A serpente e a estrela
16 Esperança
Notas iniciais

A noite naquele cemitério babilônico não deixava de ser esplendorosa. Uma grande lua amarela se erguia no céu e apagava o brilho das estrelas. Asmita podia sentir a lua, embora não pudesse vê-la de verdade. Seus olhos captavam a luz, via os contornos, mas não enxergavam com a clareza da visão humana, embora pudessem ir muito mais longe.
A visão humana limitava, os olhos eram o espelho da alma, mas também a janela. Através dos olhos existiam a cobiça, a inveja, o desejo que destruía os homens.
A lua no céu. A brisa noturna que levava o calor, mas que ali, no imenso império entre rios, perto de nascentes e de uma grande floresta verde, não trazia o frio glacial do deserto, ali; ele permitia-se relaxar e pensar um pouco além dos motivos que os levavam naquela longa e difícil viagem. Um retorno ao passado do qual fora arrancado. O afeto.
Aldebaran preparava uma caça para o jantar. Caça que ele não comeria, ficaria com as raízes e frutos que os dois árabes encontraram na mata. Não poluiria seu corpo com os fluídos do medo daquela criatura antes da morte. Toda vida era sagrada para os zoroastros e há muitos anos, Asmita era um deles.
“No início havia somente o Caos aquoso com Apsu e Tiamat, que representavam, respectivamente, as águas doces e salgadas; então o céu ainda não tinha nome e a terra ainda não tinha nome..."
Asmita lembrou-se daquela passagem contidas nas tábuas sagradas dos babilônios. Olhou para o céu novamente e sentiu a lua beijar-lhe o rosto. Sorriu e voltou para perto dos dois homens que agora comiam tranquilamente. Aldebaran conversava sobre algum caso da sua gente, e Ikki apenas ouvia, dizendo “sim” ou “não”, dependendo do que o outro falava. Faziam uma boa dupla por serem completamente diferente, todavia, contrariando histórias e tradições, nenhum deles era estúpido ou subserviente; dois príncipes altivos e cônscios do valor que tinham.
Asmita sentou-se com as pernas cruzadas, sobre a esteira em que os dois homens já estavam sentados. Ikki adiantou-se, separando alguns vegetais sobre uma grande folha de parreira e colocando-os nas mãos do cego.
— Eu poderia fazer isso, mas obrigado. — Asmita disse, assentindo com a cabeça e começando a comer os vegetais cozidos.
Aldebaran mirou a lua. — Como pode tão bonita? — Ele disse, enquanto tomava seu chá. — E imaginar que estamos no meio de um cemitério...
— Não desmereça a última morada terrena das almas. — Asmita disse, comendo com calma. — Algumas ainda permanecem aqui.
— Se continuares falando isso, vais deixar nosso amigo com medo — Ikki provocou com um sorriso de lábios fechados, fazendo Aldebaran rir abertamente.
— Não tenho medo de mortos, eles não carregam espadas! — falou o saubeu e suspirou. — Mas acho melhor pararmos de falar deles.
Ikki e Asmita riram, e o príncipe persa suspirou antes de se dirigir ao árabe moreno.
— Não queres terminar de me contar tua história? Sinto-me curioso para saber como perdeste meu irmão.
— Ah, sim. Onde havia parado mesmo? Ah... A festa da pedra negra, a noite em que conseguimos fugir... Ou quase...
— Sim, conte-me como perdeu meu irmão e por que acha que ele está na Babilônia.
Ikki respirou fundo e mirou o céu claro, a lua parecia realmente o grande Tiamat a olhá-los, magnificamente ínfimos aqui embaixo.
— Porque foi aqui que eu perdi a pista dele...
Doze dias após dar a luz, Jamila saiu do confinamento. Não foi surpresa confrontar-se com a frieza de Omã, mas como era de hábito, ela não reclamou. Recolheu-se aos seus afazeres de esposa e não o questionou pelo romance lascivo e escancarado com a etrusca. Zahira também não gostou daquele novo envolvimento. Seu ódio não era diretamente a Jamila e ao contrário do que se convencionou a murmurar entre as ruas estreitas de Karna, ela não envenenou o bebê da rival. Como sacerdotisa de Wadd, ela prezava muito a dádiva da concepção, único momento em que a mulher sobrepujava o homem, pois se o macho era a semente, a fêmea era a terra fértil que desenvolvia as raízes. Ela jamais atentaria contra isso, mesmo que aquela cria a revoltasse.
Também não fizera parte do conselho que condenou a criança. Os anciões de Karna não queriam uma prole mestiça. Agora, a ascensão de Shyna a preocupava mais do que Jamila já a preocupara em vida, porque sentia que a fenícia era apenas esperta, mas a etrusca, ah... essa era má e gananciosa.
