A sina dos sinos

1 Uma tradição muito antiga


Notas iniciais
Olá, tudo bem?

Agradeço muito à Thay @wtsthay por ter me convidado para participar desse desafio. NEJITEN NA VEIA, NO CORAÇÃO!
A Thay também fez essa cAPA DIVINA! ENTÃO MUITO OBRIGADA DE NOVO, VOCÊ É MUITO MEU AMOR ♥

Obrigada também ao meu amor maior, Luuh @daegresco, por ter me ajudado e me apoiado em tudo. Mesmo sem fazer ideia, você me ajudou com a fanfic.

Tentei fazer uma comédia com uma fanfic que eu já havia postado antes. Era uma one-shot, então transformei quase tudo (deixei mais feliz) e virou 3shot.
Poderia ser uma one-shot? Poderia. Mas eu não gosto de capítulos muito longos, então lidem com isso K

Boa leitura!

Eu disse que deveríamos ter saído mais tarde. — murmurou Kiba com o seu mau humor quase palpável. A cabeça estava coberta pelo gorro da blusa – que impossibilitava os outros de verem os seus olhos vermelhos de sono –, apesar do calor insuportável que fazia.

O aeroporto estava lotado, o que já era de se esperar para junho; as férias haviam acabado de começar e só se viam pais com olheiras monstruosas, crianças berrando os pulmões para fora e idosos aposentados tranquilos. No meio de tudo aquilo, os cinco amigos esperavam o chamado do voo sentados no chão.

Os cabelos loiros de Ino bateram com força no ombro de Shikamaru quando ela virou-se para observar o reclamão. Franzindo as sobrancelhas claras, não tardou em começar o seu monólogo:

— Jamais atravessaríamos a porta de entrada com as nossas malas. Aliás, não conseguiríamos nem mesmo um táxi para vir até aqui. E se por sorte encontrássemos um, ficaríamos mais de horas na fila de check-in atrás desse bando de gente e não conseguiríamos pegar o avião, ou seja, agradeça muito a mim por estarmos adiantados. Às vezes parece que você não pensa no que fala, Inuzuka.

— Na verdade, Ino, nós só chegamos com tempo de sobra porque eu liguei para vocês cedinho.

— Você nos acordou cinco da manhã, Tenten! Acordou todo mundo à toa, porque o nosso voo só sai às quatro da tarde. — o estresse mal contido foi redirecionado à amiga de longos cabelos escuros sentada ao seu lado. Revirando os olhos, a Yamanaka martelava em pensamentos como aguentava viver com amigos tão sem noção.

— Foi uma boa estratégia. O Shikamaru não tinha terminado as malas dele ainda. — argumentou Tenten cutucando o moreno com o cotovelo, tentando incentivá-lo a falar ao seu favor. Não tinha culpa se eles eram preguiçosos demais e não acordavam cedo para ir à academia como ela.

— Pessoal...

— Ele podia ter terminado assim que acordasse. Você viu o tamanho da mochila que ele trouxe? Com certeza escolheu só duas blusas e duas calças para essas duas semanas. — Ino continuou, mudando mais uma vez o foco das suas palavras ácidas.

— Realmente, não demoraria nem quinze minutos para tudo ficar pronto. Em todas as fotos vai aparecer sempre com as mesmas roupas.

— Ei, qual o problema disso? Eu tenho coisas mais importantes para me preocupar. — Shikamaru pronunciou-se pela primeira vez em um bom tempo. Estava torcendo para que os japoneses o deixassem quieto naquele dia, todo o falatório desnecessário o deixava desconfortável. Já sentia o estômago revirado com o temor por estar há poucos minutos de subir em uma máquina mortífera voadora que o levaria até outro país.

— Tipo o quê?

— Galera!

— Eu quero saber das comidas, dos monumentos, dos passeios, das massagens... Por isso precisava esvaziar bem a minha mente para ficar tranquilo. Não queria gastar neurônios pensando nas roupas que vou levar. Não preciso ficar registrando cada respirada com uma câmera velha. A viagem toda vai ficar guardada aqui. — apontou para a própria cabeça com um semblante perspicaz, de quem tem certeza do que fala. Contudo os amigos não compraram o seu discurso e foi recebido instantaneamente por vaias provocativas dos outros três.

Neji, por outro lado, já estava de pé há um bom tempo, tentando a todo custo chamar a atenção para si desde que a pequena discussão havia se instaurado entre eles. O travesseiro azul em volta do pescoço e a roupa folgada completavam o seu look de “turista”, quase não era possível o levar à sério.

