“ Sarabe era uma menina de natureza curiosa, sempre gostou muito de explorar um lugar novo. E lá estava ela em um reino completamente estranho, em um castelo diferente do seu, rodeada por uma vegetação bastante peculiar aos seus olhos. Em sua terra, as árvores não eram como aquelas, o clima não era aquele.

O castelo de sua família tinha vista para o mar mediterrâneo. Ela amava a praia, a brisa e principalmente o azul daquelas águas. Ela tinha certeza que aquela cor era uma prova da bondade de Deus para com os habitantes locais, pois já viajara muito, mas nunca vira um azul tão vivo em outro mar. E ela amava aquilo. Contudo, todo aquele verde de Reichstein a deixava curiosa. Nunca vira uma floresta de coníferas antes, as árvores cobriam cada pedacinho de terra, não permitindo que do alto da janela do quarto onde estava hospedada, pudesse ver o chão. O que estaria escondido por debaixo daquelas copas verdes? Ela queria descobrir. Portanto, resolveu explorar.

Cavalgou montanha abaixo, até que um lugar lhe chamou a atenção: uma clareira. Estava florida por conta da primavera e havia uma diversidade de flores que nunca conhecera antes. Parou e ficou por um tempo admirando todo aquele conjunto de cores tão diferentes aos seus olhos.

— Não deveria estar aqui. – falou alguém às suas costas. A menina tomou um susto e deu um pequeno grito, virando-se em seguida para ver quem a pegara no flagra. Seus olhos arregalaram-se e ficou encabulada.

— Príncipe, eu não... – tentou explicar-se, mas foi cortada pelo riso do garoto.

— Relaxe, não irei contar a ninguém. Também aprecio o local. – a menina engoliu em seco, temendo ficar a sós com o príncipe.

Pelo o que sabia, ele tinha 18 anos, sendo 4 anos mais velho do que ela e era dotado de atitudes bastante peculiares, pelo que ouviu das criadas do castelo, para um futuro rei. Seus dedos passaram a fazer nós no vestido por conta do nervosismo, resolveu que deveria falar algo para cortar o clima de constrangimento. Todavia, não foi preciso, pois o jovem abaixou-se e apanhou algo na grama. Em seguida, entregou a ela, que pegou com receio a flor recém coletada.

— É um lírio. -explicou. -Azul é minha cor favorita. -puxou um sorriso de canto, encarando-a profundamente e a menina sentiu a face ficar ainda mais quente. Os olhos de Sarabe eram azuis como a flor e como o mar de sua terra natal. Havia um significado a mais na frase, ela sabia.

— Obrigada, príncipe Taka. -agradeceu timidamente, fazendo uma pequena reverência.

— Scar. -corrigiu. -Me chame de Scar apenas. – Ela franziu o cenho, tentando compreender o porquê do apelido, mas então percebeu a cicatriz rosada que ia de sua sobrancelha até a bochecha. E por um segundo focou também em seus olhos e sorriu, pela primeira vez, na presença do príncipe. Sarabe era uma menina que gostava de descobrir coisas novas e naquele dia ela descobriu que verde era, na verdade, sua cor favorita.”

— Kovu...? -ela pergunta ainda desnorteada, chamando a atenção do homem, que se virou rapidamente. Então ela teve sua confirmação ao olhar dentro dos olhos do moreno. Eram de um verde esmeralda intenso que ela só havia visto uma vez em sua vida, num garoto presunçoso que lhe salvara de uma cobra, e, ao que indicava, a estava salvando novamente. Logo em seguida, seu salvador desfere um golpe com um chute na barriga em outro exilado, fazendo com que este caísse no chão.

O jovem exilado lutava com maestria e graça contra os outros 4 que ainda estavam de pé. Kiara queria ajudar, fazer alguma coisa, porém, sentia-se tonta ainda, não era acostumada a sentir tanto medo e aquilo consumia suas forças. Kovu, por outro lado, parecia muito focado e preciso em seus movimentos, sempre sereno. Ele puxou o braço com força para trás, acertando o olho de um homem de baixa estatura com o cotovelo e logo em seguida, com o punho, acertou o que estava em sua frente, desviando da espada do que estava em sua lateral. Após derrubar os outros dois no chão, que caíram de dor, ele finalizou a luta com o quinto pela espada, desarmando-o.

