A redenção da princesa - Afonsarina
1 Capítulo Único
Notas iniciais
"Caiu mais uma vez
Ferido foi jogado ao chão
Precisa encontrar força e levantar
Das cinzas, começar
Qualquer um pode sentir dor
Mas eu te ajudo a suportar"
Segunda Chance – Khorus
Catarina de Lurton, princesa herdeira do trono de Artena, reconheceu imediatamente o lugar que estava.
O Jardim das Águas era o seu lugar preferido logo após o Labirinto de Flores. O ambiente com o enorme chafariz e a lagoa de águas azuis e cristalinas parecia ser mistico. Era o seu lugar sagrado onde sentia-se próxima à mãe. Lembrava-se perfeitamente da bela mulher, com a coroa dignamente ostentada em sua cabeça, olhando profundamente aquelas águas, como se elas escutassem seus pensamentos e em silencio, enviassem respostas para seus questionamentos.
Ela não era apenas um enfeite.... Sua amada mãe era um exemplo de monarca, um exemplo de mulher, um exemplo de mãe.... Por mais que seu pai dissesse inúmeras vezes que Catarina havia herdado seu temperamento nebuloso e arisco, aquilo jamais soou-lhe como uma critica, apenas enaltecia o grande amor que Catarina tinha por aquela mulher.
A rainha de Artena foi-se cedo. Catarina a perdeu para a morte e se perguntava se caso tivesse convivido com a mãe até a idade adulta, se teria algum impacto nas escolhas que fizera e que não acreditava mais serem as mais certas.
Sorriu agradecida por poder estar novamente em casa. Não lembrava-se como chegara até ali, e sinceramente aquilo não importava. Sua ultima lembrança era do homem à quem amava implorando-lhe para não desistir e continuar lutando.
Ela estava farta de lutar!
O peso em seus ombros e as vozes em sua consciência não existiam ali Deixara tudo o que machucava para trás e estava novamente em seu lar: Artena. Ali era o lugar onde o ar era puro, o clima era ameno e o cheiro da natureza era sentido em cada canto. Nunca deveria ter saído de casa. Nunca deveria ter destruído sua casa!
Sentando-se junto ao chafariz, visualizou o lugar por entre as cortinas de água. A mão, que tocara delicadamente em seu ombro, a fizera deixar suas saudosas lembranças para encarar seu visitante um tanto por ser interrompida em um momento tão nostálgico.
O olhar foi tomado pelo medo e ela não conseguia acreditar no que estava vendo. A princesa não era uma pessoa religiosa, muito menos temia espíritos, porem sua mente racional duelava com o seu coração ao encarar os olhos com que tanto sonhava.
Era a sua rainha.... sua mãe.
A mulher mais velha estava exatamente como na ultima vez que Catarina a vira antes de sucumbir a doença que a manteve presa à uma cama por semanas, antes de leva-la para sempre. A cor purpura também era a preferido da rainha de Artena e a sua fiel companheira, a coroa, estava presente. Ela era simplesmente maravilhosa. Antes de Catarina, aquela havia sido considerada a mulher mais bela da Cália, titulo totalmente merecido.
Lentamente, Catarina levantou-se
— Senhora minha mãe.... — sua voz, sempre tão firme e potente, saíra em um sussurro doloroso.
Isso é impossível, sua estupida! Sua mãe está morta!
Sua mente gritava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, Catarina permitiu que seu coração nublasse a voz dominante de sua mente e ditasse suas ações.
Mas em seus olhos, outrora alegres e sagazes, havia algo que ela nunca vira antes: decepção.
— Como...?
— O que você fez, Catarina?
A voz dura da mulher a fez encolher-se como uma garotinha. Ela sabia a que a mãe se referia, mas mesmo assim ficou imensamente tentada a fazer-se de tola e questionar sobre o que ela falava. Mas Catarina poderia ser muitas coisas, mas não era tola. Sonho, miragem, delírio.... aquele acontecimento extraordinário poderia ser o que fosse, mas ela não se atreveria a desafiar sua mãe, não sabendo da fama que ela tinha.
