A sombra da torre dos corvos
2 Capitulo 2
Sentiu-se sufocado, o ar não chegava, ergueu os braços tentando se salvar mas encontrou apenas o vazio, os olhos estavam pesados, não conseguia abrir.
— Perai... Gellert... sai de cima.
O gato estava deitado de forma relaxada em cima do rosto do garoto, parecia estar confortavelmente acomodado, rindo, Jason tirou o felino de cima de si, ambos se sentaram na cama olhando profundamente nos olhos do outro.
— Se vamos dividir dormitórios daqui pra frente e melhor termos regras...
O gato lambeu uma das patas.
— Você não pode dormir em cima da minha cara.
Apenas um olhar, e lá ia ele de novo lamber a patinha.
— Não é legal Gellert...
Ele ainda lambia a pata distraidamente.
— Você ta me ouvindo?
Sequer um sinal de atenção.
Por fim o gato se espreguiçou e desceu da cama, quase ao mesmo tempo a porta se abriu.
— Bom-dia mestre Jason, fico alegre em ver o senhor já fora da cama, vamos o café será servido em alguns instantes.
Tik estava animada, Jason se sentiu aliviado, quando chegou na noite anterior pensou que ela sofreria algum castigo.
Se levantou assim que ela saiu, no pequeno banheiro se banhou rapidamente, escovou os dentes cantarolando, se vestiu e desceu.
As escadas da casa ainda eram... estranhas para ele, três degraus flutuavam próximos ao segundo andar e mais nada além deles, devagar apoiou um dos pés pra ter certeza que era seguro, firme como uma rocha, tentou o segundo, mesma coisa, por fim pisou no terceiro.
La em baixo os degraus sumiram, se materializaram logo em seguida à sua frente, como se sempre estivessem naquele lugar.
Hesitou por um instante e por fim decidiu descer.
Sem olhar pra baixo dava passos lentos e hesitantes, um degrau por vez, a escada acompanhava sua decida sempre que pisava com os dois pés no segundo degrau, o anterior desaparecia e reaparecia um degrau abaixo, quando enfim chegou aos últimos três, a coisa pareceu se aquietar, sentiu-se vitorioso, apesar de ter passado 5 minutos tentando não morrer em uma escada.
Decidiu testar a coisa, agora que estava quase na altura do chão, na iria se machucar caso errasse o pé e caísse.
Se virou e começou a subir, observava o degrau de baixo sumir e aparecer, voltou a descer e agora tentava subir de costas, ainda assim era acompanhado pelo degrau magico.
— Se divertindo?
O corpo inteiro se encolheu e se arrepiou, sorriu sem graça olhando Harold parado perto de uma das portas.
— B...bom dia.
— Venha tomar café.
Harold era pura elegância, ainda não eram 7 da manhã e o homem já vestia seu melhor terno.. Ou parecia o melhor, os cabelos loiros cor de mel ondulavam perfeitamente para trás, a barba bem desenhada e os óculos meia lua davam a ele um ar inteligente.
Jason o seguiu por uma das portas, a cozinha era belíssima, feita de madeira clara, era tão elegante quanto o resto da casa, Tik Servia dois pratos com panquecas quando Jason se sentou.
— Comam enquanto está quente.
— Obrigado Tik.
A Elfa não disse nada dessa vez, nem Harold, o mais velho comia rápido e Jason acabou sendo guiado por isso, pressa talvez?
Acabaram quase juntos, só então Jason sentiu falta da mãe.
— Minha mãe não vai tomar café com a gente?
Harold ficou em silencio por um segundo, mas foi o suficiente para ele entender.... ela não estava em casa.
— Sua mãe....
— Não precisa dizer nada.
Aquele momento, foi ali que se lembrou onde estava e por que estava ali.
— vá se arrumar, daqui ate Kings Cross e bem longe.
— Sim senhor.
Desanimado saiu da cozinha.
Suas coisas já estavam prontas na sala quando passou, se lembraria de agradecer a Tik depois, uma passada rápida no banheiro para escovar os dentes e decidiu que estava pronto... viesse o que viesse.
Na sala, Tik recebia ordens de Harold quando ele desceu.
— Deixe tudo pronto pra quando ela voltar, cozinhe batatas e faça um puré, sem queijo, ela vai chegar faminta... e furiosa.
— Sim mestre Harold.
— Não se esqueça de preparar o banho dela.
— Claro mestre.
Ele viu Jason descer.
— Ótimo... vamos.
Ele saiu, Jason parou diante da Elfa.
— Obrigado por tudo Tik...
