Todas as aulas dos dias seguintes continuaram sendo monótonas e tinha de me segurar para não cochilar na maioria, era como se todos estivessem ali e na verdade não estivessem, ou como se eu estivesse presa em um mundo diferente, onde não havia nada além do vazio e dos pesadelos, sim, dos pesadelos, eles nunca iam embora, era como se fosse uma lembrança reprimida em minha memoria, talvez fosse mesmo, talvez nossos sonhos são apenas coisas por qual já passamos nessa ou talvez em outra vida, o que seria hilário por que uma vez, acho que tinha 14 anos, sonhei que era um lobisomem , quando contem isso pras minhas amigas elas só riram e disse que eu parecia um mesmo, cheio de pelos, o que não foi nada legal, mas elas riram como se fosse a piada do século. É bom ter amigas por isso, elas conseguem fazer piadas de tudo, fazer você sorrir e se comportar como uma palhaça o tempo todo. E era nisso que pensava enquanto minhas amigas estavam no meu quarto se arrumando para irem pra uma festa, na qual eu fui convidada e estou sendo obrigada a ir, sim, obrigada, detesto festas, são muitas pessoas e não consigo ficar sozinha, mas eu me sinto sozinha, o tempo todo, é como se eu estivesse sempre acompanhada, mas na verdade só, é complicado por isso nunca compartilho meus anseios com as pessoas, me sinto um peso morto e é ruim se sentir assim, então eu sempre faço as mesmas coisas, coloco um sorriso no rosto, me arrumo, e vou agradar todo mundo. Me fizeram usar um vestido preto curto cheio de renda, e com um decote nada discreto apesar de ser fechado por renda também usava um salto preto de 16 cm, uma maquiagem básica foi o máximo que conseguiram fazer que eu usasse, e sinceramente, estava ótima pra quem nem queria ir pra festa alguma, minhas amigas estavam incrivelmente bem vestidas, muito mais que eu e todas estavam lindas.

– Izzy, vamos?

Eu olhei pra Natty me surpreendendo, bom, eu não estava prestando atenção então não é muita surpresa eu ter levado um susto, na verdade eu sempre me assusto, já disse que as vezes viajo em meus pensamentos , então somente sorri pra ela , acredito que tenha achado que era um sim pois começou a sair do quarto junto com Laura e Thay. Era uma festa nada especial, e era do William, apesar de bonito ele era super mimado e eu odiava isso, junto com todas as suas festas, acredito que seja esse o motivo dele sempre me convidar, mas minhas amigas teimam em ir e me levam junto sempre, William é o tipo de garoto bonito que sabe que é bonito o que o torna irritante, mas claro, com seus olhos castanhos, sua pele morena, seu sorriso com covinha e seus cabelos pretos lisos, uma combinação um pouco estranha mas fatal, ele acha que é capaz de conquistar todo mundo, mas está bem enganado, na verdade nem sei se ele quer conquistar todo mundo, mas sei que ele beija bem e que é um idiota e quem disse isso foi Renata, bom, ninguém nunca disse o contrario então é o suficiente pra achar que é verdade . Chegamos lá de carro, o da Thay pra ser especifica e como sempre a festa estava cheia, entregamos nosso convite e o guarda não parava de olhar pro meu decote o que fez com que eu quisesse chutar a cara dele, o que é engraçado, odeio violência, mas isso sempre acontece quando estou perto do William, afinal, ele é um babaca, certo?

– Gente, vamos dançar? –Laura perguntou , as meninas concordaram mas eu apenas balancei a cabeça, então elas começaram a dançar.

– Vou buscar algo pra beber. – Eu disse isso, mas na verdade só queria ficar na minha, o que não deu muito certo, como sempre porque vi Andrew, se possível ele estava mais lindo do que o normal, e eu fiquei lá, olhando para o mar azul que era seus olhos, então percebi que estava o encarando e infelizmente ele também notou, então chegou perto de mim com um sorriso de lado que fez com que ele ficasse meio que , lindo? É , ele é sempre lindo.