— Caralho, o nosso voo já foi chamado três vezes! — o Hyuuga reclamou um pouco mais alto puxando a regata de Shikamaru para cima, o forçando a levantar as nádegas doloridas do chão.

Aos tropeços e arquejos, o grupo chegou ao portão de embarque. A fila de viajantes estava crescendo cada vez mais e os amigos foram uns dos últimos a subir a pequena escada do avião. Quando já estavam no topo da mesma, porém, Ino virou-se para trás e sorriu ao ironizar:

— E o Kiba ainda queria chegar mais tarde. Inacreditável!

O começo não estava sendo tão perfeito quanto haviam imaginado meses antes. Quando decidiram que fariam uma viagem juntos nas férias de seus respectivos trabalhos e faculdades, não conseguiam parar de traçar planos. Os mais próximos do grupo torciam para que aquele dia chegasse logo, pois a situação estava ficando insustentável; a China era o único tópico das conversas.

Todos parcelaram em 36 vezes as passagens de avião, os passeios, as visitas aos templos e a reserva do hotel. Seriam duas semanas bem recheadas e inesquecíveis pela frente, então se esforçaram ao máximo para achar bons descontos e espremeram as carteiras para que coubesse no orçamento. Tenten chegou a pedir emprestado uma pequena quantia aos pais para completar as primeiras parcelas, prometendo que pagaria depois; ela gastava muito dinheiro com os livros infindáveis da pós em Literatura, a mensalidade da academia e a ração dos seus gatos.

Shikamaru também precisou de ajuda na questão financeira e pediu alguns pagamentos adiantados ao seu chefe. Queria aproveitar ao máximo cada segundo daquelas férias, pois quando voltasse faria longas horas extras vendendo e alugando imóveis.

Faltando meia hora para finalmente pousarem em solo chinês, a animação começava a voltar aos seus corpos.

Nada podia atrapalhar aquela viagem dos sonhos... A não ser eles mesmos.

A ansiedade e irritação antes do embarque haviam feito as primeiras horas infernais. Quando os cincos se encontraram na frente do aeroporto, os humores ainda estavam contidos, mas foi só a fome e o cansaço baterem que as pequenas discussões começaram a aparecer. Tentaram contornar a situação comprando salgadinhos de preços acessíveis e assistindo séries já baixadas no celular, até que não deu mais e a respiração alheia chegava a incomodar.

Nunca haviam viajado juntos para outro país e sentiam que seria marcante.

Ainda sim, eles não se imaginavam fazendo àquilo tudo com mais ninguém. Eram inseparáveis e sempre seriam, amizades não eram perfeitas 100% do tempo e, apesar das brigas bobas, estariam juntos até o fim.

— Por que ninguém entende o que eu falo?

— Deve ser porque eles falam mandarim; você, enrolação. — a Mitsashi respondeu ao Inuzuka com tom óbvio, por mais que soubesse que ele estava brincando. O japonês tinha em mãos um guia de conversação grosso que tecnicamente devia o ajudar a se comunicar melhor; ele falava, gesticulava e gaguejava. Ninguém o entendia mesmo.

— Não é só estender o braço que o carro para? Por que os táxis daqui seriam diferentes do Japão? — Ino tentou argumentar ameaçando movimentar o braço, contudo levou um tapinha na mão antes de concluir a ação. Kiba a olhava com os olhos estreitos, a expressão ofendida. Como se o senso de moda de Neji tivesse sido passado para os outros também, o rapaz de cabelos escuros e curtos se destacava na multidão usando um chapéu de palha enorme na cabeça e bermuda estampada em neon. Estava claro que não queria se misturar na multidão, escrito em sua testa o quão turista era ali. — O que foi?

— Confia em mim! Eu só preciso encontrar alguém que entenda o meu mandarim e teremos um dos melhores carros para nos levar até o museu.

— Por que você complica tanto as coisas? Já faz cinco dias que chegamos na China e você sempre faz a gente pegar os meios de transporte mais escrotos. — Tenten praguejou olhando várias pessoas saírem e entrarem nos táxis azuis com facilidade. Ela descansou a cabeça no ombro de Neji, que a olhou com carinho e deixou um selar amoroso em sua testa.

— Eu odiei cada segundo em cima daquela bicicleta de três rodas. Nem pense em alugar outra de novo, Kiba. — a loira adiantou-se esticando um dedo na cara do amigo em ameaça antes que ele se aproximasse daqueles automóveis novamente.

