Quando acordei de manhã levei o maior susto com a cobra de Ofídio! Ela estava enrolada no meu braço, e eu caí da cama quando a vi. Eu até já estava me acostumando com a Bipo, mas não significava que gostava de cobras.

–Ai droga! –levantei-me um tanto zonza –Você é um ótimo despertador, Bipo! –Disse enquanto ela rastejava pra algum canto da tenda. Ofídio não estava lá.

Aprontei-me e saí. O dia estava bem claro e quente, e o pessoal do circo estava se aprontando, porque voltariam com as apresentações em dois dias. Eu fiquei de ajudar com alguns figurinos e iria ajudar nos bastidores do show, foi o que Sr. Tall me disse naquela manhã, e eu fiquei animada com aquilo, pois eu apenas tinha assistido ao show e agora ajudaria ele a acontecer.

Enquanto alimentávamos as pessoinhas com animais mortos – essa era de longe a tarefa que eu menos gostava – Ofídio e eu conversávamos sobre como eu iria desfazer a burrada da noite anterior.

–Mas e se eu fizer tudo certinho e tratá-lo amigavelmente?

–Bia...

–Aí não vou precisar pedir desculpas, mas vou estar me desculpando de qualquer modo!

–É tão difícil assim pedir desculpas?

–Não... Sim! Ai droga! Fora que não disse a ele que... –eu iria falar do meu encontro com Desmond Tino, mas na hora caí em mim e lembrei que não tinha dito isso à Ofídio.

–Não disse o quê?

–Que conheci o Daniel! –Ufa! Safei-me por pouco.

–Vai contar?

–Não, ainda não!

–Bia...

–Eu vou contar, juro! Depois que eu amansar a fera. –sorri e pisquei o olho na direção de Ofídio, ele retribuiu sorrindo e balançando a cabeça.

–Você já sacou que Tawer não pára de olhar para você? –perguntou Ofídio.

–Já sim, ele nunca diz nada e me assusta um pouco, afinal o que eles são?

–Chamamos de pessoinhas, mas ninguém sabe dizer o que são. Só sei que eles servem a Des Tino e de vez em quando ele chega aqui com esses carinhas.

–Eles são servos do Tino? –perguntei olhando diretamente para Tawer que agora comia.

–Sim... Eu estou achando que você roubou o coração de uma pessoinha! –disse Ofídio e começou a me zoar.

–Ninguém merece você ! –comecei a rir. –Vai cuidar da sua apresentação!

Nos separamos no final da tarde e eu estava treinando vários discursos de desculpas para usar com Sr. Crepsley. Comecei a falar com uma árvore perto do riacho para simular as minhas desculpas, mas até com a árvore estava dando tudo errado. Então no meio desses diálogos um tanto constrangedores Daniel surgiu.

–Oi... Beatrice? –reconheci a voz na hora e virei-me bem devagar.

–Oi, Daniel! –ele estava segurando um skate. –Comprou outro skate?

–Sim, eu... Você estava conversando com a árvore?

–O que? Ah... eu? Eu não! Imagine só –ri nervosamente- conversar com uma árvore! Seria muita bizarrice...

–Eu pensei... deixa pra lá...

–E você se machucou ontem?

–Não, to legal... E você? O seu pai...

–Não não! Está tudo numa boa. –eu só estava me enrolando mais.

–Ei, lembra do sorvete que sugeri?

–lembro!

–Será que não queria vir comigo?

–Ah... eu não sei se...

–Posso pedir permissão ao seu pai se quiser! Onde você mora?

–Não! Não precisa!

–Mas...

–Na verdade ele não está em casa agora.

–Então você pode vir comigo ou não?

–Não!

–Não?

–Sim!

–‘’Sim, eu posso’’ ou ‘’sim, eu não posso’’?

–Sim, eu posso! –o que eu estava fazendo? Me enrolei toda!

–Ai que bom! Então vamos. –Daniel pegou minha mão e começou a andar, e eu (um tanto confusa) fui junto.

NA TENDA DE LARTEN

–Larten? –Sr. Tall entrou na tenda de Crepsley que ainda estava acordando.

–Hibernius? Algum problema?

–Gavner e Vancha estão aqui, querem conversar.

