A queda
1 Prólogo
Notas iniciais
20 de abril de 2012.
Marington, EUA.
A brisa batia suavemente contra meus cabelos e eu podia sentir o ar úmido e o cheiro de chuva chegando. O dia que havia passado ainda estava claro em minha mente.
Acordei às 6h da manhã, vesti a mesma roupa que havia usado no dia anterior – calça jeans, bota, uma camiseta azul marinho e um moletom verde com a estampa de Harvard – e saí de casa. No caminho da escola parei no Chips, lanchonete em que tomara meus cafés da manhã desde a quinta série, quando o ônibus escolar parou de me buscar e eu fora intimidada a ir a pé para a aula. Pedi “o de sempre” – cappuccino com chantilly extra, sanduíche de atum e batatas fritas. O lugar não era dos mais aconchegantes e acolhedores, mas o cheiro de óleo queimado e as cadeiras vermelhas de plástico traziam uma estranha sensação de conforto. As paredes em tom de ocre recheadas de quadros que remetem aos anos 80 e o chão em azulejos pretos e brancos intercalados como em um jogo de xadrez realmente traziam a época de volta ao som dos Beatles. Sentei-me a mesa próxima à porta dos fundos para esperar meu pseudo café-da-manhã. Depois de tediosos 20 minutos olhando a paisagem fria do lado de fora, cheia de árvores secas e neve por todo o chão, meu apetitoso lanche deslizou para a minha frente das mãos gordas de uma garçonete atrapalhada que, de acordo com minhas passadas diárias no local, indicavam claramente que era ela nova ali. O crachá alfinetado em seu avental mostrava que seu nome era Glória. Olhei para ela, que esboçou um sorriso curioso e logo em seguida gritou espantada ao ver meu moletom.
– Você vai para Harvard, querida? – perguntou entusiasmada com um forte sotaque mexicano.
– É o que pretendia. – disse em um tom melancólico ao pensar que o dia em que realizaria meu sonho de ir para Harvard se desfaria dentro de algumas horas.
Ao perceber o desgosto que senti com a pergunta ela suspirou e voltou para o balcão com uma cara de decepção e indignação. Provavelmente por deduzir que eu não fosse tão boa aluna. Estava errada ao pensar assim. Não me considerava um gênio, mas não me lembro de um dia desde o início da minha vida escolar em que eu não tivesse estudado até anoitecer – incluindo nos fins de semana. O motivo pelo qual não chegaria até lá estava longe de passar pelos pensamentos de uma mulher de meia-idade que trabalha no Chips. Ao olhar o relógio e ver que já eram 7h20 engoli o sanduíche, paguei a conta e saí correndo para chegar ao Marington South High School, onde eu estudara desde o primeiro ano do colegial, enquanto comia as batatas fritas e tomava meu cappuccino.
As aulas passaram rápidas e quando o sinal tocou anunciando o horário do almoço, eu me espremi entre as pessoas no corredor para chegar ao meu armário. No caminho, as líderes de torcida do nosso time de hockey – os Angel’s Beasts –, falavam em euforia sobre um garoto novo no colégio. Não havia o visto, porém só de ouvi-las dizer que apesar de super gato ele era assustadoramente antipático tive certeza de que nenhuma daquelas pobres garotas mimadas teria uma chance com o novato. Eu ri com esse pensamento, o que fez com que elas me encarassem com uma cara que parecia ser de nojo. Em vez de parar para ouvir o que diriam para me atormentar como sempre faziam, segui em frente.
Finalmente cheguei ao meu destino. Depois de três anos usando o mesmo armário enferrujado senti uma pontada de tristeza ao pensar que não o abriria novamente e meus olhos se encheram de água. Deixei meus livros e peguei Harmonia, a boneca de face melancólica que havia adquirido em uma feira de antiguidades alguns anos atrás. Ela se tornará tão importante para mim que carregava parte da minha alma. Parte da minha alma que em breve não seria mais minha. Iria embora junto com Harmonia, mas sei que estaria em boas mãos. Cambaleei pelo corredor sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Eu não aguentava mais. Tinha que por um fim naquilo.
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