A última caravana para Makkah sairia naquela noite. Nela, estaria o Emir. Omã seguiria com Jamila, mas também com Zahira e Shyna. Era o senhor absoluto de Karna e poderia levar quem quisesse e ter quantas mulheres quisesse. Embora nunca tenha sido um homem poligâmico, Omã sentia-se livre para mudar de esposa sempre que ansiasse. Isso não fazia com que as outras deixassem de ser suas esposas também, elas só não seriam mais vistas como a rainha da tribo, seriam simples consortes.
Ágora e Shiva estavam a postos. Eles ajudariam no que fosse preciso para que Ikki conseguisse deixar Karna com o garoto persa. Sabiam do risco que o príncipe corria. Deserção no clã das serpentes negras era uma sentença de morte. Renegar o clã seria a maior das ofensas aos deuses, então, mesmo se a tribo nunca descobrisse a verdadeira identidade de Shaka, ainda assim, Ikki seria sentenciado à morte, somente por fugir. Já havia acontecido a outros, e ele não seria poupado por ser filho do emir. Um homem de Karna era antes de tudo um escravo das tradições militaristas do seu povo. Ele pertencia à cidade, ao clã. Não era um individuo, deveria ser parte de um coletivo, uma parte do corpo da serpente.
— Você tem a sorte de poder liderar um dos grupos. — Ágora conversava com o príncipe. — Não precisa se preocupar. Eu me colocarei à frente da comitiva com Shiva e alguns guerreiros. Vocês dão meia volta com os cavalos e se colocam atrás do último camelo. Depois que passarmos pelas montanhas escarpadas ao sul, discretamente, fiquem para trás e sigam a trilha dos beduínos em direção à Saubeia. De lá, tomem uma barca para Pétra. Quando chegarem ao porto, atravessem o mar vermelho e estarão a salvo. O Emir nunca mais os encontrará.
— Obrigado, Ágora — Ikki apertou o braço do guerreiro que acenou em concordância.
Eles se despediram. Ikki voltou ao quarto, onde Shaka terminava de ajeitar dois cestos com provisões que eles levariam presos ao cavalo. Não eram grandes para não levantar suspeitas, somente material de higiene e alguma comida para que aguentassem até chegar à Saubeia, onde encontrariam provisões reais. Levavam uma esteira e agasalhos. A noite no deserto era cruel, eles não poderiam se descuidar.
O loiro sorriu e se atirou aos braços do moreno que riu de leve o abraçando.
— Mais algumas horas e estaremos livres — ele disse, afagando o rosto macio de Shaka. — Ninguém irá machucá-lo...
— Eu sei. Viveremos em paz — O loiro disse e o beijou. Ikki correspondeu àquele beijo profundo, cheio de alívio e sentimentos.
O loiro se afastou sorrindo. Ele vestia uma roupa completamente negra, um dos uniformes dos guerreiros, a calça larga, a camisa fechada de manga, e uma capa longa que quase o cobria inteiro.
— Preciso me despedir da Jamila. — Ele disse.
— Vá, mas tenha cuidado. — o guerreiro beijou os lábios dele novamente com um sorriso.
Shaka saiu do quarto em direção ao quarto da grande esposa. Todavia, seu caminho foi interrompido por alguém que o mirou de cima a baixo e sorriu com desdém.
— É vestida desse jeito que vais para Makkah? — ela riu. — E ainda dizem que tu és uma princesa...
— Príncipe... — Shaka resmungou de uma forma que a mulher não pudesse entender e quis passar por ela, mas a garota não permitiu.
— Depois dessa viagem, voltarei como grande esposa — Shyna sorriu. — Pode ficar com o príncipe, eu agora terei algo maior.
O loiro sorriu irônico.
— Depois dessa viagem, eu não terei mais que aturá-la, Shyna, agora saia da minha frente. — Ele falou se desvencilhando dela e seguindo em direção ao quarto de Jamila.
A grande esposa não estava em seus aposentos e sim no pequeno jardim que havia na fortaleza um pouco antes do grande salão. Shaka foi até ela sorrindo e a abraçou.
— Jamila!
— Shaka! Que saudade de ti, criança, por que não veio me ver? — Ela indagou, emocionada. Sentia-se tão sozinha naquele momento.
— Eu não podia — Shaka sussurrou, olhando para os lados. — Disseram-me que homens não podiam vê-la.
Jamila riu.
— Bobagem desses selvagens! Mas deixe-me vê-lo — ela o segurou pelos braços para olhá-lo e franziu a testa. — Está mais alto, mais... homem...
— Eu sei. — Shaka falou, separando-se dela e ajeitando os cabelos. — Fugiremos hoje, Jamila. Não posso mais continuar aqui.
No momento que Jamila entreabria os lábios. Shyna fazia o mesmo atrás de uma pilastra. Shaka falava muito baixo, mas ela conseguiu entender a palavra “fugiremos” sair dos lábios do loiro. Franziu a testa confusa. Por que ela queria fugir? Ela agora era esposa do príncipe, um dia poderia ser a grande esposa, a rainha de Karna. Por qual motivo aquela estúpida quereria fugir?
