A saga de Afrodite - Os Cavaleiros do Zodíaco
5 O coração de um Dragão tem de estar sempre livre
Notas iniciais
Shiryu havia acabado de terminar uma carta-telegrama enviada por Docko de Libra alertando-o sobre o que estava acontecendo no Santuário, e por mais que tentasse entender o que estava acontecendo, pra ele havia se tornado incompreensível as razões de Atena. Resolveu que iria ao Japão, tentar descobrir algo; supunha que Seiya e os outros também fariam o mesmo já que estavam vetados de ir para o Santuário.
O dragão estava nas montanhas de Rozan é claro. Aquela era sua casa, sempre fora mesmo antes do treinamento. Gostava de relaxar observando as montanhas, o vai-e-vem dos camponeses dia após dia seguindo o fluxo das suas vidas como as águas da cachoeira de Rozan. Sempre que precisava sair dali ficava um pouco triste. Gostaria de estabelecer uma vida pacata naquele lugar de uma vez. Não tinha costume de comentar, mas se via ali vivendo calmamente no meio das montanhas, talvez quando mais velho firmando uma família e vivendo do que a terra desse. Estranhamente, diferente de Shun que gostava da vida agitada em Tóquio a despeito de sua personalidade doce, o jovem Dragão gostava da vida pacata no campo. Na verdade, isso até combinava com ele que sempre tentava manter uma personalidade mais centrada, assim como ele acreditava que o gelo da Sibéria combinava com Hyoga e seu jeito calado e frio de pensar. Achava o Cisne seu segundo melhor amigo, mas ainda pouco entendia o que passava na cabeça dele. Hyoga não era muito de se comunicar, mas era uma pessoa gentil e sentimental quando não estava atrás daquela máscara de frieza e impassividade. Será que um dia ele iria se abrir pra alguém? Ao menos a atitude dele era melhor que a de Ikki que nem mesmo ficava perto de alguém o suficiente pra sequer pensar na hipótese de se abrir.
Enquanto pensava nisso, Shiryu já estava subindo a montanha para preparar as malas de viagem; ele morava na casa de seu mestre, uma casa simples de pedras com telhado cinza e na frente havia um pequeno terraço onde várias plantas medicinais verdejavam em vasos (Shunrei as vendia secas como remédios) e uma mesa com duas banquetas de madeira onde ele quando se deparou com Mu sentado na porta de sua casa lhe esperando, acompanhado de uma Shunrei tensa com a presença do jovem. Ambos tomavam chá. Shunrei tinha uma expressão aborrecida na face e Mu com jeito ligeiramente pensativo. Mu não estava de armadura, mas com suas roupas clássicas de Jamiel, mas vê-lo tão rápido em sua porta? Isso o surpreendeu apesar do aviso de Docko.
—Bom dia Shiryu.
—Bom dia Mu. Veio até aqui para cumprir com suas ordens? — perguntou Shiryu tenso.
—Não, em absoluto. Pode baixar a guarda, eu não pretendo cumprir com tais ordens absurdas. Só vim aqui dizer o que aparentemente você já sabe. – apontou pra o papel na mão de Shiryu- Mas acho que você não sabe que seus irmãos estão correndo um grande perigo; diferente de mim, os outros cavaleiros vão cumprir suas ordens de execução.
—É isso eu já imaginava, mas não há nada que eu possa fazer sobre há?
—Infelizmente não.
—Eu resolvi ir até o Japão, e embarco hoje à noite. -fez um gesto para que Mu o acompanhasse.
Essa última frase de Shiryu foi acompanhada de uma interjeição + um olhar de raiva e incredulidade de Shunrei para o Dragão, que preferiu ignorar. Dragão e Aires saíram caminhado e se afastando rapidamente dali.
—Atena também precisa de ajuda Shiryu. Ela foi dominada de alguma forma por esse inimigo desconhecido, ou não tentaria fazer mal a vocês... Vocês são a menina-dos-olhos... quer dizer, os meninos-dos-olhos da deusa.
—Eu vou ao Santuário...
