Notas iniciais
Desculpem a demora pessoal!

Fiquei um tempo imóvel e olhando para a mensagem como uma estátua estúpida.

—Que merda! –disse finalmente. Eu não podia aceitar o convite, mas também não queria deixá-lo magoado. E se ele resolvesse assistir ao espetáculo mesmo sem mim e acabasse me encontrando? Eu tinha que falar com Sr. Crepsley, mas o que ele faria com Daniel? E se o assustasse? Tinha certeza de que ficaria um tanto furioso por eu ter saído do circo e dito o meu nome a um estranho. Logo agora que estávamos sem brigar... Eu tinha que dar um jeito logo e se fosse sem envolver meu professor seria bem melhor. Comecei a raciocinar, andando de um lado para o outro e então ouvi um barulho do lado de fora da tenda!

NUM BAR DISTANTE DALÍ

—Confesse, Larten, -pediu Gavner – sentiu falta da adrenalina!

Eles riam e comemoravam a vitória do combate de poucos momentos atrás contra um bando de nove vampixiitas rebeldes. Estavam se fartando com cerveja e Vancha paquerava uma garçonete.

—Tudo bem, tudo bem, -Larten riu e ergueu o copo –Está no sangue!

Os três estavam contentes, e Vancha parecia esperar o momento certo para recomeçar com o assunto que tinham ‘’terminado’’ mais cedo.

—Acredito que sinta falta da Montanha... –disse Vancha parando de olhar para a garçonete com certo esforço.

—Nunca disse que não sentia! –respondeu Crepsley prontamente, entendendo logo as intenções de seu príncipe.

—Então por qual motivo não voltar? –Perguntou Vancha servindo mais uma rodada de cerveja aos três.

—Com todo respeito, Sire Vancha, mas como antes eu não quero me aprofundar nisso! –disse Larten sério –Você é meu príncipe e o respeito, sempre respeitarei, mas sobre isso eu não falarei!

Vancha suspirou, sabia que Larten era cabeça dura demais para ser convencido e muito inteligente para ser pego desprevenido.

—Bem, vou fechar a noite! –recomeçou Larten –Tive dois dias cheios de emoções, cavalheiros, e tenho uma assistente pouco confiável.

—Já contou a Beatrice que o tal Victor escapou? –perguntou Vancha, com um certo ar de cobrança.

—Não, não quis preocupá-la agora. –respondeu –E eu gostaria de pedir que não falassem com Beatrice sobre isso ou sobre qualquer coisa que relacione a mim e o clã agora. Gavner...

—Por que acha que eu falaria algo? –perguntou inocentemente –Ela precisa saber, Larten.

—Não agora, -retrucou Larten e levantou-se –Nos vemos no circo?

Vancha e Gavner assentiram e Larten foi embora discretamente.

—Cada vez mais eu penso que esse afastamento de Larten tem ligação direta com o sumiço de Flack –disse Vancha a Gavner.

—Ele não vai ceder, alteza.

—Merda! –exclamou Vancha –Tino anda muito parado, isso é estranho. Perdemos muitos dos nossos e dois príncipes desde o início dessa maldita guerra. Ter Larten ao nosso lado com a proposta de paz seria de grande ajuda.

—Teve notícias de Gannen?

—Vou encontrá-lo na casa de Evanna, partirei amanhã. –disse Vancha virando outro copo de cerveja –Harkat Mulds seguiu para a Montanha, pretendo voltar e nos reuniremos.

—Acha que a pessoinha é um dos motivos para que Larten se recuse a ...

—Não! –interrompeu Vancha –Harkat e Kurda podem ter a mesma alma, mas são totalmente diferentes. Larten culpa e odeia Kurda, mesmo após sua morte, pelo que houve com Arra, mas não é tolo a ponto de odiar a pessoinha por isso.

—Seria compreensível que o fizesse, -disse Gavner –afinal, eles não são a mesma pessoa?

—Sim e não, a verdade é que a magia de Des Tino é cheia de mistérios. Mas não diria que Harkat é Kurda, digamos que ele é a melhor parte de Kurda... Enfim, Harkat Mulds não é o motivo.

Gavner aceitou, embora não muito convencido, o que Vancha dissera.

