Sétimo dia de missão, eu já havia enfrentado alguns lestrigões, uma górgona (que graças aos deuses não era a Medusa), depois de ter quase morrido um zilhão de vezes, me machucado bastante, e o nosso destino parecia ainda bem distante. Depois da luta com os lestrigões, resolvemos parar um pouco para descansar. Era de manhã ainda e tínhamos uma longa jornada pela frente.

Eu estava arrumando minha mochila para continuar a viagem e Perseis estava ao meu lado, quando do nada uma lança dourada passa a um centímetro do meu rosto.

– AAAH! O QUE É ISSO? — eu gritei, assustada.

– Desculpa, Mai! Ela desenrolou! — disse Perseis.

Olhei para o lado e vi que a lança saia da mochila de Perseis. Ela fez um movimento com as mãos e a lança diminuiu até virar uma...

– O que é isso? — perguntei.

– Meu presente de aniversário de 16 anos. Mike que me deu. — ela disse amarrando o lenço preto no pulso. — É uma bandana, uma bandana-lança. — ela riu.

– Hum... Metallica! Você gosta? — disse Derek, se referindo a Perseis.

– Muito! — ela disse, com muita ênfase.

– Uma garota que gosta de rock? Que incrível! — disse Derek.

– Tem certeza de que você é mesmo menina? — perguntou Eric.

Todos olharam pra ele com cara de "Sério?!", Perseis mandou outro olhar de ódio pra ele e saiu conversando com Derek sobre outras bandas. Eu e o Eric ficamos um pouco mais pra trás.

– Eric, querido... pare de me matar de vergonha! — eu disse.

– O que? Foi só uma pergunta... — ele começou.

– Idiota! — eu o interrompi. — Uma pergunta idiota!

– Mas, mas... As meninas não gostam de rock, nem são... ASSIM que nem ela!

– Assim como?

– Assim.... assim.... — ele abaixou a cabeça e disse baixinho. — Perfeita.

Olhei para ele, mas com ternura, e esperei que ele continuasse.

– Por que? Por que ela é assim? Por que isso me atrai? Por que eu pareço um completo babaca com ela por perto? Eu queria tanto que ela não me odiasse! Eu nunca vou conquistá-la.

Não falei nada, só fui andando ao lado dele e pensando. Fiquei com pena dele. Querendo ou não, isso era verdade, ele quando perto dela ficava nervoso e acabava bancando o idiota. E com isso ela o odiava mais. Se eu pelo menos conseguisse saber o que ela sentia por ele...

Fomos andando embaixo do sol pelas estradas desertas. De vez em quando passava um carro solitário pela rua. O sol já estava bem alto no céu e fazia muito calor. Resolvemos parar um pouco para nos refrescar embaixo da sombra de algumas árvores que nós encontramos. Meu estômago roncava alto, o café da manhã não passava de uma distante lembrança.

– Vou morrer de fome! — disse Mike!

– Eu também! — concordou Derek.

– Mais quanto tempo para chegar na cidade? — perguntou Nice.

– Se formos a pé... mais um dia e meio. — respondeu Eric.

Todos gememos infelizes.

– Tem que ter algo pra comer mais pra frente. — eu disse.

– Já andamos por umas quatro horas... Não tem nada aqui. — reclamou Bía.

– Maldita estrada. — reclamou Percy.

– Que caloor! Vou desitratar de tanto suar. — reclamou Perseis.

Ficamos deitados no chão reclamando, os meninos (sortudos) tiraram as camisas para tentar fugir do calor e foi então que eu vi que Mike tinha uma espécie de tatuagem no antebraço direito. Perseis, assim como eu e as meninas, estava levantando as mangas para formar uma regata e vi uma tatuagem parecida com a de Mike, mas acontece que a dela tinha um tridente e a de Mike, uma águia. Estavam escritos também as letras SPQR acima do desenho e, em Perseis, haviam cinco listras pretas na vertical, e em Mike haviam quatro. Olhei Percy e ele tinha uma tatuagem semelhante a de Perseis, só que somente com uma listra.

– O que... o que é isso? — eu disse, tocando a tatuagem de Perseis.

– A marca romana. Fazem isso em nós quando fazemos algo grandioso que ajude o acampamento. — disse Mike.

