A princesa proibida
30 A noite de todos os pecados
Notas iniciais
Kovu acordou desnorteado, sentindo uma terrível dor de cabeça e imediatamente cenas dos acontecimentos da batalha lhe atingiram, era como se ainda conseguisse escutar os canhões, partes da muralha caindo e gritos. Respirou fundo, uma, duas, três vezes e tentou se conectar no presente. Encarou o teto abobadado de pedra lisa e descobriu que estava em um local seguro. Ele ouvia gemidos de dor não muito longe de si e o barulho da chuva, então presumiu que deveria estar na ala hospitalar do castelo. Então, memórias doloridas vieram à mente, Vitani estava morta e Kiara... Ele não fazia a menor ideia. O pensamento de ter ocorrido algo à princesa lhe afligiu, sua respiração se acelerou e os membros doeram ao tentar se virar.
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem, ela virá pela manhã. – um velho de aspecto cansado, que já havia visto lhe lançando olhares curiosos anteriormente, lhe disse. Seu olhar era bondoso.
— A princesa... – começou a falar, a voz rouca.
— Está bem, repousa em seus aposentos esta noite. Ela passou as últimas duas noites aqui, junto ao senhor. – deu um sorriso tranquilizador e lhe entregou um copo de água, que pegou com as mãos trêmulas e conseguiu ingerir pequenas quantidades. – Por um milagre o senhor está vivo, quebrou algumas costelas e a ferida foi bastante grave. Descanse um pouco, rapaz. – e assim, o velho partiu para atender outros pacientes.
Um alívio se instaurou em suas feições ao saber que o objeto de seus afetos se encontrava bem. Não sabia como se sentir frente a todos os acontecimentos, por um lado Kiara estava viva, por outro, sua irmã estava morta; aquela que cuidou quando pequena e com quem compartilhava o segredo das estrelas, não respirava mais. Uma dor amarga e cortante se fazia na boca de seu estômago, não era apenas luto, era culpa. Não poderia ter deixado Vitani à mercê de Zira ao partir para Londres, não deveria ter deixado que se envolvesse em seus planos, não deveria ter permitido que sua alma se corromper quando a irmã entregou Kiara ao príncipe Félix. O peso da culpa o atingiu em cheio, maldito plano! Maldita Zira! Se não fosse ela, Vitani ainda seria aquela menina inocente e teria uma chance de ter uma vida longa e feliz ao lado de Demétrius. Grossas lágrimas passaram a brotar de seus lados e ele nem fez questão de enxugá-las. A visão embaçado não fê-lo perceber o homem ruivo sentado numa cadeira ao lado de seu leito.
— Você a ama. – a voz pesada o sobressaltou e, piscando algumas vezes para liberar as lágrimas, reconheceu as feituras de Simba. Não soube o que dizer, não sabia se o comentário exigia uma réplica, então, deixou um silêncio desconfortável se alastrar sobre eles. – Não haveria outra explicação, senão o amor, para que um homem salve seu inimigo. – suspirou. – Isso me força a entrar em dívida contigo, Kovu. No entanto, não me julgue um tolo. – alertou e seus olhos castanhos ganharam um tom sombrio. – Eu sei muito bem como funciona a mente de Zira e tinha consciência que mais cedo ou tarde, ela arquitaria um plano para me destronar. Não serei ingênuo de acreditar que todos os salvamentos a Kiara, nos quais você saiu de herói, foram acasos. – Kovu engoliu em seco, nem ao menos tinha energia para negar, o rei lia sua alma. – Não tenho conhecimento dos pormenores, porém, devo admitir que foi um bom plano a princípio. Um golpe que, ironicamente, ricocheteou e o atingiu da maneira mais inconveniente possível, o amor. Seus sentimentos por minha filha foram subestimados por Zira, que entende tanto da natureza de tal afeto quanto uma ratazana. – riu pelo nariz e logo ficou sério. – Tudo o que Kiara discutiu comigo nos últimos tempos, me fez perceber que o ódio à sua pessoa é um ressentimento pelas minhas próprias atitudes. Confesso que o arrependimento se abateu sobre mim ao pensar nas crianças marcadas, em você, em seus irmãos e todos do exílio que foram excluídos por terem qualquer relação com Scar. Não foi minha melhor decisão, mas creio que está um pouco tarde para revogá-la. Portanto, sinto-me parcialmente responsável por seu desvio de caráter.
