A profundeza do destino
5 Mitologia
Era o mesmo sonho, eu estou vendo o garotinho, um garotinho que agora tem um nome, Andrew, eu o chamo, chamo, mas ele não me ouve, ele não responde, eu quero acordar, quero acordar, mas não consigo, algo se esvai de mim, e assustada percebo que é a minha vida, e o garotinho, quero que o garotinho me responda, porque ele não está respondendo, porque? Ele corre, quero correr atrás dele, mas não consigo sair do lugar, começo a chorar, e eu vejo uma pessoa, quero pedir ajuda, mas não consigo falar, quero gritar, mas não sai nenhum som dos meus lábios e então eu percebo que o garotinho não está correndo de mim e sim da pessoa, e quando eu olho novamente pra pessoa eu percebo que eu também correria dela, eu percebo que ela é fria, e eu tento ir atrás do garotinho, eu sei que tenho que salvar, eu sei que tenho que ajudar ele, eu sei, mas não há nada que posso fazer e nesse momento percebo o quão idiota eu sou, indefesa, uma pessoa que não serve pra nada e então algo acorda, o sonho se esvai.
Quando acordo percebo que estou no meu quarto e que estou com a mesma roupa de ontem, e isso me trás a realidade eu preciso saber o que aconteceu ontem, a culpa é do Andrew, tem que ser, mas agora eu só quero seguir a minha vida e evitar ele o máximo possível, ainda bem que ele já está na faculdade, não vou precisar olhar pra ele nem um pouco, provavelmente vou ter que insistir pra minha mãe me deixar ir pro colégio hoje, ela é muito insistente quando se trata de minha saúde e eu já estou ótima pra ir pro colégio, me levanto e vou abrir a janela, dela tenho a vista do jardim da minha casa, ele é lindo, cheio de flores e uma arvore que eu amo, eu sempre gostei de altura, é algo , não sei , mas é tão espontâneo e nunca tive medo de cair, minha mãe não gostava muito disso quando eu era mais nova, ela achava que eu ia cair o tempo todo e ficava preocupada enquanto meu pai olhava pra ela sorria e dizia “Deixa minha macaquinha, faz parte da vida, ela vai cair muito ainda e vai ter que aprender a se levantar sozinha”, eu olhava pra ele sorria, amava quando ele dizia que eu era a macaquinha dele, e essa lembrança me fez sorrir, desci as escadas e fui a cozinha, chegando lá , encontrei minha mãe fazendo panquecas pro café da manhã, ela sabe que eu gosto das panquecas dela, isso também me fez sorrir, ela percebeu que eu estava sorrindo e olhando pra ela então disse:
– Vejo que acordou de bom humor hoje, vai ir pro colégio? – Ela perguntou sorrindo enquanto mexia com as panquecas.
– Sim mãe, vou ir pro colégio hoje, a senhora sabe, é meu ultimo ano, Papai foi trabalhar cedo hoje?
Quando fiz a pergunta seu sorriso ficou tremulo, franzi a testa preocupada.
– Aconteceu algo mãe? – Ela estava com o rosto triste, parece muito preocupada, mas ela me deu um sorriso calmo que não era transmitido no seu olhar e disse:
– Nada querida, seu pai saiu cedo sim, houve uma urgência em seu trabalho e ele teve que ir. – Meus ombros tensos relaxaram na hora, papai era medico, sempre há emergências nesse ramo, foi assim que eles se conheceram, em uma emergência, um paciente havia sofrido um acidente e papai era quem estava o atendo e o paciente era o pai da minha mãe, o amor deles acabou que surgiu com o tempo, e eu sempre achei lindo isso, não o amor, mas como eles se sentem bem um com o outro, como o amor deles é leve, eu sei que nunca deveríamos procurar a própria felicidade em outra pessoa porque se dependermos de outra pessoa pra ser feliz somos desapontados sempre, mas as vezes eu sonho, como qualquer outra garota de 17 anos em encontrar um amor, não como os que acontece em contos de fadas , não espero um “felizes pra sempre”, só espero ser feliz no momento, e esperar a paz que o um dia o tempo traz. Nem percebi que estava sonhando acordada até que minha mãe chama minha atenção.
– Izzy, tudo bem? – Olhei pra ela com o olhar espantado como se estivesse em um sonho feliz e ela atrapalhou tudo.
