A sua cor
9 O que não foi dito
Notas iniciais
Snape
– Aquela garotinha petulante! Com aquele nariz em pé! Quem ela pensa que é pra falar comigo assim? – falava andando em círculos pela sala, tentando controlar a raiva que ela tinha me proporcionado. – Só podia ser amiga do arrogante do Potter e do idiota do Wesleay – bufei – e, claro, tinha que ser grifinória para falar tanta bobagem em tão pouco tempo! Andando?! – e soltei uma risada seca.
Mas o que eu não percebia no momento era o quanto ela me atingia. Poderia facilmente ignorá-la, mas tinha prazer em irritá-la, em respondê-la. E convencendo a mim mesmo de que ela não me atingia, de que eu não me importava, entrei no escritório e me tranquei, tentando pensar em outra coisa que não fosse a sua petulância, ou sua expressão indignada, ou a sua força, ou seu dedo indicador inconveniente, ou sua ânsia por conhecimento, ou seus olhos que brilhavam diante um livro... “Castanhos, com pequenos pontos esverdeados”, ele lembrou em pensamento.
– Mas o que... Que diferença faz a cor dos olhos dela? Se tem detalhes verdes ou se é todo castanho? Pelos céus, estou ficando louco. – e interrompendo meus pensamentos, um trovão silenciou todos os outros sons, me fazendo lembrar que Hermione ainda não tinha entrado no chalé. Anos como espião e você acaba aprendendo a perceber coisas que ninguém perceberia. E além do mais as proteções não tinham anunciado sua presença. – Não é possível que ela ainda esteja lá fora, na chuva! – e me convencendo que ela não era importante, dei continuidade ao trabalho que me esperava.
Dez, vinte, trinta minutos se passaram e nada de Hermione Granger aparecer, e a tempestade só ficava mais forte. Seria estranho explicar, mas senti que algo estava errado. O quão ridículo isso poderia soar para uma pessoa como eu?! E lutando contra todo meu bom senso, decidi seguir minha intuição e procurá-la.
...
Ela estava com a testa sangrando e tinha arranhões em várias partes do corpo. Estava pálida, gelada e inconsciente. Senti muita raiva naquele momento, não necessariamente dela, mas pela sua estupidez, pela sua teimosia. E também senti raiva de mim, pois se não fosse pela nossa briga ela não teria tido a brilhante ideia de sair no meio de um temporal. E foi nessa mistura de sentimentos que instantaneamente a peguei no colo, e tudo simplesmente mudou...
Toda a raiva foi substituída pela necessidade de vê-la aquecida e curada. Era novo para mim sentir algo assim, e antes de aparatar com ela nos braços a observei por um instante. Por alguns segundos ela se mexeu, e parecia estar semiconsciente. Voltando a minha concentração para aparatar, apenas sussurrei no meu modo tão habitual: ‘Granger’.
***
Colocando-a cuidadosamente na cama, Snape aqueceu o quarto e cuidou de suas feridas. Seria difícil fazê-la tomar poções ainda estando desacordada, então com um feitiço básico limpou os ferimentos mais superficiais. Hermione não parava de tremer e pronunciar coisas desconexas, e ele não sabia mais o que era lágrima ou suor no rosto dela. Forçando-a então a beber a poção, Snape começou a sentir que ela relaxava, cedendo ao cansaço.
Ele passou o restante do dia e toda a noite ao lado da bruxa. E o mínimo movimento dela era o suficiente para um salto da cadeira diretamente para a cama. Até o momento em que o mínimo movimento se tornou um pesadelo, e Hermione acordou em prantos.
– Granger! Granger! – ele a chamou, segurando firme seus ombros, fazendo-a olhar para ele. O olhar dela era tão assustado que, sem perceber, ele já estava tentando acalmá-la – Acalme-se, está tudo bem... Está em casa agora.