— Aquilo se chama Triciclo e foi divertido.

— Claro que foi, Neji. Você teve a sorte de pedalar junto com a Ten, a maior rata de academia que eu conheço. Mal fez força para sair do lugar. E com essas suas pernas finas, não iria longe sozinho de qualquer forma. — o Nara juntou-se àquela chuva de protestos com um sorriso irônico e palavras afiadas, fazendo os outros quatro se renderem às risadas de vez.

Aos poucos voltaram ao silêncio, compartilhando olhares cúmplices e um tanto ansiosos. Cada segundo estava valendo à pena; apesar das ideias doidas de Kiba, das roupas feias de Neji, da euforia de Tenten, da ironia de Ino e das reclamações de Shikamaru. Estavam confortáveis, se divertiam como nunca e qualquer situação terminava em altas gargalhadas.

— Será que podemos decidir logo como sairemos daqui? Quer que eu alugue um cavalo, Inuzuka?

— Até você, Hyuuga?! Se continuar assim eu vou fazer todo mundo subir nas suas costas para irmos.

Ino e Tenten estavam deitadas em suas camas, enquanto os três rapazes assistiam à um programa de televisão estranho, sentados no sofá. Mesmo que dormissem separados e passassem o dia inteiro juntos, todas as noites se encontravam em algum dos quartos para aproveitar a companhia.

— Você tem algum creme para pele irritada? Acho que tomei sol demais. — comentou a loira para a outra enquanto tocava levemente o nariz quente e vermelho. Antes que a Mitsashi pudesse responder, porém, uma sequência de barulhos altos soou pelos corredores e pelas ruas. Já estavam há nove dias na China e todos os dias, nos mesmos horários – de manhã, à tarde e à noite –, a sinfonia se fazia presente. Por toda a cidade eram capazes de ouvir harmonias diferentes de sinos badalando, ecoando até o céu.

— O Papai-Noel não cansa mesmo. Essas renas ficam correndo o tempo todo. — brincou Kiba por cima do barulho.

— Por que não diziam sobre isso no site do hotel? Os meus tímpanos vão explodir qualquer dia. — a Yamanaka sentou-se com pressa assim que o silêncio voltou a reinar. — Eu vou ligar para a recepção e perguntar o que é isso, como quem não quer nada.

Ela discou os números rapidamente e foi atendida por uma voz feminina dizendo alguma coisa em mandarim que ela não entendeu. Foi rápida em continuar a conversa com um inglês invejável:

— Boa noite. Vocês poderiam desligar esses sinos, por favor?

— Creio não ser capaz de ajudar nessa questão.

— Só à noite. Atrapalha o nosso sono.

— Sinto muito, não posso fazer isso.

— Vocês não podem desligar ao menos os do corredor do quarto 314?

— Novamente, sinto muito. Não estou autorizada a fazer isso. Faz parte de uma tradição muito antiga.

— Tradição? De que tipo?

Os quatro, ainda mais interessados na conversa, aproximaram-se do telefone. Com olhares questionares, começaram a debater entre si o que seria àquela tradição estranha e barulhenta. Shikamaru e Kiba enumeravam nas mãos o que seria: duendes, fortuna, dragões, fadas, boa sorte...

A japonesa pediu silêncio a eles poucos segundos depois.

— Os sinos protegem a nossa cidade contra os mortos-vivos do deserto. Existem muitas escrituras e gravuras sobre eles, o barulho não deixa que se aproximem. Ficamos seguros assim.

— Ah, claro. Que bom que estamos à salvo! Muito obrigada. — a loira sorriu sem forças e desligou. A mulher havia falado com tanta convicção que não conseguiu nem achar graça da situação.

— O que disseram? — Tenten perguntou rapidamente enquanto se ajeitava no colo de Neji, que a rodeou com os braços fortes. Mesmo que os cinco fossem muito amigos, os dois se procuravam e se encontravam sempre que podiam. Era um sentimento diferente, deixava o coração mais quentinho quando estavam juntos.

— Ela disse algo sobre mortos-vivos e proteção. Então, parece que teremos que lidar com as renas do Papai-Noel até irmos embora.

Kiba começou a rir alto, surpreendendo os outros. Ele mesmo já havia feito aquela piada, não podia ser tão engraçada novamente. A não ser...

— O nariz vermelho você já tem Ino, junte-se às suas outras irmãs no trenó.