NO CIRCO

Saí imediatamente para saber de onde vinha aquele barulho. Pela primeira vez vi que os acontecimentos recentes tinham me afetado um pouco mais do que eu achava, pois não pude pensar que era Sr. Tino. Mas não era.

—Ah... Oi Tawer! –ele estava ali me observando com seu corpo rechonchudo e pela primeira vez eu o via sem capuz. Dois olhos verdes enormes, cheio de rasgos pelo rosto, pele cinza e usava uma máscara que me lembrava das de oxigênio do hospital.

Ele parecia estar me examinando com aqueles enormes olhos brilhantes, imóvel. E eu também fiquei observando-o por uns instantes.

—Está tudo bem? –perguntei começando a ficar incomodada.

Ele não respondeu. Não achei que fosse...

—Foi você quem avisou ao Ofídio que eu estava passando mal? Obrigada!

Nesse instante me lembrei que Tawer tinha me entregue uma mensagem na noite anterior que dizia ‘’PERIGO ÁRVORE’’ e de repente a imagem da árvore na qual eu fui amarrada para morrer queimada me veio a mente. Ele já sabia?

—Sabia o que ia acontecer? –agora eu o examinava.

Ele, pela primeira vez, demonstrou entender a minha pergunta e, mais que isso, respondeu-a acenando com a cabeça levemente num gesto de afirmação.

—Oh! Você me entende? –aquilo me deixou um tanto eufórica.

Ele assentiu novamente e colocou o capuz como de costume. Olhou de um lado para o outro e voltando a olhar para mim fez um gesto para que eu o seguisse e começou a andar para a saída do acampamento.

Eu sabia que não devia sair, e na realidade nem queria. Mas estava muito chocada e comecei a ponderar rapidamente. Ele tinha me avisado do perigo e eu o ignorei, seria inteligente ignorar agora? E finalmente eu tinha conseguido um contato com uma daquelas criaturas e não queria perder. Então eu o segui!

Ele tinha se detido na saída e me chamou novamente com certa impaciência. Cheguei a ele logo e pegamos a estrada. Fiquei fazendo perguntas, mas ele não estava dando importância. Estava concentrado ou preocupado. Talvez os dois.

Nós estávamos na estrada deserta que cortava o campo e o bosque, e cansada de perguntar o que estávamos fazendo lá comecei a sentir medo. Para onde estamos indo? Foi então que ele se deteve e apontou com sua mão cinza para frente. Hesitei um pouco e quando olhei na direção na qual ele apontava vi a silhueta de um rapaz andando de skate de um lado para o outro. Daniel!

Eu não sabia bem o que fazer. Correr Dalí seria o mais sábio, então é lógico que não o fiz. Tawer simplesmente foi para o canto da pista e se escondeu atrás das árvores. Por que ele me levara até lá e mais importante: como ele sabia de Daniel? Fiquei parada como uma tonta olhando para o belo rapaz indo e vindo com seu skate até que ele finalmente me viu.

—Eu pensei que estivesse fugido para o Alasca! –disse ele alto e me olhando como se estivesse me esperando.

—Oi, Daniel! –eu disse vacilante. ‘’Que coisa estúpida de se dizer’’ pensei.

Ele começou a caminhar em minha direção e eu fiz o mesmo, sem ter certeza do que falar ou de como me comportar.

—Eu fiquei esperando você e... –ele disse parando bem perto de mim e me olhava com incerteza.

—Eu tive um problema e não pude ir! –disse prontamente.

—Ah... Você recebeu a minha mensagem. Acho que não voltou lá né... –riu sem graça. Vi que ele achava uma ideia tola deixar o bilhete na esperança de que eu o encontrasse num lugar como aquele.

—Eu recebi sim! –disse acalmando-o –Quer dizer, encontrei!

—E então?

—E então... O quê?

—Ora, você o leu?

—Ah sim! É isso... –senti-me tola –Eu li sim e, bem, eu não posso!

—Você não pode! –ele repetiu com voz entrecortada, estava visivelmente decepcionado, e eu queria muito naquele momento explicar o motivo, mas isso implicaria em revelar segredos que eu não devia. –Foi alguma coisa que eu disse ou seu pai que...