–Vancha? Eu já estou indo.

Larten se recompôs e saiu para encontrar Vancha e Gavner que o esperavam na tenda de Tall. No caminho encontrou com Ofídio e Alexandre Costelas.

–Boa noite, Crepsley! Madrugou? –perguntou Alexandre.

–Pois é, Alex... Boa noite! –respondeu Larten, um tanto contrariado de ter que levantar-se tão cedo, afinal não tinha dado nem seis da tarde... –Ofídio, a Beatrice não está com você?

–A Bia? Bem... Ela disse que ia comer alguma coisa faz uns vinte minutos! –Ofídio não fazia ideia do paradeiro de Beatrice, mas suspeitava que ela estava com o novo amigo Daniel.

–Ok! Se a vir diga a ela para me esperar na minha tenda, por gentileza!

–Pode deixar! –dito isso Crepsley continuou seu caminho até a tenda de Tall, e Ofídio saiu à procura de Beatrice que, a propósito, não estava no circo!

Crepsley entrou na tenda e cumprimentou alegremente Vancha que sobrevivera ao combate com o senhor dos vampixiitas há cinco meses.

–Alteza!

–Vancha! Só Vancha, Larten!

–Claro... O que vieram fazer aqui?

–Eu quero ver Truska! Só isso mesmo. –disse Vancha.

–A coitada deve estar se escondendo dele. –disse Gavner rindo.

–Ela fica muito sem jeito diante da minha beleza e elegância...

–Deve fugir da sua modéstia... –comentou Larten caiu na risada com Gavner.

–Invejosos!

–Mas então, o que mais, além de Truska, traz vocês aqui? –retomou a pergunta.

–Vamos passar uns dias com você aqui antes de seguirmos para a França. –respondeu Vancha.

–França?

–Sim! Como sabe Felipe morreu na batalha contra Juan, mas a guerra ainda segue e na França mataram alguns dos nossos, iremos para lá em breve para ajudá-los.

–Entendo, serão bem vindos enquanto estiverem aqui! –respondeu Crepsley.

–Então, que tal uma boa cerveja para colocar os assuntos em dia?

–Sim! Agora mesmo! – e os três foram beber perto da tenda de Sr. Crepsley.

Enquanto estavam a caminho da tenda Vancha perguntou:

–O que houve com você, Lareten? Está péssimo!

–Obrigado. Você também está em ótima forma!

–Diga a verdade, é uma mulher que está tirando seu sono, han?

–Sim! Na verdade uma criança!

–Oh Crepsley! Você ainda anda roubando corações jovens?

–Elas me adoram! –riu Crepsley indo na brincadeira- Não é o que está pensando!

–Se não é um romance, o que é então?

–Uma assistente! –nesse momento o silêncio pairou entre os três.

–Você, Larten Crepsley, tem um assistente? –perguntou Vancha como se aquilo fosse a coisa mais improvável do mundo.

–Não, Vancha! Ele disse ‘’uma’’! –lembrou Gavner, também surpreso. –Por que não me falou ontem?

–Você mal chegou e foi embora, nao deu tempo. E posso saber o motivo de tanta surpresa? –perguntou Larten, e eles so responderam com o olhar. –Já entendi! Pois é... eu tenho uma assistente, Beatrice, e estou enfrentando muitos problemas.

–Quais problemas? –perguntou Gavner.

–Do tipo sangue humano! Ela se recusa a beber!

–Mas logo logo a sede será maior e ela vai ceder... –disse Vancha.

–Ela resiste há quatro meses!

–Ok! Isso é um problema! –concordou Vancha.

–Não sei mais o que tentar e...

–Espera, disse que ela é uma criança? –perguntou Gavner, interrompendo Crepsley.

–Pois é... É outra coisa que também tenho para falar!

–Sangueou uma criança, Larten? –perguntou Vancha surpreso –Logo você?

–Como isso aconteceu? –perguntou Gavner.

–Ah meus amigos, preciso de cerveja para contar-lhes essa história!

Notas finais
Será que Vancha e Gavner estão no circo apenas para uma visita rápida mesmo? Beatrice vai conseguir se desculpar ou vai apenas piorar tudo?