— Por que está dizendo tudo isso? – indagou, tentando não transparecer estar afetado pelas palavras.
— Porque estou disposto a perdoá-lo, Kovu. – o mais novo fechou o semblante. – Por ter salvado minha vida e por minha culpa nisso tudo, lhe darei uma chance de obter o perdão real e ter uma nova vida. – o rapaz riu de descrença, estava bom demais para ser verdade. Ele sabia o que viria em seguida, então adiantou-se.
— Contanto que eu me afaste princesa. – concluiu, seus olhos faiscavam.
— Contanto que desapareça da vida de minha filha. – reformulou firme.
— Não preciso do seu perdão, obrigado. – cuspiu, ignorando todos os protocolos de tratamento ao rei. Não precisava mais, jamais agradaria Simba, de qualquer jeito.
— Veja bem, garoto... – seu ar diplomático foi abandonado. – Estou te oferecendo o bônus de recomeçar longe daqui e longe do exílio, terá uma história nova. Não haveria futuro para vocês em Reichstein, eu nunca permitirei. Kiara é uma princesa e, mesmo que ela se casasse com um mero plebeu, ele não seria você. – afirmou enfático. Uma onda de ódio percorreu todos os poros do mais jovem. – O poder é como uma boa droga, Kovu, e você será sempre o príncipe dos exilados, que foi treinado para pensar como um; não importa o que sinta por minha filha. Nem mesmo o amor é capaz de mudar a essência de alguém que aspira a grandeza. A história de seu pai e minha mãe comprova tal fato. – a língua de Kovu coçou para perguntar como ele sabia da história, mas não vinha ao caso.
Kovu quis espernear, xingar o rei e contestá-lo, entretanto, não tinha certeza sobre o que iria afirmar. Simba era esperto demais ao tratar com ele aquele assunto em seu momento mais vulnerável, quando estava com a carne e o espírito dolorido e havia acabado de aceitar a verdade, de que amava Kiara. Kovu não tinha energia para inventar uma mentira ao rei, enquanto perguntava a si mesmo se o sentimento recém-descoberto mudava realmente suas ambições.
– Se realmente ama minha filha, faça a escolha sábia, pois ficar só traria sofrimento a ambos. – o exilado ponderou sobre tudo o que acometera à princesa desde que entrou em sua vida. Nada de bom realmente aconteceu, só a colocou em perigo. Além disso, como sustentaria um relacionamento baseado nas mentiras que construiu até ali? Ele precisava encarar o fato de que não era bom para Kiara e não a merecia. Pelo menos a ensinou a se defender, não a deixaria indefesa. – Uma carruagem aguarda por você na entrada principal, abastecida com ouro suficiente para que seja um homem rico aonde quer que vá e uma cova vazia com seu nome está sendo preparada nesse instante. É uma chance de recomeçar e traçar o próprio destino. Não há outro caminho, garoto, a menos que queira a cova preenchida. – a ameaçou foi sutil, mas Kovu sabia que Simba não vacilaria. Não via outra escolha, por mais que seu coração contestasse. Kiara não fugiria com ele se pedisse, seu destino era se tornar a rainha que Reichstein merecia. Então, a contragosto, acenou positivamente e o rei explicou como fariam a operação.
— O corpo de sua irmã foi enviado ao exílio, só para que saiba. Ah! E Kovu... Se mudar de ideia, eu saberei. – advertiu o rei, antes de chamar seus homens para levar o suposto morto de maca para “o cemitério dos soldados”. Estava escuro, chovendo e de madrugada, não havia circulação para que se preocupassem com olhares curiosos estranhando o fato do corpo de um morto ser encaminhado para uma carruagem.