— Boa sorte mestre Jason.
A Elfa recebeu um abraço, assustada apenas manteve os dois braços meio erguidos, Harold viu a cena lá de fora, mas que se dane.
— Vou escrever pra você...
— Para mim? Ah não mestre Jason escrever para uma criada seria inapropriado.
— Não vou escrever para uma criada, vou escrever para uma amiga.
— Vamos Jason, ou vamos nos atrasar.
Harold chamou da porta.
Soltou Tik numa despedida silenciosa, acompanhou Harold de perto até a porta de saída, suspirou, tentou esquecer o fato de que sua mãe não estava presente nem na sua chegada nem agora em sua despedida, moveu seus pensamentos pra outro rumo.
Como chegariam a Kings Cross? Carruagem? Pó de flu não poderia ser... talvez vassouras?
A porta da casa se abriu, diante dele um carro preto de luxo estava parado.
— wow...
— Sou um dos responsáveis pela comunicação entre bruxos e trouxas... tenho alguns... privilégios.
Harold foi tranquilo ao lado do motorista e Jason viu as portas abrirem, só não sabia se era magia ou tecnologia.
— O ministro trouxa me deu este presente a um ano... levei seis meses em um curso apenas para aprender a usar.... Mas valeu a pena.
Confortável... não queria admitir... mas era legal viajar daquele modo.
— Ansioso? — Harold ja estava visivelmente incomodado com o silencio.
— Não sei se é isso que estou sentindo agora.
— Você...
— Eu deveria estar a caminho de Castelobruxo agora...
Harold suspirou.
— Sinto muito.
— Não sente não.
Silencio de novo, nenhum dos dois sabia bem o que dizer.
Harold riu sozinho.
— A alguns meses... seu pai apareceu na porta
— Meu pai?
— Sim...
— O que...
— Ele queria saber por que sua mãe pediu a guarda.
— Ah...
— Ele passou vinte minutos andando de um lado pro outro, achei que ele estava furioso... mas não estava.
Harold esperou uma pergunta, mas nada.
— Quando achei que ele iria explodir, ele respirou duas vezes e se sentou, me perguntou sobre o meu dia, escutou em silencio tudo que eu contei, e quando achei que nada poderia deixar aquela cena mais estranha, ele riu.
Jason deu uma risadinha muda, era exatamente o que esperaria do pai, ele era assim, quando estava furioso ele andava, e do nada, a raiva sumia.
Harold percebeu que tinha a atenção do pequeno.
— Seu pai, quando bem-humorado, é alguém ... agradável, falamos muito sobre você, sobre sua vontade de ir para Castelobruxo...
La estava de novo, o olhar perdido e o ar de tristeza de Jason.
— Jason, quando seu pai se despediu ele me disse três coisas.
— O que?
— A primeira foi pra cuidar de você, a segunda para não mudar quando você chegasse.
— Isso é bem dele.... e a terceira?
— Ele disse " não me importa como chegamos a isso, não me importa o que veio antes, Jason precisa da família, se vai fazer parte dela, que faça 100%, ou não faça"
Aquela frase tinha quase a assinatura de seu pai, não pensaria que Harold fosse inventar algo tão único, o silencio voltou, mas não era mais incomodo, era quase acolhedor.
Duas horas depois chegaram a estação.
Harold era pratico, parecia se virar bem entre os não magi, apanhou um carrinho de bagagens e ajudou Jason a preparar tudo, Gellert parecia estar dormindo em sua caixinha, foi a última coisa que colocaram no carrinho.
— Vamos, o trem sai em alguns minutos.
Harold empurrava o carrinho desviando de outras pessoas, por fim chegaram a plataforma nove.
— Aqui, este é seu bilhete, não o perca. — disse entregando ao pequeno um papel dourado.- vamos juntos até a plataforma 9 3/4, mas de lá você vai sozinho... está pronto?
Calmamente ele andava na direção da pilastra, Jason tentou avisar mas antes de bater, Harold sumiu pilastra a dentro.
Assustado, Jason o seguiu... malditas passagens magicas.
A tal plataforma era... não tinha palavras para descrever, a fumaça, o trem, as pessoas...
Tudo era tão incrível.
Harold guiou o carrinho até um vagão de carga, um homem com braços enormes apanhou o malão e colocou lá dentro, depois duas outras malas foram la pra dentro.
Harold o levou até um dos vagões de viagem.
— Bem, é aqui que nos despedimos.
— Acho que sim...
Harold se ajoelhou ficando frente a frente com o garoto.