— Saiam daqui! -apontava a espada ameaçadoramente para os cinco. Nesse instante, três guardas acompanhados de Timão e Pumba chegaram no local da briga.

— Não volte para nós, Kovu! Você não tem mais família! Vai pagar caro pela traição! -um deles ameaçou enquanto fugia. De longe, Kiara viu os guardas perseguindo-os, mas apenas até um certo ponto. Nem os soldados mais destemidos ousariam entrar no território dos exilados em menor número.

— Kiara, princesa, você está bem? – Timão e Pumba a examinavam e a ajudaram a se levantar.

— Estou... -falou meio incerta. Foi então que os dois perceberam a presença do outro exilado ao lado da princesa, ele a observava, sem emoção em particular.

— O que está fazendo aqui? Vá para sua terra, exilado!

— Timão, não. Ele me ajudou. Ele me salvou, você viu. -falou Kiara com a voz fraca.

— Mas princesa, ele é um exilado. Seu pai nunca irá permitir...

— Deixe que eu falarei com meu pai. -usou sua autoridade para por um fim na discussão. Em seguida, os guardas voltaram e se colocaram entre a princesa e Kovu, apontando suas espadas a ele, que continuou sereno com os braços atrás do corpo. Os soldados estavam receosos em atacar o exilado pelo desempenho que mostrou ao lutar com os outros cinco.

— Abaixem as armas, soldados! – ela falou com firmeza novamente e após alguns segundos, eles as abaixaram. – Kovu irá conosco até o castelo. Ele salvou a filha do rei e tem direito a sua recompensa, como manda a lei. -Kiara deixou suas emoções de lado no momento, para passar segurança diante dos homens de seu exército. Todos ficaram inseguros, mas não desobedeceriam a uma ordem da princesa.

Kiara respirou fundo enquanto fazia o caminho de volta para o castelo em seu cavalo e sentiu sua nuca queimar. Olhou para trás e encontrou duas esmeraldas a fitando profundamente, corou. Não conseguiu achar um momento para falar diretamente com Kovu, pois os guardas se colocaram entre eles. Eram tantas perguntas que gostaria de fazer. Por que ele a salvou? Por que ir contra os seus para ajudar alguém que conheceu quando criança por apenas um dia? Sua mente trabalhava tentando achar respostas, mas, de qualquer forma, ele teria que se explicar diante da presença de seu pai quando chegassem ao castelo.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma grande quantidade de cascos de cavalos batendo contra o solo em uníssono, as pessoas saíam da frente apressadas. Apurou os olhos e viu a cavalaria seguida de seu pai. Mas como...? Timão e Pumba devem ter o avisado, de alguma maneira, pensou.

— Kiara! O que estava pensando? Saiu do local onde havíamos combinado que você iria. Você sabe o peri... – Simba brigava furioso com a filha na frente de todos, porém se desviou momentaneamente para um ponto atrás da princesa e seus olhos se arregalaram. -Scar... -soltou sem pensar. Não poderia ser seu tio tirano, ele estava morto. Simba mesmo o havia matado com sua própria espada, porém, lá estava ele, apenas em uma versão mais jovem.

— Não pai, este é Kovu. Lembra-se dele? Ele me salvou quando saí do castelo há alguns anos atrás e agora salvou-me novamente. — Simba pareceu acordar de seu choque por ver a imagem do falecido tio e voltou a sua fúria, sacando a espada.

— Exilado! -acusou, todos então que viam a cena se assustaram e passaram a cochichar entre si. Os demais soldados também puxaram as espadas, apontando-as para o pescoço de Kovu, que assim como anteriormente, manteve a serenidade, sem se defender.

— Pai, o senhor ouviu o que eu disse? Ele me salvou. -chamou a atenção para si novamente. -Eu fui abordada por 5 exilados e eles iriam me atacar se Kovu não tivesse aparecido. -mais sussurros da multidão. Simba pareceu mudar a expressão para preocupação por um instante ao ouvir a filha relatar que quase foi atacada. Olhou para Timão e Pumba pedindo confirmação dos fatos.