Kovu se alojou na Inglaterra e comprou um modesto pedaço de terra no campo. Ainda tentou achar Mérope, porém, ela já havia partido para casar-se com o tal príncipe Lisandro. Francamente, não estava arrependido de sua decisão de libertar Mérope, não a suportaria nem por todo ouro do mundo agora. Estar com ela apenas deixaria seu espírito mais enfurecido, pois escancararia seu desgosto em saber que havia algo muito melhor no castelo de Reichstein. A vida no campo era pacata, bastante tediosa, e, apesar de dispor de servos, preferia trabalhar no arado com as próprias mãos, mesmo que sangrassem e deixassem calos horríveis. Pelo menos, a dor e o ofício ocupavam sua mente e deslocavam o sofrimento para o lado físico. Ele tentou viver aquela vida com o mínimo de contentamento durante aqueles 7 meses; até o passado lhe bater na porta em forma de notícia. Descobriu pelo seu lacaio que haveria um baile de Carnaval para todos os habitantes de Reichstein, tradição essa que fora interrompida há mais de 20 anos. A oportunidade lhe caiu como uma luva, todos estariam fantasiados e mascarados. Ele poderia, ao menos, ver Kiara de longe e voltar.
Simba colocou dois homens de Reichstein para acompanhá-lo na vida nova. Assim eles diziam, porém, Kovu sabia bem que era no intuito de vigiá-lo e que eles redigiam relatórios mensais ao rei sobre seus modos. Mas nada o impediria, pois era sua única chance de vê-la apenas mais uma vez e seu coração ansiava desesperadamente para pousar os olhos sobre ela novamente. Então, ele aproveitou-se do fato do surgimento de uma gripe contagiosa se assolar nas cidades e forjou um adoecimento; alegando que todos os funcionários deveriam sair da residência e buscar alojamento em outro local até se curar. Aquilo lhe daria tempo suficiente para fugir para Reichstein e voltar em menos de uma semana.
Seguindo o plano à risca, Kovu conseguiu. Estava, de fato, em Reichstein novamente, misturado à multidão fantasiada. Ele trajava uma roupa completamente negra, tanto as botas, quanto as calças, com exceção do gibão, que exibia detalhes prateados no tecido brocado. A máscara de porcelana, para acompanhar, era branca com desenhos prateados e negros no contorno dos olhos. O chapéu de três pontas também era na cor preta com pedrarias simples adornando e uma única pena pendida para o lado direito. Estava completamente irreconhecível.
O salão estava abarrotado de gente, a decoração era simples, visto que era de a caracterização das pessoas era o real alvo de admiração, todas muito coloridas e elegantes; algumas mais exageradas que outras. O exilado conseguiu distinguir Kion pelo cabelo vermelho, ficando à mostra quando retirou o chapéu numa mesura para uma moça, que supôs ser Fuli. Sabia que os dois haviam ficado juntos pouco antes da batalha contra Utah, provavelmente estavam noivos à aquela altura. Ela também estava elegante, suas vestes eram de seda púrpura, assim, ficou convencido de que o noivado realmente acontecera, pois a moça jamais poderia custear tais vestes na condição da família camponesa. Mesmo que a intenção do carnaval fosse a oportunidade de ser o que se quiser por uma noite, era evidente que as fantasias denunciavam os pobres dos nobres. Kovu estava bem camuflado, não chamava muito a atenção, nem passava despercebido. Porém, havia apenas um único rosto que queria que o notasse.
Ele já se arriscara muito ao estar ali, porém, era tentador por demasiado apenas observá-lo de longe. Sabia que era ela. Kiara era sem dúvidas, a alma mais elegante do baile, trajando um delicado vestido de seda branco com pedrarias por todas as camadas da saia e mangas vermelhas bufantes, que começavam a partir do busto, deixando os ombros à mostra. Mesmo com a máscara de porcelana branca de lábios vermelhos pintados, Kovu sabia distinguir os seus gestos. Ela parecia um anjo rodando de braços em braços; com as tonalidades branca e vermelha a marcando, a inocência e sensualidade eram exaladas concomitantemente.
A quem ele queria enganar, afinal? Não estaria ali somente para vê-la, apenas contemplá-la era muito pouco, diante da possibilidade de tocá-la. O problema do pecado é que é mais tentador do qualquer narcótico poderoso. O tolo diz que experimentará apenas um pouco e quando dá por si, já está imerso no próprio vício. E Kovu estava em meio às festividades da carne, o local mais propício a cometer um pecado capital.
