A represa
3 Amy Fells
Segunda-feira. 1 de Fevereiro. Parece que tudo estava dando certo na minha vida, até eu realmente fazer um amigo de verdade que se importa comigo e queira saber minha história. Não vou me preocupar com isso agora. Se a pessoa for mesmo uma pessoa que se importe ela entenderá o meu silêncio. Minhas aulas começam à 7h e vai até 12:45h. Meu novo trabalho como caixa de um dos únicos mercadinhos da cidade começa às 3:30h até 19:30h. Isso mesmo, quatro horas de trabalho. As coisas fecham cedo aqui em Huntsville. Sem motivo na verdade. Eles só fazem e pronto. Não se preocupam muito com essas coisas.
Coloquei meu tênis, uma calça e uma camisa com um casaco. Realmente, parecia inverno pois sempre estava tão frio aqui. Coloquei minha touca preta e fui andando até a escola, porque não seria preciso pegar o carro para ir à 3 ruas para frente. Com um cigarro na mão só pude ver a fumaça se misturando com o ar gelado cinzento. Fui para minha sala e esperei o sinal tocar. Vi pessoa por pessoa entrando na sala. Uma menina que usava uma touca cinza sentou à minha frente. Poderia ser ou não aquela menina. Isso não me importa. Não estava aqui para fazer amiguinhos felizes.
Tocou o sinal para o lanche, eu trouxe uma maçã, sentei no chão perto da escada para as salas. Eu tinha a visão de todo o refeitório, todas as mesas e pessoas na minha frente. Até que uma garota de cabelos ruivos senta ao meu lado no chão e começa a falar, falar muito, como se fossemos amigos:
— Hey novato! Começou hoje não é? Meu nome é Kaitlin, mas pode me chamar de Kate — Aquilo me deu uma dor no coração, ouvir o nome da minha mãe me fez olhar para ela com um ar frio — Tudo bem, novato? Eu sei que é chato fazer amigos novos e tals mas eu to aqui para ser sua amiga, se você quiser, é claro, todos somos amigos aqui... — Nem estava mais ouvindo o que ela estava falando, ela falava demais, estava com o nome da minha mãe repetindo em minha mente, como se ela girasse em minha mente mesmo que eu tentasse impedir. Kate. Kate. Kate. Ela continuou falando. — Vem, deixa eu te apresentar umas pessoas, aquele é o Spencer — Apontou para um menino alto de cabelos pretos e olhos azuis. — Aquele é o Justin — Apontou para o menino do lado de Spencer, ele era um pouco mais baixo e tinha cabelos loiros e olhos verdes. Ambos de pele bem branca. — E aquela ali, é a... — Olhei rapidamente para a menina em que ela apontava, era ela. — Amy.
— Meu nome é Marty, Marty Clark. Prazer... — Gaguejei mas consegui dizer — Prazer Kate. Muito obrigado por "isso".
— Vem Marty, vem conhecer a galera. — Nós dois rimos.
Cumprimentei os três e o sinal tocou. Na sala, Amy que sentava à minha frente virou pra trás e ficou me encarando com um leve sorriso na cara. Estragando o prazer dela, eu disse:
— Qual é o problema?
— Nada, é que aquela represa está la a anos e ninguém nunca a descobriu. Eu vou la todo dia, sozinha.
— Não estou entendendo onde você quer chegar com isso...
Amy deu uma tossida disfarçando-a e disse meio atrapalhada:
— Nada, nada. Desculpe. Então, eu posso te mostrar a cidade hoje, se você quiser. Vamos eu, você, Spencer, Justin e Kate.
— Obrigado Amy, mas eu tenho que trabalhar a tarde.
— Bom, então eu te encontro na represa hoje a noite.
Amy deu uma piscada para mim e virou para frente.
— Ei, ei! Como sabe que vou para lá hoje? Como você... Ah esquece!
— Eu vi o jeito que você olhava para aquele lugar, eu não sou cega. É como se você precisasse estar ali. Como se fosse parte de você.
Estava chato isso. Ela estava me dominando, como se ela lesse minha mente. Eu não quero isso. Não quero pessoas que me impeçam de fazer o que vim fazer aqui. A última coisa que eu precisava era me apaixonar. Um ódio estava crescendo em mim de ela conseguir me fazer gostar dela. Não era eu, mas mesmo assim, meu lábios se moveram e formaram a frase:
— Te vejo lá.
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Quando deu meu horário do trabalho fui até o mercadinho e voltei às 19:30h. Um emprego normal, um caixa normal. Bom, a noite estava fria então coloquei um casaco mais grosso e fui até a represa. Novamente, não era eu, era o meu ódio dizendo que queria ir até lá para estragar o meu plano. La estava ela. Amy Fells. Com uma calça jeans acinzentada, um moletom bem largo e sua touca cinza de lã na cabeça. Amy disse brincando:
— Ai meu Deus! Você veio!
Ambos rimos. Ficamos sentando lá olhando as estrelas crescerem nas águas cristalinas da represa. Conversamos um pouco, nada de mais. Ela era exatamente o tipo de garota em que qualquer um morreria apaixonado, mas eu não. Eu a via como uma amiga. Não sei se poderia chamá-la de amiga. Eu a conheci hoje. Era uma colega. Para quebrar o silêncio, Amy começou a falar:
— Então Marty, o que te trouxe à essa cidade tão grande e movimentada e conhecida.
Dei um risinho. Ela gostava de fazer piadinhas irônicas. Eu gostaria de inventar uma história qualquer, mas novamente o ódio me tomou e me fez dizer a verdade:
— Meus pais morreram em um acidente de carro, no meu aniversário. Decidi viver minha vida longe de qualquer um que me impeça de fazer o que devo fazer.
— E o que você deve fazer?
— Primeiramente, buscar a minha missão. Eu já descobri qual é.
Peguei um cigarro e o acendi e continuei falando.
— Conhecer a morte.
Amy parece meio incomodada ao ver que eu fumava e diz em uma ar desafiador:
— Então porque você não simplesmente pega uma faca e se mata? E se essa fosse realmente sua missão de vida, você já deveria estar morto pelo acidente.
Sorri, olhei para cima ainda sorrindo e depois olhei em seus olhos. Nunca tinha olhado para eles. Castanhos escuros, era como se eu entrasse dentro da mente dela. Tudo lá brilhava muito. Meu sorriso foi fechando e só ficou a curvatura em meu lábios.
— O que importa não é o fim da jornada, e sim, a jornada.
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