— Hogwarts e reconhecida no mundo todo como uma das maiores se não a maior escola de bruxaria do mundo, aproveite sua oportunidade, faça amigos e estude bastante, garanto que você vai ter seus melhores anos enquanto está lá.
Jason não sabia bem como reagir, Harold era o vilão.... Não era?
— Escreva quando puder, vamos estar esperando notícias.
— Você talvez...
Jason e sua boca grande.
— Jason... nós sempre estaremos de olhos em você, cuidando de você.
— Sei...
Harold se levantou e ajeitou os óculos no rosto.
— 38 Galeões.
— O.… que?
— Você pegou do nosso cofre, 38 galeões, gastou 2 com um lanche, depois quase 11 com material de concerto e trabalho em vassouras, comprou o Gellert, seu gato por uma pechincha ja que a dona não pagou um tostão por ele.
Jason sentiu um arrepio, seria Tik uma delatora?
—Não se preocupe, Tik prometeu não contar e de fato não contou.
— Eu...
O trem apitou, era a última chamada.
— Agora vá, e boa sorte.
Harold apoiou o garoto pelo braço e o ajudou a subir, com o trem em movimento, Jason viu ele se afastar, parado ali, com uma das mãos no bolso do terno. Harold Smith era a imagem de um homem bem-sucedido, mas... ainda não sabia se ele era um herói, ou um vilão.
O trem estava lotado...
Cada cabine, cada assento num raio de um planeta ocupado por um traseiro espaçoso que mal dava atenção ao pequeno Jason.
Ele se sentiu primeiro perdido, depois isolado, passou por triste e desamparado e por fim... se sentiu solitário...
Caminhava pelo corredor do último vagão quando se deu por vencido, se aquela cabine não tivesse lugar, teria de viajar no banheiro...
Ensaiou na cabeça mil e uma formas de se apresentar, os alunos dessa cabine poderiam ser veteranos, talvez fossem novatos, não sabia, mas o importante era que tivesse lugar.
A porta estava aberta, não ouviu conversa ou baderna, devagar, se aproximou pra ver, um único garoto sentava do lado direito da cabine, com o rosto apoiado na mão direita e os olhos verdes perdidos na paisagem que voava janela a fora, o rapaz de cabelos negros parecia totalmente imerso em seus pensamentos.
— Com.… com licença...O lugar está vago?
Os olhos verdes deixaram a janela por um momento, Jason foi analisado de cima a baixo e o garoto concertou a postura antes de falar.
— Claro.... Entra ai.
Aliviado, Jason arrastou sua mala pra dentro, o estofado vermelho escuro era chamativo mas precisava guardar sua mala, infelizmente... Jason não era exemplo de garoto alto, o maleiro estava tão longe de seu alcance quanto poderia, sem graça, ele olhou do maleiro para o garoto, o moreno riu, e rindo se levantou, sem dificuldade acomodou a mala do menor no lugar e bateu a portinhola.
— Pronto.
Sem dizer nada ele se sentou, silenciosamente Jason imitou o ato, sentados ali em silencio esperaram o trem começar a se mover, um par de garotos mais velhos apareceu na porta, deu uma olhada e saiu sem dizer nada.
—Monitores.
Jason não sabia o que dizer, e o jovem a sua frente parecia pouco se importar cm isso, respirou fundo, seu pai sempre disse que era bom em fazer amigos, estava na hora de herdar algo dele.
— É sempre tão movimentado por aqui?
Uma piadinha autodepreciativa... não era a melhor forma, mas era um início.
— você... não sabe quem eu sou... ne?
Ok... aquilo foi estranho, mas se aprendeu algo com a vida que seu pai levava foi nunca julgar alguém sem conhecer.
— Vou conhecer assim que se apresentar.
Sorrindo Jason estendeu a mão.
—... meu nome é Syfer, Syfer Mcquinley.
O silencio que veio depois do nome parecia esperar por algo, mas como nada aconteceu Syfer apenas apertou a mão do menor.
— Eu sou Jason, Jason Augusto Silvia.
— Silvia?
Urg... a expressão surpresa dele era sinal que a fama da família era realmente grande.
— É.… conhece alguém da família?
—Claro. — ele disse sorrindo. — Marcela Silvia... do departamento de mistérios, ela misteriosamente fez com que 6 alunos fossem expulsos a dois anos.
Essa era nova...
— O que aconteceu?
— Essa e a questão, eles simplesmente foram expulsos e ninguém sabe o motivo, e quem sabe não conta.
— wow...
— Você conhece ela?
— Ela e.… minha... minha mãe.
