Notas iniciais
Primeiro capítulo do ano! As coisas ficarão mais animadas a partir daqui. Feliz ano novo!

Passei pela tenda de Truska e pensei em agradecer mais uma vez por ter me emprestado roupas novas, mas ouvi uns barulhos estranhos vindos de dentro. Parecia uma conversa de focas e então me lembrei do que Gavner dissera sobre o tal Vancha estar com Truska e segui o meu caminho.

Passei pelo vagão que servia como refeitório e senti que alguém estava ali. Olhei para os lados e não vi ninguém.

–Agora está ficando paranoica também, Beatrice? –disse para mim mesma e continuei andando.

Continuei andando e ouvi um barulho atrás de mim. Virei rapidamente e avistei meu observador. Era Tawer, com a sua capa azul e olhos enormes. Não sei se era por conta do escuro, mas nunca tinha reparado o quanto os olhos de Tawer eram grandes e verdes.

–Ai, Tawer! Me assustou. O que foi? –ele não disse nada como sempre e o que deu em mim de perguntar também? Sabia que não iria responder.

Ele ficou me olhando por um tempo e parecia estar se escondendo de algo. Então veio até mim e fez sinal para que eu o seguisse.

–Quer que eu vá com você para onde? Oh! Desculpe. Você não vai dizer mesmo. –ele fez sinal outra vez. –Olha carinha, não sei se devo não! Hoje já quase me encrenquei feio e não estou me sentindo muito bem! Fica para a próxima. –dei as costas e comecei a andar na direção da minha tenda, mas então Tawer se colocou na minha frente e ergueu um pequeno papel para mim. Era como se estivesse com medo de me entregar. Quando eu o peguei, a pessoinha saiu sem olhar para trás. Era um pedaço pequeno de papel e estava amassado. Eu o abri e pude ler duas palavras: CUIDADO e ÁRVORE.

Na verdade não entendi nada daquilo e voltei para a tenda. Após pedir mil desculpas, agradecer e contar tudo o que eu fiz durante à tarde para Ofídio fui deitar, com um cansaço terrível. Fiquei pensando naquele pequeno papel que Tawer me dera e busquei algum sentido para aquilo, mas logo cai no sono.

Quando acordei de manhã pensei que alguém tivesse me dado uns vinte tiros na cabeça e no peito. Estava sentindo muita dor. Ofídio ainda dormia, era muito cedo e eu fiz um esforço enorme para me levantar. Sentia-me sufocada e saí da tenda andando rápido e de maneira meio desengonçada. Não sei exatamente como fui parar perto da ponte do riacho, mas caí de joelhos e comecei a tossir loucamente. Foi então que me ajoelhei e vi o meu reflexo na água, eu estava horrível. Mais pálida que uma estátua de bronze, olhos fundos e foi aí que notei sangue em meu rosto. Meu nariz sangrava e eu comecei a sentir muito frio. Tudo começou a girar e então senti a mão de alguém tocar meu ombro. Ouvi uma voz longe e estava tudo escurecendo. Primeiro eu vi um vulto, mas a pessoa ergueu meu rosto e falou alguma coisa que não entendi. Era Ofídio, reconheci assim que minha visão ficou mais clara,

–Bia, você está me escutando? –perguntou preocupado.

–Sim, agora estou! –respondi com certa dificuldade.

–Eu vou buscar ajuda! –na hora eu vi que aquilo significava buscar o Larten, e eu tinha que impedir.

–Não! Eu estou bem! Só preciso de um pouco de sangue. –disse respirando fundo e tirando de meu rosto o sangue que saiu de meu nariz.

–Bem? Você está sangrando e...

–Ofídio, por favor...

–Vai me agradecer mais tarde! Vou chamar alguém e você espera aqui. –saiu correndo de volta ao acampamento.

Eu precisava levantar e parecer bem antes que Sr. Crepsley aparecesse, pois ele iria me obrigar a tomar sangue humano, e eu não estaria em condições de negar. Foi então que notei que não estava mais só.

–Beatrice? –tinha alguém do outro lado da ponte. Olhei confusa e vi um vulto vermelho, tive certeza de que era meu mentor.

–Sr. Crepsley? Mas Ofídio... Ele foi...

–O que eu disse a você? –perguntou com uma voz de satisfação.

–Eu não vou tomar. Não vai me obrigar! Prefiro morrer.

–Então está em condições de seguir sem sangue?

–Claro!

–Então me mostre! Cruze a ponte!

–Se eu cruzar a ponte não vai mais me amolar?

–Apenas cruze a ponte!

