A princesa proibida
28 O poema de rosas e sangue
— Princesa, com todo o respeito, ainda temos tempo de parar o baile e forçar o traseiro real – novamente, com todo o respeito – de vosso pai até aqui a fim de ver seu exército marchando para uma chacina não autorizada. Que na verdade, não vai acontecer, porque alertamos os supostos inimigos. E nossos verdadeiros inimigos estão apenas esperando para NOS atacar e ESTAREMOS COMPLETAMENTE DESPROTEGIDOS!! – Bunga surtava, todos olharam para ele. Este respirou fundo diante do olhar repreensivo do líder da Guarda. – Sinto muito, mas não posso ser o único que acha esse plano loucura. – Os demais não ousavam dizer, mas pensavam da mesma maneira, nem Fuli em toda sua fachada de coragem ousava exibi-la agora.
— Estamos em desvantagem, não desprotegidos. – Kovu replicou com serenidade, não tinha medo, sabia o que fazer, a vida inteira foi treinado para pensar estrategicamente, não por temor. Porém, não poderia deixar que o sentimento contaminasse os demais, pois sabia que o medo poderia aumentar a proporção da situação. – Olhe para este castelo, foi construído para ser uma fortaleza. Ademais, estamos em terreno alto. – Eles assentiram, engolindo em seco. Kiara tinha consciência que deveria ser ela a estar dando palavras de conforto e encorajamento, mas não conseguia. Tudo o que pensava era em quão egoísta sentia-se, será que estava fazendo o melhor por Reichstein? Era um plano baseado numa sucessão de probabilidades, a ideia de Bunga parecia fazer muito mais sentido. Porém, ela queria provar ao pai que era capaz de proteger o reino sozinha, de que não precisava de um príncipe ao lado.
— E como sabe exatamente de onde eles irão surgir? – Beshte questionou com a voz trêmula.
— Se o nosso exército está descendo pelo norte e vai atravessar os vilarejos, o exército de Utah deve estar escondido na encosta da montanha ao sul. Talvez eles já estejam nas árvores, apenas esperando um sinal de Thompson para atacar. Mas é certo que virão pelo sul. – deu de ombros. A menção à possibilidade do exército estar escondido à floresta, bem atrás deles, gerou um arrepio coletivo. O vento gélido não ajudava a acalmar os nervos, soprando como um uivo, como um coro à música alta e excepcionalmente sombria vinda do Grande Salão. – Veja, eles vão atacar de qualquer forma, nossos homens aqui ou não. Pode parecer loucura pensar que em menor número estamos em vantagem, mas é verdade. Eles creem que será uma vitória fácil. Nosso privilégio é a estratégia, sabemos da armadilha. A mente é mais poderosa do que mil espadas. – Kiara encarou o exilado por um momento, já ouvira aquela frase, vinda do próprio pai. Eles se pareciam tanto em alguns aspectos. Acostumou-se a compará-los após a descoberta feita por meio do diário da avó.
— Não estão com medo de alguns soldadinhos, estão? – uma voz sarcástica soou alertando os jovens na torre de vigia norte.
— O que faz aqui? – Kovu questionou irritado, Tani sempre sorrateira, esgueirando-se pelos cantos como uma gata silenciosa e metendo-se no que não era chamada. É claro, tão previsível, ele não poderia alegar surpresa
— Não iria perder a diversão, é claro. – respondeu casualmente. – Eu gostaria que fosse um pouco mais receptivo quando me visse, irmãozinho. Somos exilados, não bárbaros. Mamãe nos ensinou algumas saudações.
Ela riu, mas Kovu sabia que no fundo ela realmente afetava-se com a falta de intimidade gerada entre eles. O moreno sentia que havia arruinado a inocência da irmã quando foi estudar na Inglaterra e a deixou com Zira e Nuka. Parte dele se odiava por isso, por não tê-la protegido como deveria e por sua abstenção ter criado a performance que via. Mas era apenas isso, atuação. Por dentro, ela ainda era aquela menina que invadia seu quarto e observava as estrelas ao seu lado. Frágil. Temia aproximar-se novamente dela e retomar também o menino que havia dentro dele. Área essa já muito comprometida na presença da princesa, não poderia tornar-se vulnerável com Tani também, ainda que a amasse. Na verdade, sentira-se grato quando soube do interesse de Demetrius por Vitani, se aquilo desse certo, ele cuidaria dela como uma dama, como ela precisava. Merecer é um eufemismo.
— E como está o exílio? – Kiara perguntou. Sentia-se estranha com aquela garota, tinha sempre a sensação de tê-la conhecido antes, mas como poderia?
— Deserto como deveria. – economizou nas palavras ao se dirigir à princesa, temia ser reconhecida. Era um milagre, ou então, uma ponta solta, que Kiara não a associasse à “nobre” do Baile das Flores. – Encontrei Demetrius na saída, ele me disse que quando encontrassem o exílio sem uma viva alma, daria a sugestão de ser uma emboscada e que deveriam voltar ao castelo imediatamente. Ele parece ser influente, os outros acreditarão em sua palavra. – corou ao falar o nome do homem. – Eles gastarão, no mínimo, duas horas no percurso.
— Thompson sabe disso. – Kovu concordou. – Ele vai esperar até que o exército chegue no exílio para dar seu sinal, precisamos ficar de olho nele.
— Não há mais volta. – Kion sussurrou observando o último homem do exército de Reichstein sumir pela estradinha da montanha que levava aos vilarejos. O som da marcha dos soldados era abafado pela música alta vinda do salão, verdadeiramente ensurdecedora.
— Está bem, todos aos seus postos como o combinado. – informou Kovu, tentando quebrar o clima agourento.