— É verdade, majestade. Ele a salvou dos outros exilados. – assegurou Pumba. Timão concordou com a cabeça.

— Pai, como manda a lei, aquele que salvar a vida de um membro da família real, não sendo do exército, tem o direito de pedir uma recompensa. Pode pedir até mesmo 1/6 de suas riquezas. Assim diz a lei de Mufasa. – Kiara recitou com justiça e sabedoria. A face de Simba se contorceu, desgostoso.

— Muito bem, o que deseja? -dirigiu-se a Kovu com o tom mais polido que conseguiu encontrar em si.

— Majestade, eu nunca concordei com as atitudes e pensamentos de meu povo, nunca compartilhamos os mesmos objetivos. -ele falava controlado. Kiara percebeu o quanto sua voz havia mudado, estando bem mais grossa e masculina. — Mas ao salvar vossa filha, eu traí minha família, não me aceitarão de volta. Portanto, eu peço, humildemente, para que me deixe habitar em seu castelo e fazer parte de seu exército, pois, modestamente, sou bom em combates.

— Nunca! Você foi banido junto com os outros exilados e assim deve permanecer. -bradou Simba, sentindo-se insultado por aquele pedido.

— Majestade, sou um desgarrado e não tenho para onde ir. Julgue-me agora por quem eu sou. Ou serei julgado por um crime que não cometi? -perguntou ousadamente, os olhos desafiadores. Dessa vez a multidão exclamava alto o descontentamento com a presença de Kovu.

— Pai, deve a ele minha vida. -Kiara argumentou revoltada. O rei guarda a espada, bufando com descontentamento e anda de um lado para o outro, buscando avaliar a situação.

— Majestade, o protocolo real exige que a dívida seja paga. Estamos perante uma multidão e dezenas de soldados. Ignorar a lei com tantas testemunhas seria muito prejudicial para a imagem do vosso reinado. – Pumba sussurrou. Simba apertou os olhos com o indicador e polegar, derrotado. Não havia como fugir.

— A lei de meu pai prevalecerá. Por hora, você será bem-vindo em nossas terras e fará parte de meu exército. Ficará em meu castelo até construir uma casa no vilarejo. Nenhum soldado tem permissão para morar com a família real. Isso é tudo. -declarou. Kovu soltou um suspiro discreto de alívio e Kiara sorriu largamente, feliz por seu salvador ter sido atendido em sua recompensa.

Simba deu um toque na barriga de seu cavalo e puxou as rédeas a fim de dar meia volta, retornando para o palácio, assim como os outros soldados. O rei estava demasiadamente irritado para continuar com cortesias com o exilado, imaginava que se tivesse que olhá-lo mais uma vez naquele dia quebraria o protocolo real e o mataria ali mesmo. A multidão do vilarejo se distanciou para que eles passassem, alguns faziam caretas para Kovu, que não se deixava afetar.

— É a princesa! Como é bonita! – comentavam por onde Kiara passava.

O povo percebeu, então, que nunca havia visto a princesa antes. O coração de Kiara se esquentou. Era exatamente isso que ela desejava: não ter mais que se esconder. Portanto, passou a acenar com graça para as pessoas, em cima de seu cavalo. O ato não passou despercebido por Kovu. “Criança tola”, pensou. Os olhos dos dois se cruzaram mais uma vez naquela tarde quando ela olhou para trás. A pequena princesa sorriu meigamente, ele devolveu com um sorriso de canto e um aceno de cabeça, como um agradecimento solene e cortês por tê-lo defendido.

Notas finais
E aí? O que vocês acharam? Acharam que ia ser o Mufasa ali com a Sarabe, né? Pois é... mas não hehe. O que será que significou esse encontro?... "Ahhhhh!!! Por que o Kovu e a Kiara não se beijam logo ou se falam? Por que você faz isso com a gente? " Calma, jovens, tudo tem seu tempo. Essa aproximação deles vai acontecer aos poucos. No próximo capítulo tem mais. Só peço, como sempre, que COMENTEM!! Obs: para os flashbacks vocês precisam se atentar nas idades, porque elas não estão acontecendo numa ordem cronológica. Se vocês perceberem, elas tem relação com as cenas do presente.