—Falando mal de mim pra minha assistente, Gavner? –perguntou Larten quando chegou e nos viu rindo.

—Acho que a menina deve saber a verdade! –respondeu Gavner num tom brincalhão. –Que você é um velho abutre e que ela precisa ter paciência com você, sabe... –olhou para mim –Por causa da idade!

Não consegui não rir.

—Ah claro! –disse Larten –Vamos ver no festival dos Mortos-Vivos o quanto você dá conta de apanhar do velho abutre aqui! –disse com desprezo para Gavner, que sorriu!

Gavner se levantou.

—Por que esperar até o festival, meu velho? –desafiou.

—Bem, se quer se quebrar todo antes de ver Evanna a escolha é sua! –falou meu maestro abrindo os braços com um ar de mestre.

Eles trocaram olhares maliciosos e Vancha observava os dois, encostado em uma árvore, sorrindo. Foi então que começou o duelo, eram movimentos muito rápidos pra um ser humano acompanhar, e até para mim não era a coisa mais fácil de se fazer. As lutas entre vampiros não costumam ser gloriosas, não são feitas para assistir, digamos assim, costumam ser brutais e rápidas em sua maioria, mas aqui eles não estavam querendo se matar nem nada disso! Talvez um pouco de quebraduras, ou mutilação...

Gavner levou o primeiro tombo, mas foi rápido o bastante para desviar das unhas de Sr. Crepsley em sua cara. Levantando-se, investiu contra o vampiro de capa vermelha que tinha um ar calmo, quase irritante. Ele conseguiu derrubá-lo, mas logo o jogo se inverteu e Larten agora estava em cima de Gavner.

—Quer descansar, Gavner? –zombou.

—Ha ha, meu caro Larten! –sorriu Gavner. –Uma dança com uma donzela me deixaria mais cansado do que você!

Investiu novamente jogando Larten contra uma árvore, colocou as unhas na sua garganta e disse:

—Suas ultimas palavras!? –disse Gavner radiante.

—Você prefere que eu abra seu ventre verticalmente ou horizontalmente? –perguntou Larten sorrindo. Larten era rápido demais e suas garras agora estavam perigosamente pousadas contra a barriga e o tórax de Gavner, que não gostou de ter sido driblado. Crepsley gargalhou e Gavner o soltou.

—Não vai mudar nunca! –disse Gavner fazendo uma careta.

Sr. Crepsley ria apenas. Não era muito comum ver Larten daquela forma, tão natural, demonstrando sentimentos.

—Mas você disse algo sobre o festival! –lembrou Gavner chegando perto de Vancha. –Ele será daqui a um mês!

—Sim. –disse Larten.

—Sim? –indagou Gavner –Só ‘’sim’’?

—Você quer que eu responda outra coisa ou eu bati com a sua cabeça em algum lugar e...

—Eu quis dizer... –continuou sem paciência –Que pretende ir ao festival dos Mortos-vivos daqui a um mês!

—Eu estou considerando a possibilidade! –responde Larten, eu apenas os observava.

—Mas pretende levar Beatrice?

—É claro que se eu for ela virá comigo!

—Mas Larten, não sabemos qual será o posicionamento de Arrow e Mika, talvez ela não esteja preparada para isso! –Gavner estava sério.

—Eu sei disso tudo, Gavner! –disse Larten –Mas com o Tino no nosso encalço e essas novas possibilidades de reavivar a guerra, talvez a Montanha seja o lugar ideal para todos nós!

—Entendo sua posição, Larten, mas as coisas estão instáveis!

—Vancha concorda! –disse Larten jogando a bola para o príncipe.

—Alteza? –Indagou Gavner.

—Bem... Larten já é bem grandinho e sabemos que quando coloca alguma coisa na cabeça não há quem o faça mudar de ideia! –disse Sire Vancha. –Mas acredito que não há como evitar o inevitável! Uma hora ou outra eles terão de ir até a Montanha e talvez esse seja realmente o melhor momento!