— Q-queria declamar que foi uma honra servir com vocês até aqui. – Ono disse sentimental, Kovu revirou os olhos.
— Eu também, irmão. – Bunga concordou, os olhos começando a marejar.
— Eu agradeço a vocês por colocarem suas vidas à disposição, por serem fortes e corajosos. – Kiara achou voz para falar.
— Por Reichestein! – Kion levantou a espada.
— Por Simba! – continuou Beshte.
— E pela princesa! – Fuli finalizou trocando um sorriso cumplice com Kiara. Eles entoaram mais uma vez as declarações e seguiram para desempenhar seus papeis.
Kion e Fuli beijaram-se timidamente como uma despedida, não parecia ser a primeira vez, Kiara notou. Em outra situação, ela teria provocado o primo e demandado detalhes, mas parecia irrelevante no momento. Ainda assim, ficou feliz pelo ruivo, queria ter a coragem de conversar com Kovu sobre seus sentimentos confusos, porém, ele tinha se mostrado avesso a escutar. Suspirou. Gostaria realmente de acreditar que haveria um amanhã para ter tal conversa.
Assim, eles se dividiram. Kion, Fuli, Bunga, Ono e cerca de quinze soldados que sabiam do plano ficaram de vigias nas torres, enquanto Kiara, Kovu, Beshte e outros homens que reuniram (amigos de Demetrius) voltaram para o salão principal a fim de observar o movimento e, principalmente, os passos de sir. Thompson. A qualquer momento ele teria de emitir algum sinal para o exército escondido.
— Tome cuidado. – Kovu desejou à Vitani antes de se separarem.
— Sempre, irmãozinho. Sempre. – os dois se encararam desconfortáveis por mais alguns segundos e, inesperadamente, como uma flecha, Tani atirou-se nos braços do irmão, há anos não fazia isso. Na mesma rapidez, antes mesmo que ele pudesse pensar em retribuir, a jovem se afastou e deu as costas, desaparecendo nas sombras. Ele sorriu, gostaria que ela tivesse o visto sorrir.
Em um silêncio pesado, o grupo voltou para o salão principal. O teatro era, na realidade, uma ópera muito estranha. Eles se infiltraram no meio da plateia, o sir Thompson estava junto à filha na primeira fileira. O rei e a rainha assistiam tudo do trono, um pouco afastados do palco improvisado. Kiara decidiu-se por ficar no fundo, observando num plano geral o movimento.
Vez ou outra, a atenção da princesa se voltava à peça, era impossível pensar com muita clareza enquanto aquela melodia das vozes e instrumentos invadia seus sentidos. A cabeça zumbia de nervosismo, gostaria de parar aquele espetáculo, detestava óperas mais do que qualquer coisa. Lembrou-se da primeira vez que um grupo de cantores líricos veio até o castelo, o pai lhe alertou: ou você ama ou odeia. Kiara, com certeza, não pertencia ao grupo daqueles que amavam óperas. Achava-as excessivamente dramáticas e cumpridas.
Aquela em particular, era extremamente desagradável. Se entendera bem, a performance teatral era sobre uma garota ingênua que se apaixonava por um soldado canastrão e se entregava a ele. Como consequência, seus pais e toda a vila a rejeitavam e ela fora obrigada a viver na floresta, fugindo constantemente dos lobos. A ópera possuía uma conotação moralista, e Kiara a odiou ainda mais por isso. A peça já durava duas horas e a tensão aumentava a cada nota menor entoada pelas vozes potentes. Kiara poderia não gostar de óperas, mas as conhecia bem e nunca vira uma com tambores e instrumentos pobres antes. A cada batuque, representando a chegada dos lobos, seu coração acelerava no mesmo ritmo, sentindo a ameaça. Sir Thompson permanecia imóvel e bastante calmo.
De repente, os atores se deslocaram em uma dança dramática pelo salão e apagaram todas as tochas e archotes, restando apenas as que iluminavam a protagonista no palco. A plateia soltou um silvo de surpresa em uníssono pela semi escuridão repentina, mas certamente produziu um bom efeito na performance. Kiara olhou apreensiva para o lado e viu a face de Kovu contorcer-se em uma careta sob a luz fraca da lua, vinda da vidraça. Isso não era um bom sinal.
A menina rejeitada fizera amizade com as cobras da floresta e aprendeu a controlá-las por meio de seu canto hipnótico. Agora, ela estava levando as novas amigas para o vilarejo a fim de obter sua vingança. Assim, todos os instrumentos se silenciaram e a voz profunda e melódica da jovem morena soou firme, reverberando nas paredes e vidros. Como suas serpentes, os espectadores estavam hipnotizados pela melodia.
My love, my love Meu amor, meu amor
My fearless love Meu amor destemido
I will not say goodbye Eu não vou dizer adeus
Sea may rise O mar pode subir
Sky may fall O céu pode cair
My love will never die Meu amor nunca vai morrer
Então, debaixo de alguns panos espalhados pelo palco, serpentes reais na tonalidade verde e vermelha surgiram, substituindo os atores que as representavam. Desta vez o público soltou um silvo de terror, e muitos na primeira fileira afastaram-se ou então saíram, outros riam, achando o ato fascinante. Existia sim certo fascínio no medo provocado por aqueles seres obedientes à canção. Os animais moviam-se como numa dança, cada vez mais próximos à plateia, que manifestava mais intensamente o medo latente.
— Kiara, fique atenta. Não estou gostando disso... Veja, Thompson está se levantando. – Kiara alternava o olhar do homem para Kovu e para os pais, que exibiam um semblante curioso.
