A semente do mal
1 A mudança
- Desculpe Jerry, mas são negócios. Precisamos cortar gastos. Não é nada com você ou seu trabalho, muito pelo contrário. Estamos muito tristes por termos que demiti-lo, mas não temos escolha.
- Sempre há uma escolha, Samy. Sempre. Vocês poderiam ter me avisado com antecedência, que estavam planejando algo do tipo. Assim, eu poderia ter me preparado melhor. Eu tenho um filho, uma casa e uma mulher pra sustentar, Samy. O que farei agora? Minhas contas não esperam até eu arrumar um novo emprego.
- Eu sei Jerry. Se fosse eu quem decidisse isso, eu não teria escolhido você. Mas eu não posso fazer nada. Infelizmente.
- Tudo bem Samy. Eu entendo. Bom, vou pegar minhas coisas agora. A gente se fala amigo.
Jerry era um médico do Hospital Saint Father, em Chicago. Ele é um pediatra e, desde que entrou pra faculdade, era essa a carreira que queria seguir.
Com 38 anos, Jerry é pai de um filho: Rob, de oito. Sua esposa, Ellen, tem 35, e, depois que teve Jason, ela trabalha em casa.
- Tchau, Samy. Estou indo pra casa. Qualquer coisa, me ligue. Abraços amigão.
Jerry e Samy eram amigos desde que começaram a faculdade de Medicina. Estudavam juntos, praticavam juntos, formaram suas famílias quase ao mesmo tempo. Samy estava tão chateado quanto Jerry, com a situação. Jerry sempre fora melhor que ele, e, no entanto, fora seu melhor amigo quem foi mandado embora. Precisava fazer algo, para ajuda-lo. E se lembrou de algo importante.
- Boa tarde, senhor Hopkins.
- Boa tarde Dr. Engnton. Em que posso ajudar?
- É sobre Jerry senhor.
- Novamente, Samy? Já lhe disse, que não há nenhuma possibilidade de mantermos ele aqui. Eu sei o potencial dele, mas, infelizmente, o hospital já tem pediatras demais.
- Eu sei, senhor. Mas quero falar sobre a nova filial, do hospital, que foi aberta no interior do Maine. Pelo que ouvi, há muitas vagas por lá e, a empresa está oferecendo moradia para os médicos que quiserem trabalhar por lá. Pelo que conheço do Jerry, ele iria adorar aquele lugar Ele, há tempos, reclamava da "movimentada e estressante" Chicago. Será que não poderíamos alocá-lo para lá?
- Hmmm. Não havia pensado nessa possibilidade Samy. Você acha que ele largaria tudo aqui, para morar no interior?
- Acho sim, Senhor. Ele já havia compartilhado comigo alguns planos de aposentadoria, e morar em um lugar mais calmo, era um deles. Como ele dizia, um lugar seguro para seu filho crescer e viver. Era o que ele queria. Se o senhor autorizar, eu mesmo falarei com ele sobre isso.
- Ok Samy, tem minha autorização. Assim, nenhuma das partes sai perdendo. E o hospital de lá está em falta com médicos, mesmo.
- Obrigado senhor. Muito obrigado mesmo.
Samy esperou seu turno acabar, foi pra casa, tomou um banho e foi para a casa de Jerry. Tocou a campainha.
- Oi Jerry, entre por favor. — Disse Ellen.
- Obrigado Ellen. Tudo certo?
- Tudo sim, Samy. Bom, mais ou menos né. Mas vamos dar um jeito. Venha, Jerry está na varanda lá atrás.
- E ai amigão. Precisamos conversar.
- E ai Samy. Chega mais. Quer uma cerveja?
- Opa, com certeza.
Jerry passou uma cerveja para Samy, olhou para as árvores atrás de sua casa.
No meio do quintal, estava o cão da família. Um são bernardo , com uns três anos de vida. Rob o chamava de Digger, porque, desde que o pegaram, sua especialidade era de cavar. Cavar para encontrar coisas. Cavar para esconder coisas. E, lá estava Rob e Digger, brincando no meio da grama. Rob gostava de andar por ai, explorar. Jerry fitou Rob e Digger por alguns segundos, e falou:
- Então cara, o que precisamos conversar?
- Jerry, achei uma possível saída pra tudo isso. Conversei com o Senhor Hopkins e, se lembra daquele Hospital novo que abriu no Maine? Em Chasses?
- Hmmm. Me lembro sim. Falaram que seria um hospital tão bom quanto o nosso, mas, no fim, estavam em falta com médicos, para atender a população. E, também, ninguém entendia como uma cidade tão pequena tinha tanta necessidade de mais médicos.
- Sim, isso mesmo. Então cara. Eles estão precisando de médicos lá, como você disse. E, aos que aceitarem o trabalho, o hospital cede a moradia. Jerry, é o que você queria. Uma vida no interior, tranquila para seu filho. E, você terá mais tempo para passar com ele e com a Ellen.