Aquela era a última música antes do desfile começar e todos aqueles a quem a princesa havia prometido uma dança, já tiveram suas chances. Assim, tomou a coragem, rezando para que todos estivessem entretidos em seus próprios pés para notá-lo, e deu um passo à frente quando o antigo par da princesa a deixou. Obviamente, Kiara não esperava aquela última dança, talvez tivesse a esperança de descansar e tomar um ar antes de assistir ao destile de fantasias. No entanto, não faria desfeita ao rapaz.
(Faded – versão Brooklyn duo)
Kovu fez uma reverência e ela prontamente retribuiu o cavalheiro mascarado. Em seguida, o rapaz lhe estendeu a mão e ela a capturou, sentindo algo diferente naquele toque tão suave e intenso. Era frustrante para o exilado não tocar suas mãos plenamente por conta das luvas que usava. Porém, Kovu conseguia ver seus olhos castanhos de perto, era sua Kiara de fato, apenas um pouco mais triste. Estar tão próximo a ela fazia seu coração sentir-se restaurado, era um bálsamo para a alma sentir o perfume doce dela mais uma vez e o calor de seu corpo. Será que ela reconheceria seus olhos? Ele desviou o olhar e trouxe o corpo dela para mais perto de si, mais do que seria apropriado para tal dança. Pelo menos desta forma conseguiria senti-la sem ser reconhecido.
A princípio, a princesa deu pouca importância à última dança, nenhum dos pares anteriores a entretiveram realmente. A única vantagem daquela festa, para si, era poder esconder-se atrás de uma máscara e, assim, não teria de forçar sorrisos e emoções que, definitivamente, não possuía mais. Os únicos braços que poderiam fazê-la feliz estavam a seis palmos de terra no cemitério. No entanto, havia algo sobre a firmeza com que aquele rapaz a guiava, tão decidido, elegante e altivo que trazia certa familiaridade reconfortante. Era como se seus corpos já se conhecessem.
O mascarado a guiava pelo salão, evitando o centro e o olhar das pessoas que assistiam; ela se sentiu grata por isso. Seu coração batia mais forte a cada passo que ele instigava em sua direção, quase colando seus corpos. A mão enluvada desceu em sua cintura, um pouco acima do quadril. Era demasiada ousadia, mas ela mentiria se dissesse que sua respiração não ficou entrecortada e que não se arrepiou com o toque. Era um misto de agonia e prazer.
— O senhor conduz uma dama com demasia assertividade. – comentou. – Já nos conhecemos antes? O senhor me parece familiar. – tentou olhar em seus olhos, porém, no canto do salão em que se encontravam havia sombra e a máscara utilizada por ele também produzia sombreado. O rapaz apenas acenou negativamente. – Porém, sabes quem sou. Algo me diz que o senhor me conhece. – ele afirmou com a cabeça, suas entranhas se retorciam querendo dizer-lhe algo, qualquer coisa. – Claro, todos desejam uma dança com a princesa. É como se eu fosse um prêmio a ser disputado. – ela murmurou descontente. Kovu fez uma pausa, como a coreografia pedia e a girou de forma que ficasse de costas para ele, mas logo se postou ao seu lado cruzando suas mãos e dançando assim por mais alguns instantes, até retornarem à posição inicial. – Pode me dizer tua graça, misterioso cavalheiro? – ele negou mais uma vez. – Vejo que não és muito dado a conversas. Está bem, também sou apreciadora do silêncio.
Os dois prosseguiram em silêncio até o fim da melodia melancólica, envolvidos naquela atmosfera somente deles. Quando a música acabou e os demais bateram palmas, o mascarado não deixou o seu lado. Kovu sabia que estava abusando de sua sorte, mas precisava ter um pouco mais de tempo com ela, o máximo que pudesse. E, então, deixaria sua vida para sempre, sem olhar para trás, cumprindo a promessa.