— Sim, sim. Tens razão. Hoje é momento propício — Jamila disse e abraçou o garoto com força. — Sabes que és como um filho para mim. Que Baal o proteja sempre Shaka. Sinto-me feliz e triste. Feliz por seguires teu caminho, triste por ficar sozinha, sem ti. Sem meus filhos. Sozinha nesse lugar horrível! Ao lado daquele homem horrível que agora me despreza...
E Jamila derramou sua angústia em lágrimas amargas.
— Jamila, me escute, não chores — Shaka pediu, consternado, segurando o queixo da mulher. — Teu bebê está salvo. Eu o salvei.
Shyna arregalou os olhos e cobriu os lábios com a mão para suprimir uma exclamação de surpresa. Jamila soltou uma exclamação de susto e emoção e segurou os braços do garoto com força, praticamente o sacudindo.
— Do que falas, Shaka?! Explique-me, por todos os deuses!
— Eu o tirei da pedra branca. A criança vive, Jamila. Procure-o numa casa ao fim do vilarejo de jade. Há uma mulher com três crianças e um bebê. O nome dela é Neila. Ela também tem alguma prata e moedas de cobre. Ikki deixou com ela, caso um dia tu queiras deixar Karna com tua criança.
Jamila tremia e chorava, emocionada demais.
— Obrigada — abraçou Shaka com força. — Nunca esquecerei o que fizeste por mim, criança. Nunca.
— Seja feliz, Jamila — Shaka sorriu e se separou dela, deixando o jardim.
Shyna se escondeu atrás de uma pilastra, confusa. Como assim? Shaka tentaria fugir? Será que o príncipe sabia disso? A jovem etrusca mordeu os lábios, indecisa sobre como agir diante daquela informação. Então o filho de Jamila estava vivo? Shaka espezinhou as tradições tamudeias. Deveria contar o fato a Omã e ver “a persa” ser morta diante dos seus olhos. Por outro lado, tudo que ela queria era Shaka longe dali, bem longe. Se ela fosse mesmo fugir, aquilo seria um alívio. Cuidaria de Jamila depois. Sorriu satisfeita. Com Ikki longe, poderia também dar um filho a Omã, um filho que pudesse, no futuro, ocupar o lugar do Emir. Que fugissem! Que desaparecessem! Karna seria sua e de sua prole.
Ouviu mais um pouco e depois saiu dali, satisfeita. Shaka também estava satisfeito e ansioso, esperava que a noite caísse logo e o dia pareceu extremamente longo. Os homens não estavam na arena e as mulheres recolhiam-se em suas moradas. Eles preparavam os camelos para a longa viagem que só começaria com o poente.
O jovem ária se preparou. Vestiu-se com as roupas negras, tal quais os homens e cobriu o rosto com o lenço também negro. Escondeu punhais nos bolsas, pequenos coldres estratégicos dentro da calça. Estava pronto. Comida e agasalhos estavam no cavalo, os Multris, os belos cavalos peludos da Arábia, maiores e mais belos do que qualquer cavalo em qualquer época. Os Multris eram animais voluntariosos e livres, que não admitiam cativeiro a não ser por conta própria, quando se afeiçoavam ao dono. Ikki tinha um multris, seu nome era Dushara, em homenagem ao deus das grandes montanhas, pois o macho negro era o maior multris que ele já havia visto na vida. Embora a viagem fosse longa, Ikki preferiu o multris ao camelo, pois precisaria ser rápido e retardar um possível avanço de Omã, embora ele achasse que dificilmente o Emir daria por sua falta até que chegasse a Makkah. Quando o sol caiu e os primeiros camelos começaram a vagar pelo deserto, ele conduziu Shaka até a comitiva das concubinas. As mulheres seguiam também sobre liteiras, levadas entre camelos vagarosos, e embora fossem as últimas na caravana, logo atrás dela vinham os guerreiros que lhes garantiriam a segurança.
A viagem começou, a caravana cortava o longo deserto, as mulheres entoavam cânticos e orações. Ikki seguia firme ao lado de Ágora e Shiva. Eles estavam sérios, tensos. O homem ruivo fez um movimento com os olhos e de imediato Ikki fez Dushara parar de se mover. Os camelos moviam-se lentos demais e isso dava a falsa impressão de que o cavalo também se movesse na areia amarela. Já estavam relativamente distante da fronteira da caravana, onde estava Omã e os senhores de Karna, era o momento de seguir para a retaguarda e retirar Shaka da comitiva de mulheres.
O príncipe fez um movimento e bateu na barriga de Dushara para que dele desse a volta pela caravana. Inteligente e gracioso, o cavalo não fez alarme, deu marcha ré e virou-se depois.