– Oi Izzy. – Ele é um babaca maior que o William ainda, como é capaz de conversar comigo depois de tudo o que fez? Serio mesmo, em que mundo ele vive? Se já não bastasse nem ter ido me ver depois que sai do hospital, mas eu respirei fundo e contei até 5 , olhei pros olhos dele, e fiz um enorme esforço pra minha voz sair o mais normal possível.

– Oi Andrew. – Ela saiu mais fria do que pretendia, o que até mesmo me surpreendeu, mas ele apenas sorriu pra mim, babaca convencido.

– Então, desculpa por qualquer coisa e por não ter ido te visitar na sua casa, mas é que sempre que eu ia não dava certo, você nunca estava, pedi pra suas amigas passarem recado mas não sei se elas falaram, me perdoe por qualquer coisa. – Eu não conseguia acreditar nisso, serio, depois do que ele fez, ele me pede desculpa por uma coisa dessa? E resolvi ignorar o fato de minhas amigas não terem me dito nada e apenas sorri, pra ele, eu sabia que se somente ignorasse ele iria embora, mas quer saber? Tenho nada a perder mesmo.

– Serio Andrew? Depois de tudo o que fez comigo você acha que é assim? Vai pra minha festa, me ignora , e agora vem pedir desculpa? O mundo não gira em torno de você, sinceramente, não quero nem saber o que aconteceu, isso, isso tudo, é uma enorme palhaçada. – O sorriso se esvaiu do rosto dele, e ele apenas franziu a testa.

– Hmm? O que eu fiz? – Serio? Que cara de pau.

– Você era meu melhor amigo , entendeu? Melhor amigo, então simplesmente some, isso mesmo, some , você sumiu da minha vida, me abandonou, me esqueceu, deixou um vazio em mim, sabia? Passei a sentir que algo faltava, e é você, porque você me esqueceu, simplesmente esqueceu sua amiga aqui, não é porque você fez 17 e já podia ir pra onde bem entendesse que precisava me abandonar, mas você o fez. – Me controlava pra não chorar, então mordi minha bochecha pra ver se as lagrimas não caíssem, não posso chorar na frente dele, nunca.

– Izzy- Ele disse com uma voz suave enquanto levava seu polegar a minha bochecha – Eu não abandonei você, nem poderia, sempre vou estar contigo, é verdade, me afastei, mas a questão é que, eu não poderia fazer outra coisa, era o melhor pra você, sempre foi você sabe que é minha melhor amiga, sempre será, a questão é que as vezes temos que escolher o que é melhor, mesmo que não seja a escolha que nosso coração faria.- Por um grande momento fiquei sem palavras, e as lagrimas ameaçavam cada vez mais a rolar, mas não permiti, tinha que ser forte e o pior é que aqueles olhos azuis estavam tristes, detesto ver a dor nas pessoas e pior ainda é ver a dor nos olhos do Andrew e o que eu mais queria era pedir desculpa agora, apesar de não ter feito nada eu sabia que faria de tudo pra não magoar o Andrew porque eu o amo, sempre amei, desde que o conheci, ele sempre foi o melhor de mim, sempre me apoiou, apesar de tudo, só que eu não sei o que aconteceu, ele me abandonou e simplesmente não me explicou o que houve, me deixou, não posso confiar em alguém assim, não posso permitir ser ferida novamente, as vezes eu sei que só o amor não é o suficiente. Respirei fundo e tentei fazer com que minha voz saísse estável o que era praticamente impossível. – Me desculpe, mas não posso confiar em você, a não ser que você me explique, me diga Andrew, o porque de tudo isso, me diga , por favor, eu sei que não é muito. – Olhei nos olhos dele esperando uma resposta. – Não posso Izzy, não hoje, não agora, só quando você estiver pronta eu vou dizer. – As certezas nos seus olhos não vacilaram em momento algum. – Okay, vou esperar o tempo que você precisar, mas sabe Andrew, o tempo muda as pessoas, as certezas, o tempo muda tudo, talvez, só talvez eu mude também, a vida é um grande jogo onde não temos escolhas a não ser lutar pra viver, e o tempo é tão instável, não posso esperar para sempre. – Após dizer isso , apenas balancei a cabeça e sair, de repente precisava urgentemente de ar.