Go on, go on Vá em frente, vá em frente
Go bravely on Vá bravamente
Into the blackest night Na noite mais negra
Hold my breath Segure meu fôlego
'Til your return Até o seu retorno
My love will never die Meu amor nunca vai morrer
A atriz, então, tirou lentamente sua capa púrpura revelando uma armadura e espada, que empunhou no ritmo da música e aproximou-se do público, assim como suas amigas. Era o último ato, a menina teria sua vingança contra o vilarejo que a expulsou.
My heart, my heart Meu coração, meu coração
My drowning heart Meu coração afogado
Oh all the tears I've cried Oh, todas as lágrimas que chorei
Oh I may weep forever more Oh, e pode chorar para sempre
My love will never die Meu amor nunca vai morrer
Depois da última estrofe tudo aconteceu muito rápido, os tambores recomeçaram sua melodia de guerra, como quando os lobos surgiam, porém, em um ritmo frenético e mais alto do que anteriormente. Houve gritos por todo o salão quando as serpentes enfim atacaram, assim como os atores, que se revelaram inimigos infiltrados. “Isso não era parte do plano, isso não estava calculado.” Era a única coisa que Kovu conseguia pensar enquanto penetrava a multidão no escuro, tentando cortar a cabeça das serpentes e lutar contra a tropa de atores.
Kiara rapidamente retirou a espada, escondida na bainha pela capa e começou a golpear as serpentes. Conseguira matar quatro, mas era difícil agir com maestria e desenvoltura em meio à confusão, pessoas se empurravam, gritavam e usavam o que encontravam para jogar contra as criaturas peçonhentas. Vários nobres jaziam no chão espumando e pálidos, não havia nada a ser feito para ajudá-los. Quatro atores ainda rufavam os tambores no palco, e então, Kiara entendeu.
— Kovu, precisamos parar os tambores. Este é o sinal! – Gritou para que o exilado ouvisse, ele pareceu entender porque deslocou-se com mais rapidez para o palco. A princesa o seguiu, abrindo caminho entre corpos. Sentia-se nauseada, o belo vestido rasgava-se e sujava-se de sangue. Preferia crer que estava dentro da peça e nada daquilo era real.
A atriz não mais cantava, estava no chão se contorcendo de dor, um olho esbugalhado e outro continha uma flecha certeira. Percebendo a proximidade, três atores pararam de rufar os tambores e retiraram suas espadas. Kovu conseguiu acessar as escadas laterais com dificuldade e subir no palanque, precisava ser ágil, cortando as cobras que davam o bote. Em seguida, duelou contra os três homens sem muita dificuldade, mas os demais atores estavam retornando para o palco ao ver que o exilado obtinha sucesso. Se os tambores parassem, o exército poderia não ouvir e aquilo se tornaria uma missão suicida para eles. Kiara queria ajudar, porém, não possuía a destreza de Kovu e logo foi percebida por um dos atores, que iniciou uma luta.
O homem barrigudo era um pouco lento, todavia, seus golpes eram brutos e desestabilizavam Kiara. A cada segundo, a princesa ficava mais perto de ser encurralada na parede. E assim aconteceu, seu pequeno corpo estava entre o inimigo e as pedras frias do castelo. Os dois faziam um jogo de força com as armas empunhadas, ele tentava forçar a lâmina no pescoço da jovem e ela, por sua vez, empurrava de volta. Não iria aguentar por muito tempo, não era tão forte. “A mente é mais poderosa do que mil espadas”. A voz de Kovu ecoou na cabeça. Então, Kiara ergueu o joelho e acertou o baixo ventre do homem, que urrou de dor, largando a espada imediatamente. Aproveitando a vantagem, a princesa cravou a arma no pescoço do inimigo. Sangue jorrou em seu rosto, fazendo com que a bile subisse imediatamente, misturando o líquido denso e vermelho ao vômito no chão. As mãos tremiam. Havia matado um homem, um inimigo que provavelmente a mataria se ela não o fizesse primeiro. Ainda assim, havia matado um homem. Não apenas as mãos estavam sujas, mas sua alma fora corrompida e odiou ainda mais aquele ser por tê-la obrigado a fazer aquilo. Jamais esqueceria o último olhar daquele imundo, da luz deixando seus olhos. Tinha certeza de que aquela imagem estaria para sempre cravada na mente e a assombraria em sonhos. Em contrapartida, um estranho prazer assolava o âmago de seu ser, por poder defender-se sozinha e ver um peão caído naquele jogo estranho de poder.
A princesa olhou ao redor e encontrou os olhos castanhos de Simba, surpresos e aterrorizados ao mirar sua figura execrável. Aparentemente, assassinato não era uma veste elegante para uma princesa. Havia pesar em seu olhar, entendeu também que parte da culpa era dele, por não ter acreditado em suas palavras. O pai e a mãe ainda estavam no trono, cercados por soldados que os defenderiam. Kiara sacudiu a cabeça e subiu o palco para ajudar Kovu, que agora lutava contra cinco homens de uma só vez, usando braços, pernas e cabeça. Não poderia pensar naquilo no momento, mas era uma imagem atraente.
Silenciosamente a princesa infiltrou-se na luta, derrubando dois homens num só golpe. Kovu e Kiara lutavam agora lado a lado, usando as costas um do outro como apoio, mas quanto mais homens tiravam do caminho, mais apareciam. Não se deram conta do tamanho da “companhia de atores” antes, mas eram numerosos. Por mais dedicados que fossem, não aguentariam aquele ritmo sozinhos. Foi então que uma figura ruiva surgiu imponente acompanhada de alguns soldados e príncipes que juntaram-se a eles.
