A princesa proibida

32 O crepúsculo dos deuses


(Meet me on the battlefield — SVRCINA; Breath — Ruelle; Soldier- Fleurie; Beth Crowley — Red)

Kiara respirou fundo e observou as bandeiras de Reichstein erguidas novamente, declarando o fim do luto oficial. Por apenas 5 dias elas ficaram em meia haste. Simba teve menos de 1 semana de luto, menos do que qualquer rei na história do reino. No entanto, tal medida foi necessária, pois precisava que seu povo acreditasse nela, cresse que estava forte e preparada para uma batalha, não enlutada.

— Primeiro aquela Isabel maluca da Espanha, depois Elizabeth, a bastarda e aquela Mary... escocesa, sem etiqueta alguma! Mulheres não foram feitas para governar, muito menos segurar espadas! Elas perderam completamente o juízo e você, minha filha, também está a perder o seu! – a rainha mãe matracava em seus ouvidos, ao mesmo tempo que a ajudava a colocar a armadura. – Você já lutou naquela noite pavorosa contra o exército de Uchtah! Não foi o suficiente? – A princesa rolou os olhos mais uma vez, cansada da mesma discussão. – Kiara, não temos outro herdeiro, se perder, estaremos rendidos aos exilados! Escute a voz da razão!

— Mãe! – cortou, exausta. – Não deixarei Reichstein padecer nas mãos de Nuka ou Zira, eu ei de ganhar! Confie em mim, assim como confiou meu pai ao me deixar o trono. E, se me achas louca, digo que vou além da minha própria prima distante, Elizabeth da Inglaterra, pois não exaltarei que tenho o coração de um rei*, mas de uma rainha! – Nala soltou outra exclamação lamentosa. – Minha vitória é certeira, treinei muito nos meses que passei em Xártis. – Kiara limpou afetuosamente uma lágrima da mãe. – Porém, não tema, minha mãe, se eu cair, dei ordem ao parlamento para que queime o documento revogando as leis do casamento, assinado por meu pai. Assim, eu não teria direito ao trono, a menos que fosse casada, e minha disputa com Nuka será invalidada. E, então, Kion tomará o trono, sendo o próximo na linha de sucessão real.

— E quanto à sua pobre mãe? O que será de mim? Sem marido e sem filha? – Nala recomeçou a chorar e Kiara a abraçou, sentindo o coração se comprimir no peito.

— Faça suas orações, lady Mãe. – ela se desvencilhou da mãe sem fazer outras promessas.

Kiara entrou na arena onde aconteciam as Justas, as arquibancadas estavam divididas, de um lado os nobres de Reichstein, de outro, exilados. Todas as partes interessadas vieram para testemunhar quem seria o próximo rei, ou rainha de Reichstein. No instante em que apareceu na armadura dourada e leve, feita especialmente sob medida para si, houve brados e vais, seu ouvido se ensurdeceu com o barulho. O sol estava a pino no céu acima de suas cabeças, a multidão impaciente se abanava e cobria os olhos para enxergar o campo.

— Quem reluz mais? A princesa ou o sol? – indagou Kion, trazendo seu escudo. Ele sorria, mas era evidente sua preocupação.

— Obrigada. – agradeceu, tomando o escudo dourado com a imagem de um leão vermelho estampado. – Se eu perder, não o deixe desamparado. – pediu, referindo-se a Kovu. Ele não tinha permissão para estar ali. Por ainda não ser rainha, ela não poderia retirar a ordem que Simba dera aos seus soldados pessoais, de matar Kovu caso ele retornasse.

— Não se preocupe. – o único a quem ela havia confidenciado o retorno de seu amado foi o primo. Confiava em Kion de todo seu coração. – Deus salve a rainha! A verdadeira rainha de Reichstein! – o primo bradou e parte da multidão fez coro. – Boa sorte, Majestade. – ele deu um sorriso sardento e com uma reverência, se afastou.

Do outro lado da arena, um rapaz alto abaixava seu elmo, antes de lhe dar um sorriso afetado. Nuka estava revestido de cota de malha e empunhava uma espada afiada, mas ainda era possível perceber o quão mirrado e frágil realmente era, talvez de desnutrição. “Posso vencê-lo”, era o mantra que a princesa cantava em sua própria cabeça. Kovu havia lhe dito que em questão de força física e habilidades como soldado, Nuka não era nenhum destaque, porém, também alertou para não subestimá-lo, pois Nuka era como uma serpente ardilosa.