– Qualquer semideus romano que tenha sido reclamado e ajude significativamente o acampamento ganha uma dessa. E a cada ano, uma listra aparece. — disse Perseis.

– Mas... Percy é grego... — eu disse, confusa.

– Mas fiquei um tempo no acampamento Júpiter. E os ajudei a derrotar um gigante. Só tenho uma linha, porque eu fui embora para o acampamento grego depois. — explicou Percy.

– Uau! — eu disse e imediatamente me lembrei de um dos livros de Riordan que conta exatamente a história de Percy no acampamento romano. — Mas, dói? Sabe, fazer a marca?

– MUITO! — disseram os três ao mesmo tempo.

– Mas é uma honra tê-la. — disse Mike.

Eles me explicaram mais um pouco sobre como cada um ganhou sua marca, até que tivemos que levantar, pois precisamos continuar o caminho. Começamos a andar de novo até que ouvimos um barulho nada bom vindo de trás de nós.

Viramos e havia um leão. Não um leão comum, mas um com o triplo do nosso tamanho, um leão de Neméia. Todos pegamos nossas armas e nos preparamos para lutar.

O leão atacou e nós fomos aos seu encontro. Lutamos com todas as forças, mas estávamos exaustos e fracos. Eu estava dando o meu máximo, mas por causa de sua juba, a minha espada não conseguia encontrar sua pele para matá-lo. Eu tentei muitas vezes ferir suas patas para que ele caísse, mas ele não se abalava.

– Precisamos distraí-lo! — gritei. — Percy, joga um jato de água nele!

– Não posso! — disse ele, enquanto escapava por pouco de ser pisado. — Não tem água por perto e o sol está me deixando sem muita reserva de água no corpo.

Desviei de um raio de Mike que sem querer quase me acertara e pensei: "é... vou morrer!".

– Já sei! — gritou Perseis.

Ela correu ao encontro de Percy e pegou a mão dele, eles se olharam e, do nada, começaram a flutuar e a brilhar. Ficaram envoltos por um monte de magia e, do nada (de novo), uma onda enorme surgiu. Ela tinha pelo menos uns seis metros de altura. A onda envolveu o leão e parecia estar estrangulando-o. Ele se debatia freneticamente a procura de ar e dava cabeçadas no redemoinho de água, tentando fugir. A onda se agitou mais e o leão começou a fraquejar. No fim, o leão morreu e sumiu junto com a onda, deixando apenas a sua juba que virou um casaco estilo de aviador.

Percy e Perseis pararam de brilhar e caíram com tudo no chão. Eles ainda estavam de mãos dadas, mas estavam desacordados.

– O que... o que aconteceu? — perguntou Bía, confusa.

– Eles ativaram o poder máximo, mas estavam sem energia suficiente... — começou Mike.

– Fazendo com que ficassem esgotados. — eu concluí. — Eles não precisavam ter feito isso.

– Tá legal! E o que vamos fazer agora? — perguntou Nice. — Eles estão desmaiados e pelo jeito vão ficar assim por um bom tempo.

– Acho que consigo fazer um deles flutuar. — falou Mike, pensativo.

Ele fez uma cara de concentração, esticou o braço e abriu a mão na direção de Percy. Passados alguns segundos, o corpo desacordado dele se ergueu do chão.

– Consegue levantar Perseis também? — perguntou Derek.

– Não... — disse Mike, enquanto estabilizava o corpo de Percy no ar. — Equilibrar só ele já vai ser difícil.

– O que vamos fazer com ela então? — perguntei. — Não podemos deixá-la aqui!

Nos entreolhamos e ninguém sabia o que fazer. Eric me entregou a espada dele, foi até onde Perseis estava, a pegou nos braços e levantou. Ficamos parados olhando... meio surpresos.

– O que? — disse Eric, se virando para nós. — Vamos andando... Precisamos tirá-los do sol e achar água.

Começamos a andar e eu corri para o lado de Eric.

– Então... — comecei. — Como é ter ela em seus braços?

Dei uma risadinha e ele riu fraco.

– Não era bem assim que eu imaginava, mas ok. Melhor que nada. — ele respondeu.

– Ia ser engraçado se ela acordasse agora. — eu disse.

