O silêncio pairou entre nós naquele momento. A tensão faltava se materializar!

—Então, e agora? -disse Harkat, finalmente!

—Agora os três devem escolher se seguirão o caminho designado ou não!

—Temos essa escolha? -perguntou Gannen.

—Sim, mas os resultados são imprevisíveis caso queiram abandonar o caminho!

Mais silêncio.

—Pois bem, eu aceito continuar! -disse Gannen.

—Eu também! -acrescentou Larten.

Àquilo me deu medo. Mas o vampiro sabia o que estava fazendo e se não soubesse, quem seria eu para mudar sua decisão?

—Eu encaro o desafio também! -disse Gavner, logo após Larten.

—Os outros são os únicos que poderão ajudar vocês três na hora certa. Não poderão ter ajuda de mais ninguém que não esteja aqui no momento decisório! -explicou Evanna.

—Como não podíamos ter interferência de nenhum outro vampiro na nossa busca ao Senhor dos Vampixiitas antes! -disse Vancha.

—Sim! -Concordou a bruxa -Mas não terão problemas caso tenham mais aliados no decorrer da busca. Não poderão na hora do confronto direto, caso haja! -acrescentou. -Agora,quanto aos acordos de paz, Vancha e Gannen, temos que conversar! -disse ela.

O resto de nós saiu da tenda para deixá-los conversar em sigilo. Lá fora segui Sr. Crepsley até a tenda. Ele parecia nervoso.

Andou de um lado pro outro, cruzando e descruzando os braços com o manto vermelho sangue balançando para lá e para cá. Eu o observava. Havia certa graciosidade em seus movimentos, o jeito como sentava ou se levantava. A forma como cruzava os dois braços quando estava irritado ou desconfiado, a maneira que colocava conhaque no copo e o tomava, como fazia naquele exato momento, parando com a mão esquerda pousada sobre o quadril, o olhar distante. Se não o conhecesse poderia jurar que não podia me ver ali. Aliás, eu acabei esquecendo que estava ali!

Ele terminou o conhaque e se sentou em uma poltrona, acariciando a grande cicatriz em seu rosto, como fazia quando analisava alguma coisa.

—Está preocupado! -falei com o intuito de mostrar que eu estava ali, caso ele não tivesse percebido.

Ele me olhou com surpresa, não tinha me notado mesmo.

—O que acontece de agora em diante? -perguntei.

—Encaramos o que está por vir! -respondeu.

—E quanto aos vampixiitas? -eu estava preocupada com a presença de Gannen e seu assistente.

Larten suspirou mostrando preocupação.

—É irmão de Vancha, até onde sabemos é aliado! -respondeu, mas também estava preocupado.

—Iremos para a Montanha?

—Sim, é preciso! -respondeu.

Fiquei preocupada, e quando ele notou disse :

—Não tema por aquilo que ainda não aconteceu! Sabe por que aceitei fazer parte disso?

—Porque é um vampiro honrado e abdica de tudo pelo bem do clã! ? -eu estava ficando irritada.

—Também, mas principalmente para termos uma chance a mais caso a nossa recepção por Mika e Arrow não seja amigável !

—Como assim?

—Faço parte agora do grupo que pode decidir o destino do clã, terão que pensar duas vezes antes de me condenarem à morte. Não pense que quero fugir, serei julgado quando tudo acabar, se acabar bem, faço questão! Mas você ainda não está pronta para isso!

—Entendo. -não tinha nada o que dizer para aquele ser teimoso naquele instante, mas tive uma pontada de esperança depois que ele esclareceu o seu ponto de vista. O que eu não entendia era o motivo dele querer tanto ser punido, pelo menos, era o que parecia...

—Vamos esperar Vancha terminar com Evanna para decidirmos aonde ir! -disse ele voltando ao seu estado de introspecção, um olhar distante enquanto balançava o copo já vazio.

—Vou olhar mais uma vez se não falta nada para guardar! -disse, ele assentiu com a cabeça.

Quando eu ia saindo parei na porta e o olhei.

—Sr. Crepsley, -chamei. Ele ergueu os olhos e me encarou. -Se arrepende de ter me convertido em sua assistente?

Ele me encarou sério, depois desviou o olhar, levantou-se da poltrona, pôs o copo na mesa de canto, tornou a olhar para mim encostado mesa com os braços cruzados.

—Por que a pergunta, Beatrice? –parecia não acreditar que eu tinha dito o que disse.

—Porque está tão ansioso para ser punido por ter trocado sangue comigo que pensei que pudesse estar arrependido.

Ele riu tristemente.

—Eu violei uma lei. -disse. -Sabia o que estava fazendo, sabia que era errado e mesmo assim o fiz!

—Entendo...

—Não, não entende! -retrucou ele.

Eu o olhei confusa.

—O pior de tudo isso é que nem por um momento eu me arrependi do que te fiz, e é por isso que preciso ser julgado! -ele dizia essas palavras tão fria e calmamente que se eu não soubesse interpretar iria achar que estava me instruindo a fazer algo.

—Então... Não é porque se arrependeu, mas sim por não ter se arrependido!?

