Era bem cedo de manhã quando todos os três hobbits se encolhiam, desconfortáveis, diante da cena à sua frente. Até Bilbo comentou:

— Eu tinha me esquecido de como isso era violento.

Eles estavam na área da plateia do ringue de combate. Rei Thorin e Lady Dís estavam sem seus trajes reais, em roupas de treino, e lutavam contra seus treinadores.

Os olhos de Bena estavam arregalados e fixos nos movimentos graciosos, rápidos e poderosos. Dís tinha mais velocidade do que força, em golpes de espada precisos e eficientes, vestida numa túnica simples com calças justas e saia. Seu irmão, o rei, usava apenas um par de calças confortáveis, com o peito nu mostrando músculos definidos enquanto ele empunhava uma acha de dois gomos contra o oponente, outro anão alto, careca e cheio de tatuagens pelo corpo.

Lobélia sussurrou para Bena:

— Pela Senhora Verde, Bena, acho que falamos cedo demais.

— Como assim?

— Olhe só o rei: ele é deformado!...

— O quê? Onde??

A futura rainha parecia incomodada:

— Aqueles músculos não podem ser naturais, prima! Alguma coisa deve ter acontecido com ele.

Bena sorriu:

— Não se preocupe, Lobélia, está tudo bem. Titio me explicou que anões valorizam sua forma física. Eles usam tanto os músculos que ficam com essa aparência. É considerado muito sexy.

Lobélia não estava convencida:

Você considera sexy?

Bena já considerava uma resposta, mas optou por evitar dar uma opinião:

— Ele é seu noivo. Você é que deveria estar considerando essa questão.

— Mas eu não sei nada sobre essas coisas. Como vou saber o que é considerado sexy entre anões? Eu sou hobbit, como você.

— Sim — admitiu Bena —, mas eu não sou a hobbit dele.

De repente Bena ficou pálida, repentinamente chocada por suas próprias palavras. Ela não sabia dizer o que a perturbava, mas alguma coisa soava terrivelmente errada nelas. Lobélia também notou algo, pois indagou:

— Bena, está tudo bem?

Ela se deu conta de que deveria estar agindo de maneira estranha, e garantiu:

— Sim, claro. Vamos prestar atenção.

Embora Bena ainda olhasse o treino de combate, sua mente insistia em viajar nas palavras perturbadoras. Pena que ela não conseguia entender o motivo.

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Os dias que se seguiram foram cheios de atividades, então Bena não teve chance de ir até o parapeito exclusivo do rei — ou mesmo ver o rei. Parecia quer o monarca estava ocupado demais para passar algum tempo com a sua prometida.

Os cicerones foram Lady Dís e os jovens príncipes, embora Bilbo levasse as moças para diversas reuniões com seus antigos companheiros da jornada para Erebor. Bena estava encantada por finalmente conhecer todos os anões de quem seu tio tanto falava, mas Lobélia se entendiava rapidamente, só se animando quando alguém sugeria uma ida aos mercados ou às costureiras.

Todo esse tempo Bena ficava em segundo lugar na atenção dos anões, embora todos, especialmente Lady Dís e seus filhos, fossem muito gentis com ela. Mas Bena notava que ela ficou quase invisível para o povo da montanha. Ela ouviu as pessoas comentando sobre "a prometida do rei" por onde passasse com Lobélia, e o "herói hobbit", referindo-se a seu tio. Mas era raro que alguém a mencionasse. Quando o faziam era como "a protegida de Mestre Baggins” ou “a dama de companhia da prometida". O último epíteto era o pior para Bena: dama de companhia, humpf!

Embora Bena gostasse da ausência do Rei Thorin, pois ela não gostava que rissem dela, ela estranhou a atitude. O rei não deveria passar tempo conhecendo mais sua futura rainha? Ela mencionou o fato a seu tio Bilbo — discretamente e quando Lobélia não estava perto. Seu tio disse que ela não deveria se preocupar, que essas coisas levavam tempo. Mas Bena notou que ele torcia o nariz e ela franziu o cenho.

Sua preocupação voltou durante uma pequena reunião com Lady Dís e seus filhos. Os príncipes se tornavam uma companhia constante para as duas moças. Bena notou a senhora, uma anfitriã talentosa, voltando suas atenções para Lobélia, sua futura cunhada.

— Gostaria de mais uma xícara de chá, querida? — indagou a dama.

— Sim, por favor. Obrigada.

— Então, já pensou numa data apropriada?

— Data — repetiu Lobélia, intrigada.

— Para o casamento, claro. Um casamento no verão seria adorável, já que vocês, hobbits, gostam tanto de flores.

Tio Bilbo se apressou a dizer:

— Primeiro é preciso estabelecer a corte apropriada. As tradições devem ser observadas.

— Sim, claro — concordou a dama. — Querida Lobélia, você acha que já é hora de um anúncio formal?

Bena viu a prima hesitar:

— Bem... É que.. É só...

— Sim? — Dís encorajou gentilmente. — Por favor, diga-me o que a perturba.

