A princesa proibida

17 O baile - parte 1 - de acordo com o plano


— Eu não vou! Já disse! – bradou a menina loira, esquivando-se da senhora rechonchuda com o rosto em chamas. – Mãe, pare já com isto! Não tenho o mínimo interesse em participar dessa festa ridícula. O rei nos ignorou a vida inteira e agora decide fazer caridade abrindo os portões de seu palácio para os pobres... Algo não está bem nessa história, ao meu ver.

— Menina tolinha! Não sei o que faço com você! – lamentou-se dramaticamente a mãe, quase embargando no choro. – És tão bela, tão jovem. Se fosse mais amável, mais dócil, qualquer homem iria querê-la.

A senhora Tilian segurou o rosto da menina entre as mãos, observando seus traços. A jovem possuía um rosto oval de queixo redondo, belos olhos verdes, nariz aristocrático tipicamente francês, fino e arrebitado, longos cabelos loiros levemente cacheados na ponta e lábios harmoniosos. Sua estatura era média, o que era favorável, pois os moços não gostavam de moças gigantes. Era, sem dúvida, muito bela, atraindo muitos olhares para si, no entanto, arredia feito uma cabrita, como dizia a mãe. Afugentara os homens da região com seus comentários ácidos. Assim, a matriarca achou que seria uma boa ideia levá-la ao baile, onde os moços ainda não conheciam sua fama, e tentar arranjar um bom marido para subirem no patamar social.

— Olhe ao redor, Fuli. Você gosta de viver desta forma? – a menina abriu a boca para responder, mas a mãe continuou. – Vivemos a incerteza do amanhã todos os dias. Temos um teto sobre nossas cabeças e eu agradeço a Deus, mas malditos cupins! Não temos dinheiro para encerar a madeira e seu pai e eu estamos ficando velhos e cansados. Você é tão bonita, filha. Vá ao baile, só te peço isso. Tente, converse com um moço, seja educada. – Diante daquele pedido salpicado de grossas lágrimas, Fuli assentiu resignada, apenas para agradar a mãe. Odiava quando a senhora Tilian recorria a seu lado emocional.

— Está bem. – murmurou. A senhora já arrumada, puxou novamente o vestido rosa do velho baú ao pé da cama de colchão de palha, fazendo a mais nova torcer o nariz. – Mas este não! A senhora sabe como detesto essa cor. Ou vou com a roupa que eu bem desejar, ou não irei. – A mãe bufou, contudo, aceitou, cruzando os braços emburrada.

Cerca de meia hora depois estavam todos prontos. Fuli escolheu seu traje típico de festejos, ao invés do rosado da época de juventude da mãe, e sapatilhas pretas gastas. Era um vestido de veludo verde-musgo, de decote quadrado, cinturado por uma faixa preta do mesmo tecido e mangas largas nos punhos. O pai quase teve um infarto quando a esposa comprou o material há alguns anos, retirando muito de suas economias, contudo, a senhora espalhafatosa alegou que a filha precisava de, ao menos, um adorno na vida. Apesar de ter achado um exagero, Fuli gostou de fato do vestido quando a mãe o entregou pronto. A cor da vestimenta destacava seus olhos, que ficaram ainda mais expostos com o penteado num coque cheio feito pela mãe.

Os demais estavam trajados com roupas simples, ainda que bem arrumados. Saíram, então, os quatro ao entardecer, o senhor e senhora Tilian, Fuli e o irmão Rupert. George Tilian, um carpinteiro de primeira, já não tinha todo seu vigor da juventude, seu corpo fora bastante lesado com os anos de trabalho pesado. Por isso, precisavam ir mais cedo do que o horário combinado no convite real, pois a vereda do vilarejo até o castelo no alto das montanhas era longa e ardilosa. Contudo, parecia que, ao deixarem a pequena casa de madeira, não foram os únicos a ter a ideia. Muitos moradores já se colocavam a caminho.

Vendo o fervilhar nas ruas, Fuli deu um longo suspiro, detestava amontoados de gente. Seria uma longa noite.

***

Kovu mirava-se no espelho de modo narcísico, mas quem poderia culpá-lo? Nunca o vestiram com roupas tão pomposas antes. Usava um casaco azul-marinho que ia até os joelhos, gibão preto, calças justas e negras e sapatos de couro. Não eram vestes de um príncipe e sim de um soldado rico, mas ainda assim, lhes eram mais dignas.