Coloquei-me de pé e com a visão ainda confusa comecei a cruzar a ponte até chegar perto de meu maestro.

–Viu? Estou ótima. –disse quando cheguei bem perto dele.

–Claro que está. E está fora do circo...

–Mandou-me cruzar a ponte... E agora... Vou levar bronca por...

–Bronca de mim? Não querida! –disse com uma voz diferente.

–O que?

–Imagino que seu mentor não vai gostar nada de você ter saído dos limites do circo, mas para mim foi ótimo. –minha visão estava piorando e era como se tudo estivesse se embaralhando.

–Mas você não é meu mentor. Então...

–Eu disse que coisas ruins aconteceriam caso resistisse a vir comigo, você lembra?

–Sr. Tino! –ele riu com satisfação.

–Você demorou Angeline! –nesse momento ele passou a mão em uma mecha do meu cabelo e então eu não vi mais nada.

NO ACAMPAMENTO

–Sr. Tall, estamos com um problema. –disse Ofídio ofegante.

–Ofídio, o que houve?

–É a Bia, Tawer me acordou hoje e eu a encontrei perto do riacho. Está sangrando e não consegue levantar, mas é dia e o Crepsley...

–Calma! Vá até ela e diga que já estou chegando. Vou chamar o Larten. –disse Tall acalmando o garoto. –Vá!

Ofídio saiu correndo de volta à ponte e Tall foi chamar Larten.

–Larten, desculpe te acordar durante o dia, mas...

–Tudo bem, Gavner está aqui e isso significa que eu não dormi mais do que cinco minutos até agora. Malditos roncos... O que houve?

–Beatrice está passando mal. Ofídio disse que está sangrando, Larten, passou da hora, se ela não tomar sangue agora vai morrer!

–Onde ela está? –perguntou Larten com um nervosismo fora do normal. Pegou três frascos de sangue e saiu rapidamente.

–Está com o Ofídio perto da ponte. Está ficando claro, não deveria pegar sua capa de sol?

–Não tenho tempo, Hibernius! –disse Larten e flitou até o local onde Beatrice estava com Ofídio, ou melhor, deveria estar.

Sr. Tall chegou um pouco antes que Larten ao local. O grande homem tinha poderes estranhos e que ninguém sabia de exato a origem.

–Mas eu a deixei aqui, Sr. Tall! –disse Ofídio desesperado.

–Onde ela está? –perguntou Crepsley não menos nervoso.

–Ela estava bem aqui! –disse Ofídio.

–Alguma chance dela ter ido a outro lugar? Ou voltado para a tenda? –perguntou Tall olhando para os lados enquanto Larten parecia examinar algo no solo.

–Não, Sr. Tall! Ela não conseguiria ir longe. Pelo menos eu acho que não.

–Então ela não está longe. Larten?

–Ofídio tem razão. –disse Larten levantando-se e cruzando a ponte. –Ela não estaria em condições de sair daqui. –disse pensativo.

–Mas então onde ela está? –perguntou Ofídio.

–Larten? Você acredita que...

–Sim, Hibernius! Alguém a levou daqui e eu desconfio de quem seja.

–O que? Tipo sequestrada? –perguntou Ofídio. –A culpa foi minha. Não devia ter deixado ela só...

–Não se preocupe Ofídio, fez o que deveria ter feito. Obrigado! –disse Larten ao garoto.

–O que vai fazer, Larten? –perguntou Hibernius.

–Vou buscar a minha assistente! –disse Larten. –Vou voltar e pegar uma adaga. Ofídio pode me fazer uma favor caso eu não volte até o por do sol?

–Claro, Sr. Crepsley!

–Explique tudo para Gavner e Vancha. Diga a Gavner para colocar em ação o que conversamos, ele entenderá!

–Tudo bem, Sr. Crepsley! –Ofídio voltou para o acampamento a pedido de Sr. Tall. Que parou Larten antes que ele pudesse voltar para buscar sua adaga.

–Larten, você tem certeza de quem foi? A presença de Vancha pode ter atraído outros.

–Foi o Tino, com certeza! Ofídio disse que aquela pessoinha foi chamá-lo para avisar de Beatrice. Onde elas estão, Tino está!

–Pois bem. –disse e entregou a adaga de Larten a ele. –Cá está sua adaga! Volte antes do show, por favor! –disse e sorriu ironicamente.

–Obrigado, meu amigo! Pode deixar.

Disse e entrou no bosque a procura de sua assistente tentando não ouvir a voz em sua cabeça que dizia que Beatrice estava fora de alcance e que já era tarde demais.