— Não vais ver o desfile? – Os outros se postavam às balaústras nas sacadas para observar o evento que aconteceria no pátio. Kovu fez um aceno afirmativo e aproveitando a distração de todos, teve uma ideia, puxando a princesa pela mão. – Eu não posso. – disse, compreendendo a intenção do rapaz. – Preciso ficar por aqui, coisas ruins aconteceram da última vez que saí do salão em um baile. – ela ainda se sentia receosa devido aos acontecimentos com Felix. O rapaz apontou para suas máscaras e ela riu. – Tens razão, ninguém me conheceria, mas o senhor sabe quem sou. Como poderei confiar em um rapaz que ao menos sei o nome? – indagou desafiadora. O jovem homem ponderou e depois de um tempo, tirou sua espada da bainha e ofereceu a ela, mostrando que não ofertava perigo algum. Não era um gesto tão assegurador, porém, era significativo. Ademais, algo naquele homem lhe transparecia uma confiança inusitada. Kiara amarrou a espada leve na própria cintura, tomando também a bainha e, com um suspiro aceitou a proposta.
Os dois desceram às pressas a escadaria que dava acesso ao pátio iluminado pelos archotes. Velas também estavam dispostas em lugares estratégicos a fim de compor a decoração. A noite possuía um ar místico e fantasioso no ambiente mais rústico.
(Kingdom Dance – from Tangled)
A música era contagiante de modo que seus pés sentiam a vibração no chão. Uma flauta animada e otimista começou, seguida pelo alaúde, dando início oficial ao destile. Os casais da plebe se ajuntaram em um círculo e performaram uma dança exótica, exibindo suas fantasias. Rodopiavam e bradavam, sendo aplaudidos pelos nobres que os assistiam, como se fossem do circo. Kiara estava encantada com a alegria e leveza da coreografia de seus passos. As roupas eram belas, não tanto quanto os finos tecidos dos nobres, mas recebiam certo destaque. Então, Kiara compreendeu o porquê do desfile, não era para admirar as fantasias, mas o modo de vida dos camponeses e seu jeito espirituoso de ser. Ainda que tal festa permitisse o anonimato das identidades, a nobreza recusava-se a misturar sua gente com uma classe “inferior”, mesmo que secretamente os invejassem. Talvez não estivessem suficientemente confortáveis com a ideia do retorno do carnaval, estavam tímidos em comparação com o que Kiara ouvira dizer daquela festividade anos atrás. Soube pelo pai, há apenas alguns dias quando retornou ao lar, que o carnaval foi instaurado em Reichstein por Ahadi. Uma noite de pecados que compensasse todas as renúncias que a vida casta e santa demandava. Haveria liberdade para rituais pagãos, para a infidelidade matrimonial e qualquer perversão desejada, menos, é claro, o assassinato e crimes contra a liberdade do próximo. Na verdade, era apenas uma desculpa para que Ahadi tivesse relações com sua amante, Tara, sem julgamentos.
O coração de Kiara vibrava na mesma frequência que a música agitada e logo o pé começou a batucar no ritmo, timidamente. Depois de um tempo, aqueles que não estavam participando do desfile recomeçaram a dançar, a princesa fez menção de se afastar para dar espaço aos dançantes. No entanto, foi impedida pelo cavalheiro mascarado, que mais uma vez segurou em sua mão e a puxou para o meio daquela gente.
— Não, senhor, eu não poderia. Não conheço tal ritmo, seria demasiado vexatório!! – Kiara ainda tentou contestar, mas quando viu já estava de mãos dadas com uma menina jovem ao seu lado e a outra na do homem. As pessoas dançavam em pequenos círculos, rodando, fazendo um vai e vem de passos, fechando e abrindo a roda com as mãos. Então, havia palmas e cada um dançava por sua conta própria no lugar. Ela já estava começando a se soltar e rir de si mesma e de como se sentia boba em não planejar os passos, apenas fazer o que seu coração ordenava que os pés fizessem. Era divertido, não poderia negar, muito mais do que as valsas do salão. Ademias, tinha certeza de que mesmo sob a máscara o homem estaria sorrindo para ela. – Confesso que é muito boa a sensação de fazer o que quiser com os pés! – riu e gritou na direção do mascarado quando foi hora de formarem pares.