Assim que sai de perto de todos me senti mais leve, e me permiti chorar, chorar pelo o que perdi, pelo tempo que não vai voltar e chorar de alivio por poder chorar, engraçado não? As vezes seguramos tanto as lagrimas que esquecemos do alivio que chorar nos proporciona e o sentimento de liberdade que as lagrimas nos dá, ouvi passos atrás de mim e lutei pra me recompor, não podia demonstrar fraqueza, não agora, especialmente se for o Andrew, olhei pra trás e já tinha algo sarcástico pra dizer mas calei na hora pois percebi que na verdade quem estava ali era o William.

– Oi Isabelly. – Sua voz estava calma, o que era engraçado já que ele parecia estar um tanto quanto sobrecarregado.

– O que está fazendo aqui? – Perguntei rispidamente e logo me arrependi, apesar dos boatos, ele nunca fez nada comigo, não havia motivo para não o tratar bem. Mas ele manteve a voz neutra como sempre.

– Bom, estou no jardim da minha casa, então eu deveria te perguntar o mesmo, não? – Claro que ele tinha que jogar na cara que a casa era dele , que cretino.

– Sim, bom, como você pode perceber, precisava sair, muita bagunça, muitas pessoas , isso irrita qualquer um. – Queria quebrar a cara dele, queria ficar sozinha e ele está me irritando.

– Sabe? Concordo plenamente com você. – Dessa eu tinha que ri, na verdade gargalhar.

– Serio? Você concorda comigo? Estranho, já que você dá uma festa nova praticamente todo o fim de semana, isso é muitas pessoas acredito. – Ele apenas franziu a testa pra mim.

– Querida, as festas são apenas para manter as aparências e de qualquer forma, você sabe, a verdadeira solidão é aquela que está no nosso coração e não se resume no numero de pessoas ao nosso redor . – Ele disse isso de uma forma tão seria que fez com que eu pensasse melhor em uma resposta pra isso. Após alguns instantes encontrei uma, mas infelizmente não pude responder pois ouvi uma voz familiar chamando William.

– Thomas? – Não pude esconder a surpresa quando o vi caminhar até nos, apesar de que pelo jeito eu não era a única surpresa.

– Vocês já se conhecem? – Perguntou um William um tanto quanto estranho. Thomas apenas confirmou com a cabeça, por algum motivo achei que ele merecia uma resposta melhor.

– Sim, ele foi quem me atendeu após o acidente do meu aniversario. –Agora foi a ver de William confirmar a cabeça como um gesto de quem entendeu e Thomas sorriu pra mim, aquele sorriso dele lindo de novo, ele estava belo, como sempre é claro, com uma camisa social preta uma calça jeans escura, ele está mais moleque também, com um olhar menos profissional, o que fez ficar mais atraente ainda.

– Bem, Oi Izzy , e William, preciso conversar com você, agora. – William parecia pouco a vontade, o que foi estranho.

– Claro Thomas, vamos. Nos vemos depois Izabelly. – Ele piscou pra mim e me senti ruborizar e depois me senti uma idiota por ruborizar, até porque era apenas Will. Thomas apenas veio até mim e me deu um beijo na testa, o que foi inconveniente, diferente e bom, apesar de que sua boca estava fria e senti calafrios. Quando eles saíram andando fiquei pensando em como minha vida estava confusa, meus sonhos, Andrew, William e Thomas, e por mais que não queria pensar nisso, eu sabia que de uma forma ou de outra, estava tudo interligado.