Jason esperou várias reações, mas nada o preparou para as risadas de Syfer.
— Aaai cara, você é de uma família complicada..
Sorriu, Syfer não pareceu se importar de estar com ele.
— Mas e você? Família complicada também?
A risada morreu.
Ele ficou não só serio mas visivelmente triste.
— Não sou muito de falar da família...
— Eu.
— Não... relaxa, você falou seria mal-educado de minha parte não falar.
Aquela maldita educação forcada... por que as pessoas não eram sinceras??
— Meu nome real... é Syfer Travers...
— E.…?
— Você... não reconhece?
— Família de famosos talvez?
— Quem dera. — Ele sorriu. — Eu venho de uma longa linhagem de.. Bruxos das trevas.
— Oh céus.
Jason esperava que seu novo amigo notasse sua ironia no comentário.
— Meu avô. Serviu diretamente Gellert Grindelwald, meu pai serviu a você sabe quem durante a última guerra bruxa.
— Seu pai serviu a quem?
— Você sabe... aquele que não deve ser nomeado.
Jason puxou na memória, conhecia Grindewald logicamente, seu avô paterno lutou contra seus seguidores, mas aquele que não deve ser nomeado não vinha a memória...
— Espera... ta falando do Voldemort?
Assustado Syfer olhou para os lados como se o bruxo fosse se materializar ali entre eles.
— não fale o nome dele... é.. Complicado.
— Por que? É só um nome.
Suspirando Syfer respondeu.
— Nomes tem um poder absurdo, ele já voltou da morte uma vez, nada impede que volte de novo.
— eu não sabia...
— Ta.. ta tudo bem... só não.. Chame ele pelo nome.
— Vou me lembrar disso.
— Enfim... meu pai serviu a ele... quando eu nasci, minha mãe que também o serviu por um tempo, deixou o lado negro, o ministério nos manteve protegidos até a guerra acabar e depois disso... bom a história e longa, em resumo ganhamos um novo nome, mas algumas pessoas descobriram e eu acabei sendo descoberto.
— Por que você se preocupa tanto, vai virar um bruxo das trevas depois da escola?
Syfer olhou profundamente nos olhos de Jason, era a primeira vez que perguntavam aquilo diretamente.
— Algumas pessoas dizem... que filho de peixe peixinho é.
—Não ligo pro que pensam... você vai ser um bruxo mal no futuro?
— Não.
— Então vai ser um prazer ter você na minha extensa lista de ... um amigo.
Era a primeira vez que via alguém sorrir com tamanha sinceridade em anos, seu novo amigo tinha uma família complicada isso era fato, mas algo na cabeça dele dizia que aquela era uma amizade pra vida toda.
— Então... você não parece daqui... de onde veio?
— Eu sou brasileiro. Vim pra Londres pra estudar.
— Já ouvi falar do Brasil... nunca fui, mas gostaria.
Passaram mais de uma hora falando sobre as cidades que conheciam, as pessoas e os lugares, Syfer era animado e otimista
Jason se sentia bem em falar com alguém tão animadamente, a viagem seguia tranquila quando uma senhorinha apareceu na porta levando um carrinho com todo tipo de comida de viagem.
— Querem uma tortinha? Ou um chocolate?
Syfer imediatamente se levantou, pediu uma série de coisas que Jason nunca viu na vida, com os braços cheios de pacotinhos ele se sentou de novo.
— E você pequeno? Quer algo?
— Ahnm.. claro...
No carrinho encontrou várias delicias, balas de cores vibrantes, caixinhas do que pareciam jujubas, e potes de doce
Jason escolheu uma infinidade de coisinhas, caixas e mais caixas de sapos, um pacote de balinhas de vapor, apanhou quatro tortinhas de abobora e um punhado de doces que nem sabia dizer o que eram.
— Isso paga tudo?
Jason tirou o resto de moedas que tinha, 19 galeões, Syfer se levantou rapidamente.
— Esqueceu como se conta? — Ele apanhou seis das moedas maiores e entregou a vendedora, ela sorriu se devolveu uma moedinha menor. — Não se esqueça de perguntar quando não souber alguma coisa.
— Não se importa se eu te encher de perguntas?
— Não... dês de que você dívida essas tortinhas.
O Jason do futuro poderia entrar ali naquele momento e negar, ele saberia que uma vez que Syfer tem direito a parte de sua comida... é pra sempre... mas aquele jovem Jason, ele era inocente... ele aceitou.
— Claro, pega ai.
— Obrigado... então... oque quer saber primeiro?
— Como funciona o dinheiro daqui?