Lobélia estava temerosa, e Bena a apoiou, pegando sua mão:

— Está tudo bem, prima.

Ela respondeu, constrangida:

— É só que eu gostaria de conhecer o rei um pouco mais...

Lady Dís ergueu uma sobrancelha grossa e admitiu:

— Você tem razão, querida, muita razão. Terei que garantir que meu irmão tenha mais tempo para que vocês possam se ver e se conhecer melhor.

Bilbo acrescentou:

— Com supervisão apropriada, é claro.

— É claro.

Então, na manhã seguinte, depois que tomaram café em seus aposentos, um rapaz trouxe um embrulho grande.

— Do rei para Lady Lobélia — explicou o rapaz, curvando-se. — Sua Majestade convida a todos para se juntarem a ele no portão principal.

Bilbo disse:

— Iremos em seguida, obrigado.

Lobélia abriu o pacote com brilho nos olhos. Bena viu o conteúdo e maravilhou-se.

— Um casaco? — Lobélia parecia decepcionada.

Bilbo disse:

— Lá fora deve estar congelando. É melhor eu colocar meu outro casaco. Bena, agasalhe-se bem.

— É um casaco de peles, prima! — Bena estava encantada. — Lindo e quentinho...!

Bilbo apressou as duas:

— Vamos logo, meninas. Não é de bom tom deixar os outros esperando.

E eles já estavam esperando: o rei e Dwalin, o anão careca tatuado, estavam de pé no grande portão de Erebor.

— Bom dia — saudou o rei, com um sorriso contido. — Que bom que puderam vir.

Bena fez uma mesura, e Lobélia disse:

— Obrigada, Majestade, pelo lindo casaco.

— Foi um prazer — disse, numa voz agradável. — Você vai precisar lá fora. Vamos?

Rei Thorin ofereceu o braço, e Lobélia corou recatadamente antes de tomá-lo. Bena tentou não desviar os olhos diante dos modos afetados da sua prima.

Todos os pensamentos sobre Lobélia sumiram da mente de Bena quando ela viu o lado exterior da montanha. Ficar confinada lá dentro por tantos dias pesou na moça, que se admirou do vasto espaço à sua frente, e um vento gelado soprava. Havia um pouco de gelo no chão, e grandes blocos no grande rio. O rei liderou o pequeno grupo até um local com poucas árvores, todas desprovidas de folhas.

— Quando eu era criança, este era um campo exuberante, com grama e árvores — disse o rei. — Então o dragão veio, e tudo virou cinza. Agora umas poucas plantas começaram a crescer.

Bena indagou:

— Na primavera, surgem flores?

— Poucas — foi a resposta.

— Adoro flores — disse Bena.

Lobélia lembrou:

— Todo hobbit ama flores. Está em nossa natureza.

Tio Bilbo sugeriu:

— Talvez um hobbit possa ajudar mais árvores e flores a voltar a crescer.

Thorin quis saber:

— O que aconteceu com aquela sua semente, Mestre Baggins? Aquela que trouxe do jardim de Beorn. Ela cresceu?

— Certamente cresceu — ele respondeu. — Acho que é o maior carvalho de todo o Shire.

Bena comentou:

— Mas levou séculos para crescer!

Bilbo sorriu, comentando:

— Ah, as maravilhas da juventude, quando duas décadas são uma eternidade...!

Bena corou, envergonhada, e o rei deu um risinho. Ela notou os profundos olhos azuis e o jeito como eles também sorriam com os lábios finos. Seu estômago se alvoroçou, e tudo que Bena pensava era em o quão idiota ela parecia aos olhos do rei sob a montanha. Puxa, se não fosse por seu tio Bilbo, o monarca poderia pensar que estava se casando com uma família de idiotas!... Bom, ao menos, a julgar pelo jeito como ele ria dela, Bena podia servir de escape cômico. É que havia uma tensão ali, Bena detectou.

Em pouco tempo, enquanto andavam pelo campo, Bena notou que estava mesmo muito frio. Ela se encolheu um pouco enquanto Rei Thorin mostrava à distância a cidade de Valle, e não viu os dois anões correndo até eles até Dwalin assumir uma postura defensiva. Mas o anão careca se acalmou ao reconhecer os dois.

— São os rapazes

Eles gritavam:

— Esperem! Esperem!

Eram Fíli e Kíli. O mais novo reclamou:

— Tio, você não nos esperou.

O rei retrucou, entre sarcástico e contrariado:

— Vocês demoraram tanto que achei que tivessem desistido.

Os dois jovens pareceram tão constrangidos que Bilbo disse, só para aliviar a tensão:

— É tão estranho ver esses campos agora. Da última vez que estive nesse lugar, as coisas estavam muito diferentes.

— Aye — disse Dwalin.

Sempre curiosa, Bena quis saber:

— Por que, tio? O que havia aqui?

— Guerra, moça — respondeu Dwalin, e os olhos castanhos de Bena se arregalaram. — Foi uma batalha enorme.

O tio dela acrescentou:

— A Batalha dos Cinco Exércitos, foi como chamaram. Uma coisa horrível.