— Irei para a retaguarda — Ikki falou em bom tom para que fosse ouvido pelo grupo de seis guerreiros que ali estavam. — Continuem. — Ordenou.
A caravana era longa, a cada trote que Dushara avançava em direção ao seu final, a distância entre guerreiros e príncipe aumentava. Quando ele passou pelo último camelo da nobreza, Shiva, que era o guerreiro que o escoltava, ajudou Shaka a soltar sobre o cavalo de Ikki.
— Que Hubal os proteja — disse o jovem.
— Informe a Ágora que nunca esquecerei o que fizeram por mim e que um dia voltarei para pagar essa dívida. — O príncipe árabe falou, o rapaz assentiu com a cabeça.
Shaka abraçou a cintura de Ikki, mirando o jovem guerreiro que o cumprimentou com um aceno, e eles finalmente partiram. Adentraram o deserto proibido do leste, rota que nenhum beduíno faria, aquilo lhes daria vantagem.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Kanon e Radamanthys jantaram fartamente na casa de Lundi com os oficiais da Babilônia, embora o militar egípcio não tirasse nem por um minuto a mão da sua espada e nem removesse o recentemente usado peitoril de ouro, símbolo de que ele era um general, a maioria dos soldados combatia sem nenhuma proteção, o Egito não era muito conhecido pela eficácia do seu exército.
Kanon, por sua vez, apreciava as iguarias do Império entre rios, muito satisfeito com a bajulação que recebia. Para o oculto, era maravilhoso estar no centro das atenções e ser tratado com tanta deferência.
Carne assada ao molho de ervas e manteiga, vinho verde, tâmaras do norte e todo o bolo de mel que ele pudesse comer. Mulheres de pele escura, tão reluzente quanto seus colares de prata dançavam e seduziam com suas curvas sensuais e músicos tocavam canções obscenas, embora nem ele e nem seu primeiro oficial entendessem a língua em que cantavam. Tudo era feito com extremo cuidado para iludir e conquistar o irmão do rei, enquanto o crime se fazia na noite escura.
O banquete durou até tarde da noite. Terminou quando Radamanthys perdeu a paciência e arrastou o príncipe bêbado do salão para os seus aposentos. Se Kanon estava se divertindo com a comilança, ele não estava nem um pouco. Estava tenso com os acontecimentos que sabia que viriam daquela estadia na ilha, e não conseguia nem mesmo aproveitar a boa cerveja servida naquele lugar.
Kanon ria, pendurado nos ombros do oficial, que não parecia nada feliz com aquilo.
— Por que tu nunca sorris? — ele indagou, mirando o rosto sisudo do loiro.
— Não vejo motivo para sorrir agora... — Resmungou o mestiço, aborrecido.
— Como alguém pode viver sem sorrir? Tua vida deve ser muito enfadonha! — Riu Kanon, debochado.
— Talvez eu apenas não consiga sorrir ao teu lado, alteza. — Devolveu o general entre dentes.
Kanon fez um bico afetado, mirando Radamanthys com um olhar lânguido.
— Não me magoe, sou um homem sensível — debochou, fazendo o militar praguejar baixinho.
Eles chegaram ao quarto que era iluminado por duas lamparinas de óleo verde e onde havia uma bela cama dobrável, armada em madeira, baixa e espaçosa.
— Fica quieto e vê se dorme, alteza — ele disse, arremessando o outro na cama.
Kanon gemeu com o impacto, aquela cama era bem menos macia do que as que havia no Egito.
— Filhote bastardo de Hades — ele resmungou, e Radamanthys que já estava saindo do lugar, retornou o encarando, os olhos dourados brilhando curiosos e revoltados.
— O que disse?
— Quê?! — Kanon não estava em condições de se lembrar do que havia dito, de verdade. Apenas riu e abriu os braços na cama. — Estou bêbado, não vê?
— Seu verme imprestável! — Radamanthys praticamente soltou sobre ele, o prendendo na cama — Repita o que disse! — Exigiu, segurando os braços do príncipe acima da cabeça.
Kanon riu um risinho debochado e lânguido.
— Ora, como és temperamental — falou, desprovido de qualquer medo da ira do outro. — Já não me lembro do que disse, está bem assim? Agora se afaste, não se esqueça de quem sou ou mando chicoteá-lo quando voltarmos.
Radamanthys bufava, o ar saía por suas narinas raivosamente enquanto ele encarava o rosto ébrio de Kanon.
— Não mereces meu ódio — ele disse entredentes. — Não possuis uma gota de nobreza em si, Kanon Amon, o oculto!
Separou-se dele, afastando-se, passando pelas cortinas e deixando o quarto. Kanon soltou um muxoxo e acabou adormecendo assim que ele saiu.
No dia seguinte, quando se aprontavam para partir, receberam a notícia de que a barca egípcia havia sido roubada à noite.
