A sua cor

36 O plano de Hermione


Notas iniciais
Olá, gente! Bom, eu não vou desejar 'Feliz Natal' pelas notas deste capítulo, pois o meu presente para vocês ainda não é esse. Infelizmente as coisas não saíram como planejado e eu não consegui postar a tempo. Então... o capítulo-presente sairá um pouco atrasado. Desculpem mesmo! P.s.: Fiquem atentas, postarei o outro amanhã! Beijos e boa leitura!

Hermione

De alguma maneira absurda eu sabia. Achei que me casar com Snape me faria enfrentar desafios do tipo: conter minha vontade de azará-lo a cada resposta irônica ou a cada levantar de sobrancelha em tom zombeteiro. Nem em meus sonhos mais estranhos eu imaginava sentir falta dele; desejar estar com ele. Em momentos involuntários, me pegava levantando sobrancelhas no gesto típico, e tendo menos paciência com tolices. A verdade é que, por Merlin, eu faria de tudo para mantê-lo bem, seguro. Só que eu também faria de tudo para manter seguras as pessoas que amava e que sempre me quiseram bem; então... estava num grande impasse. Precisava fazer algo que não colocasse nenhuma dessas pessoas em risco – ou pelo menos não mais do que já estavam. E só havia um único jeito de isso acontecer.

– Não é você quem vive repetindo o que Dumbledore falava? Que evitar o nome só faz o medo da própria coisa...

– O medo de um nome só aumenta o medo da própria coisa. – corrigiu ela, em seu tom mais professoral – A questão é que agora o nome está amaldiçoado. Severo – pigarreou – Snape me disse que se alguém pronunciar o nome dele, comensais aparatarão diretamente para onde o nome foi dito.

– Mas estamos sobre vários feitiços protetivos... – adicionou Harry.

– Sim, Harry, mas é melhor não arriscar. – interrompeu ela.

– Bem inteligente, não? As únicas pessoas que tem coragem de falar o nome dele somos nós ou alguém associado à Ordem... – opinou Rony.

– Sim, Kingsley quase foi pego. – concordou – Mas agora a Ordem já está avisada... Não correm esse risco de novo.

E era o que tinha que ser feito. Sabia que a ideia era irracional, quase estúpida. Mas não havia mais nada que eu pudesse fazer além de me entregar e forjar uma desculpa que livrasse Snape perante Voldemort.

...

O dia amanheceu frio, mesmo com os raios de sol que tentavam atingir, em vão, a terra úmida. No fim, não sabia se o que me fazia tremer era o frio ou o medo. O que estava prestes a fazer poderia arruinar tudo. Mas e se eu não fizesse nada e meu silêncio também prejudicasse Severo? Essa pergunta que martelava na minha cabeça e apertava meu coração foi a que me motivou a seguir em frente com o plano.

Voltei para a barraca e olhei por uma última vez para Harry e Rony, que dormiam um sono pesado depois de eu ter insistido em trocar a vigia noturna. Com a respiração ofegante e o coração batendo forte, rumei decidida para longe dos feitiços protetivos e corri o mais rápido que conseguia para bem longe. Quando me lembrei que ainda sabia aparatar, mentalizei um lugar distante e neutro, que não poderia me ligar à Harry ou Ron. E então...

– Voldemort! – gritei com toda a força que ainda me restava; duas, três, quatro vezes.

A espera foi horrível. Sabia que não tinha mais volta, que em poucos segundos eu seria cercada por algum grupo de comensais. Num impulso, ou tentativa de sobrevivência humana, até cogitei pegar minha varinha e lançar algum feitiço de proteção, mas daí lembrei que ser pega era justamente o motivo de tudo aquilo.

E foi mais rápido que pensei. E mais comensais que previa, também. Todos estavam encapuzados, e eu não fazia a mínima ideia de quem poderiam ser. Foi apavorante. A vontade de correr e as pernas que não me respondiam; o impulso de pegar a varinha e ter consciência de que não adiantaria; desejar que meu plano desse certo e me deparar com uma ideia estúpida.

– Quem é você? – um deles perguntou, e então pensei que deveria encenar um pouco. Se eu entregasse minha identidade tão facilmente eles poderiam desconfiar.

– Eu...

– Responde logo, garota!

– Penélope! – disse, tentando esconder meu tom apavorado e soar o mais convincente possível – Penépole Clearwater.

– E o que está fazendo sozinha aqui? – um deles perguntou, enquanto o outro procurava por documentos nos meus bolsos.

– Estava fugindo. – minha maldita voz entregava meu desespero interno.

– Fugindo? – um deles perguntou retoricamente, se aproximando mais. O dedo indicador pousou no meu queixo e me forçou a encará-lo. Antes que ele pudesse questionar mais, o outro encontrou minha bolsa reduzida e começou a investigá-la, mas eu ainda sentia o olhar do mais alto em mim. – Você... Esse rosto. Conheço esse rosto. Qual seu status de sangue?

– Mestiça – soltei, rápido demais.

– Sabe que vamos descobrir em algum momento, não sabe? – um que ainda não tinha se pronunciado falou. Sua voz era de maldade descarada. – Diga a verdade! – gritou, me fazendo saltar. Lágrimas começaram a descer do meu rosto com vontade. Eu estava completamente apavorada.

– Falo a verdade! Estava fugindo. – gritei um pouco trêmula.

– E se estava fugindo por que gritou o nome do Lorde das Trevas? Acha que isso é algum tipo de brincadeira? – e me fazendo de desentendida, ele continuou – Dizer o nome dele é um grande desrespeito. Sabe o que isso acarreta sangue-ruim? – fiz que ‘não’ com a cabeça.