— Eu sinto muito por não ter acreditado antes, minha filha. – declarou pesarosamente o pai, após nocautear o último homem no palco, os demais haviam fugido, temendo a figura do rei. Os tambores estavam silenciosos. Kiara ainda guardava rancor, mas perante uma perspectiva tão mortal, como poderia não o perdoar? Os dois se abraçaram rapidamente e a princesa derramou lágrimas diante do reconcilio. – Eu te amo, minha estrelinha.
— Eu também, papai. – sussurrou contra o ombro do rei, aspirando o perfume paterno que tanto sentiu falta. Parecia fazer anos que não olhava realmente o rosto do pai, havia até mesmo esquecido da marca de nascença em forma de raio abaixo do lóbulo da orelha. Não sabia exatamente o porquê, mas aquela mancha lhe chamou a atenção, trazendo uma sensação de déjà vu.
— Cuidado! – alertou Kiara ao ver um homem surgir por detrás do pai, pronto para dar um golpe certeiro. Porém, nada aconteceu. Kovu cruzou suas espadas e com um chute no estômago, derrubou o ator e o matou em seguida.
Merda. Um impulso. Um bem idiota, pensou o exilado enquanto todos lhe encaravam pasmos. Ele mesmo estava. Uma coisa era fingir estar do lado de Simba, outra, era salvá-lo de uma morte certa quando seu objetivo último era, na verdade, a queda do atual rei. Uma chance desperdiçada, a troco de que? Por que fizera aquilo? O que isso significava, afinal? O que isso dizia sobre sua natureza? Sobre seus sentimentos dúbios por Kiara? Ele tinha certeza de que odiava Simba, porém, Kiara o amava. Sim, ele se deu conta. Fizera aquilo por ela, para não ver seus malditos sentimentos feridos ao perder o pai. Ele sabia o que era perder um pai. “Merda, Vitani tinha razão”, pensou. A princesa sorria emocionada, já Simba engolia em seco, perplexo e incapaz de agradecer, simplesmente disse:
— Proteja Kiara, leve-a junto à rainha, às crianças, mulheres e idosos para um lugar seguro.
— Farei isso, majestade. – acenou o mais polido que podia. Havia um entendimento no ar, uma trégua, Simba soube que poderia confiar realmente a filha ao exilado. Kiara era o denominador comum entre os dois. Kovu nunca pensou acatar uma ordem do rei tão genuinamente.
— Eles ainda irão atacar, provavelmente pelo sul. Thompson está por trás disso, ache-o, papai. – Simba concordou
O salão estava inundado de corpos, serpentes, pus, vômito e pessoas feridas, mas a maioria dos atores estavam mortos e os demais debandaram. Provavelmente escondidos em algum lugar, já que não poderiam sair do castelo sem que alguém autorizasse.
Rafiki já cuidava dos feridos passíveis a salvamento enquanto outros matavam as serpentes restantes. Kovu reuniu mais alguns soldados e, assim, escoltaram a princesa, a rainha e demais para um esconderijo na ala leste. O clima não poderia ser mais mórbido.
— Vai ficar tudo bem, mamãe. – Kiara abriu a porta do abrigo subterrâneo, escondido por uma tapeçaria.
— O que está dizendo, Kiara? – retorquiu Nala.
— Eu não vou entrar, irei para a batalha. – falou decidida. Kovu rolou os olhos.
— Vossa Alteza, recebi ordens para deixá-la a salvo. – Kovu intrometeu-se.
— E assim o fará, me protegerá na batalha como já fez tantas vezes, soldado. – ela tentou rir, mas seus machucados e dores não permitiam muito humor. Kovu abriu a boca para discordar, porém, a princesa foi mais rápida. – Isso também é uma ordem, senhor. – Kovu suspirou profundamente, não queria ter que se preocupar com Kiara enquanto lutava, ele ficaria vulnerável e tomaria decisões estúpidas, como salvar o pior inimigo por ela. – Mãe, eu treinei para lutar e preciso fazer isso.
— Por que, Kiara? – Nala já estava com lágrimas nos olhos.
— Porque preciso me mostrar digna de usar a coroa. – Nala debulhou-se em lágrimas e abraçou a filha demoradamente, não queria soltá-la, mas precisava deixá-la ir.
(War of hearts – Ruelle – versão acústica)
Após certificar-se de que todos entrarem em segurança no abrigo, Kiara selou a passagem com a ajuda do guarda pessoal. Em seguida, eles partiram em direção ao pátio. Passando por uma armadura lustrosa, brilhante pela luz do luar, a princesa pôde mirar sua imagem horripilante. O sangue do primeiro homem que matara estava seco no rosto, os cabelos soltos e compridos completamente desgrenhados, os braços continham alguns cortes e as mãos estavam tingidas em vermelho, esfregou-as, mas o sangue não saía. Não pode evitar calafrios ao deparar-se com a garota refletida, tão diferente do que era há algumas horas, e ainda assim, era ela. O corpo inteiro tremeu enquanto relembrava o que suas mãos delicadas haviam feito e no que ainda precisariam fazer naquela noite.
Não poderia entrar em batalha de modo tão transtornado e instável, porém, não conseguiu conter o choro, era mais assustador do que imaginava. Kovu já a vira chorar antes, não sentia vergonha de que a visse novamente, apenas não esperava que o exilado fosse envolvê-la com seus braços fortes por trás e encaixasse a cabeça na curvatura do pescoço, provocando um atrito delicioso da barba com a pele sensível. Era reconfortante tê-lo tão perto, sabia que poderia desabar. Kovu sempre a seguraria. O mundo estava ruindo, todavia, sentia-se em segura com ele.
