A saga do sertão - New Legends Universe CDZ
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O distinto público imagine Matt e Gustavo sentados conversando na praça em frente à igreja em Cabaceiras, sertão da Paraíba.
Matt
E ele vem mesmo...? Estou desconfiado, primo. Você é tão sem confiança.
Gustavo
Eu, sem confiança? Que é isso, Matt... Está me desconhecendo? Juro como ele vem. Quer benzer o cachorro da mulher pra ver se o bicho não morre. A dificuldade não é ele vir, é o padre benzer. O bispo está aí e Padre João não vai benzer o cachorro.
Matt
Não vai benzer? E por quê? Que é que um cachorro tem demais? Eu mesmo trouxe Lipe para Cabaceiras e todo mundo gosta dele por aqui. Até Padre João.
Gustavo
Bem, eu digo que é assim porque esse povo é cheio de coisas, mas não é nada demais... Eu mesmo já tive um cavalo bento.
Matt
Que porra é essa, Gustavo?? [Matt passa o dedo na garganta.] Eu já estou ficando por aqui com suas histórias. Desde o Santuário... desde o Japão... Desde o orfanato... Desde Natal... Em todo lugar... Você não muda nunca. É sempre uma coisa toda esquisita. Quando se pede uma explicação, vem sempre com "não sei, só sei que foi assim".
Gustavo
Mas eu tive mesmo um cavalo, meu filho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive?
Matt revira os olhos simplesmente por ouvir Gustavo o chamando de "meu filho". Está se segurando para não soltar o verbo contra o próprio primo, que cresceu junto dele como se fosse um irmão. Sempre se recorda de que Gustavo é quase 1 ano e 6 meses mais novo do que ele.
Matt
Você vem com uma história dessa e depois se queixa porque o povo diz que você é sem confiança! Homem de Deus... toma juízo.
Gustavo
De novo isso? Eu, sem confiança? Antônio Martinho está aí para dar as provas do que eu digo.
Matt
Antônio Martinho?? Faz três anos que morreu.
Gustavo
Mas era vivo quando eu tive o bicho.
Matt
Quando você teve o bicho? E foi você quem pariu o cavalo, Gustavo? Que droga... Isso tá ficando fora de controle.
Gustavo
Eu, não. Mas do jeito que a coisa vai, não me admiro de mais nada. No mês passado, uma mulher pariu um, na serra do Araripe, para os lados do Ceará. Ei, se lembra de quando sentamos perto da fogueira e ficamos conversando sobre as músicas e a vida do Luiz Gonzaga, inclusive sobre ele no Ceará? Por ele ter ligação com o estado, já que nasceu perto da divisa entre PE e CE e serviu ao exército por um tempo por lá, e...
Matt
Luis Gustavo Suárez, não mude de assunto, seu lagartixa. E isso aí que você falou deve ser coisa da seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino e haja cavalo no mundo. A comida é mais barata e é coisa que se pode vender. Como está Maílla?
Gustavo
Ela tá bem. E como está Isabella? Me dê notícias dela quando puder.
Matt
Minha Flor está bem. Estamos bem. Dou sim, pode deixar. Mas e o seu cavalo, como foi??
Gustavo
Foi uma senhora que me vendeu barato, porque ia se mudar, mas recomendou muito cuidado, porque o cavalo era bento. E só podia ser mesmo, porque cavalo bom como aquele eu nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota, sabe aquelas vacas bem novinhas?
Matt
Sei sim.
Gustavo
Então fomos eu e o cavalo, das seis da manhã até as seis da tarde, sem parar nem um momento, eu a cavalo, ele a pé. Fui derrubar a novilha já de noitinha, mas quando acabei o serviço e coloquei um chocalho na maluca, olhei ao redor, e não conhecia o lugar em que estávamos. Tomei uma vereda que havia assim por lá, e saí tangendo o boi...
Matt
O boi? E por um caminho estreito, ainda mais? Aliás, não era uma garrota??
Gustavo
Uma garrota e um boi. Isso.
Matt
E você correu atrás dos dois de uma vez??
Gustavo
Corri sim, é proibido?
Matt
Não, mas eu me admiro é eles correrem tanto tempo juntos, sem se separarem. Como foi isso??
Gustavo
[Abrindo um sorriso largo] Não sei, só sei que foi assim. Saí tangendo os dois e de repente avistei uma cidade. Você sabe que eu comecei a correr da ribeira do Taperoá, aqui pela Paraíba. Pois bem, na entrada da rua perguntei a um homem onde estava e ele me disse que era Propriá, em Sergipe.
Matt
SERGIPE, Gustavo??
A essa altura Matt já está se segurando para não ficar gritando a plenos pulmões para que todos em Cabaceiras o escutem.
Gustavo
Sergipe, Matheus. Eu tinha corrido até lá no meu cavalo. Só sendo bento, mesmo!
Matt
Não me chame de Matheus, só Isabella me chama assim.
Gustavo
Tá certo.
Matt
Mas porra, Gustavo, e o Rio São Francisco, afinal de contas?? Homem de Deus... que história mais sem pé nem cabeça.
Gustavo
O rio só podia estar seco nesse tempo, porque não me lembro de quando passei por ele, se é que passei... E nesse tempo todo, o cavalo ali comigo, sem reclamar nada...!
Matt
Eu me admirava era se ele reclamasse.
Gustavo
Teria sido algo de proporções bíblicas... rsrs
Matt
Nem me fale, homem de Deus. O jumento de Balaão está aí para provar. Como nas aulas de religião com o Mestre Gomes lá no Santuário.
Gustavo
Mestre Gomes bem que poderia ter sido padre.
Matt
Fala um negócio desses não, homi. Mestre Gomes é casado e gosta muito da esposa. Ela é professora, também. Ele tá feliz só nos dando aula de religião e nos castigando em cada aula e treinamento.
Gustavo
Esposa? Casado?
Matt
Tem foto dos dois juntos na sala dele. Na escrivaninha.
Gustavo
E como eu ia saber?
Matt
Se você fosse mandado até a sala dele ou estivesse cumprindo detenção, saberia. Eu já fui.
Gustavo
E Isabella te chamando de "meu aluno exemplar"... Quem diria! E como foi isso?? Me conta.
Matt
Assunto para outro momento. Mas me conte do seu cavalo... Mais alguma coisa? Se é que ele existiu mesmo.
Gustavo
É por conta dessas e de outras que eu não me admiro mais de nada, Matt. Cachorro bento, cavalo bento, tudo isso eu já vi.
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