— Catarina, responda! O que você fez com o reino?
— Senhora minha.... mamãe.... tudo o que eu fiz, tudo o que eu sacrifiquei, foi pensando no que era melhor para Artena!
A mulher soltou uma risada descrente.
— Aliou-se à pessoas inescrupulosas, forjou uma guerra onde incontáveis inocentes morreram pensando estar defendendo o seu reino, sua família e seus monarcas, aprisionou o seu próprio pai....
— Senhora....
— Eu não terminei, menina! — aquilo foi como uma bofetada que a calou imediatamente. — Em sua mente, você pode utilizar Artena para justificar todas as suas terríveis ações, suas péssimas e assombrosas escolhas, mas nós duas sabemos, Catarina, que não foi isso. Pelo menos, não foi apenas isso.... Dentro de você há uma sede infinita de poder que nunca é saciada. Quanto mais você o obtém, mais você quer!! Quando conquista uma vitória, anseia por mais e mais. Então eu pergunto novamente: o que você infernos fez?!
Engolindo com dificuldade as lagrimas que haviam acumulados em seus olhos, Catarina despejou:
— Eu cresci sendo criada com uma bonequinha de porcelana cujo a única finalidade era ser um enfeite, um mero símbolo na corte de Artena. Vi tudo o que era meu de direito planejado ser entregue a outra pessoa que não tinha uma gota do sangue dos Lurton. Vi me apresentarem à nobres que afundariam Artena em seu primeiro ano de reinado. O senhor meu pai sempre deixou muito claro que eu nunca seria a monarca reinante, eu nunca governaria Artena e que a minha única utilidade era ser a ligação que traria um desconhecido para sentar-se no trono que é unicamente meu!! Quando o poder não é nos dado, ele precisa ser tomado! E foi isso que eu fiz! Tudo o que fiz também foi por Artena, mas principalmente por mim. Foi a única forma que encontrei para sobreviver em um mundo terrivelmente hostil que despreza uma mulher que contenha uma centelha de poder... E se você conhecesse o maldito do marquês, concordaria comigo. Um marquês, senhora minha mãe! Um reles marquês com uma voz de gralha que me infernizaria pelo restante dos meus dias. Claro que eu não aguentaria e o jogaria da torre mais alta sem o maior remorso!
Catarina ainda passara segundos infinitos sob o olhar duro da mulher mais velha, até que a mesma abrisse um pequeno sorriso. O olhar foi aos poucos se transformando e a compreensão os dominou. Sim, Catarina fez coisas inconcebíveis, até mesmo imperdoáveis, mas era a filha dela, a sua única criança. A garotinha que não viu se transformar em mulher, que não guiou durante a infância e a adolescência. Morreu e a deixou para lutar sozinha em um mundo cruel liderado por homens machistas. O que teria acontecido de diferente se tivesse criado a sua menina? Se tivesse dosado com sabedoria a ambição que queimava dentro dela e convencido Augusto que aquela seria a melhor rainha que Artena já tivera, que Catarina nascera para ser grande!
Fora avisada sobre isso e jamais deveria ter compartilhado com o senhor seu marido seus temores e o que escutou da Mandingueira residente da floresta.
Sentou-se lentamente e viu a filha ajoelhar-se próxima e pedir permissão com o olhar. Após assentir silenciosamente, Catarina deitou a cabeça no colo materno e esperou o carinho em seus cabelos que não demorou a vir. Enquanto sua doce criança fechava os olhos e aproveitava o carinho, as palavras da Mandingueira voltavam com força a mente da mãe.
"A criança que a chamará de mãe terá uma grande força dentro de si. Se armará contra o mundo e lutará como uma rainha guerreira. Ela está destinada a ser grande e porque não dizer que poderá governar todos os reinos? Mas sua força se equivale à desconhecida fome por poder e esta mesma fome poderá ser a sua ruína. Se a escuridão que há dentro dela prevalecer, uma ditadora extremista e implacável nascera e por fim, quando não restar mais nada a se conquistar, se tornará uma Destruidora de Reinos."
