A saga de Beatrice- A aprendiz de vampiro
20 Uma boa conversa
Foi horrível sentir todos os meus sentidos entorpecerem enquanto eu perdia a imagem do rosto de Sr. Crepsley na fumaça. Ouvi vozes exaltadas e vi um vulto vermelho chegar perto de mim. Depois o escuro e o gosto de sangue, mas não era o gosto de sempre. Talvez fosse a sede ou a morte chegando que fazia com que aquele gosto fosse tão extraordinário e então mais escuridão.
Eu estava no telhado de um prédio agora e olhava a cidade iluminada e o céu noturno com extremo pesar. Eu ouvia alguém chamando o nome ‘’Darren’’ com desespero e então eu vi ao meu lado Sr. Tino que sorria indiferente a minha presença enquanto brincava com duas marionetes, dois meninos feitos de madeira.
Perguntava a ele o que ele tinha feito e onde estávamos e ele parecia não me ver. Tentei tocar seu ombro e caí instantaneamente. Eu estava no topo da queda daquela cachoeira novamente e Lerry me impediu de cair. Eu gritei e me debati e então de repente eu estava deitada em uma cama e me sentia um pouco mais forte do que na hora em que resolveram me assar, mas espere! Eu devia ter morrido. Eu sentia dor pelo corpo inteiro e quando olhei para o lado vi uma agulha dentro do meu braço. Aquilo só podia ser outra técnica de tortura eu não pensei duas vezes antes de arrancá-la do meu braço.
Tentei levantar, mas minhas pernas estavam bambas e eu caí e derrubei alguma coisa. Nesse instante entraram três homens estranhos. Só podiam ser os tais assistentes humanos de Lerry e Victor. Um deles chegou perto de mim tentando me enganar dizendo que conhecia o Larten e o outro bloqueava a porta. Eu tinha que sair correndo dali e quando o cara que estava na porta saiu de sua posição eu soube que era a minha chance. Tentei alcançar a porta mais um deles me segurou e o outro exalou seu hálito no meu rosto. Eu pensei que eram humanos, mas pelo visto não. Vi um borrão verde e então desmaiei.
Acordei novamente e notei que tinha luz entrando por umas frestas no telhado de madeira. Fiquei um tempo olhando para o telhado até me lembrar do que tinha acontecido, mas estava tudo confuso. Olhei em volta e notei que estava em uma cabana, não sabia como tinha chegado ali e a iluminação sugeria que era dia. Então olhei pra mim e me vi vestida em uma camisa de linho que eu logo reconheci. Era de Sr. Crepsley e ele tinha a estranha mania de sempre manchá-la com alguma coisa só pra depois ficar me dando trabalho. Foi aí que notei que, apesar de não lembrar de muita coisa, Larten tinha me encontrado e não estávamos mortos.
—Larten, Larten... –sussurrei para mim mesma e então resolvi levantar e foi quando notei algo que eu já deveria ter notado.
Eu estava algemada e acorrentada a cama e tinha um equipamento que me lembrou a vez que tive desidratação e precisei tomar soro na veia no hospital, mas ao invés de uma bolsa de soro tinha uma bolsa de sangue e aquilo com toda certeza não era sangue de esquilo.
Confesso que fiquei um tanto irritada com aquilo, pois algo me dizia que aquela situação já vinha sendo planejada por Larten há um tempo.
Tentei me soltar, mas era quase impossível. Eu já me sentia muito melhor do que antes, mas estava apenas um pouco melhor do que estava na manhã que fui levada por Sr. Tino e isso significava que eu não tinha força alguma para me soltar.
—Sempre pensando em tudo, Larten! –resmunguei –Encantador!
—Ora, obrigado Beatrice! –disse uma voz que vinha do outro cômodo. Era impossível confundir aquela entonação maliciosa e o jeito pausado de falar.
—Já tinha planejado tudo isso antes não é mesmo Crepsley? –falei e olhei em direção a porta do outro cômodo e vi sua figura alta e forte, sua capa vermelha, o cabelo laranja e os olhos claros. E na boca um sorriso de lado e discreto de pura satisfação.
—É senhor Crepsley, -advertiu-me –E espero que esteja confortável!
—Oh, claro! Eu adoro que me acorrentem e enfiem sangue humano nas minhas veias!
