A story painted Black
3 Capítulo 3
Havia sido escolhido naquele ano e não era uma surpresa: ao contrário de Sirius, Regulus era extremamente responsável e suas notas eram as melhores. Envergonhado, tentou evitá-lo quanto possível no trem, que havia um compartimento próprio para os monitores, porém sabia que não iria conseguir durante muito tempo.
Logo no primeiro dia após a chegada, ele estava sozinho na sala reservada aos monitores — onde desde o último ano Remus passava boa parte do tempo. Era só uma sala com sofás, uma mesa baixa de centro e uma mesa com cadeiras para estudo, nada muito chamativo, mas reservado. Regulus apenas ergueu os olhos para ver quem era antes de voltar-se ao livro que estava lendo, e poderia até não admitir, mas sentiu-se um pouco mal por ser ignorado daquela forma. O mais novo havia parado com os olhares ameaçadores pouco antes de entrarem de férias, provavelmente entendendo que Remus não abriria a boca sobre o que havia visto, mas sentia um pouco de falta da atenção (porque ele mesmo não havia conseguido parar de encará-lo).
“Parabéns pelo cargo, Regulus”, se pegou dizendo com um sorriso implicante enquanto se sentava no sofá que cruzava a poltrona que o mais novo estava, percebendo os olhos escuros se focando em si, uma das sobrancelhas arqueadas, e ficou satisfeito por finalmente ter a atenção do mais novo. “Só não ache que agora pode ficar se atracando com seu namorado nas salas por causa disso…”
Remus não sabia porquê estava provocando daquele jeito, percebendo o outro estreitando os olhos. Eram escuros e misteriosos. Se deu conta de que era a primeira vez que os via com clareza, na luz, e prestava atenção. Pareciam até pretos, mas dependendo de como a luz batia, era visível o fundo castanho. Talvez só quisesse que ele mantivesse a atenção em si.
“Somos amigos. Apenas isso.”
O Black respondeu com a voz controlada, voltando a baixar o olhar para o livro.
“Sério? Não sabia que amigos se beijavam daquele jeito…”
Era discreto, mas viu o rubor surgindo nas bochechas do mais novo.
“Eu só estava… curioso, não foi nada demais”, ele resmungou, e Remus quase riu de como ele tentava se justificar, porém achou a sentença familiar — ele também não estava curioso? — e se pegou assentindo com a cabeça, embora também falando antes que se contivesse.
“Mesmo? Do jeito que sua boca estava vermelha eu diria que experimentou bastante…”
Não estava agindo normalmente, sabia disso, porém algo dentro de si fazia com que quisesse continuar cutucando o sonserino. Só calou a boca quando o menor fechou o livro com força, fazendo um barulho surdo ecoar na sala vazia, e ele o encarava do mesmo jeito fulminante que sentia falta.
“O que você quer, Lupin?” Dizia quase com desprezo, a irritação mal mascarada através de seu tom contido. “O que é? Quer me usar contra o Sirius? Ah, não me olhe com essa cara, é perceptível que aconteceu algo.”
“N-não tem nada a ver com ele!” Retrucou, tendo certeza de que agora era ele o ruborizado.
“Não? Está pensando demais no meu beijo com o Barty. Por Merlin, o que foi? Só diga de uma vez! Ou será que você não consegue esquecer?” As sobrancelhas do mais novo se arquearam e um sorriso presunçoso cresceu em seus lábios quando ele se levantou, largando o livro no assento. Remus se encolheu ao ter o colarinho segurado, pressentindo que talvez receberia um soco, porque nenhum de seus encontros com Regulus até então foram exatamente amigáveis — sempre envolveram algum tipo de empurrão ou ameaça — e esse não deveria ser exceção. “Se é isso, eu vou te dar no que pensar de verdade.”
No momento seguinte, Regulus Black o beijou.
Remus agarrou seu rosto e o puxou para perto, retribuindo o beijo com facilidade após o tempo que já havia passado fantasiando com aquilo. A primeira constatação era que não era muito diferente de beijar uma garota. Um pouco mais rude, porém imaginou que se dava mais à possível raiva que o mais novo sentia do que pelo fato de ser um homem, e Regulus cheirava bem. Próximo, era fácil sentir seu perfume, algum aroma com fundo amadeirado e levemente cítrico. Era gostoso, meio inebriante, pensou pouco antes de praticamente ser empurrado pelo mais novo que se afastava, seus olhos faiscando.