Por um momento, Hermione quase o abraçou. Mas antes que o fizesse, recobrou a consciência que lhe faltava e voltou a se deitar. E quando Snape ameaçou se levantar, ela murmurou um sincero ‘Obrigada’. Assentindo, ele apenas retrucou um ‘Durma, Granger’. Contudo, não havia frieza, só um pedido também sincero.
– O senhor vai estar aqui? – ela perguntou, sonolenta.
– Sim, eu não vou sair hoje. Agora durma.
Obedecendo, ela adormeceu poucos segundos depois, deixando um Snape confuso e cansado a observando.
...
Horas mais tarde e Hermione acordou sentindo a cabeça latejar. Enquanto seus olhos se acostumavam à claridade do dia, sua mente processava todos os acontecimentos anteriores. Lembrou da briga, da tempestade, de cair... e então, ele. Ainda um pouco sem forças ela colocou os lençóis de lado e saiu à procura de Snape. Passando pela sala, um segundo copo de Whisky se acumulava na mesa e, balançando a cabeça de forma repreensiva, Hermione os fez levitar diretamente para a cozinha.
– Eu... ia cuidar disso. – ele disse, entrando silenciosamente enquanto sua voz ecoava pela sala.
Temendo a reação dele e se preparando para frases cruéis, Hermione apenas se rendeu para o óbvio e esperou que ele fizesse seu discurso. No entanto, isso não aconteceu.
– Não vai falar nada? – ela perguntou, franzindo o cenho. – Nem uma frase? – e ele permaneceu calado – Não vai falar o quão idiota eu fui?
– Tenho coisas mais importantes para fazer, Granger. Seus atos irresponsáveis não me dizem respeito. – ele disse friamente. – E se sua cabeça estiver doendo, deixei algumas poções separadas. – e seguiu para o escritório.
Hermione não entendeu o que estava sentindo. Estava com raiva, muita raiva. ‘Eu queria que ele tivesse brigado comigo?!’, pensou ela, confusa.
– Ele agiu como se não se importasse! – murmurou para si mesma, indignada.
Confusa, irritada e com dores pelo corpo, Hermione entrou de maneira furiosa no escritório dele, fazendo-o olhá-la abismado.
– Posso saber o que significa isso, Granger?
– Pode. Eu quero falar com você. – disse, com os olhos faiscando – E se possível, quero uma conversa contínua. Quero que conversemos como adultos. – completou. E quando ele ameaçou lançar um comentário irônico, ela apenas disse um decidido, firme e lacônico: Agora.
– Pois bem... Quer falar sobre a sua idiotice? Sobre o fato de ter se afastado das proteções no meio de um temporal? Ou sobre o fato de não ter tido a capacidade de lançar sequer um Periculum? – ele perguntou, apoiando as mãos na mesa enquanto fixava seu olhar impassível sobre a menina. Ela, por sua vez, não cedeu as provocações e o ignorou.
– Não é sobre isso que quero falar. É sobre o Harry...
– Ah claro! Potter! – cortou ele friamente. – Diga Granger, o que quer falar sobre... ele. – desdenhou.
– Eu preciso ir até ele. Preciso falar com o Rony e também com alguns membros da Ordem. O casamento de Fleur e Gui é no dia primeiro de agosto e eu vou... – enquanto ela disparava a falar, Snape apenas a observava como se Hermione estivesse cuspindo absurdos, até levantar a mão no ar em sinal que ela se calasse.
– A senhorita precisa? – ele começou, afirmando com a cabeça e enfatizando a última palavra. – A senhorita vai? – e sem dizer mais nada, ele deu a volta pela mesa e parou na frente de Hermione, com os olhos semicerrados. Involuntariamente ela se afastou um pouco, enquanto mantinha o olhar firme sobre ele. Por alguns segundos Snape apenas a fitou, até que apenas disparou um ‘Não’ seco e definitivo.
– Não?! Como assim?
– Granger, qual é o seu problema? Não pode sair daqui! Está agindo de forma idiota. – ele disparou, perdendo a paciência.
