – Passei na rua da fiação antes... minha antiga casa.

— Às vezes eu me perguntava se você ainda mantinha a casa para... sabe, pensar.

— Eu não preciso de um tempo longe de você, Hermione. – e, sim, ela acreditava nele – Só passei para pegar o livro. Página 47. — disse, de um jeito professor arrogante Snape de ser.

— Sim, professor. – lançou um olhar impertinente e abriu na página pedida, até que ele a interrompeu.

— Antes você tem que me prometer uma coisa.

— O que? – ela perguntou sem dar muita importância, já abrindo na página.

— Que vai fazer como diz o poema. – a seriedade no pedido dele a fez fitá-lo novamente.

— Como?

— Prometa. – seu olhar era intenso quando ele pediu, sentando-se do lado dela na cama.

— Severo... – disse com pouco crédito.

— Você tem que prometer.

— Prometer o que está escrito num poema? Severo... – ela riu, mas ele não – Não vou prometer algo que nem li. – ela viu como as feições dele mudaram, e ela se sentiu compelida a agradá-lo. – Maldito sonserino. Tudo bem. Se você insiste... Está em inglês? – e com o aceno afirmativo dele ela começou.

— “The dead woman”. Não conheço este.

— Algo que a sabe tudo não sabe. – ironizou, mas sem o tom de malícia. Ela sabia, apesar de ter mostrado a língua em resposta, que era algo sério. Que ele estava tentando dizer algo a ela. – Comece, por favor.

— Claro. Bom, “The dead woman”:

“Se de repente você não existe,

se de repente você não vive,

Eu vou viver.

Não me atrevo,

Eu hesite em escrever,

se você morrer.

— “se você morrer”... – ela repetiu, sentindo seu coração acelerar – Severo. – ela buscou o olhar dele, mas ele se recusou a olhar de volta.

— Continue.

— Eu não...

— Por favor, Hermione. – a voz quebrada não lhe dava escolhas. Ela respirou fundo, tentando ignorar as lágrimas, mas continuou.

“Que eu viva.

Para onde um homem não tem voz

lá, a minha voz.

Onde os negros são espancados

Eu não posso ser morto.

Quando você está entrando em prisão meus irmãos

Eu venho com eles.

Quando a vitória,

não a minha vitória,

mas a grande vitória

chega

mesmo se mudo Devo falar:

Vou vê-lo vir mesmo que eu sou cego.

Não, me perdoe.

Se você não vive,

se

você, meu querido, meu amor,

se você

está morta,

todas as folhas cairão em meu peito,

e choverá sobre minha alma noite e dia,

a neve vai queimar meu coração,

Vou andar com geada e fogo e morte e neve,

meus pés vão querer marchar para onde você dorme,

mas

seguirei vivendo.”

— Severo. – ela não se deu conta e já estava nos braços dele, não se importando com o seu choro desesperado.

— Você vai seguir vivendo, meu amor.

“Meu amor”. Foi a única coisa que a mente de Hermione conseguiu processar. Ele era um bastardo sádico, era o que ela queria gritar.

Severo enxugou as lágrimas dela com reverência, sentindo uma dor aguda no peito só de pensar que era ele quem estava causando tanto mal a ela.

— Não posso acreditar que você esteja chorando por mim.

— Você ainda não consegue acreditar? Severo, eu a-

— Não diga. – ele a silenciou – Não precisa dizer nada, Hermione. Você me deu coisas que jamais considerava conseguir, e isso é mais que suficiente. Isso tem mantido a minha sanidade, o meu coração... tudo.

— Você sabe que eu faria tudo de novo, não sabe? E que se dane que você não quer escutar: eu amo você.

— Hermione.

— Eu amo você, Severo Snape. – ela trouxe o rosto dele para bem perto do dela, para que ele não tivesse dúvida do sentimento olhando nos olhos dela — Vou amar para sempre não importa o que aconteça. Entendeu?

A intensidade dos olhos castanhos, a firmeza na expressão, a suavidade nas palavras “Eu amo você”... Severo Snape nunca tinha escutado isso antes. Ninguém nunca havia dito sequer que gostava dele, e embora soubesse que sua mãe, Eillen, o amava, nunca foi demonstrado. Toda a energia da mãe era gasta em impedir que os rompantes do pai bêbado atingissem a pequena criança pálida e assustada. Não houve tempo para carinhos e beijos de boa noite. Não houve tempo para conselhos na adolescência. Não existiu bolos de aniversário. Nada. Uma sucessão de não’s.

E Snape acreditava merecer cada uma dessas negações, não se achando merecedor de nada que fosse bom. A sua ideia de vida era ajudar o garoto Potter e morrer. É, talvez ele sonhasse com a paz eterna.

Mas então... a Hermione irritante Granger apareceu e tudo, absolutamente tudo mudou.

— O que eu fiz para merecer você? – ele suspirou, trazendo-a para o seu colo.

— Eu vi quem você realmente é. Alguém que nem você mesmo acredita existir. Eu amo cada pedacinho seu, Severo. As partes boas e ruins, pacote completo.

— Você não sabe de tudo, Hermione. – disse, resignado, ainda incapaz de acreditar que ela ficaria com ele se tivesse escolha.

— Sei o suficiente para te amar. Você vai me contar sobre o seu passado quando o presente não estiver tão conturbado. E eu vou escutar você de coração aberto. – naquele momento era como se Hermione estivesse explicando algo muito complicado para uma criança, e ela nunca fora muito paciente. Mas como Severo tudo ficava em uma outra perspectiva. Ela se sentia bonita e desejada perto dele, mais adulta. Enquanto ela amava o Harry e o Rony, nunca poderia discutir metade dos assuntos que discutia com Severo, e se sentir completa, mais forte e mais corajosa.

— Você é muito grifinória mesmo. – zombou ele, dando um daqueles sorrisos canto de boca que só ele sabia dar.

— De um jeito ruim? – ela se permitiu brincar de volta.

— Não. Na verdade, de um jeito muito bom. — as orbes negras dele eram tão hipnotizantes, tão misteriosas... Hermione sabia que tinha muito mais do que ele deixava vir a superfície para mostrá-la, mas já era muito que ele a deixasse mergulhar. Aos poucos ela traria mais à tona para mostrá-lo o quanto ele merecia os sentimentos dela. – Você precisa descansar agora. Ainda temos uma hora antes que realmente amanheça.

— Preciso ir para Hogwarts.

— Não, você precisa descansar mais um pouco. – disse, decidida, indicando a cama. Ele não relutou.

— Você não vem? – perguntou, olhos meios abertos.

— Em um instante. – disse, sorrindo, tentando mascarar a angústia em seu peito.

— Hum – ele resmungou, já dormindo novamente. Ela ainda tinha muito o que pensar.