Lembrou-se da dor que sentira quando escutara aquelas duras e tenebrosas palavras. Aquela criança era tão esperada, tão amada... Desde que compartilhara o que acontecera com Augusto, percebeu o erro que cometeu. Ele amava Catarina, ela sabia que sim, mas seus temores muitas vezes sobressaiam ao amor paterno. Devido a guerra que levara seu pai, o rei de Artena tornara-se alguém cujo o maior objetivo era a prevalência da paz. Então, a sua maior questão era porque havia repetido palavra por palavra do que lhe disseram? Estava assustada? Sim! Mas deveria ter aguentado sozinha o peso daquela profecia e guiado a sua filha para que fosse uma monarca justa e fiel ao seu povo.
Nunca havia se questionado, mas naquele momento, vendo tudo o que havia acontecido com a sua família, seu povo e seu reino, ela fizera a pergunta: porque tinha que morrer? Era a estrutura, o alicerce daquela família que com a sua partida precoce tornara-se disfuncional... Augusto com medo... e Catarina com um vazio que foi sendo preenchido por toda a escuridão que havia dentro dela. Então, uma vez mais ela se perguntava: por que?
— Você se lembra do por que estar aqui? — a voz suave fez Catarina abrir os olhos que quase foram vencidos pelo sono.
Mesmo contrariada pela interrupção do carinho, levantou a cabela e encarou os olhos de sua mãe.
— Eu contraí a Peste Negra que assolou Montemor. Começou com pequenos episódios de visão turva, logo após vieram as tonturas até que desmaiasse. — Catarina lembrou-se que a última coisa que se lembra desse episódio foi de ter visto uma notável preocupação nos olhos do rei de Montemor. Não pôde deixar de sentir uma contração em seu peito ao lembra-se de Afonso.
Estou cansada de lutar por Artena, por mim, por ele...
— Desde então, poucas vezes estive com o controle sob meu corpo e sob a minha mente. Acredito que tenha chegado ao pior estagio, pois me lembro que não conseguia acordar. Ouvia vozes e ordens desesperadas para que eu acordasse, mas meus olhos não me obedeceram e não abriram quando ordenei que o fizessem. Quando percebi que estava aqui, pouco me importava aquele mundo doloroso e solitário. Pouco importava meu coração quebrado. Agora que a encontrei, não me importa se não voltar mais. — segurou firmemente a mão da mãe, com medo de ela desaparecesse e liberou as lagrimas que muito lutaram para sair. — Eu quero ficar aqui para sempre!
— Pediram-me que viesse recebe-la e leva-la para o julgamento final, minha filha. Fora decidido que não sobreviveria à Peste Negra.... que você morreria, Catarina.
Catarina esperou o temor dominar seu coração. Ele estava presente em cada momento lucido que tivera, em cada vez que via a agonia nos olhos de Afonso que estava ao seu lado em todos os seus momentos sãos. Mas ele não veio. A doença não escolhia ricos ou pobres, plebeus ou nobres. Uma dura lição aprendida por Catarina em seus últimos momentos de vida. Estava resignada. Nadara tanto e morrera na praia. Seu pai estava longe e Artena destruída. Afonso estava com a feirante e ela era uma princesa sem reino. Chegara a pensar que talvez o maldito marquês não fosse tão mal....
Céus, o que estava pensando? Ele era péssimo. A vontade de atira-lo da ponte retornou com força ao lembra-se a forma melódica e abobalhada que o homem de baixa estatura chamar seu nome. Livrar-se dele não fazia parte de sua extensa lista de arrependimentos.