—Não. Entenda , não fez nada de errado e eu gosto muito de estar com você. Lembra-me alguém de quem eu sinto muita saudade e... –me contive, não queria falar do Jhon –Eu e meu pai iremos embora amanhã. Não estarei aqui! –disse finalmente. E o som das minhas palavras me feriu.

Ele não disse nada, mas notei que estava triste, embora o orgulho masculino não deixasse que ele demonstrasse. Então ele abaixou o olhar e disse.

—Eu fico muito sozinho aqui e você foi a primeira pessoa com quem eu me dei bem. –ele olhava para baixo –Eu já sabia que iria embora, mas eu... –se deteve como se pensasse duas vezes antes de prosseguir –Você pode me deixar seu telefone ou seu email ?

Nesse momento caiu a fixa de como tudo tinha mudado para mim. Eu não tinha telefone ou endereço eletrônico para deixar, eu tinha dito adeus pras coisas normais da vida de um humano comum e o meu contato com Daniel foi um erro. Eu tinha que aceitar e afasta-lo de mim. Mas como explicar para ele que eu não poderia dar-lhe nada daquilo sem ficar parecendo que eu o estava desprezando?

—Olha eu... –decidi que deveria acabar com aquilo tudo mais ele me interrompeu com um beijo.

Fiquei imóvel e completamente surpresa. Lembrou-me aquelas cenas melosas de programas adolescentes, mas não digo que não gostei. Apesar do fato de saber que não podia ficar ali e que aquilo não fazia mais parte da minha vida me doer terrivelmente mais do que antes depois do que ele fizera. Pensei em dizer algo, mas o que eu diria?

—Eu... –ele também não sabia o que dizer.

—Então né... –eu não ajudei muito.

—Desculpe, eu... Desculpe nada! –disse de repente mudando de tom –Eu gosto de você, Beatrice, e sei que tem que ir embora, mas por favor não some.

—Olha, Daniel, eu também... –eu não podia estender mais aquilo e não podia me demorar naquele lugar –Não posso deixar número nem email, mas entenda não é que eu não queira. Eu não posso.

—Não pode? Por que você não pode?

Segurei sua mão como que para consolá-lo e tirei do bolso o pequeno envelope com o bilhete que ele me deixou e coloquei nas suas mãos. Olhei para ele sabendo que era a ultima vez que veria aquele rapaz jovem e cheio de vida –Adeus, Daniel. –soltei sua mão, virei-me de costas pra ele e comecei a andar e logo a correr para longe, sabendo que ele não estava me seguindo e sabendo que tinha lhe partido o coração.

Acho que até chorei. Estava com raiva e me sentindo culpada. Eu não queria ter magoado Daniel. Queria passar minhas tardes com ele por mais tempo, queria ter um celular e ser humana outra vez. Como eu odiava aquilo tudo. Cheguei ao circo e Tawer estava na entrada. Fiquei surpresa de vê-lo. Por um momento esqueci que ele tinha me acompanhado até onde Daniel estava e logo sumiu no meio das árvores ao redor da estrada. Ele devia ter voltado e ficou me esperando ali, meu pequeno cúmplice.

—Oi, Tawer! –fiquei olhando para ele tristemente.

Ele se aproximou e tocou minha mão como se dissesse que eu tinha feito a coisa certa. Ele sabia?

—Levou-me lá para que eu me despedisse, não é? –ele assentiu –Por que está me ajudando?

Ele não disse nada. Ficou me olhando um tempo, mas não parecia me ver, era como se sonhasse, e pareceu acariciar o rosto com sua mão cinza. Aquilo me lembrou de quando Sr. Crepsley acaricia a cicatriz que tem no rosto enquanto está pensando.

—Tawer! –chamei-o, acordando-o do sonho. Ele pareceu se assustar e depois deu-me as costas devagar e seguiu para algum lugar do circo sem se comunicar outra vez.

Fiquei parada ali olhando ele se afastar como uma boba. Depois segui para a minha tenda. Encontrei Ofídio lá e lhe contei o que acontecera. Ele disse que eu tinha feito o que era necessário e agora nós voltamos a nossa atenção a estranha afeição de Tawer Clesfek por mim.

—O que acha que pode ser, Ofídio?

—Não sei, Bia! Mas uma coisa é certa: as pessoinhas não se comportam assim.