– Eu vou! Harry e Rony não podem simplesmente sair sem nenhum preparo ou dica. Eles precisam de uma direção! E tem algumas coisas que descobri e que preciso falar com eles! – Hermione já estava tagarelando outra vez, atropelando as palavras enquanto tentava convencê-lo. E, parando para respirar, continuou – Além do mais... – hesitou – sinto saudade dos meus amigos. Preciso saber como estão todos... Não sei quando poderei vê-los novamente.
Snape sabia que ela tinha razão. Não dava para simplesmente deixar que os dois bruxos se aventurassem sem o mínimo de precaução. Mas ao mesmo tempo ele temia que algo pudesse dar errado, já que sabia que o Ministério cairia a qualquer momento e que um casamento seria o melhor momento para um ataque.
– Granger... – ele começou, voltando para trás da mesa – é claro que aqueles dois idiotas não podem simplesmente fugir. Concordo que eles precisam do seu... auxílio. Mas um casamento em um momento como esses é a ideia mais idiota que os Weasley poderiam ter. O Ministério pode cair a qualquer momento e eu não me responsabilizo por esse evento. – ele confessou, deixando Hermione assustada.
– O senhor acha que pode acontecer alguma coisa no casamento? – perguntou de forma apreensiva.
Ele não respondeu, apenas continuou: — Daqui há alguns dias entraremos em agosto. É melhor que vá apenas no dia 31 e volte antes do casamento. Instrua aqueles dois idiotas e evite o máximo de conversa que puder. Diga apenas o necessário.
– Acho que contarei sobre... bem, sobre a nossa situação.
– Contanto apenas que conte para as pessoas certas, boa sorte com isso. Mais alguma coisa, Granger? Ou foi só por isso que invadiu meu escritório?
– Tem mais uma coisa, senhor... – ela ponderou. – Há algum tempo tenho curiosidade em fazer essa pergunta. – completou com o olhar hesitante.
– Então pergunte logo. – disse impaciente.
– É sobre ele. Voldem... – ela parou de falar quando Snape lançou um olhar inquisidor – Você-sabe-quem. Como vai explicar isso? Mais cedo ou mais tarde ele vai saber que não estou com Harry e com Rony, não acha? E ele também pode descobrir que está escondendo algo, não? – perguntou, nervosa, franzindo a testa de forma típica.
– Então uma das preferidas de Dumbledore está duvidando dele? – provocou Snape – De fato, parece que seu plano brilhante tem muitas falhas. – ele disse, irônico, fazendo Hermione levar uma das mãos na cintura em protesto. Mas antes que ela pudesse se justificar e defender o diretor, ele continuou – O Lorde das Trevas já sabe que está comigo, Granger.
– O que?! – ela questionou, assustada — E o que disse a ele?
– A verdade... ou parte dela. Dumbledore nos fez assumir um pacto, então para o Lorde eu não tive escolhas. Mas é claro que ele pensa que será tratada como prisioneira. Por isso é essencial que saia antes do casamento acontecer, ou correrá riscos.
– Mas se estou como sua prisioneira ele não pode pedir que me leve até ele?! – ela perguntou, assustada.
– Enquanto não oficializarmos o casamento, o Lorde sabe que não poderá ter você. E além do mais ele está mais preocupado com o Ministério. Ele acha melhor deixá-la sob meus cuidados no momento. – e vendo o olhar assustada da jovem, ele completou – Granger, não faça nenhuma estupidez e ficará tudo certo.
E ao dizer isso, sua voz não tinha impaciência ou ironia, muito menos frieza. Era o jeito dele de dizer que ela estava segura. Mas era Hermione Granger, e a jovem não o deixaria em paz enquanto ele não explicasse tudo o que ela ainda não sabia. Percebendo isso, Snape suspirou e fez sinal para que ela se sentasse.
– Tudo bem, Granger. Mas faremos um trato: eu conto tudo o que ainda quer saber e então me deixa em paz pelos próximos dias. – disse, cruzando os braços.