Jerry ficou pensativo por uns segundos. Olhou novamente para as árvores, para Rob e Digger, e suspirou.
Realmente, era o que ele queria havia alguns anos. Chicago estava cada vez mais violenta e, com Rob crescendo, tinha medo. Medo do que poderia acontecer com ele. Medo das escolhas que ele poderia tomar. Medo das pessoas que o influenciaria. Chicago não era mais uma cidade boa para se ter uma família.
Queria ir pro interior. Lá, poderia criar o menino com mais segurança. Poderia criar animais, plantar. Rob poderia andar pelos matos, desbravando novos lugares, como gostava de dizer. E Ellen, ah, como ela reclamava da sua ausência na vida do filho e dela. Chicago não parava e, constantemente, ele tinha de ficar no hospital fazendo plantões.
Se aceitasse o cargo, poderia passar mais tempo com todos. Aproveitar melhor sua vida. Ela havia parado, há uns dois meses, porque não tinha mais tempo. É, Jerry achava que, no fim das contas, valeria a pena.
- Realmente, amigão, era o que eu queria. Mas não sei se Ellen vai gostar da ideia. Mas, prometo que vou pensar e conversar com ela.
- Ótimo cara. Espero que dê certo.
- E nós? Finalmente, vamos nos separar? — E, agora, Jerry estava sorrindo.
- Poisé, cara. Acho que, se isso der certo, teremos que dar um tempo. — E agora, os dois estavam rindo. — Bom Jerry, tenho que ir agora. Jena está me esperando com um jantar gostoso. E, ao contrário de você, ela cozinha muito bem. Caso decida algo, me avise, sim?
- Pode deixar Samy. E obrigado por isso.
- É pra isso que servem os casais, huh? — Se levantou e foi embora.
- Tchau Ellen.
- Tchau Sammy. Mande um beijo para a Jena.
- Pode deixar.
Após uma longa conversa com Ellen, os dois decidiram que se mudariam. Avisaram Rob, também. Quando ouviu a notícia, colocou um sorriso de orelha a orelha no rosto. Em Chicago, havia pouca coisa para que ele pudesse explorar, até porque Ellen e Jerry o proibiam de sair de dentro do terreno. Quando soube que, na nova cidade, poderia andar por tudo, não conseguiu controlar a excitação.
Certamente, Jerry ficou muito contente com aquilo. Seu pior medo era que o filho não aceitasse tão bem a mudança, afinal, teria de deixar seus amigos e tudo que conhecia, para começar tudo do zero.
– Mas o Digger irá conosco, não é pai? – Perguntou Rob. – Ele é meu companheiro de aventuras, e não poderei desbravar o mundo sem ele.
– Claro que irá, filhão. Vocês dois terão um mundo inteiro para descobrir, pode apostar.
Eles iriam embora dali a quatro dias.
– Então, vá empacotar as suas coisas, e depois, as coisas do Digger. – Jerry falou para Rob, e assim ele fez.
A casa em que viviam, seria posta a venda, mas, quem cuidaria de tudo, seria a mãe de Ellen.
– Mamãe virá aqui antes de irmos embora, para que possamos deixar as chaves com ela – Falou Ellen. – Pelo que ela me disse, já tem uns três interessados na casa.
– Oh, isso é ótimo. O que seria de nós sem minha linda sogrinha, hein?
Ellen deu um tapa, de leve, nas costas de Jerry e um sorriso. Jerry, retribuiu o sorriso e lhe deu um beijo.
– Acho que agora dará tudo certo. Terei tempo pra vocês, e poderemos curtir mais uns aos outros.
– Oh, isso parece muito interessante, Senhor McFillan. Muito interessante.
Os dois tomaram um banho e foram para a cama.
No dia da mudança, como prometido, a mãe de Ellen, senhora Liona, apareceu para pegar as chaves. Estava tudo pronto. As malas estavam no carro, os móveis dentro do caminhão. Digger, iria na carrocinha, que era engatada atrás do carro.
– Vão com cuidado, meus queridos. E Jerry, não dirija muito rápido. Assim que eu puder, visitarei vocês. Não se esqueçam de me ligar quando chegarem lá.
– Pode deixar, Li, cuidarei bem deles – disse Jerry – e lhe deu um beijo no rosto.
– Até mais mamãe. Se cuide.
Rob também deu um beijo na avó, e entrou no carro. Jerry colocou Digger dentro da carrocinha, e também entrou.
– É hora de partirmos! Chasses, aqui vamos nós.
– IRRAAAAAAAAAAAAAAAAA – berrou Rob, no banco de trás, o que fez com que todos os outros dessem um pulo.
Ao perceber, Rob deu uma risada, e os três começaram a rir. Jerry ligou o carro, e começaram a viagem rumo a nova cidade.
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