Arrependia-se de ter ido contra o seu pai, arrependia-se de ter tramado a guerra com o imbecil do Rodolfo, arrependia-se por todo o seu povo que morreu, por todos os que ficaram órfãos, por todos que perderam suas casas. Se arrependeu de casar-se com Rodolfo, que no final das contas apenas a atrapalhara. Que é um ninguém como inimigo e ninguém como aliado. Arrependeu-se de ter se apaixonado por Afonso e perseguido-o como uma sombra obcecada. Deveria te-lo deixado em paz e ser feliz com a ruiva dos infernos. Não, a morte não fizera com que desenvolvesse empatia pela plebeia barraqueira e intrometida. Catarina acreditava nem se nascesse uma segunda vez. Ela desejava aquilo por Afonso. A felicidade do rei era a única coisa que lhe importava. A feirante que fosse mexer sua sopa que já deveria estar queimando.
Sim, Catarina tinha grandes arrependimentos. Arrependimentos esses cujos os crimes ela duvidava que seriam perdoados. Ela finalmente entendeu onde sua ambição a levara. Ela seria julgada e condenada. Ninguém intercederia por alguém capaz de cometer barbáries como as que ela fez. Catarina não merecia, ela admitiu. Mas, por mais incrível que pudesse parecer, estava tranquila, pois acreditava que o mundo estaria bem melhor sem ela. Seu povo, de um jeito ou outro, sobreviveria. Augusto apareceria e reconstruiria o reino e os levaria para casa. Era aquilo que dizia para si mesma para acalentar seu coração.
Viveu uma vida a qual todas consideravam perfeita. A mais bela da Cália, a princesa cuja a lista de pretendentes era extensa e sem fim. No final, era só uma menina solitária que focou no ideal de conseguir poder para preencher o vazio que havia em seu interior. Sua mente nunca parava, estratégias para fortalecer Artena rodavam seus pensamentos dia e noite. Era isso que a movia. Era isso que a impulsionava a levantar-se e encarar uma nova manhã, dia após dia.
Mas Catarina desejava acreditar que dentro dela havia uma centelha de humanidade e por que não, de bondade. Por mais que existissem barreiras entre eles, por mais que seus ideais fossem controversos, ela amava o pai. Ela amava o homem bondoso (e tolo) que ele era.
E amava Afonso....
Céus, amava aquele homem com tudo o que tinha. Uma pessoa que despertou aqueles sentimentos não poderia ser de todo o mal, certo? Em sua vida não houvera apenas escuridão. Eles haviam sido pontos de luz.
— Estará lá comigo, senhora minha mãe?
A mais velha assentiu.
— Tenho consciência da extensão dos meus pecados. Sei que precisarei colher tudo o que plantei. — respirou fundo e prosseguiu. — Plantei dor, destruição e sofrimento. Machuquei o meu povo, machuquei aqueles que eu amava... os únicos que eu amava. Não espero redenção, espero apenas que o mundo seja um lugar melhor e que todos aqueles a quem prejudiquei possam se reerguer e possam encontrar a felicidade.
Olhou firmemente para a sua mãe, reuniu toda a coragem que era uma de suas qualidades que muitos admiravam, levantou-se e estendeu a mão para a progenitora.
— Eu estou pronta, minha mãe.
A mulher sorriu, orgulhosa. Catarina enfrentaria de cabeça erguida e aceitaria com resignação e esperança o seu destino. Em seus pensamentos, não estava o medo da morte e do castigo eterno e sim a felicidade daqueles que ficaram. Ela estava pensando em outros e não em si mesma.
Sorriu ternamente e estendera a mão para entrelaçar seus dedos com os da filha e seguirem rumo ao futuro incerto. Porem, foi impedida de alcançar-lhe a mão da mais nova. Uma voz estrondosa soou em sua cabeça e as palavras ditas preencheram seu ser com a mais repleta paz e alegria.
Ela levantou-se fazendo a filha recolher a mão estendida, confusa. Seu rosto sereno ocultava a alegria grandiosa que ameaçava explodir o peito.
— Infelizmente, não poderei acompanha-la, Catarina.
— Mas...