Zira estava ao lado do filho e lhe entregava o escudo de emblema parecido ao seu, só mudava a coloração esverdeada; por muito tempo aquele foi o emblema oficial de Reichstein, no governo de Scar. Os dois caminharam vagarosamente até o centro do estágio até estarem de frente para o outro.

— É um desperdício de fato... Uma princesinha tão bonita. – ela conseguia ver o sorriso provocativo, mesmo coberto pelo elmo, pois possuía o mesmo tom do irmão mais novo. – Curvas tão macias não foram feitas para armaduras, nem mãos tão delicadas servem para espadas, Alteza. Quero dizer, se quiser desbravar a minha espada, eu lhe permitiria com prazer. – riu com escárnio. “Não ouça nada do que ele diz, Nuka vai tentar desestabilizá-la.” Kiara ouvia a voz de Kovu a instruindo em sua cabeça, assim como fazia em seus treinamentos. A princesa apertou mais os dedos na arma mortal. – Oras, princesa, o que passa? Eu não sou seu tipo de exilado? – somente ela podia escutá-lo daquela distância, Zazu se aproximava para ler as regras e iniciar a luta. – Não se faça de puritana, princesa, sei muito bem que meu irmãozinho já explorou sua “virtude”. – aquilo a chocou, como ele poderia saber? – Se bem que não desejaria provar carne de segunda, pois logo serei rei e vou querer do melhor. – Kiara mordeu a língua para evitar a resposta. – O que o papai diria se soubesse que a filinha montava um exilado como uma meretriz vaga...

— Cale a boca! – bradou em selvageria, sabia que não deveria, mas não deixaria que aquele perverso falasse de seu pai e, muito menos de sua honra. – O senhor é um covarde, não passa disso. – Qualquer resposta que Nuka fosse soltar foi engolida pela chegada de Zazu ao centro da arena.

— Silêncio! – gritou para a multidão e obteve pouco êxito. – Vossa Alteza e o senhor conhecem as regras, façam uma luta justa e limpa, sem interferências externas. Apenas a espada e os escudos são permitidos como armas, bem como vossos corpos. A luta terminará com a morte do oponente. Que a misericórdia do Senhor esteja convosco e que o crepúsculo não se ponha sobre suas almas. – o mensageiro e conselheiro saiu da arena e mandou que a trompa fosse tocada, dando início à batalha.

Rapidamente, os olhos zombeteiros de Nuka se transformaram em fendas como de cobras e a escuridão tomou as pupilas, ele deu o primeiro golpe. Toda a sua força e ódio foram lançados na arma, Kiara prontamente bloqueou, mesmo cambaleando alguns passos. O tilintar de mental cruzado foi ouvido apenas por alguns segundos, logo foi abafado pelo grito de incentivo da multidão.

“É como uma dança”. Lembrou-se de que Kovu disse certa vez em um treinamento. “A senhorita tem que sentir o ritmo do seu oponente, procurar o padrão nos movimentos dele e achar seu ponto de equilíbrio na luta. Nunca ataque primeiro, se concentre em estudá-lo, assim, quando o adversário estiver cansado, saberá como atacá-lo e ele não preverá sua investida.”

Kiara fez como seu treinador havia instruído e passou os primeiros minutos se defendendo. Os lances de Nuka eram bastante óbvios, duas vezes em cima, direita, esquerda e uma embaixo. Os pés dele tinham um mal posicionamento, não estavam bem alinhados, de forma que não havia um ponto de equilíbrio, não estavam fincados no chão como apoio. Aquela era sua fraqueza. Todo seu investimento estava nos braços, que logo se cansariam.

Assim, Kiara, provou sua teoria ao desviar de um golpe. Ela retirou toda silhueta do alcance do oponente, que, consequentemente caiu para frente, demonstrando seu desequilíbrio. A parte das arquibancadas ocupada pelo povo do reino deu risadas escandalosas, urrando brados como “viva a rainha Kiara” e “hey hey hey, o bobo da corte não é nosso rei”. Ela poderia ter usado a vantagem para atacar Nuka pelas costas, mas lembrou-se de quando o pai lhe ensinou que os exilados atacavam por trás e isso era desvirtuoso.

— Levante-se. – ordenou.

Nuka recompôs-se e virou-se de frente, sua expressão não poderia estar mais feroz, parecia um animal selvagem atiçado.