Fíli recordou:

— Nós tínhamos acabado de retomar Erebor do dragão Smaug. Outros cobiçavam nosso tesouro. Mas aí chegaram os orcs.

Lobélia exclamou:

— Oh, eu ouvi dizer que orcs são criaturas terríveis!...

— Isso lá é verdade.

O rei esclareceu:

— Nosso povo é inimigo declarado dos orcs. Lutamos guerras formidáveis contra eles.

Bena indagou:

— Existem orcs por essa região?

Kíli respondeu:

— Quase nenhum, graças a nossos guerreiros. Só grupos dispersos, renegados sem líderes. Estamos bem preparados para repeli-los, se necessário.

Bena perguntou:

— Essa é a razão pela qual todos vocês são treinados em combate?

— Kíli é capitão da guarda e Fíli é meu herdeiro — disse o Rei Thorin. — Ambos são comandantes militares. Ou estão treinando para ser.

Fíli lembrou:

— Nós treinamos seu tio a usar sua espada. Talvez possamos treinar você também.

Todos riram, exceto Bena.

— Fariam isso? De verdade?

Fíli indagou:

— O que, treinar você? Fala sério?

— Sim, por favor. Isto é, se não for pedir muito, e se meu tio concordar.

Fíli e Kíli pareciam maravilhados, Rei Thorin estava intrigado, Lobélia parecia horrorizada. Bilbo advertiu:

— Bena, isso não é um passatempo. Eles treinam para batalha. Você pode se ferir!

Bena disse, desanimando:

— Eu só queria saber se saberia segurar uma espada corretamente.

Kíli dirigiu-se ao hobbit mais velho, com sinceridade:

— Nós jamais deixaríamos sua prima se machucar, Bilbo. Ela estará segura.

— Por favor, Tio Bilbo.

Ele parecia reticente, e o rei garantiu:

— Bilbo, eu vou pessoalmente proibir meus sobrinhos de darem à Srta. Verbena uma espada de metal, assim ela não poderá se machucar. E Dwalin estará lá. Mas a decisão é sua, claro.

O Baggins mais velho hesitou:

— Bem... Se você garante por eles, Thorin. Tudo certo, Bena: pode ir, se você tomar cuidado.

Bena gritou:

— Obrigada, tio!

Fíli indagou:

— E quanto a Lady Lobélia? Também gostaria de aprender algumas manobras de combate?

Ela parecia horrorizada:

— Oh, céus, não. Temo que a aventureira da família seja Bena. Mas talvez eu possa assistir, se o tio Bilbo não se opuser.

Kíli exclamou, entusiasmado:

— Isso promete ser bastante divertido!

Uma rajada de vento gelado não deixou Bena responder, e ela tremeu. Estava claro que seu casaco mais pesado não era páreo para um inverno do norte. Era bom que eles já estivessem voltando para a montanha, porque ela já estava semicongelada, encolhida e silenciosa.

A cabeça de Bena estava abaixada, então ela ouviu uma voz grossa bem próxima:

— Com sua licença, por favor.

Um manto pesado foi colocado em seus ombros, esquentando-a imediatamente, e antes que ela pudesse pensar em reagir, Rei Thorin caminhou à sua frente, chamando:

— É melhor entrarmos já.

O grupo seguiu sua sugestão, e Bena sentiu muitas coisas durante a curta caminhada: o calor e o peso do casaco de pele que se arrastava no chão, e o aroma de metal, couro, ervas e almíscar que deveria pertencer ao rei em pessoa. Rei Thorin tinha posto seu próprio casaco nos ombros dela.

Ela tentou não se deter nisso. Uma vez dentro da montanha de novo, ela prontamente tirou o casaco e fez uma reverência, envergonhada:

— Obrigada, Majestade.

O rei ofereceu um sorriso contido e virou-se para Lobélia, gesticulando:

— Lamento ter que me despedir de vocês agora. Assuntos oficiais me aguardam. Talvez os filhos de minha irmã possam começar o treinamento da jovem Srta. Verbena, agora mesmo. Ajudaria a me sentir como se não estivesse negligenciando meus convidados hobbit.

Kíli virou-se para ela:

— Gostaria disso?

— Adoraria, por favor!

O rei pareceu satisfeito e assentiu, dizendo:

— Vou deixá-los, então. — Ele beijou a mão de sua prometida. — Lady Lobélia, Mestre Baggings.

Após uma reverência, ele girou sua figura imponente e saiu. Fíli e Kíli levaram todos para o campo de treinamento. E aí foi a vez de Bena treinar com espada (de madeira, conforme as ordens do rei), enquanto Lobélia e Bilbo assistiam. Demorou quase duas horas até Bena admitir estar extremamente cansada, mas mais feliz do que nunca desde que chegara a Erebor.

E escondido de todos (à exceção de Dwalin) o rei Thorin observava os procedimentos de longe, com Balin a seu lado. O velho conselheiro estava surpreso em ver um brilho no olhar do rei, um que ele jamais vira antes.