— Princesa, reconsidere ficar. – Kovu pediu ao pé do ouvido, tentando não transparecer muitas emoções. – Eu preciso que esteja a salvo. – confessou, o ar quente de sua respiração desencadeava uma corrente elétrica pela espinha dorsal e acumulava-se abaixo do estômago de Kiara.
— Por quê? – indagou ousada. O exilado tocou os ombros da princesa e a girou para que ficassem face-a-face. Mesmo diante das circunstâncias, Kiara deixou-se estremecer, perdendo-se na intensidade de esmeraldas.
— É o meu dever proteger-te. – respondeu rouco, observando as reações que cada movimento seu repercutia na estrutura dela. Mesmo suja e machucada, sabia que jamais pousaria os olhos em criatura mais bela. Pelo contrário, a morte lhe era uma figura fascinante, finalmente sentia que estavam em pé de igualdade.
— E quem protegerá o senhor? – retorquiu num sussurro mordendo o lábio inferior, ele sorriu afetado, porém, havia uma nota de amargura.
— Sou um exilado, minha vida não é importante. – Kiara tocou-lhe a face com ternura, os dedos pinicavam pela barba rala.
— Para mim, ela vale muito. – declarou sem medo. O coração de Kovu se aqueceu, nunca ouvira de ninguém que sua vida era importante. Claro, no exílio ele era um príncipe, sua figura política era vital, porém, não por quem realmente era.
— E se Vossa Alteza morrer? A quem ela irá importar? – sussurrou aproximando suas faces ainda mais. Aquela corrente elétrica aumentava a cada instante, os envolvendo e obrigando seus corpos a buscar formas de calor um no outro, a distância parecia fisicamente impossível e até dolorosa. Não beijá-lo naquele momento era como arrancar um membro, não tê-la agora, da forma que desejasse, era a pior das torturas.
— Eu tenho morrido um pouco a cada dia desde que te conheci, Kovu. – soltou num misto de desejo e tristeza, os olhos castanhos marejados. Suas palavras nuas, despidas de qualquer orgulha o atingiram em cheio, como um soco na boca do estômago. Não queria perdê-la agora que percebeu o quanto realmente a desejava. Era mais do que um capricho ou uma atração, era... Não sabia explicar, mas céus, sabia que era forte.
— Vem cá. – puxou-a desesperado de uma só vez, rompendo a curta distância entre eles. Envolveu o corpo pequeno num abraço sôfrego, aspirando seu perfume doce misturado a suor e sangue. O peito doía, comprimido como nunca o sentira, teve medo. E raiva por todo o tempo desperdiçado, por tê-la odiada, por Simba, Zira e pelo maldito exército de Utah.
Kiara sentia que poderia dissolver-se nos braços do homem como um floco de neve ao cair no chão. Queria que aquele sentimento de completude durasse para sempre, que nunca mais precisasse sair dali. Porém, o destino parecia sempre querer se meter entre eles e assim, Kion gritou por eles.
— Eles estão atacando! – gritou o ruivo. Foi então que os dois perceberam os gritos e coisas sendo quebradas, saindo da bolha envolvente em que estavam.
Rapidamente, Kovu e Kiara se desvencilharam, trocando olhares significativos e subiram numa torre sul de vigia que dava vista para o átrio externo atrás deles e a floresta densa, depois do fosso, à frente. De longe podiam observar homens atirando flechas e canhões disparados. A muralha tremia debaixo de seus pés. E então, eles ouviram um grito agudo e feminino, Fuli.
— Nãooooo!! – Kion gritou também. Ele segurava a cabeça de Bunga no colo e abraçava-o. – Por que está sem armadura, Bunga? Por que nunca me escuta?! – a flecha foi certeira no coração, quase como por encomenda.
— Que graça teria se fizéssemos tudo o que você quer? – riu fraco tossindo sangue.
— Não faça brincadeiras numa hora dessas, ou eu juro que...
— Que o quê? Vai me matar? – riu sarcástico novamente. O ruivo chorou. Mais flechas choviam sobre eles, desta vez, protegeram-se com os escudos. – Tenho que te dizer, Kion, você é um almofadinhas insuportável. – lágrimas sôfregas rolaram por seus olhos enquanto ria sem sucesso. – Não tenho por que esconder isso agora. Me sinto livre. – sorriu fechando os olhos. – Mesmo assim, foi uma honra, irmão. – repetiu fracamente.
— Bungaaa!! Volte agora mesmo! Eu não te dou autorização para morrer! Eu não dou, sou o seu líder e você me deve obediência!! – gritava insanamente sacolejando o corpo sem vida. Fuli tentou tocar seu ombro e ele afastou o toque bruscamente.
— Kion!! Você tem que levantar!! Eles estão vindo!! Precisamos seguir o plano!! – Fuli anunciou firme, o coração em pedaços ao ver seu amor sofrer. O ruivo abraçava o amigo sofridamente.
Mais uma explosão ao lado deles, uma das torres fora atingida e completamente destruída. Alguns arqueiros atiraram de volta, mas eles eram poucos comparados ao exército que ia rondando o castelo e aproximava-se cada vez mais.
— Levante-se, Kion. Não há tempo para o luto agora! Precisamos agir! – dessa vez foi Kiara quem gritou, mais autoritariamente. O rapaz levantou o rosto vermelho, reconhecendo que estavam desprotegidos e com pesar deixou o amigo. – Vocês sabem o que fazer.
A princesa e Kovu caminharam cautelosamente e agachados pela muralha, agora utilizando a armadura completa. Se posicionaram então na ala norte junto a outros soldados.
— É agora, Alteza? – questionou um soldado. – Não iremos aguentar por muito tempo! – Kiara espiou por uma frecha quebrada da muralha.