— Pensa que é muito honrada, princesa? Pode agir com honra o quanto quiser... – ele voltou a desferir golpes no ar, cada vez mais agressivos, ela o bloqueou. – Mas, eu sei que não vai ganhar, sabe como?

“Ele está apelando para o lado psicológico, está acuado”. Kiara balançou a cabeça e ignorou a provocação de seu inimigo, não o deixaria penetrar sua mente. Nuka já estava um pouco ofegante nesse momento, e ela soube que era o instante perfeito para atacar. Com o escudo ela o empurrou e, em seguida, atingiu sua perna, ele tentou defender, mas ela conseguiu bater em sua tornozeleira. Ainda que não tenha perfurado a carne, o golpe certamente foi dolorido pelo chiado emitido pela boca dele.

A princesa aproveitou a fraqueza e cortou o ar em uma onda habilidosa de investidas, procurando não as padronizar. Podia ver nos olhos de Nuka que ele estava desestabilizado. Ela procurava mover-se ao redor dele, como se fosse sua própria presa. Em um determinado instante, Kiara investiu o escudo contra a cabeça do homem e viu seu elmo ser lançado longe. Novamente a multidão bradou. Ele rosnou e arreganhou os dentes para a princesa.

— Não quer mesmo saber como tenho certeza de que vai perder, Alteza? – indagou esbaforido.

Kiara fez questão de não lhe dar atenção e continuou com suas investidas rápidas e precisas. Logo, conseguiu atingir as ombreiras, houve um estalo e ela percebeu que talvez o ombro tivesse sido deslocado. Novamente, ele comprimiu os lábios a fim de não demonstrar dor, apenas girou o músculo com força na tentativa de colocá-lo no lugar. Dessa vez, ele começou uma nova onda de golpes mais precisos, até que os dois acabaram travando as lâminas, de forma que seus corpos estivessem muito próximos.

— Deixe-me contar um segredinho: mesmo que ganhe essa disputa, não sairá dessa batalha com a vitória, princesa. – ele sorria com perversão e dor. Com isso, a princesa não resistiu e teve de entrar no jogo.

— O que quer dizer? – o que ele tinha na manga de tão certeiro que poderia usar contra si?

— Quero dizer, Alteza. – mais um golpe no ar, muito bem defendido por Kiara e eles travaram as armas no ar de novo, ainda mais próximos. – Que o destino do precioso Kovu está em suas mãos. Se me matar nesta Arena, meu melhor arqueiro lançará uma flecha diretamente no coração dele. – o ar pareceu lhe faltar nesse instante e o medo ficou evidente em seus olhos. – Tenho certeza que meu irmãozinho está por aqui, ele não perderia a chance de me vigiar de perto.

Kiara tremeu e todo seu foco, equilíbrio e ritmo se esvaiu, ficou tonta. Precisava achar Kovu e avisá-lo; sabia que ele estava por perto, assistindo tudo às escondidas, mas onde? Virou-se de lado na tentativa se encontrar sua silhueta em puro desespero. O desgraçado estava certo, mesmo que ganhasse, ainda iria perder.

De repente, sentiu o rosto arder e seu elmo foi arremessado para longe, sentiu-se ainda mais zonza. Ele conseguiu, desestabilizou-a. Sua respiração estava irregular e ela era movida pela aflição, toda lógica e estratégia já não estavam ao seu alcance. Procurava na multidão a pele oliva e cicatriz no olho. Não poderia perder mais ninguém, principalmente Kovu. Ele era seu ar, sua força, seu equilíbrio, seu coração inteiro. Por outro lado, não poderia deixar Reichstein padecer nas mãos de Nuka.

— Agora sim posso ver o cordeiro que se escondia na pele de leoa. – Nuka sorria peçonhento, agora ela era a presa.

Queria recompor-se, porém, não conseguia deixar de pensar em Kovu. Toda dor e luto pelo qual passou quando pensou que ele estava morto a assolou mais uma vez. Queria chorar, não podia deixar o coração de lado para decidir aquilo.

— Fraca. Uma vadia, que abriu as pernas para o assassino do próprio pai. E agora vai morrer por ele. – riu com escárnio. O coração de Kiara falhou mais uma vez.