Syfer estava de boca cheia, mas apanhou três moedas de tamanhos diferentes do bolso.
Terminando de comer ele disse.
— As menores são nuqes, as de prata são sicles e as grandes são galeões.
— ahn...
Aquilo não era a resposta que queria, mas teve de aceitar que era so o que iria receber.
— vamos estudar juntos?
— Possivelmente, tudo depende da casa pra onde você vai.
— Casa? Achei que Hogwarts era um castelo.
— Não sua besta, Hogwarts é dividida em quatro casas, mas ainda é um castelo, as casas são tipo... famílias que vivem la.
— Acho que entendi...
Era estranho ver como Syfer se sentia a vontade comendo doces que não eram seus..
— Para que casa quer ir?
— Eu nem sabia que elas existiam ate poucos segundos atrás... me diz você, pra onde vai?
— Sonserina.
Ele respondeu sem pensar.
— Sonserina... que tipo de casa é?
— Não sei, mas toda minha família estudou la, talvez seja algo de família.
— Família...
— Sua família estudou em Hogwarts?
— É.… de certa forma.
— Não sei se entendi....
— Família complicada.
O sorriso de Syfer desapareceu.
— Ah...
— Problemas com a família também?
Syfer parou de comer, analisava o bombom que rinha entre os dedos como se fosse uma joia.
— Não se perguntou por que eu estou sentado sozinho na cabine mais isolada do trem?
— Na verdade... não.
Syfer riu, mas era uma risada puramente irônica.
— Minha família tem um passado, e as pessoas que sabem disso me evitam.
Ele finalmente comeu o bombom, Jason viu o olhar distante dele.
— Não sei se entendi... mas se minha família estranha me ensinou alguma coisa, foi a não julgar ninguém antes de conhecer.
Syfer suspirou.
— Que seja... se depois de ouvir você quiser mudar de cabine é bom você deixar mais desses chocolates.
—Feito.
— Meu nome completo é Syfer McQuinley, mas esse sobrenome é falso, meu nome real é Syfer Travers...
— E....?
— Não... reconhece o nome?
— Deveria?
Syfer suspirou.
— Meu pai... ele... ele foi um comensal da morte, um dos seguidores próximos de você sabe quem.
— Ooh...
— Pra piorar... descobriram que meu avô, serviu Grindewald diretamente também.
— Eita...
— Minha mãe fugiu antes do fim da guerra, ela entregou meu pai, ele foi condenado depois disso, eu nasci quatro dias antes dele desaparecer, o ministério garantiu nossa segurança, nos deu novos nomes, mas alguém descobriu e vazou a informação.
— e você e taxado de bruxo das trevas por causa deles?
— É. mais ou menos...
Jason pensou um pouco, deu de ombros quando chegou a conclusão que ninguém deveria ser julgado por seus parentes.
— Mas e você? Pretende ser um bruxo das trevas?
Syfer deixou o bombom cair, era a primeira vez que alguém lhe perguntava isto tão diretamente.
— Eu... não sei dizer.
— Não sabe?
— Por que alguém se torna das trevas?
— Acho que... por um objetivo.
— objetivos e verdades são relativos.
— Falou como um velho agora. — Jason riu alto.
— Não, ouça, se alguém ataca e assalta um banco, ele é o vilão ou o mocinho?
— O vilão.
— Isso por que você vê a história pelo lado do banco... como você veria uma equipe que se junta, e arruma meios de dar a uma cidade sem comida, dinheiro suficiente pra alimentar todos?
— Os heróis, claro.
— E se eu estiver falando das mesmas pessoas?
— ...
— O mesmo grupo que assaltou o banco, usou todo o dinheiro comprando comida pra uma cidade que morreria de fome em breve, quem são os vilões?
Jason ficou mudo.
— Uma escolha, acho que nem sempre uma escolha que você pode fazer, isso define se você vai ser um bruxo das trevas ou não, se eu tivesse essa escolha hoje, bem, logicamente eu seria uma bruxo das trevas.
Jason ergueu rápido o rosto, mas notou o sarcasmo de Syfer ao ver o sorriso
— Então... estou sentado com um futuro bruxo das trevas?
— É.… eu acho...
O silencio. Syfer passou por ele antes, aquele silencio que precedia a partida de alguém, mas o que o quebrou não foi alguém saindo e sim uma gargalhada.
—Você não tem cara de bruxo malvado Syfer.
— Ahn... não?
— Olha... meu pai sempre diz, que existe algo gelado no olhar de um bruxo das trevas, em você eu só vejo fome.