— Mas não se preocupem, senhores, estamos disponibilizando uma barca babilônica para levá-los até o grande império. Infelizmente, essas águas são infestadas de piratas que vêm do sul.
— Malditos! — Radamanthys resmungou. — Informarei tal afronta ao próprio Hamurabi! Leve nossas coisas para a barca, precisamos seguir viagem.
— Sim, senhor. — Respondeu o almirante de Lundi.
Kanon pouco se importava onde viajaria, só queria chegar logo à Babilônia. Odiava acordar cedo, e o sol nem mesmo havia nascido e Radamanthys já o obrigava a estar de pé. Praguejava todas as pragas e entoava as maldições de todos os deuses contra o general que parecia nem mesmo ouvi-lo enquanto dava ordens aos marujos.
Ele foi para seu camarote e resolveu ficar por lá durante o resto da viagem. Estava de mau humor e não queria conversa com ninguém naquele dia.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Asmita acordou de um breve sono, vendo os primeiros raios de sol pintar a aurora. Observou Aldebaran que dormia tranquilo e viu o príncipe ajoelhado mais à frente. Ele parecia fazer alguma oração ou simplesmente meditar. O senhor do deserto aproximou-se lentamente, tentando escutá-lo:
“... E se me permitirem viver até vê-lo novamente, até salvá-lo, eu prometo que não temerei a morte quando ela chegar...”
Seus ouvidos atentos escutaram as palavras murmuradas e ele pensou em se afastar, mas foi tarde demais, sentindo sua presença, o príncipe árabe abriu os olhos e se ergueu, o encarando.
Ikki pigarreou e enrubesceu diante da presença de Asmita. Não esperava que ele acordasse e o flagrasse em seu momento de retiro espiritual. Teria ele escutado suas preces? Preces que eram tão íntimas que jamais pensara em dividi-las com alguém? Tal pensamento o perturbou e por um tempo o jovem moreno não soube o que dizer.
— Desculpe-me — Asmita pediu humilde. — Não tencionava escutá-lo...
— Não tem problema... — A voz grave do rapaz árabe disse, e embora não pudesse vê-lo, Asmita sentia a intensidade do seu olhar e a perturbação que o tomava.
Ikki por sua vez, tentava se recuperar do impacto que a presença do persa lhe causou. Pedira para ver Shaka novamente e ao abrir os olhos confrontava-se com o belo Asmita, tão parecido com ele. Os olhos do persa estavam fechados, e eram sempre os olhos dele que o lembravam que o belo senhor do deserto não era sua Estrela. Mas daquela forma, fechados, a aparência de Asmita o confundia. Seu coração se sobressaltou com aquilo mais do que queria admitir. Sentiu-se tentado a abraçá-lo, tomá-lo nos braços, beijá-lo. Precisava ver os olhos mortos, desprovidos de brilho para lembrar-se... lembrar-se... Fazia tanto tempo que não o via... Sentia tanta falta...
“Não é real, Ikki! Não é ele!” Repetia, sentindo-se vil e traidor por sequer cogitar tal possibilidade. Ele fizera um juramento e o cumprira por três longos anos. Não deixaria que uma ilusão, uma aparência, devastasse sua honra. Ele havia prometido.
— Precisamos prosseguir — Disse se afastando de Asmita, que apenas assentiu com a cabeça.
— Ikki — o senhor do deserto evitou que ele se afastasse de todo. O árabe parou, mas não se voltou na direção do outro. Estava indignado e envergonhado daquela ínfima e ligeira confusão, seu coração dolorido batia depressa. — Eu não sou Shaka.
— Eu sei. — O moreno respondeu, sentindo-se ainda mais miserável por Asmita ter entendido tão bem seus medos, percebendo que o loiro poderia ser chamado de tudo naquela vida, menos de cego.
— As aparências seduzem, mas a alma conhece a alma. Não tema, seu coração sabe o caminho.
O moreno não respondeu, seguiu para o acampamento. Precisavam seguir viagem o mais rápido possível.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Os rumores de guerra faziam o dia de o faraó começar mais cedo. Mesmo antes do desjejum, Saga já havia mandado chamar Aioros ao seu palácio. Sentia-se inquieto por vários motivos. Suspeitas o assaltavam e a angústia tomava conta do seu ser.
Aioros entrou no quarto do faraó apressado. Nem sequer havia se vestido com o traje de vizir, já que o mensageiro apareceu quase de madrugada à sua porta. Ele trajava apenas uma toga curta de um ombro só e seus pés estavam descalços.
— Saga, o que aconteceu? — estava tão atordoado que não conseguiu seguir nenhuma das solenidades esperadas, nenhum dos protocolos tão duramente ensinados a exaustão por seu pai.
