A sua cor
15 Momentos
Notas iniciais
SNAPE
–Então vai me ensinar? – ela me perguntou, com aquela voz que ansiava por conhecimento. De certo modo, não era tão irritante assim. Era fascinante que alguém tão jovem dispusesse tanta sede por aprender. Mas é claro que eu não poderia demonstrar esse fascínio, e então assumi minha carranca para olhá-la e soltar algum comentário irônico. E foi aí que me dei conta de que Hermione Granger era uma mulher – não uma menina – bonita. Ela me lançava o melhor dos sorrisos. Acho que nunca alguém havia sorrido para mim com tanta vontade... E ali estava ela, disposta a conviver da melhor maneira possível com a pessoa mais detestável de Hogwarts. Tão inteligente, tão jovem, tão bela... E percebendo que havia pensado demais, disfarcei com um pigarro e lancei um frio ‘Tudo bem, Granger’, seguido por várias advertências e, claro, um comentário ferino sobre o Potter.
– Perfeitamente, senhor. – ela respondeu, tentando esconder a empolgação enquanto se levantava. ‘Rápido demais’, pensei, e no instante seguinte ela já estava nos meus braços.
Novamente os olhos castanhos com pontos esverdeados chamaram minha atenção. ‘Até nisso ela é diferente’, pensei. Estávamos tão próximos que eu podia sentir o cheiro dela. O rosto era ainda mais belo, e a pele clara contrastava com as bochechas rosadas. No momento em que a segurei suas mãos involuntariamente se agarraram a mim, e poder senti-la tão perto foi... delicioso. Algo que eu nunca havia vivido. Não da maneira como ela fez: confiante, confiando em mim. Tê-la tão próximo me fez sentir vivo, como se finalmente houvesse um sentido afinal. Ao mesmo tempo que um calor emanou por todo o meu corpo, um sentimento de conforto também se apoderou de mim. E eu não queria que acabasse.
– Desculpe, senhor... eu... eu... – ela gaguejou, ainda nos meus braços. Minha mente me forçava a dizer algo grosseiro que a afastasse, mas simplesmente não saía. E como ela também não se afastava, ficamos nesse impasse pelo que pareceu uma eternidade...
Pode ter sido a bebida, ou a tão falada ‘coragem grifinória’, mas vendo que eu não tinha nenhuma reação ela tomou uma atitude, passeando os dedos através da capa até alcançar a minha nuca. Não sei exatamente o que aconteceu, mas acho que me permiti fechar os olhos com o toque, com o carinho. Os dedos delicados fizeram o caminho de volta, passando pelo meu pescoço e subindo até meu rosto. Eu tinha que afastá-la, eu precisava... E enquanto tentava obrigar minha mente a obedecer, uma das mãos dela descansou na têmpora, acariciando levemente, deixando a outra roçar pelos lábios. Mas quando eu abri os olhos, Hermione pareceu acordar de um transe, e pedindo desculpas seguiu para o quarto rapidamente.
Se não fosse o cheiro dela que ainda pairava no ar, eu poderia facilmente pensar que havia sido um sonho. ‘Merlin, o que foi isso?’.
***
Hermione
– O que eu fiz?! Merlin, o que eu fiz?! Merlin! Merlin! Por Deus... O que foi isso, Hermione? O quanto eu bebi? Eu... eu... toquei o rosto de Severo Snape! Pior: os lábios dele! – eu falava sem parar, andando de um lado para o outro no quarto – Gina! A culpa é sua por ter colocado coisas na minha cabeça... Como vou olhá-lo agora? Céus...
Ninguém, professor e – muito menos – aluno, havia recebido um olhar ou palavra carinhosa dele. Ninguém havia tido coragem – ou vontade – de se aproximar tanto dele. No entanto, eu e a minha mente conturbada me levaram a um ato impensado, mas extremamente... feliz. Sim, feliz. Enquanto ele recebia meu carinho, senti meu coração se aquecer de uma maneira que eu pensava ser só metafórica, uma forma de as histórias românticas ganharem seus leitores. Mas não. É exatamente assim que acontece: você se rende vendo o outro se render, fica feliz quando vê que o seu carinho surte efeito e, principalmente, percebe que está em casa, que tudo está certo da maneira como está, e que o mundo poderia acabar naquele instante e tudo ficaria bem. Clichê? Talvez. Mas não menos verdadeiro.