– Ela ia ficar brava... e gritaria comigo.

– Então! — eu ri.

Ele riu e disse:

– Chata!

Eric me empurrou de leve com o ombro e nós dois rimos. Com esse pequeno empurrão, a cabeça de Perseis acabou pendendo para o lado e encostando no peito de Eric (já disse que ele ainda estava sem camisa?) o que fez com que ele abrisse um largo sorriso.

– Ela está deitada no meu peito. — ele sussurrou.

– Você sabe que... — comecei.

– Deixa eu curtir o momento. — ele disse, me interrompendo. — Esse é o mais perto de romance que eu vou conseguir com ela.

Ri com isso e dei um pequeno tapa em seu braço, fazendo-o rir também.

– NÃO ACREDITO! — berrou Derek e apontou para a frente. — COMIDA!

Olhei para a frente e pude ver uma pequena lanchonete a uns 15 metros de nós. Minha boca se encheu de água e meu estômago roncou alto.

– ALELUIA! — gritou Bía. — ALMOÇO! Às três da tarde, mas... ALMOÇO!

Apressamos o passo e chegamos na lanchonete. Ao abrir a porta senti o ar condicionado batendo em minha pele. QUE DELÍCIA! Mike parou de fazer Percy flutuar e ele e Derek o carregaram para dentro. Me joguei no banco, completamente esgotada e Derek colocou a cabeça de Percy em meu colo. Eric veio depois e se sentou ao meu lado com a cabeça de Perseis em seu colo.

Os meninos vestiram suas camisas novamente e Nice voltou com uma bandeja cheia de salgados, pães e garrafas d'água. Meus olhos brilharam... COMIDA!

Eric pegou uma garrafa de água, virou um pouco em sua mão e passou a mão pelo rosto de Perseis. Fiz o mesmo com Percy.

Acabamos com a garrafa inteira até que reparamos uma mudança. A pele deles parecia ter voltado a cor normal e eles pareciam descansados. Percy, então, abriu os olhos.

– Ooi! Está melhor? — perguntei.

Ele se sentou e resmungou alguma coisa. Estendi sua camisa e ele a vestiu.

– Estou sim, obrigado! — disse ele e sorriu fraco.

– Ela não acordou... — disse Eric se referindo a Perseis.

Olhei para ela. Ela, definitivamente, estava com uma aparência melhor, mas seus olhos ainda estavam fechados.

– Ela é mais nova que eu, só tem 16. Os efeitos podem durar mais tempo nela do que em mim. — disse Percy.

Escutei Eric sussurrar um "por favor, acorda!", mas acho que ninguém mais escutou. Depois de uns cinco ou dez minutos, Perseis suspirou e começou a se mexer.

– Ela está acordando! — disse Eric, tentando conter a alegria.

Ela esfregou os olhos e depois os abriu.

– Hum... O que? ERIC?

Ela se levantou numa velocidade ninja, mas logo depois deitou de novo com as mãos na cabeça.

– Aai, minha cabeça! — ela gemeu.

– Calma, pode ficar deitada. Você precisa descansar. — disse Eric.

Ela, primeiramente, fez uma careta, mas depois concordou e se ajeitou no colo dele. Depois ela pediu a comida e começou a comer.

Terminamos de comer e ficamos sentados conversando. Eu me sentia bem melhor agora, podia continuar o caminho sem problema. Percy já estava completamente renovado e contava como era a experiência de ativar o poder máximo. Perseis ainda estava deitada nas pernas de Eric e eles estavam conversando. Sim, conversando! SEM BRIGAR! Até riram juntos uma hora.

– E você, Mai? — perguntou Derek e colocou a mão em cima da minha, me fazendo surtar completamente por dentro. — Está melhor?

"Melhor agora que você me tocou", pensei.

– Aham! — confirmei.

– Você precisava comer, não é? — ele disse e riu.

"Não, eu preciso de você! Me abraça!", tá legal, meus pensamentos estão loucos.

– E como! — eu disse, somente, ignorando meus pensamentos. — Eu estava roxa de fome.

Ele deu um daqueles sorrisos que me faz derreter por dentro e tirou a mão dele de cima da minha. Saimos da lanchonete e voltamos ao calor do dia! ¬¬'

Notas finais
Continua...