Ele a guiava muito mais rapidamente do que fizera no salão, estavam quase flutuando aos rodopios. Kiara deu graças aos céus por ter tomado algumas taças de vinho antes, ou talvez não seria capaz de se soltar e rir tanto como estava fazendo; isso também contribuiu para que sua cabeça rodasse mais. A princesa indagava-se o que teria de diferente naquele homem que a fazia sentir-se tão bem. Os dois se movimentavam tão rapidamente que a princesa acabou desequilibrando-se quando a música cessou, completamente tonta, e se não fossem os braços firmes do rapaz, certamente estaria no chão. Os dois estavam com os corpos colados, arfantes, nem mesmo ligaram para a outra canção que iniciava-se. Havia uma atmosfera diferente que os envolvia, trazendo a sensação de que só havia os dois naquele baile, ou em todo reino.
A princesa engoliu em seco e afastou-se abruptamente do rapaz, sendo atingida em cheio pela culpa. Ela sorrira, ria e dançara com um homem sem sentir a dor que a acompanhava por todos aqueles meses, pensava que aquilo era um insulto à memória do homem amado.
— Perdão, meu senhor... Preciso me retirar. – e assim saiu às pressas sem mais explicações, as lágrimas já atrapalhavam a visão.
Seus pés a levaram inconscientemente ao lugar onde gostaria muito de ter visitado logo que chegou de Xártis. Lá estava o túmulo de seu amado, uma única placa de pedra com o nome entalhado às pressas. A princesa se deixou ali em posição fetal, imaginando estar deitada ao lado daquele que perdeu, como se dividissem uma cama imaginária. Era um ritual fúnebre, mas somente se sentia segura quando sabia que o corpo de Kovu estava à centímetros do seu; seu coração se inflava da paixão melancólica alimentada, que nem mesmo a morte foi capaz de abrandar. A melancolia se tornara sua companheira constante desde o falecimento de Kovu, trazendo tanto o prazer de reviver suas lembranças, quanto angústia.
— Somente a morte poderia me trazer o júbilo à vida. Desde que você se foi, meu coração tem sangrado ininterruptamente, sem perspectivas de cura ou remendos. – sussurrou para o túmulo. – Quando você partiu, levou também toda a minha alegria. Há muito tempo minha salvação não vem dos céus, mas sim do fôlego teu, soprando vida em mim. E se, por acaso, eu estiver recitando profanidades, que Deus me castigue e me leve ao único paraíso possível. – novamente se deixou consumir pelas lágrimas, sentindo as palavras amargas no céu da boca.
(The power of love – Gabrielle Aplin)
Kovu sentiu o coração apertar diante das confissões da princesa; ele a seguira até ali sem que o notasse. Sua suposta morte não estava trazendo paz ao espírito de nenhum dos dois, Kiara não estava seguindo em frente como Simba sugerira e ele jamais conseguiria esquecê-la. Então, só lhe restava uma alternativa, impensada e totalmente leviana. O rapaz odiava seguir um caminho de destino opaco, sem nenhum planejamento. Porém, naquela noite estava decidido a fazer o que seu coração mandava e livrar ambos do tormento.
— Kiara... – chamou com a voz rouca; passou dias sem falar com ninguém. Kiara pulou sobressaltada.
— Estarei ficando louca de vez, ou foi o vinho que bebi? – indagou-se piscando os olhos rapidamente. – Estou ouvindo a voz dos mortos?
— Não, Kiara. Eu estou aqui. – Kovu ajoelhou-se na própria cova, atrás dela. A princesa sentou-se estática, mas receava olhar para trás e verificar que a voz que lhe chamava pelo nome não possuía forma corpórea. – Vire-se, princesa, e verás que sou eu mesmo. – pediu calmamente, porém, para qualquer investigador do comportamento, havia claras notas de ansiedade na fala.
O exilado não poderia tocá-la ainda, mesmo que cada fibra de seu corpo o impulsionasse a tal ato. Era um autocontrole absurdo aguardar aqueles segundos, semelhante ao efeito de um náufrago que aproxima-se da praia e sente que a distância até a areia é a pior até então. No entanto, Kovu não poderia roubar de Kiara o tempo da própria assimilação da realidade.