Nuka empurrou a princesa com o escudo e ela caiu para trás, batendo a cabeça com força no chão. Em seguida, viu a lâmina dele em direção ao seu olho, mas conseguiu pegar seu escudo a tempo de proteger o rosto. Estava em desvantagem, quase completamente exposta ao inimigo, tentou rolar para o lado no chão poeirento, mas outro golpe veio em sua direção. Dessa vez, teve de usar sua espada para defender-se, só que sua posição não permitia ter tanta força e a ponta da lâmina abriu um corte em sua bochecha. “Kovu, Kovu, ajude o meu povo quando eu me for”. Ela choramingou sentindo o gosto do sangue junto à derrota.

— Tão tola e patética. – ele se deleitava com seu desespero. – Ama um homem que a enganou desde que a conheceu.

— Eu amo Kovu e conheço o coração dele. – que suas últimas palavras fossem para defender o amado, não se importava. Pelo menos, ele ficaria bem, viveria pelos dois. Nuka riu mais alto.

— Foi tudo um plano, sua estúpida. – cuspiu ríspido e lhe deu um chute no estômago. Ela não podia defender-se naquela região, não podia largar a mão da espada. Uma nova onda de dor a assolou, os braços tremiam tentando empurrá-lo de volta. – O ataque no aniversário, Kovu a salvando, até mesmo o príncipe que tentou violá-la. Foi tudo planejado por anos para que estivesse naquele exato ponto onde tudo começou. “Primeiro ganhar a filha, depois chegar ao pai”. E o pequeno estorvo conseguiu, o preferido teve finalmente seu momento de glória e matou Simba. Mas a coroa... a coroa vai ser minha. – Kiara não entendia uma só palavra que ele proferia, não fazia o menor sentido. Ele estava tentando desestabilizá-la com mentiras. – É meu destino, não interessa que ele esteja vivo. Eu sou o segundo filho, a segunda semente de Scar...

Kiara lembrou-se do que Kovu também lhe dizia no treinamento, “Não importa o que lhe ensinaram nas terras do reino, se quiser ser uma guerreira, precisa lutar com tudo o que tem. Inclusive jogar baixo”. Então, num momento de lucidez, notou as pernas afastadas de Nuka e reunindo toda a sua força restante, chutou-o nas partes baixas. Imediatamente, Nuka a soltou e cambaleou para trás, apenas com o escudo em uma mão. De repente, um surto de coragem preencheu-a e ela se levantou. A multidão foi à loucura.

— Eu não sei de onde tirou tantas mentiras, mas de 3 coisas, eu sei. – desferiu um golpe. – Não vou perder essa batalha. – voltou a circulá-lo. – Kovu não vai morrer, porque ele é muito mais esperto do que isso. – Aproximou-se vagarosamente e limpou o sangue com as costas das mãos enluvadas. – Terceiro: eu serei rainha ainda hoje e Kovu será meu futuro rei. A profecia falou da segunda semente de Scar que se sentaria ao trono, e este é Kovu; como meu rei consorte. Nunca o senhor. – Kiara o golpeou com mais força e percebeu como ele também estava fraco. Defendia-se desajeitado com o escudo.

— EU SEREI REI! – gritou ensandecido e jogou o escudo contra o corpo da princesa. – Ela disse que Simba era o primeiro, então, eu sou o segundo!!! – seus olhos lembravam os de Zira, furiosos e descontrolados.

— Quem disse? – a curiosidade a tomou.

— A meretriz que se deitou com meu pai e o irmão ao mesmo tempo! Sarabi! – cuspiu, como se aquele fosse o seu momento de glória. – Ela falou para o meu pai antes de matá-lo, e depois eu a matei naquele calabouço! – riu e a empurrou com o escudo, tentando chegar até a espada caída no chão. – E seu querido papai apenas levou a glória de uma vagabunda, ele nunca matou Scar. Foi o amor! O amor matou meu pai! Assim como o amor irá matá-la agora, mas não a mim! – ele estava chegando perto da espada. Kiara estava perplexa demais, tentando entender aquele discurso. – Eu até hoje só amei o poder, a quem me será fiel quando eu for rei.

E então, Kiara compreendeu que Nuka cometera o mesmo erro de acreditar nas palavras de Sarabi, que talvez nem soubesse da verdade. A princesa também acreditou por algum tempo que Scar fosse seu avô e Kovu seu tio, até que o pai lhe contou que aquilo seria impossível.

— Ela mentiu, Nuka. Ou então, não sabia da verdade. – Kiara devolveu. – Meu pai é filho de Mufasa. Também pensei que não era quando li o diário de minha avó, contando a história com Scar, porém, meu pai me garantiu que era mentira. Sarabi teve uma gravidez dupla, de homens diferentes e a filha que teve com Scar, nasceu morta. – aquilo o chocou, Kiara sorriu, sabendo que revertera o jogo. – Portanto, a profecia não diz ao seu respeito, Nuka. Sempre foi Kovu. Você vai perder, sem nunca ter tido nada.