—Com todo respeito, alteza, mas, Larten, creio que é uma boa hora para pensar naquela proposta!

—Não, Gavner, já conversamos! –respondeu Larten imediatamente!

Eu fiquei curiosíssima sobre essa tal proposta e confusa também. Tive a impressão de que eu já sabia alguma coisa sobre. Eles pararam de conversar sobre o assunto e trocaram poucas palavras desde então. Já estava amanhecendo e logo os três se retiraram para dormir. Os roncos de Gavner eram realmente ensurdecedores! Eu não consegui dormir e Sr. Crepsley tinha um sono agitado. ‘’Vai acordar de mau-humor’’ –pensei.

Harkat acordou cedo e me fez companhia. Conversamos bastante e ele me falou muito sobre a Montanha do Vampiro, lugar esse que ele adorava e não escondia de ninguém! Falou que não daria pra explicar o festival dos Mortos-vivos simplesmente, que era algo que eu tinha que ver e conhecer! Falei sobre o meu receio em relação aos príncipes e ele se mostrou confiante de que eles dariam um jeito nesse assunto. Era por volta das cindo da tarde quando Sr. Crepsley acordou, como eu imaginava, bufando e amaldiçoando os roncos de Gavner.

Em pouco tempo todos já estavam despertos e seguimos viagem.

—Mas que é essa tal de Lady Evanna? –perguntei em certo ponto da viagem, já estava cansada de ouvi-los dizendo que estávamos chegando e não chegávamos nunca.

—A mulher mais bonita que você já viu, ou a mais horrorosa! –respondeu Vancha.

—Acho que não entendi!

—Vai entender quando conhecer! –falou Harkat.

—Ela é uma bruxa? –perguntei.

—Sim, mas não diga isso à ela nunca! –advertiu-me Gavner.

—Oh sim, não avisei quanto a isso! –falou Larten. –Jamais chame Evanna de bruxa! Ela odeia!

—Ué, mas ela não é uma bruxa!? Não entendi nada!

—Só não chame! –disse Gavner.

Andamos mais um pouco e paramos logo depois. Eles começaram a ajeitar as roupas e Vancha arrumou o cabelo com saliva –o que foi nojento.

—Que tal estou? –perguntou a Larten.

—Assustador como sempre! –respondeu Larten.

—Invejoso...

—Nós chegamos? –perguntei.

—Sim!

—Ah... Mas onde? –não havia nada ali, e eu só ouvia um barulho irritante de rãs.

O barulho foi aumentando. Foi então aí que eu pude ver que estávamos de frente para uma espécie de acampamento pessoal, com uma tenta linda e redonda no meio e outras quatro em volta de tamanho menor. Havia uma fogueira no meio e muitas flores e flores. Parecia a casa de uma fada. E então avistei uma figura bem a nossa frente, baixinha, gordinha e vestida com cordas!

—Pensei que iriam demorar mais! –disse ela.

Os três pareciam três crianças ao ver aquela figura, que eu não tinha tanta certeza se era ou não uma mulher, pois tinha barba.

—Evanna! –rugiu Vancha. –Feia como sempre! –abriu os braços e a abraçou. Ela o empurrou.

—E você sempre encantador, Vancha! –disse.

Aquela ali era a Evanna?

—Gavner, querido! –disse ela cumprimentando-o com carinho. –Está me devendo uma visita há muito tempo! –disse num tom de reprovação.

—Desculpe-me, milady! –beijou sua mão.

—Olá, Harkat!

Então ela olhou para Larten que estava ao meu lado com um sorriso discreto.

—Você, Larten, não mudou nada! –ela disse e chegando perto dele, deu-lhe um abraço de quem não o via há tempos e que não esperava vê-lo por muito mais tempo.

—Minha senhora! –ele a cumprimentou graciosamente.

—Temos muito o que falar! –disse ela.

—Sim, creio que sim! –respondeu Crepsley. –Ah, essa é Beatrice, como já deve saber. Minha assistente! –apresentou-me.