— Só mais um pouco, deixe que cheguem mais perto, na margem do fosso. – Kiara observou que mais homens chegavam para ajudá-los, pôde ver Lisandro e outros príncipes ali. Sentiu prazer ao perceber que obedeceriam a suas ordens. – Acendam sem fazer alarde. – Deus poderia afinal estar do lado deles, os ventos estavam calmos e há dias não chovia. O fogo era algo interessante nos combates, fazia bagunça, mas era também uma arte o domar. Podia ver pelas rachaduras o inimigo carregando escadas longas para atravessar o fosso e atingir o alto das muralhas. Estava tudo quieto, tanto do lado de Utah quanto de Reichstein, significa que eles estavam prestes a dar o bote, a hora perfeita para atacar. – Agora!!! – gritou Kiara, e assim, os arqueiros tornaram-se visíveis ao exército nas aberturas da muralha e dispararam suas flechas inflamadas de fogo. Ela e outros estavam responsáveis por encharcar a ponta com álcool e passar no fogo das tochas espalhadas entre eles. Logo uma chuva de flechas se fazia no céu, dos dois lados. Kiara via homens caíram à sua direita e esquerda, não podiam se dar ao luxo de perder muitos soldados. Então pegou o arco e munição de um arqueiro caído e ergueu o tronco para ter uma mira melhor.
— Kiara nãooo!! – ouviu Kovu gritar, mas já estava de pé em posição letal.
Podia não ter aprendido a manusear espadas há muito tempo, porém, desde pequena foi ensinada a usar arcos e flechas para cerimônias reais. Seus olhos contemplaram o campo de batalha, vasculhando pelos locais marcados e avistou as bandeiras vermelhas plantadas por eles. BUM. Sua flecha flamejante atingiu em cheio o barril de pólvora escondido, ao lado do de bebidas, gerando uma grande explosão. Ela viu pelo menos 50 homens serem arremessados pelos ares. Assim, o fogo se alastrou do outro lado do fosso, consumindo quem estivesse por perto e obrigando-os a fugir. Mas ainda era pouco. A resposta veio em seguida, um canhão disparou, destruindo boa parte das torres de vigias norte. A princesa desequilibrou-se e caiu de costas, sentindo todo o ar esvaziar os pulmões, uma dor dilacerante tomou conta de si e os ouvidos zuniam terrivelmente. O rosto de Kovu apareceu em sua frente, gritando algo que não conseguiu compreender e ajudou-a a levantar. Havia um grande buraco ao lado deles, alguns soldados caíam.
As mãos trêmulas preparavam mais flechas, porém, a visão e a força estavam comprometidas. Outro soldado foi capaz de gerar a segunda explosão de barris, dessa vez, o exército de Utah recuou, metade do castelo estava rodeado de fogo, formando uma proteção para eles. Uma pequena vitória, que ganharia tempo. Porém, precisava atingir a floresta, uma flecha muito potente, ou então os barris próximos.
— Uma ajudinha? – Vitani e Ono surgiram armados com seus arcos. A jovem loira com maestria atirou três flechas, Kovu que não tinha uma pontaria tão boa, ficou com o escudo, protegendo-a e mostrando onde mirar. – Uhulll! – gritou em animação, causaram mais três explosões. Uma atingiu a floresta. No dia anterior, eles passaram a noite espalhando óleos e gordura pelas árvores. Não achavam que poderia surtir tanto efeito, mas combinado à combustão da munição do inimigo, o fogo fez um efeito dominó pela vegetação. Gritos e cheiro de carne queimada... Aquilo era música para os ouvidos dos guerreiros de Reichstein no momento. Para completar, ao longe, viram o exército retornar do exílio. Daria certo, conseguiram enrolar o inimigo e obter vantagem. Uma fagulha de esperança se fez no interior dos jovens. – Demetrius. – Vitani sussurrou em expectativa. Todos haviam parado para ver a cavalaria chegar. Um segundo de distração, só isso bastou para que os atores infiltrados dessem as caras e os atacassem por trás nas muralhas.
— Tani!!! – Kovu gritou ao ver a irmãzinha ser arremessada para o fosso após uma pancada na cabeça por um escudo.
“Numa hora acho mil anos, e é jeito que em mil anos não posso achar uma hora”.*
Kovu teve, pelo período de um segundo, o vislumbre de uma vida inteira ao lado de Vitani, desde que esta era uma criancinha chorona que passava de braço em braço até chegar nos seus. Ela costumava dormir pacificamente em seu colo, quando cresceu mais um pouco, em sua cama. Agora, dormiria para sempre em um terreno desconhecido. E, ainda que tivesse mil anos de existência, jamais se perdoaria por não ter virado um segundo antes para protegê-la. Sentiu todos os seus membros tremerem e um gosto amargo no fundo da garganta.
— Nãooo!! – ódio também é um elemento poderoso, porém, pode desequilibrar o guerreiro mais hábil, se este agir conforme suas emoções. Kovu virou-se e passou a dar golpes furiosos e vingativos no homem corpulento que matou sua irmã. Kiara jamais vira seu rosto demonstrar tanta ferocidade antes, ele soltava urros de ódio. O oponente possuía um sorriso vitorioso, sabia que iria morrer, mas percebeu que conseguira desestabilizar uma peça importante naquela batalha.
O exilado estava tão focado em ferir o homem que matou sum irmãzinha, que não percebeu um segundo oponente atacando-o. Normalmente Kovu conseguiria duelar contra vários homens ao mesmo tempo, mas seus sentidos estavam comprometidos. Assim, um jovem magricela sem muito dom para as espadas viu de relance uma falha na armadura e fincou sua lâmina nas costelas do moreno. Kovu urrou de dor, segurando o local ferido.