“Agora você pode se ocupar pensando nisso e parar de me encher o saco.”
Regulus tinha um ponto. Mas Remus sentiu o próprio rosto esquentando quando, como se não tivesse sido nada, ele voltou a se sentar e voltar a ler o livro, fazendo-o franzir o cenho. Entretanto, não importunou mais, por ora.
Quando no novo cronograma foi posto junto ao sonserino para patrulhar, sinceramente não sabia onde esconder a cara, mas não era ruim saber que passaria algum tempo à sós com Regulus. De algum jeito, estava curioso, e não só por causa do beijo. Ele sempre pareceu expressivo e intenso para si, mesmo com a mínima convivência, e agora parecia ter perdido o primeiro, embora a intensidade continuasse através de seu olhar. O sonserino nem mesmo mudou a expressão quando se encontraram naquela noite, e esperou que Remus caminhasse na frente, seguindo-o dois passos atrás. Não sabia ao certo se ele tinha receio de levar um feitiço nas costas e, francamente, Remus tinha medo de descobrir a resposta. Porque não era esse tipo de pessoa. Mas não é como se o mais novo soubesse.
Era incrível como Regulus era capaz de fazer até o silêncio parecer denso e seu olhar pesava em sua nuca. Parou de súbito e se virou com um suspiro pesado, o outro quase trombando em si no processo.
“Você sempre faz isso?”
“O quê?”, perguntou de volta, genuinamente confuso.
Remus precisou de dois segundos para elaborar a resposta.
“Ficar encarando as pessoas que você beija parecendo que vai matá-las por trás?”
Regulus arqueou uma das sobrancelhas com displicência, cruzando os braços. “Só se me dão motivos para tal. E não fale como se eu saísse beijando qualquer um!”
“E você não sai?”
Percebeu que o ofendeu quando o viu apertando os dentes com força antes de revirar os olhos e bufar, começando a andar na frente com passos rápidos. O mais velho precisou correr para alcançá-lo, a dúvida sendo genuína em sua cabeça: afinal, não tinha outra explicação para ele o beijar.
“Achei que fizesse, desculpe.”
“Eu não faço isso, diabos! E eu achando que você era o quieto do grupo dos idiotas.”
Um sorriso se alargou em seus lábios. Então Regulus de fato o observava, o que deveria ser preocupante, mas no momento o deixava satisfeito.
“Então por que me beijou?”
“Eu estava te fazendo um favor, você parecia estar implorando por aquilo. E não calava a boca, e estava me irritando. Assim como está fazendo agora, por sinal.”
Remus se sentia idiota fazendo aquilo, mas havia convivido suficientemente com James e Sirius para saber o que deveria falar agora. “Está ameaçando me beijar caso eu não cale a boca?”
Foi a vez do mais novo parar de súbito, fazendo Remus trombar em suas costas, já que andava a seu encalço sem muita distância. Quando ele se virou, Lupin jurou que iria receber um soco dessa vez devido ao olhar raivoso, mas o sonserino respirou fundo e soltou pesadamente o ar, a voz baixa, mas impaciente.
“O que você quer? Resolveu ficar meu amiguinho por que brigou com o idiota do meu irmão? Eu não sou tão burro assim, não espere que eu caia nessa.” Finalizou com ironia e um sorriso amargo, fazendo o mais velho se sentir um pouco… mal. Não tinha intenção de fazer Regulus se sentir um idiota, até porque quem estava se sentindo um idiota era ele. “Ou é mais uma das brincadeiras de vocês? Se for, pode ir parando por aí, vamos só fazer esse trabalho em silêncio e fingir que nada disso aconteceu.”
Remus não conseguiu responder de imediato, passando a seguir lado a lado com o outro quando ele voltou a andar, em silêncio. Entendia, e dava toda razão a Regulus de ser defensivo, mas algo no tom do sonserino o incomodou profundamente. Levou alguns corredores e Regulus enxotando um casal de alunos de volta para os dormitórios após os pegarem dentro de um armário de vassouras para vir com uma resposta.