Hermione sabia que já tinha conseguido muito mais do que imaginava em tão pouco tempo, e que mais exigências poderiam fazer com que Snape simplesmente a expulsasse de seu escritório. Na verdade, ela nem ao menos entendia porque ele estava sendo tão... paciente. Do jeito dele, mas estava. E não hesitando mais nenhum segundo, soltou um satisfeito ‘Combinado’, sorrindo internamente por ter conseguido fazer o temível professor de poções se render a uma exigência... e sua, a irritante-sabe-tudo da grifinória.
Flash back on
Snape massageava incansavelmente a testa, com os olhos fechados, tentando processar o que tinha acabado de fazer.
– Severo, você pode continuar massageando sua testa o quanto quiser, mas não vai mudar os fatos assim. – declarou um Dumbledore divertido. O homem de vestes negras se levantou bruscamente, bufando, e começou a andar em círculos.
– Alvo, não vou mais discutir essa loucura... Até porque ela já está feita. Mas o seu plano brilhante inclui o que vou contar ao Lorde das Trevas? Como vou explicar isso? Ou você acha que ele não vai descobrir? – perguntou com sua voz pesada, nervoso.
– Vai dizer parte da verdade... – começou Dumbledore, olhando por trás dos óculos – Vai contar sobre o pacto e que a senhorita Granger é somente uma forma de lhe deixar mais próximo da Ordem, já que alguns membros ainda desconfiam de você. Diga que os fiz pactuar diante de mim. Voldemort pode gostar dessa notícia, pode pensar que será vantajoso para ele mantê-la com você.
– E se ele a quiser, Alvo? Como vou impedir?
– Ele não tocará nela enquanto não se casarem, ou então você sucumbirá ao pacto. Ele não vai arriscar perder um de seus Comensais mais estimados. E vocês não poderão se casar com todo o tumulto que a minha morte provavelmente causará...
– Você fala como se isso fosse algo natural!
– Mas a morte é natural, meu caro.
– Não, Alvo! Esse plano maluco não é natural! Essa menina vai correr riscos... E se o Lorde mudar de ideia? E se ele a quiser como isca?
– Não vai... Quando assumiu o pacto com a senhorita Granger aceitou também protegê-la, não se lembra? Voldemort não poderá tocá-la, não com você a entregando a ele.
– Isso ainda não me soa bem, Alvo.
– Eu confio e estimo muito você, Severo.
– Maneira peculiar de demonstrar essa estima, Alvo. – disse, irônico. – Diga, você costuma designar para todos a quem estima estes planos descabidos?
– Está decidido, Severo. Quando ele o chamar, vá e diga o que aconteceu. Voldemort terá apenas que aceitar. Não poderá fazer muita coisa quanto a isso por enquanto. E até lá, você tem tempo para pensar em desculpas que protegerão nosso segredo.
– Qual deles? Porque temos vários aqui... Tem o que você me informa em que fui o escolhido para lhe matar, tem aquele em que me diz que Potter deverá morrer pelo próprio Lorde das Trevas e, o mais recente, o segredo sobre estar me casando com um menina irritante que será a minha ligação com a Ordem... Posso escolher?! Por favor, Dumbledore!
– Severo, não dificulte ainda mais. Será assim quando ele chamar. Para Voldemort, você a tratará como prisioneira. Assim ele não ligará para ela por algum tempo. E quanto a escola, como já discutimos, no tempo certo se oferecerá ao cargo de diretor. Sei que são muitas tarefas, Severo. E é por isso que... – ele hesitou, ponderando se diria ou não.
– É por isso que...
– Que no tempo certo você saberá. – ele declarou, por fim.
– Alvo, o que não está me contando? – perguntou, impaciente.
– Apenas confie em mim. – pediu Dumbledore, sério.
Nervoso, e sabendo que não conseguiria nenhuma outra informação do diretor, Snape saiu farfalhando sua capa, com milhares de pensamentos assombrando sua mente.
Flash back off
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