— Mal colocou as mãos no cedro e já está inflado de glória. – disse uma voz debochada atrás de si. Instintivamente, Kovu girou nos calcanhares e prendeu quem quer que fosse na parede, com o braço direito no pescoço feminino. – Calma, irmãozinho. Não se pode nem elogiar agora? – exclamou incomodada com o aperto.

— Vitani? – soltou-a imediatamente, porém, permaneceu perplexo. – Ficou louca? O que faz aqui? Como entrou?

— São muitas perguntas. – soltou distraída. Observou o cômodo com inveja, tocando com a ponta dos dedos a cama macia. – Belo quarto você tem.

— Fale logo! – ordenou irritado com a enrolação.

— O castelo está apinhado de gente dos vilarejos, ninguém iria notar uma exilada. Ah, os homens tendem a subestimar as mulheres. – soltou, suspirando dramaticamente.

— Ainda assim, é arriscado. Zira sabe que está aqui? – interrogou. Não usava de intimidades quando estava irritado.

— Sim, nossa mãe sabe. Inclusive, foi ela quem me mandou aqui. – Kovu arqueou a sobrancelha direita. – Para ver como anda o plano. – o moreno apertou os olhos em fendas, analisando a veracidade daquilo. Zira era cautelosa. – E então? Está tudo transcorrendo conforme o esperado?

— Não. – Bufou, sentando-se na cama. – Simba não confia em mim, mesmo após salvar sua filha. Mandou que seus homens me dessem uma lição quando eu estava dormindo. Aquele covarde. – rosnou mostrando alguns hematomas ainda persistentes no antebraço. A irmã não demonstrou reação, apenas mordeu a bochecha num ato típico. – Disse para que eu ficasse longe de sua filha. Não sei como me aproximar novamente. – respondeu sincero. Fez-se uma longa pausa até que a bela moça de olhos azuis violetas respondesse.

— Hm... Deixe comigo essa parte. – falou tendo uma ideia. – Apenas fique de olho na princesinha e você vai saber o que fazer na hora certa.

— O que...? Vitani! Para onde você vai? – contudo, a menina já pulara de sua janela, por onde, provavelmente, entrou. Não gostava da vagueza da irmã, porém, sabia o quão ardilosa e prudente esta era. Tranquilizou-se então e arrumando as vestes mais uma vez, pegou a espada e saiu para o baile.

***

A voz da mãe se tornara apenas um leve zumbido aos seus ouvidos. Já estava farta de ouvir a rainha repassando todos os passos que Kiara deveria tomar naquela noite. Sim, ela sabia de cor: descer as escadas para o salão principal, aguardar os aplausos, dançar primeiro com seu pai, depois com os 22 príncipes por ordem de imponência real, comer, fazer uma breve aparição na janela para cumprimentar o povo que estaria no pátio externo e jardins, tendo sua própria festa, conversar com outros convidados importantes e por fim, fazer seu primeiro decreto real como rainha.

Kiara já estivera em centenas de bailes desde que se entendia por gente, era muito comum. A cada mudança de estação e aniversários da família real havia um, mas aquele lhe empolgara verdadeiramente. Primeiro pelo fato de abrirem os portões para todo o reino, segundo porque poderia decretar qualquer coisa. Não que fosse assumir a coroa, mas era como uma iniciação. Ela nunca almejou realmente o trono, sempre fora seu destino, contudo, a ideia de tomar uma decisão, mesmo que simples, a animava. Seria seu segundo ato de liberdade, após sair do castelo.

Muitos a estavam aconselhando a nomear alguém, que ela achasse merecer, a um cargo maior ou um ato de caridade para com o povo. Este último lhe parecia mais justo, e, tendo em vista a condição dos moradores após saquearem as reservas de grão, seria certo doar um pouco de seu ouro.

— Você está me ouvindo Kiara? – Nala perguntou com um quê de irritação. A rainha, não obtendo resposta do lado de fora do biombo, espiou seu interior. – Kiara! – chamou a atenção da menina, completamente avoada.

— Estou ouvindo. – assustou-se, recebendo um olhar repreensivo da mãe. – Está muito frouxo, Razel. Aperte-o até que a cabeça de minha filha esteja no lugar. – Razel, a criada, puxou, então, com mais força os fios do espartilho branco de tecido engomado, levando Kiara a desequilibrar-se e perder parte do ar.

