A quinta janela

1 Capítulo 1: A Planta Baixa


Lara dobrou o canto amarelado da planta da casa e franziu o cenho. Ela passou o dedo indicador sobre a linha fina do desenho, observando a fachada. Quatro janelas. Uma porta. Nenhuma surpresa. Era o que todos sempre disseram. E, ainda assim, as fotos que ela tirara naquela manhã mostravam cinco janelas.

— Talvez alguém tenha feito uma reforma que não foi registrada — murmurou, tentando convencer a si mesma. Mas o frio em sua nuca sugeria que não.

A casa dos Nogueira era um esqueleto na paisagem. Tábua podre, telhas afundadas, e uma sensação constante de que, mesmo ao meio-dia, alguém ali dentro a espreitava. Lara já ouvira todas as histórias: a família sumira sem sinais de luta. As janelas trancadas por dentro. A comida posta à mesa. O cachorro morto no quintal, com os olhos arrancados. E o mais estranho: ninguém jamais entrou naquela casa sem que algo tivesse sido... alterado ao sair.

Mesmo assim, ela insistiu.

— A arquitetura carrega memórias — disse a seus colegas, tentando justificar a excursão. — E talvez, neste caso, algo mais.

Aquela manhã, no entanto, mostrara mais do que ela esperava. Uma janela que não devia existir, refletindo uma luz âmbar suave, como vela de velório. Ela ampliou a foto no celular: cortinas vermelhas esvoaçavam do lado de dentro. Mas quando olhou pela lente da câmera novamente... a janela não estava mais lá.

— Alucinação? Não. Isso foi real.

De noite, ela voltou. Entrou pela porta que agora se abria com um leve empurrão. Cada passo sobre o assoalho era um aviso: Volte. Você viu demais. Mas Lara não voltava atrás.

No corredor, ouviu algo. Um choro baixo, infantil, vindo do andar de cima. Ela sabia que não havia crianças ali. Sabia que o som era parte do folclore. Mas não pôde evitar.

Subiu.

E então viu. No final do corredor do segundo andar, uma porta que não estava na planta. Uma maçaneta enferrujada, pulsando como um coração vivo. Do outro lado, a luz âmbar vazava pelas frestas.

A quinta janela.

Mas a casa era mais do que paredes. Ela estava acordando.