“Não é nada disso”, começou a falar, o tom de voz sincero, sem implicâncias, provocações ou flertes, fazendo o mais novo olhar para si com ar interrogativo, não entendendo o contexto da frase. “Não é uma brincadeira nem nada. Não estou nos melhores termos com… com eles, mas não é nada disso”, reforçou, soando apenas como o usual Remus desajeitado e cansado.
Regulus ainda o olhava com alguma desconfiança, porém seu corpo pareceu deixar de estar tão tenso.
“O que é, então?”
“... Eu não sei, de verdade. Você tem razão quando disse que eu não conseguia esquecer… o que eu vi. Só isso.”
Ocultou a parte de que ele não saía de sua cabeça desde então e todo santo dia pensava nele, embora achasse que Regulus poderia imaginar. Abaixou o olhar, envergonhado, sentindo-se como uma criança embora fosse o mais velho dos dois, não acostumado a ser tão sincero e vulnerável na frente de quem mal conhecia. Especialmente de alguém que o odiava.
O silêncio da parte do moreno fez com que o fitasse pelo canto dos olhos e, era discreto, mas percebeu que o outro estava assustado. Não como se estivesse com medo, mas como se… estivesse surpreso.
“Você é esquisito.” Ele disse após se recuperar do susto, o tom ligeiramente mais suave, ainda cauteloso entretanto, como se tivesse visto em Remus algo que baixou um pouco — só um pouco — suas defesas.
“Eu sei”, murmurou, sorrindo sem graça, sabendo que não era exatamente o que o Black queria dizer, mas Remus sempre se sentia desajeitado demais, desengonçado demais, em mais de um sentido, e por isso nunca seria suficiente.
“E pensar que você se declararia pra mim… mas vou dizer: vai passar. Você só está impressionado.”
Foi a vez de Remus franzir o cenho. Não era uma declaração. E não era tão facilmente impressionado assim. Não tinha mais onze anos. Iria discutir, mas percebeu um padrão preocupantemente familiar ali: acima de provocá-lo, ele estava simplesmente desfazendo de si mesmo. Não é como se tivesse um entendimento profundo de Regulus ou algo do tipo, era a primeira vez que conversavam de modo civilizado, só foi fácil identificar porque fazia exatamente igual. Já havia dito as mesmas coisas para garotas que eventualmente se aproximavam de si com interesses românticos. Não que tivesse sido muitas, pois acabava as repelindo mesmo que sem querer, depois de um tempo ficou consciente quando seus amigos ficaram falando como não entendiam aquele tipo de comportamento. Mas a resposta era simples. Era perigoso. Não merecia amor, não com o monstro que habitava dentro dele, com o monstro que ele era. Já tinha mais do que o suficiente por ter a amizade dos Marotos. Não seria ganancioso de pedir por mais.
Remus não discutiu e a relação deles melhorou a partir dali, o que era ótimo visto que precisavam se encontrar para patrulharem juntos e sempre se esbarravam na sala dos monitores. Só tinha um problema: Regulus estava enganado. Seus sentimentos não haviam passado.
Era como se tivessem um acordo mútuo de não falar muito de Sirius ou Severus ou suas vidas pessoais, de início achou que isso tornaria os assuntos escassos, mas não podia estar mais errado. Falavam das matérias, livros, professores, Regulus parecia animado (de jeito contido, mas animado) para jogar Quadribol, pois havia sido selecionado como apanhador, e também comentava sobre o clube do professor Slughorn, Remus dividia opiniões sobre lojas em Hogsmeade que o Black não conhecia, e às vezes deixava algo escapar sobre cultura trouxa, o que lhe fez calar a boca da primeira vez ao perceber a ruga que se formava na testa do mais novo, porém no fim ele sempre ouvia e, Remus se atrevia a pensar, parecia curioso, embora as reações que lhe diziam isso fossem sutis e talvez obra de sua cabeça, mas ele nunca interrompia e sempre o escutava. Não que conversassem o tempo todo, às vezes só ficavam estudando lado a lado, em companhia silenciosa.