A antiga rainha levantou a mão, silenciando-a.
— Não pertenço mais ao lugar para onde você vai. — A compreensão foi tomando o rosto da princesa. — Não posso voltar mais ao plano material, mas você pode e você vai, minha menina.
— Quero ficar com você!! — desesperou-se.
— Pense no que deixou para trás, Catarina! — Ordenou firmemente. — Pense em Artena, pense em seu povo!! Pense em Afonso que está neste momento gritando para que acorde! Estas são razões boas o suficiente para voltar para casa! Acorde e reine! Você está sendo presenteada com uma segunda chance.
— Tenho tanto medo...
— Eu sei.... Preencha o vazio com amor. Não deixe que pensamentos obscuros dominem você, lute dia após dia contra eles. Você nasceu para ser grande, Catarina!! A minha criança, a criança que me chama de mãe, irá governar e eu acredito que será a melhor rainha que Artena já teve.
— Não! — retrucou sorrindo. — A melhor rainha que Artena já teve chama-se Cecília de Lurton, a minha mãe. — finalizou orgulhosamente. — Eu vou ama-la para sempre e vou fazer com se orgulhe de mim. Serei uma boa governante, mas acima de tudo, serei uma boa filha. Vou encontrar o senhor meu pai e cada dia da minha vida será destinado a conseguir-lhe o perdão.
— Seu pai ama você, minha filha. Quebre as barreiras, destrua os muros ao seu redor. Permita-se sentir! Permita-se amar!
O abraço apertado deu-lhe a coragem que necessitava. Enfrentar a morte era difícil, mas não mais do que enfrentar a vida e ver os destroços que suas ações deixaram. Com dificuldade, separam-se e a princesa secou suas lagrimas. Catarina ergueu a cabeça e com um olhar obstinado esperou até que acordasse para iniciar o seu caminho de redenção.
A sua segunda chance....
— Vossa Graça, venha rápido, por favor! A princesa despertou! — reconheceu a voz de Lucíola.
As vistas turvas encararam o teto de seu quarto no castelo em Montemor. O rosto de Afonso entrou em seu campo de visão, fazendo seu tolo coração pulsar forte em seu peito, expressando o quão bom era vê-lo. Estava com olheiras e abatido, porem não menos belo. Era maravilhoso mesmo com as roupas de plebeu, mesmo que detestasse vê-lo com aquelas vestes.
— Catarina... como se sente?
A princesa quis tocar-lhe entre as sobrancelhas e desfazer carinhosamente as ondas de tensão. Fechou os olhos e respirou fundo, alarmando ainda mais o rei.
— Catarina!
— Água... — murmurou com a voz enfraquecida. Lucíola aproximou-se da cama pelo o outro e silenciosamente pediu ajuda à Afonso.
O homem, cuidadosamente, ajudou a princesa a levantar um pouco a parte superior de seu corpo, apenas para que a dama de companhia levasse o copo até os lábios da monarca.
— Pequenos goles, alteza.... isso.
Afonso a ajeitou novamente e estudou ansiosamente o rosto pálido de Catarina. Sentando-se na cadeira próxima à cama, o olhar perdido da mulher o preocupava. Algo havia mudado em Catarina.
Os cabelos desgrenhados, a pele suada e as olheiras não impediam que a beleza da herdeira de Artena fosse evidente, admitiu Afonso. Sempre achou a aparência de Catarina perturbadora. O andar felino, o olhar desafiador e a voz suave mexiam com ele de uma forma incompreensível. Ela era totalmente o oposto de Amália, sempre as diferenciava como gelo e fogo. Mas com o tempo e após viverem tantos momentos marcantes, ele percebeu que Catarina poderia ser os dois. E isso o desconcertava.... e incomodava.
