A sereia de Cerulean
6 Maturidade
Dawn observou tudo de perto. Havia acabado de alcançar a porta da cozinha quando Ash iniciou sua declaração. Ao ouvir aquelas palavras, ela sentiu um formigamento estranho, uma eletricidade indescritível. Surpreendentemente, não estava com ciúmes. Estava feliz. Era bonito vê-los juntos. Apesar de tudo, sentiu vontade de chorar. Sabia que nunca mais teria Ash para si. Nunca mais.
Depois de uma eternidade, eles finalmente notaram a presença dela. Afastaram-se, sem jeito. Nenhum deles parecia com raiva. Dawn estava a ponto de fugir para se desfazer em prantos de novo, quando Ash estendeu o braço.
– Por favor, Dawn. Venha.
Ela se aproximou de mansinho. Viu que Ash tremia. Olhou de relance para Misty e viu que ela também tremia, evitando a todo custo olhar a garota de cabelos azulados.
Naquele momento, Dawn tomou sua decisão. Segurou a mão de Ash, depois a mão de Misty. Depois juntou a duas e deu um passo para trás.
– Não consigo imaginar um casal mais perfeito. Vocês se amam.
Ash e Misty trocaram olhares. Dawn estava certa.
– Eu te amo, Misty. – ele disse.
– Também te amo, Ash.
Eles se beijaram de novo, e, desta vez, Dawn quis chorar de alegria. Piplup estava a apenas alguns passos da mestra e observava tudo sem entender. Pikachu pulou para o colo de sua querida amiga de cabelos azulados. Dawn sorriu e pegou Piplup no colo também.
– Vamos deixá-los sozinhos. – cochichou com um sorriso no rosto.
.
Brock não teve a mesma sorte. Ele foi até a sala de ensaio e se sentou perto da borda da piscina. Não se preocupou em ligar todas as luzes. Acendeu apenas algumas lâmpadas, o suficiente para enxergar onde pisava.
Ele ouviu as risadas pouco antes de Victor e Victoria aparecerem. Estavam de mãos dadas. Riam. Estavam sempre rindo, na verdade. Eles caminhavam perto da outra borda. Sequer notaram a presença de Brock, oculto como este estava na penumbra.
Aquela meia luz criava um clima perfeito para um namoro. Por um instante pavoroso, Brock achou que eles fossem tirar a roupa e deitar ali mesmo. Em vez disso, o casal ficou fazendo brincadeiras de empurrar um ao outro com o quadril e de abraçar pela cintura. Em um momento, Victor quase derrubou a garota na água.
– Aii! – ela berrou.
Com o empurrão, Victória parou bem na borda da piscina. Victor deu risada e depois a puxou para um beijo longo e apaixonado. Quando se separaram, apenas trocaram olhares, até que ele a chamou para dançar uma música que ninguém escutava. Uma valsa.
Sentado onde estava, Brock via a si mesmo. Dançava com Misty em seus braços. Eles trocavam beijos e carícias ousadas. Quase podia ver a ruiva fazendo beicinho enquanto reposicionava a “mão boba”.
“Eu não devia ser tão mentiroso...” pensou, passando as mãos no rosto “A quem estou tentando enganar? Dawn? Ou a mim mesmo?”
Victor e Victória se beijaram de novo e dessa vez ela suspirou. Começou a fazer carinho na nuca de Victor, e ele apenas fechou os olhos para aproveitar o momento.
“Nunca sentirei o toque dela. Ou o beijo dela...” pensou Brock “Isso não é justo.” Ele cerrou os punhos “Sou muito mais maduro do que o Ash. Ele só a faz sofrer, então, por que ele? Por quê?”
O casal a sua frente decidiu ir embora, porque já era tarde. A sua frente, Brock começou a criar outra imagem. Ele e Misty. Ele e Misty juntos. Ele e Misty se abraçando. Ele e Misty se beijando. Misty tirando a roupa lentamente e deslizando o pé sobre a superfície da água da piscina.
“Eu sou mais maduro. Eu posso fazê-la feliz. Muito feliz. Muito mais feliz.” ele suspirou “Mas ela não me escolheu... E agora eu não posso ser aquele a fazê-la feliz...”
Ele cobriu o rosto de novo e se permitiu chorar.
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