—Disponha! –ironizou ao máximo sua fala –Tive trabalho para montar tudo e você quase estragou tudo.
—Desculpe, não sabia que queria me trazer a força pra cá, senão teria dito ao Tino que sequestrasse depois!
—Tino! Eu sabia... –ele se aproximou e mexeu na bolsa de sangue que estava pela metade. –O que ele queria?
—Eu não sei direito! Perguntou algo sobre quem eu era e que eu tinha que ir com ele!
—Só isso?
—Sim. Disse que eu precisava dele e que se eu não aceitasse se livraria de mim e então apareceram... –fiz uma pausa. Tudo o que tinha acontecido veio na minha cabeça e notei que ter sobrevivido a tudo foi um milagre. –Foi atrás de mim! –disse-lhe baixinho.
—É claro que eu fui! –reforçou me encarando com certo espanto –Achou que eu te deixaria para trás?
—Pensei que eu fosse um estorvo! Aquele dia...
—Você não é um estorvo, Beatrice!
—Não sou?
—Você é teimosa, petulante, irritante...
—Sei...
—Topetuda, geniosa...
—Entendi...
—Desastrada, desatenta...
—Eu entendi tá!
—Mas não é um estorvo! – disse enfim.
Aquilo, apesar de todos os ‘’elogios’’, me fez achar que quem sabe eu até gostava daquele vampiro resmungão e chato de cabelo laranja.
—Mas disse naquele dia que eu era uma péssima assistente!
—E você disse que me odiava! –ele falou olhando-me com calma –Acho que não fomos sinceros...
—Eu também acho que não!
Eu precisei quase morrer para termos uma conversa civilizada.
—Como se sente? –ele perguntou voltando ao seu ar severo de sempre.
—Dolorida! Meu abdome e minhas costas principalmente.
—Inalou muita fumaça e...
—Não! –cortei-lhe desatenta –Minha garganta arde, mas as dores devem ser das chicotadas e dos murros que levei.
Ele ficou me olhando com uma expressão que eu não soube distinguir. Larten não era muito bom com sentimentos, mas não significava que ele não os tinha. Eu não queria falar daquilo e não tive, na verdade, a intenção de tocar no assunto.
—Mas não é nada! –disfarcei –Já está passando.
Ele continuou me olhando por uns segundos e depois disse :
—Vai estar melhor logo se parar de teimosia e começar a se alimentar corretamente!
Ele falava de sangue humano e eu não queria brigar. Não disse nada, apesar de ter consciência de que minha resistência em beber tinha facilitado as coisas para meu raptor.
—Quando voltamos para casa?
—Deve ser umas quatro horas, ás seis saímos daqui!
NO CIRCO
—Evanna, você tem certeza disso?
—Claro que tenho, Hibernius!
—Isso é no mínimo desesperado!
—Ele sabe o que fez e não contava com as consequências.
—Você conseguiu ver alguma coisa?
—Em relação a ela? Ainda não.
—Creio que achamos a porta voz!
—Sim, mas não penso que nós a achamos...
—Sabe que não interferi...
—Não interferiu, mas tem uma grande influência nisso, meu irmão!
Um longo silêncio.
—Vai contar?
—Não é a hora! –Evanna assentiu em silêncio –Vai esperar Larten?
—Tenho um compromisso, mas o verei em breve...
—Fala de Vancha e Gavner?
—Também! Mas Larten virá a mim de qualquer maneira. Aceitando ou não a proposta de Vancha.
—Ele vai resistir!
—Ou não! Vamos esperar...
—E quanto ao nosso irmão?
—Publicará seu livro logo e devemos ser discretos!
—Claro!
Evanna partiu deixando o circo pouco antes do sol se pôr e nesse momento, numa cabana de madeira no Estado vizinho Larten e Beatrice se preparavam para voltar.
—Já está tudo aqui! Pronta? –perguntou Larten.
—Não! –sentia o corpo todo doer. –Dói tudo.
—Ótimo! É sinal de que ainda tem tudo.
—Queria que soubesse o quanto sabe ser irritante...
—Suba nas minhas costas!
Dito isso, Larten começou a flitar com sua assistente de volta ao circo onde Vancha acordara cedo e o esperava para conversar enquanto um garoto, segurando um cartaz do circo, comprava dois ingressos para o espetáculo de depois de amanhã.
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