— É MENTIRA!

No momento em que Nuka se abaixou para pegar a espada, ele abaixou a guarda e Kiara viu um ponto estratégico exposto pela armadura. No momento em que ergueu a lâmina para desferir o golpe, pôde ver o arqueiro na multidão apontando sua arma para um ponto específico. Então, com toda a força em seu pulmão, a princesa gritou “CARAMELOS”.

A princesa só esperava que sua palavra de alerta funcionasse a tempo. Eles haviam combinado junto com a Guarda do Leão uma palavra secreta para comunicar perigo na batalha contra Uchtah.

Porém, antes que pudesse afundar a espada no pescoço de Nuka, a coisa mais peculiar aconteceu. Uma flecha rasgou o ar ao seu lado e encontrou seu alvo no mesmo ponto que ela acertaria segundos antes. A princesa ficou imobilizada no lugar, tentando compreender o que ocorrera, assim como a plateia. Olhava do oponente para a multidão, procurando a fonte da flechada, era o mesmo arqueiro; aquele que Nuka ameaçou contra Kovu. Mas por que ele o trairia assim? Ninguém mais parecera notar o homem que executara Nuka, todos estavam muito concentrados com o que acontecia no centro da arena.

Nuka, no entanto, olhava para alguém às costas da princesa, não havia surpresa em seu olhar, apenas confusão. Quando Kiara compreendeu quem era, deu três passos largos para o lado. Zira estava lá, fria e bela como sempre, de frente para o filho prostrado no chão e ensanguentado.

— P-por quê... m-mãe? – ele indagou com dificuldade, não respirava, sua face já estava roxa.

— Seu sacrifício será bem recompensado, meu filho. Scar está orgulhoso.

Zira afagou a face do filho em uma ternura assustadora e, então, tirou a flecha com força de seu pescoço. Nuka pendeu para o lado, de maneira que o sangue jorrou violentamente e ele morreu em segundos. Kiara ainda não compreendia o que estava acontecendo.

A mulher de presença imperiosa virou-se para ela com um sorriso horripilante e ergueu a flecha, mostrando-a para a multidão.

— A PRINCESA TRAPACEOU! MANDOU QUE MATASSEM MEU FILHO, PORQUE SABIA QUE IRIA PERDER. ELA DESONROU A LUTA HONESTA! – Kiara compreendeu a estratégia e preparou-se para pegar suas armas novamente, antes que Zira gritasse a ordem. – EXILADOS... ATAQUEM!

De toda a parte ouviu-se gritos e flechas sendo arremessadas de uma extremidade a outra da arena. Os soldados de Reichstein se distribuíam pelo palanque para duelar contra os exilados, que estavam armados até os dentes. No entanto, Kiara tinha outra preocupação, Zira se aproximava com passos calculados em sua direção.

— Você mandou o carrasco matá-lo... seu próprio filho. – Kiara balbuciou, ainda chocada. O medo percorria todos os seus poros, as mãos tremiam segurando a espada. Ela recuava um passo a cada outro que Zira dava para mais perto de si.

— Nuka não nasceu para reinar, ele nunca teve o necessário. Kovu, por outro lado...

— Kovu será rei, eu o farei rei. Prometo. Se cessar fogo agora, ainda poderá vê-lo ser coroado. Ainda podemos fazer de Reichstein um reino forte, Zira, juntos. – Kiara podia ver que seu discurso não surtiria efeito na mulher. Estava tentando ganhar tempo, sabia que Zira era ótima em duelos, sua postura firme e intimidadora, como a de Kovu, dizia que não duraria muito tempo contra ela. Estava com medo, não podia negar. – Não precisa ser assim...

— Como estamos íntimas, princesa. Me chama por “você”, me ensina sobre os meus filhos... – riu debochada. – Kovu será um ótimo rei, realmente. Ele nasceu para isso. Mas, até que ele recobre o juízo... Juízo este que Vossa Alteza tirou dele, Reichstein precisará de uma rainha regente.

Kiara arregalou os olhos quando Zira deu o primeiro golpe, mas este não a atingiu, pois uma silhueta masculina se colocou na frente.

