A sereia de Cerulean
1 Saudades
O garoto pôs os pés sobre a mesa de centro e suspirou. Estava cansado depois de viajar tanto. Não via a hora de chegar logo em casa e passar uma tarde pacata com as pessoas de que tanto gostava. Uma garota de cabelos azulados passou por ele e cutucou suas pernas com a ponta do calçado.
– Tire os pés da mesa, Ash.
– Sim, mamãe. – ele brincou, mas logo obedeceu.
– Engraçadinho. – murmurou Dawn com um falso tom severo enquanto se sentava ao lado do amigo no enorme e confortável sofá do Centro Pokémon de Veridian.
– Ei, gente. – disse um garoto alto de cabelos espetados, aproximando-se – Olhem só isso.
– O que é, Brock? – Ash pegou com cuidado o folheto que o amigo lhe entregava – Ah, é sobre Cerulean.
– O que é? – Dawn aproximou-se, seu rosto a poucos centímetros do de Ash – Ah, que lindo! São Goldens?
– Isso mesmo. – Ash sorriu para ela, o que causou um leve rubor em suas bochechas – E este é um Horsea. E este é um Dewgong. – o garoto apontou os pokémons do panfleto um por um, consciente de que a amiga de Unova não conhecia todos eles – E esta aqui é a...
A voz falhou por um instante. A imagem daquela garota ruiva em meio aos pokémons aquáticos mexeu com ele.
– Misty, Ash. – brincou Brock – Cuidado para não babar.
O treinador passou as costas da mão na boca, levemente irritado. Não conseguia tirar os olhos do folheto. Parecia que Misty estava dentro de um imenso aquário decorado para parecer o fundo do mar. Acima de sua cabeça, o título A princesa do mar brilhava em um lindo tom esverdeado.
Dawn olhou de Ash para o panfleto uma, duas, três vezes. Não compreendeu. O que havia de mais naquela imagem? Apenas uma garota com uma cauda verde de sereia e sutiãs de concha rosados cobrindo os seios.
“Meu par é tão bonito quanto esse.” pensou a garota de dezessete anos, alisando levemente o busto “Mas nem por isso eu uso roupas tão chamativas.”
– É a Misty mesmo? Tem certeza?
– Bom, que eu saiba, apenas uma das irmãs Waterflower é ruiva. – Brock abriu um sorriso ainda maior. Apreciava a cômica cena sentado em uma poltrona, ao lado de Piplup e Pikachu.
– Pika pi Pikachu.
– Também estou com saudades dela, Pikachu. – admitiu Ash.
– Ah! Ela é aquela garota de quem você vive falando? – indagou Dawn.
– É ela, sim.
– Você gosta dela? – a garota ergueu a sobrancelha, preocupada.
– O quê? – ele gaguejou – Claro que não! Imagina! Gostar dessa bruxa?
– E de mim? Você gosta? – a pergunta escapuliu antes que ela pudesse se conter.
– O quê?
– Como é? – Brock estreitou os olhos, não que isso fizesse muita diferença.
A garota ficou corada ao se dar conta da situação em que se metera.
– Tipo assim... Vamos vê-la? Foi o que eu disse, pessoal. – Dawn começou a rir de forma nada natural, mas foi o suficiente para os garotos pararem de prestar atenção.
– Certo... Nós vamos, não é, Brock?
– Com certeza! – o garoto fez carinho em Pikachu e Piplup.
– Ok, vou chamar a enfermeira Joy para perguntar sobre os outros pokémons. – disse Dawn, ainda um pouco constrangida.
Ela ficou de pé em um pulo e caminhou na direção da sala de repouso. No meio do caminho, a porta se abriu, e uma mulher de cabelos rosadas entrou no hall principal.
– Alguém me chamou?
– Joy! – cantarolou Brock, ajoelhando-se aos pés da enfermeira em apenas dois segundos – Sei que não sou um treinador interessante, mas de dá uma “chansey”?
Dawn caiu na gargalhada, enquanto a enfermeira simplesmente erguia a mão para mostrar uma aliança.
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