– Agora, qual o seu nome verdadeiro? – dava para sentir o hálito quente por trás da máscara, e mentir não era uma opção. Se dissesse meu nome verdadeiro, eles ligariam os pontos certos pra chegarem à conclusão que eu queria. Só bastava ter a tão proclamada coragem grifinória e assumir as consequências – e esperar que tudo ocorresse como planejava.

– Hermione. – suspirei e busquei forças – Hermione Jean Granger. Nascida trouxa.

– A amiguinha do Potter! – sussurrou o que estava perto de mim.

– Onde ele está, garota?

– Eu não s... – e antes que eu pudesse terminar a frase, senti uma onda de energia muito forte arder pelo meu corpo – Eu não sei! Não estava com ele! – gritei, mas talvez tenha sido só na minha cabeça. Acho que naquele momento não tinha forças nem para abrir os olhos.

– Pare! – um deles gritou – Precisamos saber mais antes de perturbar o Lorde com a presença da sangue-ruim, idiota. Vamos, garota, fale a verdade. Por que estava fugindo do seu amiguinho?

– Eu-eu... – minha voz não saía perfeitamente – Eu não estava com ele. Por que fugiria do Harry se estou justamente tentando encontrá-lo? – foi mais forte que eu soar petulante, e sabia que seria recompensada por isso. E fui. Uma nova onda de choques se espalhou por todo o corpo, me fazendo curvar pela terra úmida e gelada.

– Agora – sibilou algum deles enquanto agarrava meu cabelo – diga. a. maldita. verdade.

– Não sei onde ele está! Estava fugindo do Snape!

– Snape a tinha como prisioneira? – aquela voz horrível se pronunciou de novo, mais divertida dessa vez – Aposto que aproveitou bastante da sangue-ruim... – e no segundo seguinte senti suas mãos repugnantes descerem pela minha barriga. Isso eu não tinha previsto.

– Deixa de ser imbecil, Rowle. Temos que levá-la agora. – Graças a Deus, pensei.

– E onde você sugere? Para o próprio Lorde? Ele deixou bem claro que não deveríamos importuná-lo a menos que fosse extremamente necessário.

– Estou perfeitamente ciente disso. – eles falavam muito rápido e muito abafado – E é por isso que, até termos certeza de que ela é uma peça importante, a levaremos para a Mansão dos Malfoy. – eu ouvia bem distante, mas a palavra Malfoy não escapou. Quando entendi que era pra lá que eles me levariam, não soube dizer se estava com sorte ou muito perdida.

Meu plano era ser levada diretamente para o Lorde. Na minha ingênua cabeça, imaginei que conseguiria manter a calma suficiente para me concentrar na oclumência, que poderia fechar e controlar meus pensamentos e construir o contexto que Voldemort precisava ver: eu como prisioneira de um Severo comensal. Mas os breves minutos com os aqueles homens me fizeram perceber que meu esforço deveria ser muito maior se quisesse soar minimante convincente – e minimamente não bastava para Voldemort. Eu sabia que minha performance nem de longe estava sendo boa, e se Severo havia me ensinado alguma coisa – e, na verdade, haviam sido muitas – era como manter uma postura diante a adversidade.

– Pegue a sangue-ruim. – gritou um deles – É isso que faremos.

***

Foi Harry quem acordou primeiro. Caminhou até fora da cabana e inspirou o cheiro da manhã. Até ali, tudo bem; era a rotina dos últimos meses – quando conseguia dormir, claro. Mas ter Hermione o deixava um pouco mais confiante, ter os dois amigos o deixava mais confiante na verdade. E foi quando se deu conta de que algo estava faltando.

– Hermione? – perguntou baixo, meio incerto – Hermione? – e estranhou o silêncio que veio como resposta.

– O que foi, Harry? – Rony apareceu, perguntando em meio a um bocejo – Harry? – mas o amigo não estava escutando.

– Hermione?! – gritou mais alto dessa vez.

– Onde ela está? – o amigo perguntou, acordando de súbito.

– Hermione?! Hermione!

– Droga, Harry, para! O que aconteceu? Onde está a Hermione?!

– Eu não sei, Ron! Eu não sei! – gritou de volta, exasperado.

– Será que a pegaram? – perguntou o ruivo, mortificado com a mera possibilidade.

– Não, não faria sentido. – descartou Harry – Se tivessem vindo até aqui teriam nos encontrado também! Simplesmente... não faz... não faz... – repetiu ele, meio que para si mesmo, como se estivesse se lembrando de algo que, sim, fazia algum sentido.

Estou realmente preocupada com Severo. Tive um sonho louco em que você-sabe-quem exigia a minha presença. E agora estou pensando... e se não for só um sonho? Não que eu esteja tendo alguma clarividência ou algo do tipo...

... Já imaginou o que ele fará se descobrir que Severo é fiel à Dumbledore, à Ordem, a todos nós? E, pior, que ele me manteve segura esse tempo todo?

– Harry? Harry!

– Ela foi atrás de Severo. – ele disse simplesmente.

– Hermione não faria isso, ela não colocaria ninguém em risco! – eliminou Rony, no que Harry balançou a cabeça em negativa diversas vezes.

– Não, ela foi atrás dele de outra maneira.

– Harry, você não está dizendo que...

– Sim, ela se entregou para V...

– Harry! – repreendeu Ron.

– Você-sabe-quem.

***