Depois do susto inicial, que me renderam incontáveis horas de conversas comigo mesma e xingos mentais à Gina, comecei a repassar detalhe por detalhe da minha loucura. De alguma maneira o cheiro dele havia impregnado na minha roupa: ervas e álcool, era o cheiro de Severo Snape.
Perdendo a batalha para o cansaço, adormeci com o vestido de Fleur ainda no corpo e uma pergunta: o que estava acontecendo comigo?
Caminhava a ermo pelos corredores de Hogwarts, que jaziam frios e vazios. Procurava alguma coisa, e quanto mais o tempo passava a angústia de não encontrar aumentava. ‘Mas eu nem ao menos sei o que procuro!’, murmurei. E então me dei conta que o vazio de escola era o meu, pois o que eu queria não estava ali. Até que uma voz calma e rouca ecoou de algum lugar, instigando-me a encontrá-la. Era Dumbledore.
– Senhor? O que o senhor faz aqui? – perguntei, num misto de curiosidade e hesitação. Ele, no entanto, não respondeu. Apenas sorriu e desviou o olhar para os jardins da escola, incitando-me a acompanhá-lo. Debaixo da árvore, sobre a grama, havia um menino sentado. ‘Snape!’, gritei em alívio, mas a minha voz não saiu. A pele pálida contrastava com os cabelos longos e negros, que pendiam displicentemente pela face, nublando o olhar. Suas feições eram firmes, embora o olhar sustentasse certa insegurança para aqueles que sabiam observar. ‘Snape!’, gritei novamente, sem sucesso. Olhei suplicante para o diretor, que mantinha os olhos impassíveis através do jardim.
– Professor... – chamei – Professor Dumbledore! – gritei fazendo-o me olhar – O que está acontecendo?
– Minha cara, o sonho é seu. – respondeu com os olhos brilhando, divertido, e antes que eu pudesse questioná-lo ele continuou – Um bom rapaz... – completou calmo, apontando para Snape. – Não acha?
– Sim, senhor. Acho. – respondi, me perdendo ao olhar para ele.
E então, o menino que lia calmamente debaixo da árvore cresceu, e imagens aleatórias passaram por mim: ele se arrependendo das escolhas erradas, ele se tornando um espião para a Ordem, ele se arriscando, ele sofrendo, ele ferido...
– Diretor! Faça parar! – gritava desesperada – Ele não pode continuar passando por isso! – chorava, enquanto minha voz ia se tornando distante e a imagem de Dumbledore ia se apagando, até sumir de vez.
Acordei suando, com um aperto no coração. Ignorando qualquer senso lógico, levantei da cama abruptamente e corri para procurá-lo. Ele não estava. Todos os pensamentos ruins passaram pela minha cabeça, fazendo meu peito se apertar ainda mais. Angustiada, andava de um lado para o outro da sala imaginando onde ele poderia estar e implorando mentalmente que estivesse tudo bem.
***
SNAPE
Antes que eu tivesse a chance de assimilar o que tinha acabado de acontecer, fui chamado pelo Lorde das Trevas. E a minha reação foi atípica: temi imaginando o motivo pelo qual a Marca Negra ardia. Em todos os anos como comensal e espião, nunca temi que algo pudesse me acontecer. Sempre atendi ao seus chamados como se fossem o último, e sinceramente não me fazia a menor diferença. No entanto, pela primeira vez, eu me importava. Importava sair ao encontro dele, e importava deixá-la.
Temi que o Lorde tivesse descoberto que Hermione não estava sendo tratada como prisioneira e temi que ele tivesse descoberto sobre o disfarce, pois em ambas as situações eu perderia o poder de protegê-la. Imaginar que Hermione pudesse ficar desprotegida foi o suficiente para eu admitir de vez o quão importante ela era para mim. Expulsando-a dos meus pensamentos e me concentrando na oclumência, aparatei. E pela primeira vez eu desejava voltar.
...