— Não... consigo... respirar. – exclamou com dificuldade, a pobre Razel apiedou-se, porém, a expressão da rainha continuava impassível e a criada nada poderia fazer sem autorização de Nala.

— Não é para respirar. Já tens uma cintura bonita, porém, os seios precisam de mais destaque. Não quer que seu príncipe a veja como uma garotinha. – repreendeu duramente. A mãe costumava ser bastante amável, no entanto, desde a chegada dos príncipes e os preparativos para o baile, a rainha estava insuportável. – Não se esqueça de falar devagar com o príncipe Lisandro, pois ele não compreende muito bem nossa língua. Mesmo assim, ele é tão educado... – começou sonhadora. Kiara revirou os olhos.

— Se gosta tanto dele, por que não o tira, a senhora, para dançar? – o humor de Kiara já estava amargo de tanta pressão diante dos pretendentes.

— Oras menina! – a rainha acordou, um tanto encabulada com a pergunta. – Sou muito bem casada com seu pai. Apenas quero o que é melhor para você.

— Eu sei. -deu um sorriso, baixando a guarda. – Mas, minha mãe, por favor, deixe-me respirar. Literalmente. -riu-se docemente. Nala retribuiu o sorriso e afrouxou, ela mesma, o aperto na cintura da filha, minimamente, mas o suficiente para que pudesse inspirar melhor o ar.

— Obrigada.

— Está bem. Agora, Razel, se apresse em colocar logo o vestido em sua princesa. O baile já começou e ainda falta o penteado e demais adornos. Vou checar algumas coisas e logo volto. – informou, deixando o aposento. Kiara suspirou.

— Pode afrouxar mais, Razel. – ordenou à criada e assim ela o fez, um tanto duvidosa. Cerca de meia hora depois, a princesa estava pronta. Sempre tivera os melhores vestidos e joias, mas devia admitir que estava bela como nunca. – Está belíssima, Alteza. – elogiou a moça com sinceridade.

— Graças a você, Razel. Agradeço muito.

— Não precisa, princesa. É o meu tra...

— Aceite o elogio. – cortou meigamente diante do constrangimento da criada. Razel sorriu tímida e abaixou a cabeça. Duas batidas soaram na porta.

— Está na hora, Alteza. – comunicou um guarda.

***

— Ladra!

— Como é?

— Você roubou o meu vestido! – acusou uma menina morena, cheia de pedrarias. Certamente, fazia parte da nobreza. Contudo, Vitani não se intimidou.

— Este vestido é meu, senhorita. Está confusa. – tentou se afastar, mas a outra a agarrou pelo braço, chamando a atenção de alguns ao redor.

— É meu!! Tire-o agora mesmo. – gritou histérica a menina mirrada. Vitani ia abrir a boca para retrucar, contudo, um homem alto de cabelos loiros escuros até os ombros e olhos negros se postou no meio delas.

— Miladies, o que está havendo aqui? – a exilada percebeu se tratar de um guarda pelas vestes e a espada na bainha, seu coração passou a palpitar mais forte. Estava enrascada.

— Ela roubou o meu vestido. Tenho um igualzinho.

— Bom, certamente que tem. Esse modelo é a última moda na França. Inclusive, meu pai, o duque de Terfay encomendou para mim numa das melhores costureiras francesas. Contudo, se há alguma dúvida, podemos subir até seu quarto e verá que seu vestido está lá. – A menina sentiu-se acanhada diante do título e engoliu em seco.

— Oh, não será problema. Foi um mal-entendido, de fato. É realmente um modelo bastante comum entre as nobres francesas. Perdoe-me. – recolheu-se envergonhada indo para a outra direção.

Vitani colocou a mão no peito disfarçadamente, procurando aquietar o coração. Virou-se para a mesa farta de refeições, seu estômago roncou, nunca vira tanta comida na vida com tamanha qualidade. Apesar da fome, optou por apanhar uma taça de vinho para acalmar os nervos.

— Não entendo nada de moda francesa. Mas tenho certeza que uma dama belíssima como a senhorita não seria capaz de roubar nem mesmo uma flor. – uma voz macia soou às suas costas. Então ela percebeu que o guarda ainda estava ali. Seu nervosismo retornou com comichões na barriga diante do olhar significativo lançado por ele.

— As aparências enganam, cuidado, solado. – passou a caminhar para tentar despistá-lo, porém, ele a seguiu.