– Há mamãe, tudo bem sim. – Olho o relógio e percebo que já são 06:30, e que se continuar desse jeito vou me atrasar pra escola, digo a mamãe que não vai dar pra tomar café da manhã e subo correndo as escadas pro meu quarto, como a janela está aberta da pra ver a claridade e como os raios solares tocam em minha pele, é lindo, o céu, a cor, a vida, não tem nada a ver com coisas românticas, clichês, é que a vida é bela quando se sabe viver, o amor é belo apesar da dor que traz junto, não é como se e soubesse o que é o amor, nunca amei, mas eu sei como é o amor nos livros, não como em Shakespeare, o amor requer sacrifícios, nisso eu acredito, mas não acho há um sacrifício maior do que entregar seu coração há uma pessoa, quando se faz isso você se torna dependente de alguém. Saio da janela e vou ao banheiro do meu quarto , tomo um banho rápido, 10 minutos pois não quero chegar atrasada ao colégio , detesto não ser pontual, acho que pontualidade é o primeiro passo para a maturidade, saio do banheiro e após me secar vou escolher uma roupa pra vestir, no Colégio Intelecto, na primeira semana de aula podemos ir sem uniforme, não que eu não goste do uniforme, nada contra, mas bom, quem sou eu pra reclamar certo? Estudar em escola particular não é chato, mas também não é tão bom, a maioria dos alunos são mimamos, além da Laura, Thay e da Naty, a maioria das meninas são esnobes, e detesto isso, ter uma alta classe social não mostra o que há por dentro, e estereótipos não é meu forte, escolho uma peça básica, calça jeans biótipo e uma regata peplum com estampa de estrelas e uma sapatilha Zaxy Start 3 preta, me visto e desço as escadas , digo tchau a minha mãe e vou pra escola, o colégio fica a 3 ruas de casa e é sempre bom fazer uma caminhada , então vou a pé , o fato de que tenho dezoito anos e não dezoito também influencia, já que não posso tirar carteira de carro até fazer dezoito. O dia está lindo hoje, pássaros cantam e apesar de gostar do silencio, também gosto do som da vida, os carros, até mesmo gosto do cheiro de São Paulo, apesar da poluição ser desagradável e haver vários lugares ruins de se morar, a parte da cidade em que eu moro é boa, chego ao colégio e a primeira coisa que vejo são minhas amigas, enquanto vou chegando elas não me veem, e quando percebem que estou chegando olho pra elas e dou um sorriso, e então percebo que elas não estavam sozinhas, tinha alguém com elas e era Andrew, olho pra ele e tenho um calafrio, minha mente me manda correr, o que é um tanto quanto estranho, mas me forço a caminhar , chego lá e digo um oi a todos junto com um aceno de cabeça. Andrew continua olhando pra mim o que é perturbador, da vontade de perguntar a ele se perdeu alguma coisa, então o sinal bate, temos aula de mitologia agora, e como estamos todos no ultimo ano, estamos juntos, enquanto andamos pelos corredores a um silencio cômodo o que é bom, chegamos a sala, cada um vai para seus respectivos lugares, sento na primeira mesa ao lado de Laura, enquanto Naty senta atrás de mim e ao lado de Thay, percebo uma mudança, Andrew se senta atrás de Naty e ao lado dele está James, eles são melhores amigos desde que eu me lembro , James é ruivo e tem olhos verdes , seu cabelo é longo, e ele usa piercing nos lábios o que fica incrivelmente lindo nele , mas houve boatos de que seus pais não apoiaram muito quando viram um nele, ele é o tipo de garoto tímido e inteligente, o que não combina muito com o estereotipo que pessoas criam, no fim, nunca entendi a amizade dos dois, James é humilde, já Andrew, bem, ele é ótimo com todo mundo, sempre foi, mas tem algo contra mim , na verdade isso nasceu em algum momento, essa barreira que impede nossa amizade, isso surgiu quando ele fez 17, espero que isso não aconteça comigo também, e então entra alguém na sala, quando olhei pensei que fosse um aluno novo , mas ele para na mesa do professor e olha pra turma, ele é simples, mas há algo de bonito na simplicidade dele, com sua pele morena, seus olhos castanhos claros, seu cabelo com corte social, sua blusa preta, e até mesmo com sua calça jeans escuras , há algo nele, um brilho, que chama atenção, percebo em choque que não sou a única a reparar isso, ele é diferente dos outros professores, parece ter uns 23 anos, todos em silêncio o observam com um sorriso tranquilo ele começa a se apresentar.
– Meu nome é William, sou o novo professor de mitologia de vocês, antes que me perguntem não sei o que houve com o antigo professor, espero que gostem da maneira que escrevo, todos já leram O Livro de Ouro da Mitologia certo? Bom, se não leram espero que leem, nesta aula quero algo básico, quero que me digam seu mito preferido e me digam também o porque, e para a próxima aula quero que criem um mito, não precisa ser sobre mitologia grega, pode ser invenção própria. Vou chamar por ordem alfabética, quem não quiser dizer, não é necessário que diga, mas vale nota. E então ele começou, graças as “deuses” não foi pela minha fila, se não seria a primeira.
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