A redenção de Nathalie
1 Presente de aniversário para Adrien
Notas iniciais
Nathalie Sancoeur tem quase nada para chamar de seu. Não parece ser dona nem da própria vida. Dedica-se praticamente em tempo integral à família Agreste há muitos anos. Dizer isso pode fazê-la parecer mais velha do que é, e mesmo do que aparenta. Injusto! Sua aparência é impecavelmente bem produzida, mas não a envelhece. Ao contrário, a torna ainda mais bonita e disfarça bem as marcas de cansaço. Mas tamanha produção também faz parte do que chamam “ossos do ofício”. Pois Nathalie – justiça seja feita – é a cara de uma família.
A jovem mulher representa o senhor Gabriel Agreste em eventos de menor porte e cuida de sua agenda. Mas suas principais atribuições tratam de reger uma casa. Administra a mansão agreste como uma governanta, cuida dos afazeres e interesses do jovem Adrien Agreste como uma babá, carrega o sr. Agreste em seu tablete como um guarda-costas, cuida do guarda-costas, Gorila, como uma irmã. Mas esse último não é trabalho. É uma faceta de Nathalie desconhecida por quase todos – ela tem sentimentos.
Esses sentimentos poderiam justificar tamanha dedicação à família Agreste. Quem buscar conhecê-la melhor, e encontrar esses sentimentos, pode confundir-se e pensar que ela nutre um amor platônico pelo chefe. Mas não é o pai quem a mantém fiel ao seu trabalho, mas o filho. Nathalie ama Adrien, como uma mãe. Bem, talvez seja exagero. Mas o ama como uma irmã mais velha, como uma tia próxima, como uma “boadrasta”... enfim, o ama. E sempre tenta fazer o melhor por ele.
Mas Nathalie optou, pelo bem e duração de seu trabalho, manter-se neutra em presença, em opinião e em sentimentos. Não os demonstra. Só uma pessoa na mansão sempre sabe onde ela está, o que pensa e o que sente. O seu amigo Gorila. Ele, que também não é dos humanos mais amistosos e sorridentes, a entende e compactua com ela até mesmo em seu disfarce de cubo de gelo.
Parte de tal seriedade é dela mesma. Reflexo de frustrações acumuladas. Primeiro, por não saber exatamente quando e como virou uma mãe postiça, quando nem nunca desejou ter filhos. Mas também se frustra por ter visto o chefe desmoronar pelo abandono da esposa e tentar reconstruir-se de forma tão torta, a ponto de virar um homem amedrontado, prisioneiro na própria casa e carcereiro do próprio filho. Frustra-se pelo jovem modelo – pobre adolescente! −, privado de amigos, de vida social e afundado em compromissos. E frustra-se por ser não muito mais que ela mesma, que tem tão pouco, mas que faz muito.
Nathalie tinha um compromisso anual: providenciar o presente de aniversário de seu chefe para o filho. Gabriel não dedicava tempo para nem mesmo dizer o que queria que fosse comprado. Para não interferir com seu gosto pessoal ou demonstrar afeição, não se esforçou muito em procurar algo que pudesse agradar o aniversariante. Por três anos seguidos, o presenteou com canetas. E nem variou no modelo. Não fazia diferença para ela, uma vez que o chefe nem tomava conhecimento do “seu” presente para o filho.
Esse ano a ordem não seria diferente, se não fosse pelo simples fato de o chefe sequer ter solicitado que Nathalie providenciasse um presente. Ela esteve ocupada o dia todo não organizando uma festa de aniversário para Adrien. Ficou triste por ele, mas com tantas outras tarefas, Nathalie estava agradecida por ter menos essa preocupação. Mas esqueceu-se do presente. E Gabriel entrou em contato, com rompante de czar, já inquirindo a secretária:
− Lembrou de comprar o presente dele por mim? – O Sr. Agreste tratou do assunto como se fosse óbvio não querer presentear o próprio filho.
− Ããã... é... mas o senhor não pediu. – Apesar de não ser a primeira vez, Nathalie não tomava decisões pelo chefe sem qualquer consentimento.
− É claro que pedi!
− Sim, Sr. Agreste, eu vou cuidar disso – respondeu a mulher, já tomada por medo.
− Que bom!
Mas de onde sacaria uma caneta?
− Por favor, outra caneta, Nathalie? Que absurdo! – pensou consigo mesma. – Pensa rápido, pensa rápido...
A salvação de seu pescoço estava logo ao alcance de suas mãos. Um presente entregue de forma anônima por alguém. Adrien ainda nem tinha visto. Fazer ou não fazer? Fez! E lamentou só por poucos segundos sua decisão, pois em seguida o interfone tocou e ela partiu para atender e encaminhar Nino em encontro ao pai de Adrien.
Entre tarefas e um passeio inesperado em uma bolha, Nathalie deixou o presente ao lado e mergulhou em seus afazeres, até que Gabriel a relembrou do presente.
− Nathalie, meu filho gostou do presente dele?
− Ããã ... na verdade... ééé... vou verificar isso agora mesmo, senhor.
− Ótimo!
Procurou o presente em sua mesa e, ao vê-lo... surgiu uma dedicatória no presente. Quando? Como alguém ousou mexer em sua mesa?
“Com amor, Marinette”.
Mas a pobre moça escreveu no único meio disponível para uma decisão inesperada – um post it. Ah, então pode ser que nem seja dessa tal Marinette. Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, diria a sua avó. E, convenhamos, o post it nem deixaria marcas. Foi fácil se livrar dele, até porque a consciência de Nathalie nem doeu.
Mais tarde, Nathalie surgiu com o presente na sala de jantar e o entregou para Adrien.
− Um presente de aniversário. Do... seu pai. – Por sua expressão ninguém suspeitaria de sua mentirinha.
− Ah, obrigado! – respondeu Adrien, surpreso.
Nathalie ela virou-se para seguir, sabendo que, o que quer que estivesse na caixa, já agradaria o rapaz, só pela intenção. Mas ele a interrompe:
− Nathalie, por favor, agradeça o meu pai por mim.
Ela só acenou que sim com a cabeça. Pronto! Serviço feito. E o sorriso agradecido de Adrien fez aquele pequeno delito valer a pena. O menino estava claramente feliz, não somente pelo presente, mas pela suposta dedicação de seu pai à escolha de uma “não-caneta”, restaurando a fé do jovem em seu progenitor.
− Eu merecia um aumento, só por isso! – Nathalie não conseguiu evitar o pensamento.
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