Syfer parou de mastigar seu bombom... deveria ser o oitavo.
— Você não se importa?
— De que?
— Estar sentado perto de mim.
— Nem um pouco... mas gostaria de comer um bombom pelo menos.
Os dois sorriram.
— Você fala muito do seu pai... como ele é?
— Ah. Meu pai é, sei lá.. ele é meu herói.
— De onde vocês são?
— Meu pai e eu somos do Brasil.
— já ouvi falar
— pois e... eu vim pra Londres esse ano.
— Serio? Imagino que você tenha decidido vir pra Hogwarts, aqui é bem mais conhecido.
— Na verdade....
Jason contou toda a história, Syfer ouviu em silencio sem fazer perguntas.
— E no fim... parei aqui.
Syfer piscou algumas vezes.
—Perai.. deixa ver se eu entendi... você ja estava com tudo pronto pra ir pra Castelobruxo.
— Sim.
— Sua mãe tirou a sua guarda legal do teu pai.
— Aahan.
— Ela te trouxe pra cá mas não foi nem te receber nem te trouxe na plataforma?
— É...
— Por Deus.... O que esses adultos têm na cabeça?
— ainda não sei... talvez eu entenda quando for mais velho.
— Mais velho nada, eu nunca vou ser assim.
E lá se ia o ultimo bombom.
Uma hora depois a chuva caiu, Syfer e Jason ja haviam comido mais da metade dos doces que compraram, e agora estavam deitados no sofá.
— Eu sempre gostei das Clensweeps... confiáveis, ágeis.
— Você ta falando merda Syfer.. a nimbus é e sempre foi a melhor marca de vassouras.
— ah ta, ta esquecendo fisco que foi a nimbus 2?
— não não, você ta certo, a fábrica fez 28 modelos mas o segundo foi ruim... ó céus parem as maquinas.
— Deixa de ser.… aquilo é um gato?
Os dois se levantaram rapidamente, sentado na porta, Gellert observava os dois com seus olhos multi cor.
— Gellert... o que... vem cá.
Jason o pegou no colo, o gato estava molhado e parecia irritado.
— Espera... seu gato se chama Gellert???
— Não e legal??olha! — Jason sorria bobamente.
Ele ergueu o felino mostrando o rostinho peludo, o olho branco se destacava do resto do corpo completamente negro, a íris azul era.. Estranhamente calmante para Syfer.
— Que trocadilho de bosta em.
Apesar da crítica, Syfer riu.
— O Gellert é uma das coisas boas de ter vindo pra ca.
— meu irmão me deu a coruja dele.. mas deveriam estar no vagão de mascotes... esse nome não vai trazer problemas?
—Eu gosto de Gellert... Talvez fosse ruim chamar Grindelwald, mas não vejo problema nisso.
Uma porta bateu no corredor e uma garota passou a passos largos na frente da cabine dos dois.
— Eu eim...
— Vai por mim Jason... aqui tem muita gente estranha.
A viagem era longa, mas nem perto de ser chata, a paisagem era belíssima, Syfer esfregou as mãos, o frio estava castigando la fora.
— uuuuf... melhor por as luvas.
— Não estou com tanto frio...
— Claro! Ta usando o gato de cobertor!
Gellert estava preguiçosamente deitado no colo do dono.
— Vai la friento.
— Cala a boca Jason.
Rindo Syfer se levantou e apanhou roupas mais quentes na mala, se vestiu rapidamente e tornou a se encolher no estofado.
Uma figurinha azul e dourada caiu de seu bolso.
— O que é isso?
—ahn?
Jason apanhou a coisinha no chão.
— Ah, figurinha dos sapos de chocolate, eu coleciono.
— Tem figurinhas nisso?
—não sabia?
—não...
Uma coisa lhe cutucou a memória, com cuidado tirou Gellert do colo e subindo no sofá abriu sua mala, encontrou sem muita dificuldade sua caixinha, presente de Harold.
De dentro dela tirou uma caixa menor.
— Ganhei isso do namorado da minha mãe.
— Ele é gente boa então... abre ai.
Jason puxou o arame.
— Espera!
Syfer foi rápido até a janela e fechou completamente, assim como a porta da cabine. — Agora sim... abre.
Jason abriu a embalagem, um sapinho menor que a palma de sua mão se moveu lá dentro, ele se virou, e saltou.
Batendo de barriga no vidro da janela.
— Pega... ele só pode saltar uma vez.
Com cuidado Jason apanhou o doce fujão, entre seus dedos a coisinha parou de se mexer.
— Come, é delicioso.