Estressantes e imprevisíveis eram os encontros com o Lorde das Trevas. Meu humor conseguia ficar pior do que o convencional, e somente a bebida era capaz de nublar meus pensamentos do horror que um dia eu escolhi abraçar como causa. Idiota. E foi em busca da fórmula mágica que me deparei com uma cena que não somente nublou meus pensamentos negativos, mas os apagou por completo. Hermione, ainda com o vestido do casamento, dormia inocente na sala, na minha poltrona. Os cabelos cacheados caíam bagunçados pelo braço do assento, enquanto os pés descalços pendiam na outra extremidade. Parecia desconfortável, mas seu sono representava pureza e leveza, duas coisas que eu definitivamente não possuía.
Uma luta interna então se apoderou de mim: a que dizia para ignorar a jovem na sala e a que implorava para que eu me aproximasse. Como meus esforços para afastá-la eram inúteis, aproximei-me a passos largos e decididos da menina que em um mês havia tomado conta de todos os meus pensamentos.
– O que eu faço, Granger? Você não deveria fazer parte dos meus pensamentos desse jeito... – sussurrei, observando-a dormir, contendo a vontade de pegá-la no colo e acomodá-la mais confortavelmente na cama.
O que ela significava para mim estava ficando claro, embora eu não quisesse admitir. Não me pareceu certo gostar de alguém que estava tão distante em termos de virtudes e qualidades. Nossas diferenças ultrapassavam o limite do aceitável, incluindo o fato, claro, de pensar que ela nunca corresponderia meus sentimentos. ‘Sentimentos’, pensei. Algo que há muito havia desistido de ter por alguém além de Lílian. ‘E agora essa menina aparece e me deixa assim, cheio de incertezas’.
Levantei e a cobri logo em seguida, evitando deixar meu olhar pousar nela novamente, e me virei para sair. Até que uma voz suave, mas firme, me faz congelar.
– O que foi isso?
Ainda de costas, murmurei algo grosseiro e continuei meu caminho. Não tinha coragem de enfrentá-la. Mas era Hermione, e eu deveria saber que ela não me deixaria sair tão facilmente. E tão rápido quanto eu pudesse processar, Granger já tinha me alcançado, me forçando a olhá-la. Os infindáveis centímetros que me faziam mais alto pareceram não intimidá-la nem um pouco, já que mesmo de baixo ela conseguia lançar o mais firme e confiante dos olhares.
– O que é isso? – ela perguntou, gesticulando as mãos para o nada em sinal de incompreensão.
– O que quer dizer, Granger? – perguntei, fingindo não entender a sua pergunta com a minha habitual frieza.
– Para com isso! – ela disse, firme – Para de me tratar com indiferença! Não precisa ser assim...
– O que quer, Granger? – perguntei, ferino – Como quer ser tratada? Com flores e palavras carinhosas? Idiota! Porque eu disse isso?
– Não, Snape, só acho que não precisamos de tanta formalidade. Vivemos sob o mesmo teto!
– E que diferença isso faz?!
– Bom... toda?! Não precisa ser algo que não é, sei que a arrogância e a indiferença são tão intrínsecas ao senhor que não conseguiria se livrar delas mesmo que quisesse. – respondeu, irritada. – Mas pelo menos não seja tão distante... – continuou, voltando a falar calmamente – Me deixa te ajudar... por favor. – implorou ela, sincera – Confia em mim... – e o olhar dela era tão intenso, tão brilhante, que era impossível recusar.
– Por que está fazendo isso? – perguntei, incrédulo, tentando mascarar a angústia na minha voz.
– Porque eu quero, porque não precisamos viver assim, porque já há tragédia suficiente lá fora... – ela respondeu, abaixando a guarda – Os motivos são inúmeros, mas todos eles se baseiam exclusivamente no fato de que o senhor merece. Por favor, vamos nos dar uma trégua. – ela pediu, transbordando sinceridade, vontade, intensidade.
Eu realmente não podia acreditar no quanto ela era surpreendente. Jamais a considerei tanto quanto naquele momento. Hermione não era somente uma sabe-tudo-irritante, e sua coragem tampouco era desmedida. Ao contrário disso, ela era uma pessoa sensata, temperada e, acima de tudo, bondosa. Contive minha resposta fazendo sinal para que se sentasse. Íamos conversar.
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