Notas iniciais
Agrupem-se melhor e mais perto da fogueira. Faz muito frio por aqui devido ao mar, que está tão próximos de nós, isto me faz lembrar de outra história! Irei narrá-la agora:

Tomem cuidado com as crias de Ellune, eu vos digo. Criaturas sombrias e cruéis, que esperam pelo momento certo para pôr a semente da discórdia na mente dos homens. Elas são a prova viva de que não se deve julgar um livro pela capa. São belas como a lua e misteriosas como as águas do mar. E perversas como a serpente marinha que destróis embarcações e enviúva mulheres.

Ainda no crepúsculo do mundo, antes que os próprios homens existissem. Havia quatro deuses; Sárin, Miikeh, Lael e Ellune. Cada Deus reinaria sobre um elemento no mundo. Sárin, deusa do ar, tinha a alma leve e pura. Seu humor ia de uma leve brisa à tempestade. Tinha cabelos brancos e uma pele quase transparente. Seus olhos azuis como o céu refletiam a bondade em seu coração. Amava vagar pelo mundo e conhecer novos lugares. Sárin é a Deusa da bondade, leveza e clemência. Bem diferente de seu irmão Miikeh. Sempre duro sempre frio. Dono de um temperamento tão neutro quanto o de uma rocha, não queria saber de paz, ou guerra, ou do que fosse. De pele clara, cabelos acobreados e olhos castanhos, apenas ficava em sono profundo no subsolo. Deus da paciência e tenacidade, quando se mexia durante o sono ou acordasse, a terra se movia conforme tal. Causando destruição às vezes, mas não o fazia por mal, era dono de uma paciência absurda e sempre mantinha a calma, mesmo quando seu irmão Lael, o Deus do renascimento, o vinha provocar. Impaciente e inquieto quanto o próprio fogo, tinha uma personalidade que variava de chama a incêndio. De pele escura e cabelos vermelhos, sempre gostava de irritar seu irmão, causando erupções e incêndios para sua diversão. Seus olhos incandescentes tinha um cinismo misturado com certa dose de decência. Bastava que Ellune visse conversar consigo para que se controlasse. Ellune, deusa da fertilidade e das canções, possuía cabelos negros e olhos lilases, lábios carnudos da cor do mar e uma pele ligeiramente azulada. Gostava de se divertir pulando ondas e apreciando a lua cheia. Todos os deuses eram por natureza, ao mesmo tempo bons e maus. E viviam em harmonia até o dia que percebeu que estava apaixonada por seu irmão. Lael sabia que era errado, mas Ellune não se importou, e falou mil mentiras em seus ouvidos. No dia que se tornaram um a humanidade fora acometida por desastres. Muitas pessoas morreram, montanhas sucumbiram perante enchentes e erupções vulcânicas. O mundo havia se tornado um inferno. Após esse dia, Ellune fora banida para o mar por seus irmãos. Recebendo uma cauda de peixe para nunca mais poder pisar em terra novamente, e assim nunca mais poder voltar para sua morada e a de seus irmãos.

Tamanho era o estado de fúria e rancor no qual se encontrava, Ellune culpou os humanos. Aqueles que por existirem, impediram ela e seu amado de ficarem juntos outra vez. As crianças que teve cresceram e a ajudam até hoje em sua vingança contra os humanos. Por isso eu vos digo; muito cuidado com as crias de Ellune. Lindas como uma flor e perigosas como uma serpente. Elas atraem os homens com suas canções e histórias, ás vezes os afogam. Ás vezes elas fazem pior; escutam seus problemas e temores e se utilizam disso para causar-lhes mal. Uma vez, um bardo cansado de suas desilusões. Andou por uma trilha e ao tentar pegar um atalho se perdeu na mata. Andou e andou até que começou a ouvir murmúrios de canções. Ao seguir este som, encontrou uma bela mulher sentada numa pedra sob a lua penteando seus cabelos molhados com um pente estranho. Este estava encantado com sua beleza, ela lhe sorriu e perguntou o que desejava.

–Nada minha senhora- ele respondeu abismado.

–Meu caro. Não precisas me olhar assim, chegue mais perto. Conte-me seus infortúnios, me permita apaziguar seu coração. Permita-me acalmar sua alma revolta. E cantou uma canção singela.

O homem caiu de joelhos na beira do lago onde a mulher estava. Não tardou muito suas lágrimas começaram a rolar. Tinha uma única filha a quem amava muito e que havia caído de cama. Sua doença requeria um tratamento muito caro e deveras complexo para que ela se curasse. Por isso ele estava noite e dia em tavernas, pousadas e em outros locais, cantando canções e contando historias em troca de dinheiro para salvar sua amada filha. Por causa de sua ausência em casa, esta lhe queixava (quando conseguia proferir alguma palavra). Sentia falta da filha sorrindo e dançando com as crianças da aldeia. Era uma jovem tão gentil, tão querida. Pensava que os deuses os detestavam por quererem levar sua filha da mesma forma que levara sua esposa.

–Os deuses são cruéis, ouso dizer que até mais que os homens. Trazem infortúnios e incertezas às nossas vidas para se divertirem- Dizia a mulher balançando maliciosamente sua cauda submersa sem que o homem visse.

–Eu só queria poder ter paz- Dizia o bardo em meio aos prantos. – A culpa disso fora toda minha! Estava tão ocupado tentando dar a ela a vida que merecia que não percebi que estava começando a adoecer. Só notei quando enquanto jantávamos quando ela tossiu sangue e desmaiou!

– Há uma maneira de ter a paz que tanto quer. Siga pelas entranhas da floresta, e procure uma planta roxa escura de flores amarelas e frutos vermelhos. Colha algumas flores e delas faça um chá para você e sua filha, isto irá curá-la e também apaziguar seu coração.

–Isto é verdade?

–A floresta é a muito esquecida, os homens pensam que tudo que precisam está nas cidades. E graças a isso dão pouco valor aos antigos medicamentos; os julgam ultrapassados.

–Muito obrigado senhora! Tens o coração de um anjo!

A moça agradeceu, e assim que o homem sumiu em meio às arvores ela riu e voltou a pentear seus cabelos.

Pela manhã, ao baterem na porta da casa do bardo, seus amigos estranharam. Ele sempre despertava com o sol, e não ter vindo atender de imediato era incomum. Ao entrarem o encontraram morto assim como sua filha, com uma estranha espuma roxa saindo da boca de ambos. Próximo a cada um havia uma caneca de madeira com um líquido pela metade com pequeninas flores amarelas murchas em seu interior. Foi errado da parte do homem ouvir os conselhos de uma cria de Ellune, por que não importava quem descobrisse o fato. Assim que ele e sua filha beberam do veneno, não haveria ajuda que chegasse a tempo.

Notas finais
-Uma pergunta a vocês; as crias de Ellune existem? A maioria riu e disse que não. -Vocês estão errados! Elas existem, falam como nós, andam como nós. Se aproveitam de nossos infortúnios, pisam em nossas feridas e nos fazem tomar as escolhas erradas. Murmuram em nossos ouvidos como uma serpente e buscam nosso mal para sua diversão. Todos aqueles que estão aqui conhecem pelo menos uma Cria de Ellune, cabe a vocês saber ou descobrir quem elas são.. E todos os ali presentes se calaram.