— Pare, mãe. Não pode ferir Kiara sem me atingir. – Kovu sussurrou ameaçadoramente.

— Saia. – ela ordenou entre dentes.

— Não. Acabou. – foi enfático. Zira respirava arfante, olhando de um para outro, até que um sorriso maligno brotou de seus lábios.

— Acha que ela vai amá-lo, Kovu? Conte-lhe então como tudo aconteceu. – Kovu estreitou os olhos. – Conte que mostrou o desenho que fez quando se conheceram para nossos guerreiros, de forma que reconheceriam o rosto da princesa na emboscada do aniversário de 18 primaveras. Conte como Vitani instigou o príncipe Felix para que ele fosse atrás da princesa na noite do baile, para que você saísse de herói mais uma vez. Conte como cada movimento até aqui foi calculado para fazer o que teve êxito há apenas 5 dias atrás... MATAR SIMBA. – gargalhou. – Conte agora todas as mentiras que inventou, conte como matou o pai da mulher que diz amar.

(Hurts like hell – Fleurie)

A princesa lhe olhava com ansiedade, para que negasse tudo, sabia que ela lhe confiava com toda a profundidade de seu ser, e, com apenas uma palavra, Kiara acreditaria nele sem piscar. Entretanto, Kovu não tinha forças para refutar as acusações, não tinha coragem de olhar nos olhos castanhos de Kiara e profanar mais uma vez o amor declarado que sentia por ela com mentiras sujas. Isso apenas o fazia sentir mais imundo, pois ela era tão pura, ainda tão inocente, que acreditaria no que quer que dissesse. Ele poderia manipulá-la como um mestre de fantoches, e o que isso dizia sobre seu caráter? Era um monstro! Como poderia receber amor tão casto quando só tinha podridão em sua alma para devolver? Como poderia deixar Kiara atirar pérolas aos porcos? O mínimo que deveria fazer era condená-la à verdade. A verdade que destruiria as ilusões plantadas com frieza e perversão da parte dele.

Ele poderia sim negar-lhe ali e tudo seria esquecido. Mas o amor de Kiara lhe instigou uma mudança de caráter que os impediria de estar juntos eventualmente, pois ao receber tal amor, Kovu aceitou também a decência e a pureza que o acompanhava. Assim, seria um paradoxo regá-lo com impurezas de sua parte. Não poderia continuar mantendo-a cativa da vida de fantasias que prometera com seu charme.

— Kovu... – implorou, seus olhos já transbordavam. – Diga que não é verdade...

— Kiara, eu... – abaixou a cabeça. Kiara cedeu os joelhos e desabou no chão, seu corpo inteiro tremia. O olhar que recebeu dela foi pior do que se mil espadas o atravessassem. Medo com um misto de aversão.

— Veja como ela o olha, Kovu. – Zira se aproximou da princesa como se fosse um animalzinho ferido, nem estava mais armada, sabia que suas palavras já haviam surtido o efeito necessário. Kiara não se reergueria daquele golpe. – Não vai perdoá-lo. Jamais vai amar quem você é de verdade. Mas, se matá-la agora, ainda terá o trono. O que sempre sonhamos e o desejo de Scar será realizado. Nós prosperaremos mais uma vez! – seus olhos brilhavam de prazer.

Kovu, sem hesitar, empunhou a espada e embalado pelas palavras da mãe, se aproximou da princesa. Os olhos dos dois se encontraram novamente, estavam ambos destruídos e mareados. Kiara nem ao menos tentava se defender e Kovu soube que a havia quebrado realmente. Ela aceitaria a morte, porque o que lhe fizera foi pior do que qualquer destino que pudesse enviá-la agora. O príncipe do exílio respirou fundo e apertou a arma nos dedos, lutando contra o mar de lágrimas que ameaçavam irromper sem permissão.

— Eu sei o que tenho que fazer, mãe. Mas, não sei se tenho forças para isso. – não desgrudava os olhos de Kiara, que franziu o cenho. Zira se postou ao seu lado e colocou a mão sobre o ombro do filho.

— Faça-o, Kovu.

— Eu gostaria de dizer que nossa relação não foi sempre a ideal... – derramou a lágrima que prendia, havia muita dor no semblante. – Mas, eu a amo e sei que também me ama. Então, espero que possa me perdoar... – Kovu se virou de repente e a lâmina atravessou o coração de Zira. – Me perdoe, mãe. – o exilado a segurou num abraço mortal e a soltou com delicadeza no chão.