Jason enfiou o doce inteiro na boca, era realmente bom...
— O mais importante mesmo é isso aqui.
Syfer apanhou a embalagem esquecida em cima do sofá, tirou uma parte e mostrou uma miniatura dentro de uma moldura.
Syfer leu antes de ver quem era.
— Lutou bravamente pelos dois lados na última guerra bruxa, reconheceu-se um bruxo do bem quando decidiu não cumprir uma ordem direta de você sabe quem salvando assim 15 pessoas, responsável pela prisão de 6 comensais que estavam escondidos, Harold Smith hoje é visto como um dos maiores joalheiros do mundo bruxo.
— Pera, pera pera…quem?
Syfer virou a figurinha, uma miniatura de Harold estava lá, mais novo, cabelo mais curto, mas era ele, Jason virou para ler de novo, e ao voltar a miniatura havia desaparecido.
— mas...
— cara, essa é rara.. na verdade ultra rara... deve valer uns 300 galeões.
— Espera... oque?
— Coleção especial, so uma edição foi lançada com os heróis de guerra, provavelmente só umas 20 dessas no mundo todo.
Harold sabia que naquela caixa havia uma figurinha dele? Mais importante... Harold era herói de guerra? Havia lutado do lado das trevas? Tantas perguntas...
O trem diminuiu a velocidade, Syfer ajudou a pegar a mala e apanhou a própria, estavam chegando.
— Estamos parando, deixem tudo pronto, não deixem sua cabine cheia de lixo por favor.
Um dos monitores disse passando pela porta, estranhamente, depois de ver os dois, o monitor deu um passo para trás.
— Assim que chegarem, vão descer de receber novas orientações na estação...
Rapidamente ele sumiu no corredor.
—Ok... isso foi estranho.
— Jajá você se acostuma...-Syfer disse triste.
— Acontece sempre?
— As vezes.
O trem parou, olhando pela janela Jason via muito pouco além de fumaça e escuridão, saíram da cabine em silencio, não sabiam bem o que os esperava.
A estação era simples, uma plataforma de concreto, aberta ao tempo, Jason viu os veteranos deixando suas malas em um amontoado perto das escadas e fez o mesmo sendo seguido por Syfer.
Os veteranos seguiam uma estradinha de terra, mas a voz estrondosa do maior homem que Jason já viu.
— Primeiranistas, aqui! Rápido ai atrás.
Tinha mais de foi metros, talvez chegasse a 3, ao redor dele os alunos do primeiro ano pareciam uma porção de criancinhas de 3 anos.
— Meu nome é Rúbeo Hagrid, sou o guardião das chaves de Hogwarts, o guarda caça e professor de magi-zoologia, alguma pergunta?
Uma porção de braços foi erguida.
— Ótimo, vamos.
Ignorando completamente todas as perguntas ele se virou e começou a andar, Syfer gargalhou alto, o que chamou atenção para os dois, mas ele sequer pareceu ligar, com um soquinho amistoso no braço fez Jason andar e juntos seguiram o grupo de novatos.
Precisavam andar rápido, cada passo de Hagrid contava três ou quatro dos pequenos.
Caminharam ate a beira de um lago enorme onde um grupo de barquinhos os aguardava com um lampião a vela em cada um.
— Rápido ai atrás! Nos barcos, vocês vão em duplas, se organizem bem ai, e tentem não virar.
— Ele é meio rude...
Syfer tinha razão, o tal Hagrid era bem ... "seco", na forma de tratar os novatos, mas, outra coisa estava chamando mais sua atenção, os alunos ao redor dos dois.
Por algum motivo, todos se mantinham afastados, cutucou Syfer e com um olhar mostrou o que via, o moreno observou por um segundo e deu de ombros, Jason decidiu que poderia apenas ignorar também.
Não demorou muito para serem os últimos na margem.
Jason foi o primeiro a entrar, esperava a coisa balançar ou afundar, mas nada, firme como o solo, Syfer veio logo depois, se sentou largado no assento de madeira.
Os barquinhos se moveram juntos, alguns mais rápidos passaram a frente, outros ficaram la atrás, os alunos falavam baixinho e apontavam sombras na agua, mas foi quando os barcos saíram da parte fechada da mata que tudo mudou...
— Bem-vindos... a escola de magia e bruxaria Hogwarts.
O grandalhão grisalho fez sua voz ecoar pela escuridão.
— wooow..
O castelo era... perfeito, as torres, a iluminação, o reflexo no lago, tudo..
