A sombra do Aço

1 Capítulo 1 - Uma Partida Explosiva


Rhaya forçou-se mais um pouco a continuar, sabendo que as vida dependia agora das decisões que teria que tomar em breve. O ferimento na perna, na altura da coxa esquerda latejava e sangrava, deixando uma mancha vermelha em sua calça caqui. A estrada havia ficado para trás e ela agora se embrenhava pelos bosques de árvores ressecadas pela radiação. A chuva que caía torrencialmente deixava tudo mais difícil. Atrás dela, mas não muito, perdida na escuridão da noite sem lua, podia ouvir as vozes de seus algozes. Poucos passos adiante ela encostou-se a um tronco de árvore. Seus pulmões pareciam que iam explodir e a fraqueza que vinha das pernas parecia tomar conta do corpo inteiro.

Pareceu ter ouvido um grito de guerra atrás dela. Ou seria um trovão reverberando pelo céu? Ela já não sabia, não tinha certeza. Forçou-se mais um pouco e uma pisada em falso fez com que ela rolasse através de uma ravina enlameada. O seu braço esquerdo bateu com tudo no que parecia uma tampa de metal.

— Uma tampa de metal? Aqui? – pensou ela em voz alta enquanto alisava o cotovelo machucado.

Escondida pela lama que descia da ravina, Rhaya encontrou o que pareciam portas de metal, dessas que se usam em construções, especialmente para alçapões. Ela puxou a alça da porta e sentiu a mesma começar a abrir. Tinha que tomar uma decisão rápida. Continuar pelo bosque, na chuva e ferida, ou buscar refúgio no desconhecido. Um grito de “Por aqui!” fez com que ela decidisse logo. Abriu a tampa e lançou-se para dentro da escuridão, fechando a porta de metal atrás de si. Rolou alguns degraus pela escada de concreto e parou numa parede. Ela puxou sua pistola laser, destravada, e apontou para a porta fechada que acabara de atravessar.

Por longos minutos tudo o que ela ouviu foi o barulho abafado da chuva lá fora, o chiado típico das pistolas laser engatilhadas e a sua respiração ofegante, que foi se acalmando até parecer apenas um sussurro. Por fim, o braço cansou e ela largou-se no chão. Tateou a pistola laser, mudando a mira da arma para uma lanterna e passou a explorar o abrigo que acabara de salvar a sua vida.

Os primeiros degraus que tinha rolado eram o primeiro lance da escada. Dez degraus de concreto, fazendo uma curva de 90 graus para a esquerda, onde continuava por mais dez. as paredes eram de tijolos de concreto, numa configuração antiga. “Pré-guerra”, penso ela enquanto descia os degraus. Ao final dos degraus deparou-se com uma sala cilíndrica.

Era mesmo um abrigo de antes da guerra. Alguém o construiu, mas ao que parece, nunca teve chances de usar. Havia uma estante que dominava toda a parede da esquerda, com alguns pacotes de comida enlatada e suprimentos diversos. No final da sala, uma cama de campanha, e no lado oposto a estante de suprimentos havia um pequeno gerador de energia, um antigo terminal de computador pousado sobre uma mesa e um pequeno rádio amador. Lá no fundo tinha uma porta aberta, de onde podia ver a louça esbranquiçada de um vaso sanitário.

Rhaya sentou-se na cama. Não era mais dura que sua cama de campanha quando se alistara na Irmandade de Ferro, mas era sem dúvida mias empoeirada. Tirou as botas e as meias molhadas e depois a calça cáqui. Investigou o ferimento. A bala havia atravessado o músculo e raspado o osso da perna. Não parecia ser muita coisa se estivesse num dos postos da Irmandade, mas ali, no meio do nada, aquele ferimento poderia se mostrar mortal. Ele infeccionaria em poucas horas, isso se a perda de sangue não a matasse antes. Ela abriu a mochila e procurou por algo útil. Tinha dois pacotes de ração, três latas de água pura, três células de microfusão, uma faca e um único stimpack. Não teve dúvidas ao usar o stimpack.

Ela esperava que o seu ferimento parasse de sangrar com o stimpack, mas não quis dar nenhuma chance ao acaso. Enfaixou a perna da melhor forma que pode, torcendo pelo melhor. Resolveu colocar a cabeça em ordem. Resolveu traçar mentalmente tudo o que tinha acontecido desde aquela manhã até agora.

Ela fazia parte do Esquadrão de Reconhecimento Beta-Gladius-3, ou BG3. Tinham recebido a missão de fazer o reconhecimento aéreo de uma área 200km ao norte do Forte Hagen. Era uma missão de rotina: fazer um sobrevoo, localizar possíveis locais de interesse, marcar no mapa de navegação e voltar para casa. Se houvesse alguma coisa realmente importante, deveriam descer e verificar. Tudo antes da hora do jantar. Só não contava com o ataque dos Raiders. Raiders ou Gunners? Não havia como saber.

Um disparo de míssil explodiu a cauda do Vertibird. Brent (o piloto) tentou de todas as maneiras fazer um pouso suave, mas não conseguiu. Ele morreu na queda, quando a cabine da nave foi esmagada contra o chão. Ainda atordoados pela queda foram atacados uma segunda vez. Um sniper dava suporte às tropas em terra. O paladino Harrys foi um dos primeiros a cair, sua cabeça explodindo como um melão maduro atingido por uma marreta. A Knight Lopez tentou nos reagrupar quando os restos do Vertibird explodiu. Ela foi com o Iniciado Kelson para um lado e Rhaya, um simples Escriba de Campo, viu-se correndo para o lado oposto.

Ela tinha pouca experiência em campo. O BG3 era a sua primeira equipe e agora poderia dizer que era, provavelmente, a única sobrevivente. Imediatamente veio à sua mente a imagem do Paladino Brandis, único sobrevivente do esquadrão de reconhecimento Artemis. Ele conseguiu sobreviver três anos perdido nas terras de Massachussets.

Tinha que agir rápido. Primeira regra era buscar abrigo. Ok, já tinha conseguido. Comida também. Pelo menos a comida parecia em bom estado. Tratar dos ferimentos e reagrupar. Depois buscar ajuda. Ela pensou em usar o rádio, mas estava tão cansada. De repente a cama lhe pareceu tão macia e aconchegante. Quem sabe pudesse deitar uns poucos minutos para recuperar o fôlego. Antes que pudesse fazer qualquer coisa caiu desacordada na cama. O sono veio rápido, pesado e cheio de imagens desconexas.