O faraó o mirou com um olhar desesperado. Durante alguns segundos, ambos se olharam vendo os garotos de 12 anos do passado. Estavam despidos dos trajes oficiais, despenteados, desmaquilados de máscaras e plumas. Como as crianças que foram há muito tempo.
— Tenho que me casar, é o que Shion diz! Tenho que me casar com prima Nerfertari e fazer um filho!
— Sei, sei. Eu serei teu vizir no futuro, serei. Pois recuso-me a me casar, recuso-me!
Havia lágrimas nos olhos de ambos àquela tarde. Mas agora, quase vinte anos depois, não havia mais lágrimas. Eram homens com deveres além dos seus sentimentos. Mas havia desespero em Saga.
— Tive sonhos horríveis, Aioros! Horríveis! — ele falou se jogando nos braços do amigo, o apertando como se somente ele pudesse salvá-lo. — Não consigo entendê-los e eles me perseguem, pessoas me perseguem e me despem, tiram meu nemés, a cobra-rei, minhas jóias, roubam-me tudo! Não sou mais faraó, estou perdido, fujo, ferido e nu, para uma caverna... Fico sozinho no escuro... Sem ti..., sem ninguém!
— Calma... Foi só um pesadelo — Aioros disse, afagando os cabelos fartos do rei, sentindo o coração dele disparado no peito. Saga sempre teve pesadelos, sonhos estranhos, desde criança. Lembrava-se que, como agora, muitas vezes fora arrancado da cama na infância para consolá-lo, pois, segundo o faraó, apenas Aioros era capaz de compreendê-lo. Mas isso foi antes. Antes de tudo.
— Não foi, não foi, Aioros. Estou cercado de inimigos, todos querem me apunhalar pelas costas! — Saga murmurou, apavorado. — Querem minha morte, eu sinto!
— Isso não é verdade, Saga, não é verdade. — Aioros se afastou levemente para encará-lo. — Tu és o faraó, o deus na terra. Todos o temem e o amam.
— Alguém trama contra o Egito, eu sei! Eu sinto! Não sou louco, não sou! Sei que me chamam de loucos por minhas costas, sei que me acham um mau rei! Um tirano!
Aioros suspirou, afastando-se mais, mas mantendo os braços do faraó presos por suas mãos.
— Eu não deixaria ninguém tramar contra ti, meu rei — ele disse, o encarando. — Sou o grão vizir, é para isso que vivo.
Os olhos verdes profundos do faraó miraram o verde-água do vizir e a perturbação lentamente foi diminuindo.
— Oros... — Saga libertou as mãos e as levou ao rosto do amigo, o puxando para si, sob o olhar chocado de Aioros.
— Não, Saga... — ele negou, quando os lábios do rei roçaram os seus, virando a cabeça para evitar o beijo, mas o faraó o manteve cativo, segurando-o com mais força.
— Não me force, por favor... — a voz do grão vizir foi um fio, mas foi o suficiente para que o faraó se afastasse. A frustração era visível em seu rosto.
Saga quis perguntar por que, mas ele sabia muito bem. Não podia sucumbir também, não podia. Aioros estava certo.
— Perdoe-me — ele baixou a cabeça, envergonhado, o coração disparado no peito.
Aioros pigarreou e tentou sorrir.
— Por que não chama Shaka para que dance e o alegre? Precisas ficar tranquilo, resolverei essa situação. — Disse, agora seu coração batendo em desespero no peito.
— Shaka..., tu mesmo me disseste que ele não é confiável. Ele está me traindo com Kanon, e eu vou... Ah, se isso for verdade, eu...!
— Não disse isso, apenas disse que eles se encontram. Por favor, meu soberano, não imagine coisas maiores do que as ditas por mim. — Aioros pediu, aflito. Não queria a morte do persa e nem uma peleja real entre irmãos gêmeos. Sua lealdade exigia que dissesse a verdade a Saga, mas sua intenção não era morte e guerra.
Saga passou as mãos nos cabelos fartos e respirou fundo.
— Tomarei um banho, vá até Shaka e diga para vir daqui a meia hora.
Aioros assentiu com a cabeça e deixou o quarto do faraó. Ele foi até o quarto do dançarino que ainda dormia, mas não quis perturbá-lo. Deixou recado com um dos servos para acordá-lo em meia hora e encaminhá-lo aos aposentos do faraó.
Quando Shaka acordou e recebeu o recado, seu coração disparou no peito. Sabia que Aioros deveria ter contado a Saga a respeito do seu encontro com Kanon. Perturbado e com estranhos pressentimentos, o jovem da Ária fechou-se em seu quarto durante todo o dia anterior. Pensou em Mu e em seus encontros ingênuos com aquele soldado. Tolas crianças apaixonadas! O que o destino lhes reservaria?
Sorriu fechando os olhos por alguns segundos, recordando-se do seu período na Babilônia. Como estaria o belo Afrodite? O homem que lhe ensinara a ser o que era agora?