Não entendeu porque ele estava passando tanto tempo consigo, afinal, Regulus podia não ter muitos amigos, mas tinha Barty ao menos, só quando viu o lufano nos corredores com uma garota pendurada no braço que se perguntou o que tinha acontecido. Era estranho não ver os dois juntos, não que fosse de sua conta, e uma parte de si se atrevia a ficar feliz, porque queria dizer que entre os estudos, quadribol, clubes e todas as tarefas do menino modelo da Sonserina, Remus teria mais de seu tempo além das usuais rondas nos corredores.
"Você e seu amigo brigaram?", indagou em um fim de tarde que estavam novamente ambos sozinhos na sala reservada aos monitores.
"... Não?" Regulus ergueu os olhos para fitá-lo, nem havia questionamento sobre quem ele estava falando. "Por quê?"
"Não vejo mais vocês juntos. Achei que tivessem."
"Nos vemos em algumas aulas", esclareceu o mais novo, dando de ombros casualmente. "Ele está namorando, então normal querer passar tempo com a namorada…"
Remus percebeu que ele encolhia de leve os ombros e não conseguiu conter a pergunta:
“Isso te incomoda?”, indagou com simplicidade, tentando não transparecer que tinha receio da resposta, mas os olhos penetrantes que se voltaram para si o deixaram envergonhado, pois era como se ele pudesse ler sua mente. Não que fosse verdade, afinal não imaginava que Regulus tivesse essa habilidade, mas a forma como ele o estudava era suficiente para que quase sentisse o rosto esquentar.
“Como amigo, sim. Agora se é mais uma daquelas suas brincadeiras sobre ele ser… meu namorado, não.”
Regulus realmente não esquecia nada, mas não podia negar que era merecido. Se sentia um pouco mal pelo sonserino, que logo voltava a atenção ao dever de casa, porque imaginava que ele deveria se sentir sozinho. Já havia passado algo parecido com os amigos, mas geralmente tinha Peter para lhe fazer companhia e não é como se os outros dois estivessem muito interessados em namoros sérios e fixos — embora James estivesse insistindo em Lily com um fervor que nunca vira o amigo ter antes, mesmo com as constantes rejeições.
Observou o perfil do outro, percebendo-o concentrado na tarefa. Estavam sentados lado a lado no chão, os materiais em cima da mesa baixa, o sofá de três lugares atrás servindo de encosto para as costas. Ninguém costumava usar muito a sala, a maioria preferia ficar com os amigos, o que seria o caso de Remus antes, mas agora quando indagado pelos amigos que frequentemente o viam ali através do Mapa do Maroto, apenas dizia que era melhor para estudar, ignorando os olhares desconfiados especialmente de Sirius, que abaixou a bola após dizer que ele não tinha o direito de se meter em sua vida — nunca havia falado daquele jeito antes, mas o sentimento foi bom, era inegável. Não é como se estivessem fazendo algo de errado, embora mesmo após sólidos meses continuar fantasiando sobre beijar Regulus novamente, ter experimentado tinha tornado tudo pior, embora se controlasse geralmente. Olhou ao redor uma última vez, garantindo que estavam mesmo a sós, sentindo o nervosismo de antecipação formando-se na boca do estômago, mas ouviria se alguém resolvesse abrir a porta e, no máximo, seria empurrado pelo mais novo. Talvez ele gritasse consigo. Nada muito ruim, decidiu.
Remus cutucou o ombro do sonserino que nem sequer levantou os olhos do pergaminho que escrevia, soltando apenas um som interrogativo, obrigando-o a repetir o gesto até que se virasse para si. No meio de sua fala que o perguntava o que foi, se inclinou, juntando os lábios.
Não viu a reação do mais novo, sentindo alguns segundos de atraso da parte dele em retribuir o beijo, mas logo sentiu a língua dele se movendo contra a sua e ficou eufórico pelo fato de não ter sido afastado. Levou uma das mãos até a cintura dele e, em algum momento, Regulus soltou a pena, enlaçando os dedos atrás de sua nuca. Remus sentia vontade de nunca interromper aquele beijo, em parte porque era melhor do que se lembrava, em parte porque não sabia o que iria falar quando se afastassem. Porém o contato precisou ser quebrado em algum momento, e então se encararam de perto, a respiração do menor levemente descompassada.
Claramente nenhum deles sabia o que falar. Regulus resolveu o problema mordiscando-lhe o lábio e reiniciando o beijo. Era uma boa solução, precisava admitir.
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