—Você está aborrecida comigo pelas razões erradas! -acusou-me.

—Não estou aborrecida! –repliquei.

Ele levantou uma sobrancelha.

—Talvez um pouco... -reconsiderei. -Não quero que morra!

Ele pareceu surpreso com a minha sinceridade, ou estaria feliz?

—Precisa confiar em mim! –disse ele.

—Eu confio! Não confio nessa situação.

—Confia mesmo? –ele perguntou levantando uma sobrancelha.

Eu apenas suspirei.

—Olha, eu não queria que estivesse passando por isso. Pensei que encararia essa situação de maneira diferente, talvez eu tenha falhado ou calculado mal, mas a questão é que não posso fazer nada para mudar isso agora! –disse com franqueza. –Agora tente não pensar muito no que está por vir. Olhe se não esqueceu nada!

Eu assenti, sentindo-me contrariada, mas ele sempre acabava com a ultima palavra mesmo!

—E, Beatrice! –disse num tom severo. –Aprenda a confiar em mim, acho que depois de tudo o que passamos eu mereço isso!-ele falava sério. – E nunca mais diga que me arrependi de tê-la convertido, nem sequer pense em duvidar da afeição que tenho por você!

Eu o olhei surpresa. Mesmo naquele tom sério e extremamente imperativo ele tinha demonstrado e exteriorizado sua afeição por mim. Afeição cuja existência eu estava questionando.

—Sim, senhor! –sorri e saí.

NUMA CAVERNA AO SUL DE ONDE BEATRICE SE ENCONTRAVA:

—Então eles são o tal grupo que propõe paz? –perguntou o garoto ofegante.

—Sim! –respondeu seu professor. –Levante o braço direito, proteja os olhos!

—Ai! –reclamou o garoto.

Seu professor o arranhou novamente com a adaga.

—Preste atenção! –disse o mestre. –Fala tanto de vingança e mal consegue se manter vivo em um treinamento!

Ele o derrubou.

—Levante-se!

—Estamos nisso há duas horas! –protestou o jovem.

—E não duraria dois segundos nas mãos dele! –espetou o vampixiita.

—Ora, eu não quero saber de dar socos agora! –gritou o rapaz. –Eles estão caminhando para a paz e isso estraga meus planos! Estamos perdendo tempo aqui e se...

—Cale-se! –repreendeu-o o mestre, segurando o rapaz com uma mão pelo pescoço. –Não me trate como alguém que não sabe o que faz! Eu conheço o homem que quer matar melhor do que você, sei o que estou fazendo e se voltar a gritar comigo novamente eu vou acabar com você!

—Desculpe! –disse o garoto sufocando.

—Pois bem!-soltou-o – Não é um jogo de violência, sim de estratégia! Vamos destruí-los de dentro para fora. Por isso precisa estar preparado, esperto e forte! Seu papel será fundamental!

—Não entendo!

—Mas antes precisamos encontrar os outros! Os que se opõem à Gannen! Vamos derrubá-los!

—E como faremos isso?

DE VOLTA À CASA DE EVANNA

—Então quer dizer que Juan envolveu líderes políticos humanos em sua sujeira? –perguntou Larten abismado. –Não sei como me surpreendo ainda!

—Sim, e lhes ofereceu muitas coisas! –disse Gannen . –Isso nos leva a crer que para esses homens o final da guerra não é interessante!

—E o que faremos? –perguntou Harkat.

—Vamos precisar entrar em contato com essa gente! –disse Vancha. –São muitos?

—Sim, e muito influentes também! –disse Gannen.

Eu estava parada ao lado de Lucian. Nós nos olhávamos como se fosse proibido um olhar para o outro. Parecíamos duas estatuas lado a lado.

—Da ultima vez que nos envolvemos com líderes humanos, tivemos que despistar nazistas do clã por meses! –disse Gavner, olhando para Larten.

—Sim, e eu tive que interferir mais abruptamente! –falou Vancha.

—Oh sim, ouvi dizer que invadiu o alojamento de Hitler numa noite e o ameaçou! –disse Gannen rindo.

Eu sabia daquela história por alto. Que uma vez os vampiros, mais precisamente Sire Mika, se recusou a apoiar os planos de Hitler e esse passou a perseguir o clã, colocando em risco sua existência. Larten e Gavner ficaram despistando esses caçadores pelo mundo para proteger os outros vampiros, mas eles só pararam a perseguição quando Vancha ameaçou Hitler de morte, antes dele se deitar para dormir, caso não parasse de persegui-los. Eu achei que ele deveria tê-lo matado de qualquer forma, teria evitado tantas barbaridades... Mas depois da experiência que tive com Evanna notei que tudo o que acontecera, iria acontecer de qualquer maneira!

—Larten e Gavner voltarão para a Montanha a tempo do Festival dos Não Mortos, ocasião perfeita para saber quem está contra e quem está a favor do acordo de paz. Eu continuarei aqui e vou arrumar maneiras de entrar em contato com esses líderes junto com você! –disse Vancha ao seu irmão.

Todos concordamos. Agora era oficial! Iríamos para a Montanha do Vampiro!