Kiara lutava contra dois homens não muito talentosos, mas suas forças estavam ao fim. Sentiu-se grata pelo treinamento pesado de seu guarda-pessoal ter valido a pena, seus ossos estavam moídos, os músculos tremiam e a visão ofuscava. Porém, ao ver Kovu caído aos pés dos inimigos, uma onda de adrenalina instaurou-se em seu corpo, ele não podia morrer, não Kovu, ela não deixaria. Assim, chutou com força a perna de um dos oponentes e ele caiu da muralha da mesma maneira que Vitani. Quanto ao segundo, ela usou da vantagem de ser menor e foi rápida para fugir.
— Paarem!! – gritou infantilmente, precisava tomar a atenção dos homens para si, Kovu ainda usava a espada para se defender no chão. O corpulento ia um pouco além do que as habilidades da princesa conseguiam, ele era bom e estratégico, mas não importava. Precisava ajudar seu guarda pessoal a todo custo, como ele sempre fizera.
— Ora, ora, se não é a princesa... – comentou o loiro corpulento, os dois se aproximaram dela e o guerreiro lento que Kiara havia despistado se juntou a eles. – Felix me contou tudo sobre Vossa Alteza. Como implorou para que ele a fodesse e depois fez-se de santo perante o rei. Isso tudo é culpa sua, sabe? – Kiara estremeceu ao lembrar das mãos nojentas de Felix. – Se não fosse uma vadiazinha e não o tivesse instigado, Utah ainda faria parte da aliança dos 25 reinos e não precisaríamos nos vingar.
— Eu não instiguei ninguém. Seu príncipe é um porco, assim como vocês. Mesmo que tomem Reichstein, os demais reinos ficarão sabendo deste ataque, há muitos príncipes e embaixadores da aliança aqui. Vocês só estão comprando mais inimigos. – ela argumentava a fim de ganhar tempo, estava se aproximando e Kovu continuava caído demasiadamente dolorido.
— Não senhorita, estamos demonstrando poder. – o loiro investiu contra a princesa, que se defendeu prontamente, mas uma manobra do outro e sua espada voou pelos ares. – Não temos nada a perder. – sorriu maníaco antes de segurar o pescoço fino com uma mão, tinha força suficiente para erguê-la do chão assim. Kiara sentiu a garganta queimar e as pregas vocais esmagarem-se, sufocando seu grito. A julgular pulsava descontroladamente contra a mão de ferro. – Talvez devêssemos te levar de presentinho ao nosso príncipe... Assim, ele terminaria o que começou. Porém, não acho que ele se importaria se provássemos antes... – o homem lambeu os lábios e suas pupilas dilataram ao perscrutar o corpo da princesa com os olhos. – Faça as honras, Ernest. – instigou o magricela, que tirou a armadura da jovem sem dificuldade. Kiara sentia todo seu interior revirar-se, debatia-se ferozmente, tentando arranhá-los.
— Não encoste essa mão suja no que é sagrado. – Kovu reuniu seus membros para levantar-se, ficando encurvado pelo ferimento. Os outros se viraram para vê-lo, rindo.
— Você ainda está aqui? – o terceiro homem indagou sarcástico, presenteando-o com um soco potente na face em seguida.
Kovu sentiu o maxilar estalar, cambaleando e caiu no chão há alguns metros. Precisava ajudar a princesa, mas a consciência lhe pregava peças. Será que o céu estava, de fato, tão vermelho? O que eram os pontinhos pretos que apareciam diante de sua visão, então? E por que uma voz no íntimo de seu ser lhe dizia que era uma boa ideia fechar os olhos?
— Levante, cara! – a voz de Demetrius o despertou, Kovu abriu os olhos e o rapaz suspirou aliviado. – Você está bem? Onde estão os outros? – perguntava apressado. O exilado ergueu o dedo trêmulo às costas do amigo.
— Kiara... Ajude-a. Ele matou Vitani... – conseguiu dizer. Os olhos do amigo estreitaram-se ao compreender o conteúdo da sentença, queria esmorecer, mas precisava ajudar sua soberana. Demétrius não precisava dizer nada, o olhar dos dois deixou um entendimento no ar, compartilhavam da mesma dor, de maneiras diferentes, mas ambos sentiram o que era perdê-la.
(Kissing you – Des’ree)
Kovu observou Demetrius junto aos outros soldados avançarem em direção à princesa. O amigo se tornou um borrão, não conseguia enxergar nitidamente o que não estivesse a pelo menos três palmos de distância. Com dificuldade rolou o corpo para o lado, a fim de sair do caminho daqueles que passavam e duelavam.
Que fim trágico teria, chegou tão perto da coroa... Entretanto, se aquilo servia de algum consolo naquela hora, tinha certeza de que havia conquistado o maior tesouro do reino. Sim, sua missão foi sucedida de certo modo, pois conquistara o coração da princesa. Sorriu vitorioso olhando o céu fumacento e vermelho da batalha. Ela era dele, não havia confirmado isso com os lábios, pois estupidamente não a permitira, mas seus olhos a entregavam. As estrelas sabiam, as pedras do castelo sabiam e Vitani sabia... Kovu partiria em paz, aliviado por não ter que quebrar seu bem mais precioso como planejava.
Os minutos se passavam e cada vez menos os pensamentos de Kovu pareciam ter uma linha coerente. Por isso, não reconheceu quando um rosto surgiu acima de sua cabeça.