Ergueu-se da cama, aprontou-se como sempre, impecável e desejável como deveria ser um assinu de Ishtar. Vestiu-se com uma saia vermelha, bordada em fios amarelos de puríssimo ouro, enfeitou-se com suas jóias e envolveu-se num manto como a saia, trabalhado em ouro. Uma serva se aproximou timidamente e sorriu. Ele correspondeu ao sorriso da menina morena que se inclinou respeitosamente.
— O deus na terra manda chamá-lo, mestre Shaka.
Shaka ergueu-se. Sabia que para Saga mandar lhe chamar uma segunda vez, seu humor não deveria estar dos melhores. Pensava no que dizer. Não podia confrontar as palavras de Aioros, quem era ele para fazer tal coisa? Temia. Não podia morrer, precisava se manter vivo e Ikki o encontraria, sim, ele o encontraria.
Shaka tinha certeza de que o moreno estava vivo. Essa era a sua única esperança na vida. Contudo, achava melhor que as pessoas achassem o contrário. Não podia confiar em ninguém. Mesmo Mu, o ingênuo Mu, poderia ser coagido a traí-lo, como parecia já estar acontecendo.
Mirou o céu rosado de começo de dia como um condenado que segue seus últimos passos.
“Meu amor, não demore tanto. Não sei até quando posso resistir.” Pensou e respirou fundo, resignado. Sabia que tinha que fazer seus próprios passos, cuidar para deixar aquele lugar, pois mesmo se Ikki o encontrasse, não seria fácil fugir do Egito. Era hora de ousar mais.
Todos os servos se inclinaram respeitosamente quando o cortesão atravessou o salão do templo para encontrar o faraó. Saga estava sério. Nunca sorria em público. Chegava a ser assustador vê-lo assim, com o nemés e a barba falsa.
Inclinou-se respeitosamente até o chão e então o faraó se aproximou dele com os servos. Seus olhos estavam sérios, não brilhavam como geralmente. Shaka deixou que ele passasse com os sacerdotes e vizires e então seguiu o cortejo de volta as acomodações do rei.
Sabia que deveria ter chegado no horário imediato a que ele o chamara, mas não estava animado, ao menos não conseguia fingir-se animado naquele momento.
Depois de alguns minutos, o faraó dispensou todos e recolheu-se a sua alcova. Shaka teve a chance de ficar sozinho com Saga em seu gigantesco quarto; chance que naquele momento não era bem o que ele queria.
— O que aconteceu? — Saga perguntava friamente, enquanto livrava-se do nemés e da barba falsa. — Eu o chamei há mais de uma hora, como ousas?
— Não me sentia bem, meu soberano. Perdoe-me — Shaka disse e o encarou, atento. — Eu precisava lhe falar — começou, um tanto nervoso, na verdade seu coração batia acelerado. Achava melhor explicar sobre seus encontros com Kanon. Sabia que o grão vizir do poderoso Egito não seria tão cortês para não comentar o que sabia.
— Quando eu o chamar, mesmo que estejas à beira da morte, deves vir a mim! — Saga se aproximou dele, seus olhos o encarava com indignação e mágoa. — Pensas que me enganas?
— Não, meu senhor, nunca — Shaka falou, dando um passo para trás. Naquele momento o faraó era assustador.
— O que há entre tu e meu irmão, Shaka? — a voz afiada como espada.
A pergunta não surpreendeu o loiro. Chegou tarde, ele já sabia. Deu outro passo para trás e entreabriu os lábios, pensando no que responder e não encontrando escapatória.
— Nada — respondeu com convicção. — O que poderia haver? Kanon é irmão do deus e não o deus.
Saga se aproximou mais, de maneira felina e, depois de observá-lo por um tempo, segurou-o pelos braços, amassando os braceletes, tamanha a força. Shaka estremeceu e arregalou os olhos. Já havia sentido a fúria do faraó e sabia o quão cruel ele poderia ser se irritado.
— Então por que ele te toca quando já proibi todos de tocá-lo? Por que ele te olha quando já proibi todos de olhá-lo?! O que ele fazia em teu quarto à noite como flagrado por Aioros?!
Shaka não soube o que responder, somente empalideceu e arregalou os olhos azuis, sentindo as poderosas mãos do faraó esmagando-lhe os braços definidos, mas delgados.
— Responda, prostituto! — gritou o rei, enfurecido. Saga estava frustrado, triste, perturbado, e tudo isso era uma combinação catastrófica em sua personalidade instável. Shaka era seu presente, era seu! Ninguém o tomaria de si! Ninguém tomaria seu trono!
— Ele não me toca... — murmurou acuado — Eu juro...
— Não me tome por tolo ou eu o destruo! — grunhiu Saga, apertando mais forte os braços do ariano. — Aioros não mente, nunca mentiria para mim!