— Não a tua, pois és a mais linda dama deste baile. Que a princesa me perdoe, mas eu seria um pecador mentiroso por não lhe afirmar isso. – continuou com as palavras doces. Vitani sorriu, nunca fora cortejada desta maneira no exílio. Os homens eram brutos. Gostou daquilo, apesar de achá-lo exagerado.

— E como se chama meu santo admirador? – ergueu uma sobrancelha. Aquilo era perigoso, mas estava se divertindo. O soldado alcançou sua mão direita, segurando-a contra a sua.

O vestido que Vitani pegara emprestado no quarto da menina era um tecido brocado de ouro, que deixava os ombros nus e destacava o colo, porém as mangas eram compridas o suficiente para lhe cobrir as costas das mãos, onde ficava a marca dos exilados. Assim, não teve medo quando ele tomou suas mãos na dele. Ao contrário, sentiu um arrepio prazeroso com o calor de sua pele.

— Santo não. Porém, devoto a ti. – beijou-lhe o nó dos dedos. – Demétrius, ao seu dispor.

— Prazer Demétrius, sou Vi... – mas antes que pudesse completar seu nome, Kovu apareceu, interrompendo.

— Demetrius, é melhor se posicionar. A princesa já vai descer. – Kovu informou. Seu olhar felino despertou Vitani daquela fantasia e antes que Demétrius pudesse perceber, se afastou.

— Ah sim... – e virou-se novamente para o local onde estivera a moça com quem conversava. – Onde está ela? Onde está a moça que estava aqui?

— Não vi moça alguma. – respondeu Kovu, parecendo confuso.

— Ah Kovu, conheci a dama de meus sonhos. Vou me casar com ela, guarde minhas palavras.

— Não seja tolo. Você acabou de a conhecer. – cuspiu incrédulo, esquecendo-se de que devia tentar ser gentil com o único que se aproximara dele. Porém, Demetrius nem se importou.

— Ah Kovu, mas é como se a conhecesse por toda minha vida. Sabemos quando é amor. – continuou com o ar sonhador.

— Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi. – revirou os olhos. Naquele instante um piano soou notas melancólicas e um violoncelo o acompanhou em seguida. Kovu percebeu que todos estavam olhando para a escadaria que dava acesso ao salão de festas, resolveu se virar, então. (https://www.youtube.com/watch?v=3FCgPUKPBVw&list=PLXdaORVZTx4ArBejoUyAYdtMy5VtDf5C9&index=9 — música: íris).

— A princesa está...

— Linda. – foi Kovu que respondeu, sem realmente pensar.

Kiara trajava um vestido de mangas curtas, com um pequeno decote em v. Era de seda perolado na parte de cima descendo em ramificações de folhas delicadas bordadas até se transformarem em um ramo e descerem até a barra do vestido, que fazia um degrade entre um azul celeste e turquesa no seu fim. O saiote era bem armado, com divisões que pareciam pétalas de uma flor. No pescoço, uma gargantilha de ouro branco com uma pedra turquesa pequena. O cabelo estava em cachos perfeitos, não caindo no rosto por conta da coroa delicada, também de ouro branco, com pequenos diamantes.

Como no dia da chegada dos príncipes, os olhares deles se encontraram e Kiara sentiu a intensidade que emanava daquelas esmeraldas. Estava nervosa com tantos pares de olhos voltados para si, então focou nos dele como um ponto de apoio. Não sabia o porquê, mas sua íris lhe transmitia segurança. Talvez pelo fato de Kovu já tê-la salvado tantas vezes, tinha a impressão de que se caísse, ele a socorreria.

Kovu teve a sensação de que Kiara caminhava em sua direção. Contudo, quebrando aquele pensamento, Simba encontrou a filha no final da escadaria e eles começaram a dançar ao som daquela melodia. Todos observavam em silêncio comovente.

Ela se deslocava junto ao pai com leveza, assemelhando-se a uma flor levada pelo vento, o que combinava com a estação findada, a primavera. Assim também a mocidade se ia embora, dando lugar a uma mulher, uma rainha.

Ao final, todos aplaudiram e os 22 príncipes se postaram em fila para ter sua vez com a princesa. Kovu os analisava atentamente como fizera desde a chegada dos mesmos. Não gostava nada daquilo, sabia que Kiara teria que escolher um. Como se aproximaria com 22 príncipes e o rei empecilhando seu plano?

— Olá, Kovu. Se é que este é realmente o seu nome. – uma voz a sua esquerda soou carregada de amargura. A sorte não estava a favor do exilado, de fato.