—Oh sim! –disse ela chegando perto de mim e me apertando o rosto de maneira que me fez ficar tonta. –Eu já sei, o que não torna isso menos curioso! –ela disse olhando para o meu rosto como se me examinasse. –Você Larten, com uma assistente!?

—Pois é...

—Creio que eles tenham lhe dito algumas coisas sobre mim! –disse ela sorrindo e mexendo no meu cabelo que continuava curto, pois havia me apegado ao corte curto que Truska fez em mim.

—Disseram que é uma bruxa! –respondi. Seu sorriso se apagou na hora e ela os encarou.

—Disseram o quê? –rugiu. Eles arregalaram os olhos e tentaram desconversar. –Não venham dizer que não disseram porque eu sei que disseram sim! Eu deveria transformar todos e rãs!

Ela supirou com impaciência. Num piscar de olhos aquele serzinho sumiu e eu tinha em minha frente uma mulher alta, loira de cabelos cumpridos e um corpo bem feito, parecendo uma das antigas musas gregas.

—Acha que pareço uma bruxa, Beatrice? –perguntou.

—Sim! –respondi. –Uma linda bruxa!

Logo ela estava de volta em suas cordas e barba.

—Pode mudar de forma! –exclamei. –Que incrível!

—Sim! Mas não gosto muito!

—Por que não?

—Porque não acho que a beleza exterior é verdadeira, gosto dessa forma, é como sou naturalmente e também porque quando estou em minha forma mais bonita os homens, criaturas primatas, não consegue resistir! –disse e sorriu. –Não vê o que tive que fazer com Larten da ultima vez que ele tentou me beijar!?

Ela apontou para a feia cicatriz que Sr. Crepsley tinha na bochecha esquerda. Ele ficou vermelho.

—Ora, Larten! –disse Vancha –Então foi assim que conseguiu isso! E nós achando que foi em uma batalha com alguma besta!

Vancha e Gavner desataram a rir.

—Ah... Evanna! Cruel! –disse Larten.

—Bem mereceu por ter me chamado de bruxa para a menina! –ela respondeu. –E vocês dois estão rindo do quê? Ele pelo menos teve a coragem de tentar algo!

Aquilo calou as risadas dos dois e abriu em sorriso de malicia no rosto do meu professor.

—Vamos entrando, comer algo, temos muito o que falar!

Nós entramos na tenda de Evanna que era bem maior do que parecia por fora. Cheia de travesseiros, e almofadas. Alguns sofás e uma mesa gigantesca com muita comida, mas eu logo notei que eram apenas vegetais e frutas.

—Evanna é vegetariana! –disse Larten no meu ouvido.

Ah o que eu não daria por uma carne bem mal passada, mas pelo visto não iria rolar!

—Você já deve saber o motivo maior de nossa vista! –disse Vancha entrando na tenda com Evanna.

—Claro, mas antes vamos descansar e resolver um outro assunto!

—Qual assunto? –perguntou Vancha.

—Sentem-se por favor! –ela pediu.

Depois que estávamos sentados ela continuou.

—Eu não vi nada sobre a tal profecia da qual meu pai os avisou!

Aquilo me chocou! Quem nos avisou da tal profecia foi Des Tino! Ela disse que o pai dela nos avisou! Evanna era filha do Sr. Tino!

—Sim, Beatrice, sou filha dele! –ela disse como se lesse a minha mente. –Esses quatro não lhe contam o que é importante!

—Pois é...

—Continuando... –ela retomou a fala. –Não posso confirmar nada por enquanto, mas não acho que devem desconsiderar a possibilidade!

—Digamos que não temos uma boa experiência com as profecias anunciadas por Tino! –disse Harkat.

—Eu entendo! –ela falou –Mas terei uma resposta antes de irem embora!

—E qual era o assunto que queria resolver? –perguntou Gavner.

—Oh sim! –ela se levantou. –Beatrice, tem alguém aqui esperando por você!

Todos olhamos para a entrada e eu quase pulei de susto! O que significava aquilo?