Não saberia dizer quando chegaram a margem por que não tirou os olhos do castelo dês de que o viu, Hagrid, agora sorrindo, foi o primeiro a descer.
— Venham venham, por aqui por favor... ótimo, vamos subindo, tem uma recepção grandiosa esperando vocês.
Toda a imagem do grandão rude tinha desaparecido, Jason riu sozinho, os adultos eram todos malucos.
Foram guiados por uma ponte até a entrada do castelo, Jason teve que ser puxado para seguir andando, tudo era magnifico de mais só pra uma olhada rápida, sem saber como chegou ali, se viu com o grupo diante de uma enorme porta de madeira, e a frente delas uma mulher. Não era alta mas olhava todos eles de cima, seus olhos escuros exalavam o respeito que era notável, ela tinha, a pele clara e os negros cabelos cacheados davam a ela um jeito de moça, apesar da expressão de alguém bem vivida.
— Bem-vindos novos alunos, em breve vão adentrar o salão comunal, por favor, mantenham a ordem até que eu volte.
As conversinhas explodiram ao redor deles, Syfer e Jason ainda eram mantidos isolados, mas com a falta de espaço, não teriam como se afastar, a mulher apareceu com um pergaminho na mão.
— Quando entrarem, vou chama-los pelo nome, darão um passo a frente, colocarei o chapéu seletor em suas cabeças e ele lhes indicara uma das casas. As casas de Hogwarts são: a Corvinal, Grifinória, Lufa-Lufa e Sonserina. Estão prontos? Por favor, me sigam.
Sem dizer nada a mulher se pôs a caminhar, as portas abriram, o salão era enorme, quatro lingas mesas estavam quase cem por cento ocupadas por alunos de todas as idades, Jason não reparou mais nada depois de olhar para cima, o céu... dentro do castelo havia um céu.... Velas flutuantes funcionavam como estrelas, aos poucos o grupo parou diante uma enorme bancada de professores, a mulher que os guiava estava de pé diante de um banquinho, segurava na mão direita um chapéu de couro velho.
— Vamos começar... Abeforth Littirus.
Um garoto caminhou até ela, se sentou na banqueta e o enorme chapéu tampou seus olhos quando se colocou sobre as orelhas.
— Grifinória!
A coisa gritou.... Jason se assustou, magia era realmente incrível.
Um a um foram chamados, como foi explicado, cada aluno era guiado a ir para uma das casas, dentre aquele grupo, uma maioria esmagadora de Sonserinos... Jason reparou neles, todos tinham o jeito de "futuro bruxo das trevas", isso para ser educado, sempre com aquele sorriso irônico que dava um ar "malvado".
— Jeniffer Alba Sevilla. — lá ia mais um nome.
A garota se sentou e antes do chapéu tocar o alto de sua cabeça...
—Lufa Lufa!
Sempre que um aluno novo chegava a mesa, os alunos aplaudiam e faziam uma tremenda algazarra.
— Jason Augusto Silvia.
Sentiu o corpo gelar, engoliu seco e foi empurrado por Syfer, com passos lentos, foi até o banco, sendo quem era, esperou tropeçar, cair, derrubar o banco ou algo do tipo, mas chegou são e salvo em seu assento.
Um segundo antes de receber o chapéu, percebeu que não sabia mais se queria ir para Sonserina...
O chapéu era grande, mas para o pequeno Jason parecia maior ainda, a coisa tapou seus olhos e se apoiou em seu nariz.
— Quantos pensamentos...
Deu um grito, as risadas foram inevitavelmente ouvidas dentro do chapéu..
— Mantenha a calma jovenzinho, pois vou analisar sua mente...
Havia uma voz em sua cabeça, a mesma voz que gritava o nome das casas.
— ora ora quantas duvidas, e quantas respostas, uma mente como a sua e impar no mundo... em situações de medo as pessoas param de pensar mas você... você tem milhares de pensamentos, rápidos como um ratinho.
Irritado, percebeu que estava suando e respirando rápido, travou os dentes, se forçou a respirar devagar, precisava se controlar.
— Mas vejamos, controlado como uma serpente, mas obstinado a se defender como um texugo... onde devo colocá-lo?
Teria tantas qualidades assim? Ou seus defeitos se destacariam mais?
O que mais importava gora... é que não gostava de algum lendo sua mente.
— ah mu jovem Jason, daqui de cima posso ver tudo, sua coragem e astucia, sua lealdade e a sua inteligência, de fato, daria um prefeito Sonserino, assim como um grande Lufano, mas a casa para a qual devo manda-lo...
— CORVINAL!
Fale com o autor