— És um anjo? – indagou sonolento. – Então é assim que vens me buscar, morte? Assumindo forma tão graciosa? – tocou a face de Kiara, iluminada pelo fogo. Seus dedos confirmavam que a fisionomia tocada era real. – Ou então estou no céu? Mas não creio que minha alma vil estaria no mesmo local que a tua, tão pura. – declarou. A princesa sentiu o peito comprimir-se ainda mais, colocou as mãos no rosto dele, que ardia em febre.
— Eu estou aqui, Kovu. Estou realmente aqui, eu vou ficar com você. Por favor, Não durma. – o pescoço da princesa apresentava uma forte vermelhidão e arroxeado, seu vestido estava em frangalhos, permitindo que o espartilho ficasse à vista. Mas ela estaria bem desde que ele continuasse com os olhos abertos.
— Vamos levá-lo lá para baixo, rápido!! – Demétrius ordenava para outros homens. Kovu sentiu mãos embaixo de seu corpo o erguerem. Kiara andava com dificuldade atrás deles, já não estava focada na guerra, o exército de Reichstein estava assumindo bem o controle desde que chegara.
Demétrius conseguiu com certa dificuldade transportar o companheiro pela muralha e descê-lo na torre de flanqueio, a menos danificada; foi um caminho movimentado, pois os arqueiros e besteiros subiam por ali para atacar o inimigo. O pátio estava uma bagunça, havia pedaços de construção por toda a parte e uma grande cratera no muro ao lado da capela, permitindo a visão do exército de Utah a eles.
— Preciso voltar. Ficarão seguros aqui, apenas continue pressionando a ferida para estancar o sangramento. – Demétrius coçou a cabeça pesaroso. Ele os deixou em um esconderijo improvisado por pedaços de construção caídos, não era seguro percorrer o caminho até o salão principal. – Fique bem, amigo. – desejou antes de desaparecer com os outros soldados.
— Vai ficar tudo bem, Kovu. Você vai ver. Estamos ganhando, quase não há inimigos no interior do castelo. O seu plano deu certo! – ela falava tentando manter-se positiva e ele acordado. Colocou a cabeça do exilado em seu colo e pressionou a ferida na costela com um pano improvisado como Demétrius orientara. Havia bastante sangue, ele tremia muito e estava pálido.
— Kiara... – Kovu começou num fio de voz rouca, o olhar um tanto desorientado.
— Não fale, Kovu! Por favor, poupe suas forças! – pediu tentando conter as próprias lágrimas enquanto segurava as mãos trêmulas e febris dele.
— Eu acho o amor uma coisa estúpida, Kiara. Durante toda a minha vida, fui treinado para ser um bom guerreiro. – ele tossiu e a princesa espantou-se com o assunto. Kovu provavelmente estava delirando por conta do ferimento, mas queria ouvir o que ele tinha a dizer sobre o amor. Talvez aquelas fossem suas últimas palavras ou, pelo menos, a última vez em que estaria tão frágil para se abrir daquela forma. – Agora, batalhando por estúpidas lufadas de ar, reflito se não é preciso mais coragem para o amor do que para a guerra. – seu corpo convulsionou-se em um acesso de tosse com sangue e Kiara não conteve um soluço desesperado.
— O amor deveria ser fácil, Kovu. – argumentou sofrida, pensando em tudo o que passaram até culminar naquele momento trágico, trocando confissões em meio a destroços. Não, não era assim que as coisas deveriam ser.
— Mas não é. – ele conseguiu estender o braço e limpar uma das lágrimas que caíam dos olhos castanhos. Kiara aproveitou e segurou a mão entre a sua, descansando o rosto em seu toque, queria segurar o momento ao máximo. Mas os segundos corriam líquidos pelos dedos, assim como a vida do exilado. Então, a princesa se lembrou do poema escrito no verso do desenho que ele a presenteara. Não era uma declaração de amor explícita, nem sabia se Kovu o tinha escrito ou se pertencia a algum livro, mas era bonito e triste, como a história deles.
Para a Princesa Kiara,
Estes versos são ridículos, assim como todos os pedidos de perdão. Mas me faço de tolo por Vossa Alteza após tantos insultos, que foram recebidos com toda classe exigida por vossa posição. Admito que errei ao julgar vosso caráter, não és como eu pensava.
A mais formosa rosa não teria vosso esplendor
Pois evanescente é a beleza da flor
A vossa, no entanto, é oculta.
Quanto mais se revela, mais se exulta.
Assim, vosso encanto é eterno.
E ei de contemplá-la, ainda que for no inferno.
Porém, se fosses uma rosa,
Mesmo de beldade tão melindrosa
Eu seria vossos espinhos
E eliminaria de teus caminhos
Todos aqueles que quisessem te arrancar
Pois tu foste feita para amar
E eu por ti morrer e lutar
Tais palavras pareciam amaldiçoadas diante dos acontecimentos presentes. Ele morreria intencionalmente pela filha do homem que desprezava? Ou era apenas uma rima? O fato é que Kovu estava sangrando por ela, e se os dois fossem morrer ali, de modo tão desgracioso, Kiara daria tudo o que tinha para oferecer. Uma confissão, a mesma que fora suprimida por ele horas antes do baile, e que parecia tão simples de ser externalizada agora. A revelação saiu sussurrada e agonizada, como dita a um moribundo:
— Eu te amo, Kovu.
Em seguida, inclinou a cabeça e pousou vagarosamente os lábios sobre os dele. O gosto não era doce. Era amargo, de morte. Porém, qualquer que fosse o material de suas almas, no momento, se reconheciam de tal forma que poderiam alegar-se gêmeas.
*Trecho do poema “tanto de meu estado me acho incerto”, de Luíz Vaz de Camões.
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