— Nunca tive duvidas de que conseguiria, Catarina.... — Afonso segurou a mão feminina e a apertou delicadamente. O alivio aquietava seu coração que por diversas vezes naquela noite ameara parar. Catarina não acordava e quase não respirava. Dr. Lupércio havia perdido as esperanças, mas ele não! Ela não poderia morrer. Como ficaria sem as palavras ácidas, sem os olhos sagazes, conselhos duros, mas sensatos? — Você é a pessoa mais forte que eu conheço.
Sem esboçar quaisquer reação, Catarina continuou fitando o céu tingido através das enormes janelas. O dia estava amanhecendo e os tons claros começavam a prevalecer. Ela sobrevivera a noite, ela conseguira voltar após um experiencia que ainda era um pouco difícil que sua mente sempre tão racional acreditasse. Se o que vivera foi verdade ou apenas um sonho, delírio de uma noite febril, não importava. Fora lhe dado uma segunda chance para redenção. Respirou fundo mais vez antes de encarar Afonso. A preocupação e ansiedade em seu rosto teriam deixando-a exultante em outros tempos, mas não agora. Não quando teria que abrir mão da luta por ele. Era o momento de Catarina fazer o seu sacrifício. Ela se sacrificaria seu coração para que Afonso fosse feliz.
Sorrindo levemente, Catarina preparou-se para erguer a muralha em volta de si.
— Obrigada por sua preocupação e apoio, Afonso, mas você precisa descansar. Eu ficarei bem, pode ir. Por favor, não permita que minha enfermidade atrapalhe seu compromisso para com o povo.
Antes que pudesse argumentar que deveria permanecer no local até que o médico a avaliasse, Lucíola reforçou o pedido de Catarina:
— Perdoe-me pela intromissão, Vossa Graça, mas permaneceu aqui desde ontem quando o estado de vossa alteza se agravou. Eu permanecerei aqui e qualquer mudança no estado da princesa e assim que o médico visita-la, informarei Vossa Graça.
— Sim, Afonso. Vá e descanse. Montemor deve estar um caos com essa doença e o povo precisa mais do que nunca saber que podem ficar tranquilos pois o rei está firme por eles. O povo tirou um rei para colocá-lo no trono, Afonso. Um trono que não era mais seu. Eles precisam ser a prioridade do seu reinado.
— Tudo bem, não se esforce. Estou indo, mas qualquer mudança, quero ser informado, Luciola, independente da hora ou lugar.
— Será imediatamente, Vossa Graça.
O rei assentiu e hesitou mais uma vez antes de inclinar-se e beijar-lhe a testa.
— Fique bem!
Quando segurou a maçaneta, virou-se ao ouvir a voz de Catarina chamando-o:
— Obrigada por tudo!
Afonso abriu o sorriso que ela tanto amava e assim que o rei fechou a porta do quarto, Lucíola mal cabia em si para falar tudo o que acontecera enquanto Catarina perecia durante a noite.
— Vossa alteza ficará feliz em saber que o rei Afonso permaneceu a noite inteira ao seu lado. Foi uma longa noite e ele...
— Por favor, Lucíola, não continue.
— Perdoe insistir no assunto, vossa alteza, mas o que mudou? Se souber tudo o que aconteceu aqui....Amália...
— Lucíola.... — interrompeu irritada. — Não me interessa o que aconteceu aqui noite passada. Tudo o que importa é o que acontecerá a partir de hoje. Espalhe a noticia entre os nossos. Diga que a herdeira do trono de Artena está viva e que comecem a exercitar seus cérebros para descobrir uma maneira de reerguer o reino.
— Vossa alteza desistirá do rei Afonso? De Montemor? — perguntou incrédula. Catarina não desistia nunca.
— Eu lutei, Lucíola, e eu perdi. Precisamos saber o momento de desistir. Estou cansada de lutar, é o que tenho feito a minha vida inteira. Quero ir para casa.
Fechou os olhos, deixando claro que queria encerrar aquele assunto.
Como sua mãe sempre dizia: para cada fim há um recomeço. Catarina queria recomeçar. Traçaria um novo caminho, faria outras escolhas.... por Artena e por ela!
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