—NÃO VOCÊ NÃO PODE PISAR LÁ!! -Você tá louco Shiryu? Não leu o que o seu mestre te mandou? Você tem de ir ao Japão não ao Santuário! — o grito era de Kiki que estava em cima de uma árvore (há essa altura os dois já estavam bem longe da casa de Shiryu).
Mu olha pra cima revoltado.
—Kiki não foi essa a educação que eu lhe dei!! Tenha modos!!!
—Mas mestre ele não tá escutando!!! O que o senhor queria??
Mu suspirou. As vezes era difícil manter a pose sem parecer o mais velho (mesmo que de fato ele o fosse). Apertou o dorso do nariz com jeito de cansado. Shiryu não parecia incomodado com o jeito de falar de Kiki, mas parecia bastante pensativo olhando para o caminho de onde vieram.
—Shiryu vá fazer suas malas depressa, que eu o acompanharei até o Japão; precisamos conversar, mas se for a caminho melhor.
—Tá!- e Shiryu saí correndo, já que não se havia nada mais a dizer por enquanto.
Shiryu faz sua mochila rapidamente, e na saída reencontra Mu.
— Já podemos ir. — mas Mu aponta pra trás e diz:
—Não é a mim que deve avisar, mas a ela.
Shiryu olha pra trás. Mu estava apontando pra Shunrei.
—?
Mu dá um longo suspiro.
—Sabe, a experiência me diz que se você não tiver a permissão dela não será sucedido na sua nova jornada. O coração ferido de uma mulher nunca deve ser subestimado, e pelo que eu sei você tem ignorado o amor desse coração há muito tempo. Se for o caso, eu espero.
Shiryu caminhou até ela; ao vê-lo vindo até si, ela se virou, mas não conseguiu esconder as lágrimas nos olhos.
—Você tá indo de novo pra outra guerra e nem me avisa ou se despede?! Por que você sempre tem que ir pra alguma guerra, luta salvar aquela piralha? Ela tem outros 87 Cavaleiros, e você não pode ir, por que toda vez que você vai eu ... eu fico de coração na mão, rezando pra você voltar!!!
—Mesmo que você não queira, eu preciso ir Shunrei, Atena depende de mim...
—Atena depende de você???? E eu?? Eu Shiryu, será que você não percebeu ainda que eu te amo?
Shiryu ficou mudo diante dela, enquanto ela se vira de frente pra ele e continua falando agora diante seu rosto, olhando bem nos seus olhos:
—Eu tenho medo que você não volte mais...que me deixe sozinha... eu ...eu...tenho medo de te perder! Eu te amo tanto e parece que você não percebe, que não se importa, age como se sua vida não valesse nada... você... eu...eu... – e se desmanchou em soluços intermináveis.
Shiryu a abraça forte, passando a mão em seus cabelos cor de Ébano, tentando consolá-la. Olhou com carinho para os cabelos lisos, um véu negro que hoje estava solto esvoaçando ao vento. As lágrimas molhavam sua camisa. Suas bochechas ficaram rosadas. Quando a garota para de soluçar (o que leva um bom tempo) Shiryu sussurra em seu ouvido:
—Shunrei, por favor, me espere, eu prometo a você que vou voltar... vou voltar pra você eu prometo...mas agora eu preciso ir. Adeus.
Shiryu apertou o ponto da clavícula que inconcientiza Shunrei. Ele a carrega até os braços pra casa, e a deixa na cama dormindo. Mu, que estava esperando pelo Dragão, e assistiu a cena de longe perguntou:
—Por que você a deixou assim? Ela vai ficar muito brava com você ao acordar.
—Você é um cavaleiro e deveria entender, que estando nessa vida sucessiva de batalhas, não temos estabilidade para criar laços afetivos de nenhum tipo. Imagina você se casar e na semana seguinte deixa a sua esposa viúva? Ou ficar noivo, morrer numa batalha e deixar sua noiva esperando? Não... apesar de saber dos sentimentos de Shunrei eu não devo corresponde-los.
Mu sorriu; essa era a racionalidade que um Cavaleiro de verdade seguiria, mas um cavaleiro também é um homem. Foi pensando assim que ele resolveu perguntar:
— Mas você gosta dela ou não?
Shiryu nem olhou pra trás, ou hesitou ao dizer bem baixinho:
—Gosto.
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