— Não seria tolo para fazer isso, meu soberano! — disse o loiro e ergueu o queixo, uma expressão de dor marcando-lhe o rosto — Mas se não acreditas em mim, podes consultar os deuses e saberás da minha fidelidade! Teu irmão me assedia e se nunca disse nada foi porque não queria que te indispusesses com ele. Foi para o bem do Egito.
— Se mentires para mim...
— Nunca — murmurou Shaka, aproximando o rosto, deixando que seu hálito tocasse os lábios de Saga. — Eu juro... Kanon nunca me tocou, embora queira.
O faraó diminuiu a força que fazia em seus braços e começou a afagar os hematomas que seus dedos deixaram, sua raiva sendo substituída por uma crescente angústia. Mirou as marcas na pele branca do sacerdote de Háthor.
— Tu és um ser sagrado... — murmurou, afagando as marcas, em desespero — Não posso fazer isso! Os deuses o fizeram sagrado!
Shaka sentiu os olhos úmidos e baixou o olhar. Não queria mirar o rosto de Saga, sentia um ódio crescente dentro de si e sabia que deveria controlá-lo.
Saga não pediu desculpa, um faraó é um deus e não se desculpa. Somente tomou a boca de Shaka em um beijo cheio de desejo e violência. O loiro deixou que ele o beijasse e o guiasse para seu local de repouso. O faraó o livrou das vestes e das jóias sem nenhuma delicadeza, era assim quando Saga estava com raiva ou frustrado, e ele estava especialmente frustrado naquele dia, e depois das próprias roupas.
— Tu és meu e ninguém pode tocá-lo, ninguém! — sussurrou o faraó, segurando-o pelos cabelos e o obrigando a virar-se na cama.
— Sou, sou... — murmurou Shaka cerrando os dentes, sentindo, agora ele, vontade de gritar de frustração.
“Não sou! Não sou!” Sua mente gritava, selvagem e voluntariosa.
O soberano umedeceu os dedos em um óleo perfumado que ficava numa cuia ao lado da cama e o enfiou dentro do loiro que gemeu com a forma abrupta que isso foi feito. Agradeceu mentalmente por Saga ter a preocupação de prepará-lo antes de penetrá-lo, não queria ser machucado, mas a preparação não foi suficiente e aquilo doeu. Para Shaka, o sexo era sempre doloroso. Sempre. Poucas vezes sentia prazer e geralmente fechava os olhos e tentava pensar em outra coisa, em algo que o afastasse daquela vida que o obrigava a uma passividade que não tinha, que o obrigava a suportar aquela violência, toda aquela vileza, porque ainda tinha esperança. Sim, somente a esperança o mantinha vivo.
Já Saga sentia o êxtase de invadir a firmeza apertada do corpo de Shaka; devassá-lo, possuí-lo até o fundo, numa tormenta vertiginosa que o arremessava muitas vezes ao abismo e enquanto fazia aquilo ele tentava aplacar a frustração de uma vida de renúncia, renúncia daquilo que mais amava e queria, renúncias, mentira, violência, medo. Raiva.
Shaka gemia a cada golpe do falo do faraó, mordia os lábios, sendo empurrado contra a cama com violência. Doía... Humilhava... Denegria. Ele era um príncipe! Um príncipe!...
Ele era humano... Era um garoto... Quase uma criança. Ele era um esposo... Ele era o amado.
" Se for insuportável para ti. Voe. Faça como um dia eu fiz — disse-lhe o belo cortesão — use as asas da sua mente e imagine um lugar de paz, um lugar que o deixe feliz..."
E era isso que Shaka fazia todas as vezes que Saga o tomava. Voava daquele lugar, contava histórias a si mesmo, histórias de um futuro maravilhoso.
“Da minha torre, eu observo minha cidade. Ela é calma e colorida... Há árvores altas e frondosas... Há crianças que correm e riem-se. Estamos juntos. Você sorri também ao meu lado... Você está comigo, meu amor...”
Lágrimas molharam o belo rosto do dançarino, manchando o khol; ele as afastou rapidamente com uma das mãos, enquanto a outra se apoiava na cama para receber os movimentos de avanço e recuo do corpo do rei. Precisava estar bonito, sempre bonito para o faraó — pensou no que lhe dissera Afrodite —, mas as lágrimas não paravam de cair. Há anos não chorava, por que chorava agora? Com certeza, compartilhar suas memórias com Mu o estava enfraquecendo.
Fora dali, Hades mirava o céu. Dali a duas luas receberia seus convidados do outro lado do mar e poria seu plano em ação. Tal qual Seth fez a Osíris e depois a Hórus, ele engendrava um plano para usurpar o trono de Saga, mas para isso, era necessário muito cuidado e engenho. Não deveria se precipitar, precisava ter a calma e precisava de uma ajuda crucial para que tudo desse certo. Ele precisava de Shaka.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
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