A seleção - Interativa
4 Capítulo 4
Notas iniciais
O ar no castelo ficou um pouco pesado após o anuncio do casamento. Hoje minha irmã embarca para a Itália, para conhecer melhor a família do Raul. Mas eu podia ver meus pais a olhando como se ela já tivesse ido embora.
Eu adorei que a atenção tenha mudado de lado, meus pais quase nunca falavam da seleção. Até agora.
Estávamos todos sentadas à mesa tomando café quando minha mãe olho pra mim e disse:
–Hoje começa as inscrições Thomas- Ela parecia até determinada ao dizer isso.
–Inscrições ?- Não podia ser, então isso era realmente real.
–Sim, as inscrições para a seleção. Não se faça de surpreso meu filho, até que demorou para começar – Naquele momento minha cabeça parecia que ia explodir, então simplesmente levantei da cadeira e corri para fora sala, quando me dei conta já estava no jardim.
Não era justo essas garotas nem terem chegado e já começarem a me dar dores de cabeça. Eu não podia deixar que elas mexessem tanto comigo. Elas não tinham nada de especial, eram apenas garotas normais. Ou não ?
Avistei um banco no meio do jardim e corri em direção a ele enquanto repetia a mim mesmo: ‘’respira, respira, respira’’.
Alcancei o banco e sentei. Coloquei minhas mãos na cabeça.
Desde de pequeno eu soube que iria assumir o trono um dia, e que teria muitas responsabilidades também. Mas nunca me veio à cabeça como eu encontraria uma esposa, o que é bem estranho.
Mesmo convivendo com meus pais e com minha irmã, eu nunca acreditei nesse amor tão forte.
Quando eu tinha 9 anos eu e Olivia estávamos brincando pelo castelo, eu estava na cozinha quando me deparei com uma das cozinheiras. Era uma mulher rechonchuda e inspirava tensão, ela olhou direto para mim e disse: ‘’com o amor vem dor garoto, nunca se esqueça disso’’, eu nunca soube porque ela disse aquilo, também nunca mais a vi, mas nunca contei para meus pais sobre isso, com medo de fazerem alguma coisa para aquela mulher, mas nunca esqueci suas palavras.
– Quer companhia ?- Sai de meus devaneios, levantei a cabeça um pouco assustado e me deparei com minha irmã sentada no banco ao meu lado.
– Você não devia estar se arrumando para sua viagem à Itália?- Pergunte a ela.
–Sim, mas achei melhor vim falar com você primeiro- Eu conhecia aquele olhar, ele sempre vinha acompanhado de um sermão- Sabe Thomas, não sei porque você está tão assustado com a seleção. Você é sempre tão seguro.
–Boa pergunta. Isso simplesmente me assusta.
– Você é tão burro a ponto de achar que irá conviver com tantas garotas e não vai se apaixonar por nenhumas ? O que o papai disse é verdade, nem todas querem a coroa- Ela parecia tanto minha mãe quando falava dessa maneira.
Fiquei um tempo em silencio pensando no que ela disse.
–Como é ?- Perguntei olhando em seus olhos.
– Como é o que ?- Ela perguntou de volta.
–Olhar para uma pessoa e imaginar sua vida inteira com ela ?- Perguntei, a peguei de surpresa com essa pergunta.
–Ah Thomas, é magico- Falou com um ar sonhador- É como se nada mais importasse. E todas as incertezas, as dores e os problemas fossem embora de uma só vez.
–Então é por isso que o amor causa tantos problemas, você esquece as coisas importantes.
– Você apenas acha isso porque nunca conheceu alguém que valha a pena- Falou e olhou para o relógio- Nossa, tenho que ir, já estou atrasada.
Ela me abraçou e sussurrou em meu ouvido:
–Saiba que você é digno de amor Thomas, você é umas das pessoas mais bondosas que já conheci, e não estou falando isso apenas porque quero um ótimo presente de casamente.
Nós dois rimos.
– Quando você volta ?- Perguntei. Já estava sentindo sua falta.
– Antes da seleção começar, pode ter certeza- Respondeu sorrindo.
– Volte em segurança okay ?- Ela já estava se levantando para ir embora.
–Pode deixar, adeus Thomas.
–Adeus Olivia- Ela sorriu, se virou e saiu andando.
Fiquei sentado naquele banco a tarde inteira, quando resolvi voltar para o castelo já tinha escurecido. Comecei imaginar quais meninas já se inscreveram, quem elas eram e quais as suas histórias.
Meu pai já contou centenas de vezes a história de como conheceu minha mãe, e não foi um encontro muito amistoso. Até hoje ele tem pavor de ver garotas chorando, lembro até hoje uma vez que minha irmã caiu do cavalo e quebrou o braço, ela tinha apenas 9 anos e chorava desesperadamente, ele quase ficou louco. Eu já não tenho muito do que reclamar sobre choros, o que eu realmente não sou muito fã é de garotas que não falam muito, me deixa desesperado não saber o que estão pensando.
Acho que as escolhas de selecionadas vai ser bem eclética, com garotas para todos os gostos. Eu espero.
Passei pelas grandes portas e subi as escadas em direção ao meu quarto. Estava torcendo para não encontrar ninguém durante o caminho.
É entranho como você pensa a sua vida inteira quando está frustrado. Você começa a se perguntar sobre suas escolhas, e como está convivendo com elas.
Sempre me achei uma pessoa normal, eu acordava e dormia como qualquer outra pessoa. Não reclamo da minha vida, aprendi bastante sobre o passado e Illéa, e sei que já houve muito sofrimento antes dos meus avós morrerem. E sei que foi meus pais que acabaram com a desigualdade, as chamadas ‘’castas’’, e os admiro muito por isso.
Eles são as pessoas que mais tenho orgulho, e se fosse para escolher que tipo de rei serei, escolheria ser igual meu pai, quero fazer o bem, quero ajudar as pessoas.
Cheguei ao meu quarto e fui direto para a cama, não estava com sono, mas ela me ajudaria a pensar um pouco sobre o que minha irmã me disse.
Talvez ela estivesse certa, e nem todas as meninas tivessem se escrito na seleção apenas pela coroa.
Ou pelo menos era isso que eu queria acreditar.
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