A promessa dos deuses
3 Fragmentos
A garota de cabelos castanho-escuro, liso e olhos azuis bem puxados, estava dormindo em sua cama, tensa, suando frio, franzindo a testa e murmurando um nome que apenas ela se lembrava.
— Yasha…! — Gritou, abrindo os olhos assustada. Todas as noites era o mesmo sonho, a mesma sensação de perda e sofrimento por ele. Mas quem era ele? Quem era o homem sem rosto que aparecia em seus sonhos? Que a abraçava com tanto amor e carinho e dor, muita dor… Quem era ele? Quem era o homem que se afogava no mar e gritava por ela?! — Meu Deus, eu estou enlouquecendo! — Pensou Sachiko, apertando os olhos e limpando a testa de suor.
Ela se levantou e foi até a cozinha pegar um copo de água. A madrugada estava fria em São Petersburgo e silenciosa naquele ano de 1950, 1 ano após a grande guerra. Sua mãe foi mandada de volta para o Japão, depois que o pai foi reportado por traição à pátria e nunca mais visto. E Sachiko, filha de um Russo, não poderia sair do país até completar seus 18 anos. Ela estava morando no pequeno apartamento que seus pais deixaram, com poucos móveis e que a União permitiu ela continuar morando, porém com a condição de que ela precisava trabalhar para o Estado até os seus 18 anos. Então, ela concordou em trabalhar numa biblioteca pública até se formar na escola e definir o que fazer depois. Foi isso o que decidiu.
Todos os dias, após a escola, Sachiko ia para a Biblioteca Pública do Estado fazer meio período de trabalho. Ela limpava os livros, organizava-os e de vez em quando no seu período de descanso, lia um pouco. Ela tinha um lugar especial para ler seus amados livros, que poucas pessoas conheciam porque ficava na ala dos livros esquecidos e em estado de descarte. Ninguém se submetia a subir as escadas quase caindo daquele pequeno andar só para pegar uns livros mofados e rasgados. Por esse mesmo motivo, era o lugar perfeito para ler e não ser incomodada. Era o que ela achava, até o exato momento em que ouviu alguém subir as escadas e um par de botas pretas bem engraxadas aparecerem.
Um homem? Não, era um soldado. Ele estava de uniforme, um impecável uniforme do exército da União Soviética, com sua boina e aquele par de botas bem alinhados. Ele era muito bonito, pensou Sachi, mesmo não conseguindo vê-lo do pescoço para cima porque a estante na frente dela bloqueava parcialmente sua visão do homem alto e também a escondia dele. Ele provavelmente não a percebeu ali, visto que ela estava sentada em um canto bem estratégico com duas estantes na sua frente e pelo fato dela ser pequena.
O homem pegou um livro de uma prateleira não muito longe dela e ficou um tempo parado, folheando as páginas lentamente. Sachiko não sabia se segurava a respiração ou se rezava para ele ir embora logo dali. Ela estava se sentindo uma criminosa prestes a ser pega, o que era um absurdo porque ela não tinha feito nada de errado! Enfim, o homem deu meia volta e apressou os passos, descendo as escadas, depois de um colega chamar o seu nome no andar de baixo. Pena que Sachiko não escutou o nome dele direito de onde estava, mas soltou sua respiração aliviada.
— Estou aqui, Dimka! — O ouviu gritar para o amigo lá de baixo. Sua voz era tão bonita quanto seus sapatos alinhados e engraxados, riu Sachi achando graça.
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