— E se eu me virar e encontrar apenas mais uma ilusão? Um fruto perverso de minha própria fantasia? – fez uma pausa, suas mãos tremiam. Um frio aterrorizante assolava a boca do estômago. Não poderia ser ele! Kovu estava morto. Precisava escutar seu pai e entender que seu amor se fora. Então, por que seu coração ribombava esperançoso? – E se eu me virar e acordar de um sonho maquiavelicamente bom? – sussurrou, a voz quase morria.
— Oras, nunca a julguei com tamanha falta de audácia, princesa. – instigou ironicamente. Dito isso, Kiara se virou lentamente. Sabia que somente Kovu ousaria provocá-la daquela forma, nem mesmo sua imaginação reproduziria seu jeito tão bem. E se fosse seu fantasma, ainda seria ele.
— Kovu... – sussurrou seu nome, ainda incrédula. Era o rapaz com quem dançou mais cedo! Mas precisava tocá-lo novamente, agora, sabendo que alegava ser seu amor ressurgido das cinzas.
Kiara ergueu as mãos trêmulas na direção da máscara do rapaz e desfez a fita que a mantinha, atrás da cabeça. A peça caiu no colo dele e a princesa pôde contemplar o rosto que nunca mais pensou que veria em vida. Não houve reação imediata de sua parte, estava em choque, o sangue zumbia nos ouvidos a ponto de sentir-se tonta de assombro. Seus dedos percorreram com receio as maçãs do rosto de Kovu e os dois sentiram a eletricidade alastrando-se pelos corpos; era como se uma sensação de paz, plenitude e euforia os enchesse ao mesmo tempo. O polegar feminino desenhou a linha da cicatriz no olho esquerdo e, em seguida, retirou o chapéu dele, mergulhando os dedos nos cabelos negros e sedosos com saudade. O rapaz recebia o toque com ternura, sentia falta de suas mãos alvas contra a pele oliva; era a combinação perfeita. Kiara queria verificar se cada parte de seu ser estava intacto. Começou, então, a apalpá-lo com veemência, os braços, o tronco, o pescoço e o rosto, neste ritual. Até que Kovu segurou suas mãos entre as dele, percebendo que a princesa soluçava desconsoladamente.
— Eu não quero acordar! Fique, por favor, Kovu, fique desta vez! Eu não suportarei... – balbuciava desconexamente, debatendo-se em seus braços. Nem percebeu que o rapaz a puxara para um abraço. Era uma tortura prazerosa sentir seu calor dessa maneira, o coração batendo contra seu peito e saber que iria despertar em segundos, pois ela sempre acordava na melhor parte.
— Você não vai acordar, Kiara, porque não está dormindo! Eu estou realmente aqui! – Kovu assegurava abraçando-a com toda a força e paixão que havia guardado apenas para Kiara.
Ela era a exceção; Simba tinha razão, o divino lhe castigou com o amor por ter tramado plano tão perverso contra o pai. Porém, não tinha mais forças para resistir ao chamado poderoso do sentimento mais devastador que conheceu. A princesa era seu tudo e tê-la em seus braços era muito além do que merecia. O exilado a afastou um pouco e retirou a máscara de porcelana da garota para que pudesse ver seu rosto também. Estava vermelho e levemente inchado de tanto chorar, mas era sua bela princesa. Secou as lágrimas que desciam e mirou profundamente em seus olhos confusos.
— Eu estou aqui, Alteza. Eu nunca estive morto. – reforçou o argumento mais uma vez, até que a princesa pareceu se convencer do fato, atônita. Os dois ficaram em silêncio, apenas observando um ao outro, até que o olhar de Kovu recaiu sobre os lábios vermelhos da princesa, recriminando-se por pensar neles daquela forma no momento. Em seguida, o olhar âmbar de Kiara focou-se na boca do exilado também. Ele engoliu em seco. – Eu irei explicar como...
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a ponta dos dedos da princesa encostou nos lábios do exilado, estavam ali mesmo. Tão firmes e sedutores como sempre foram, seu olhar focou naquele ponto específico por alguns segundos, hipnotizada. A respiração de ambos se tornou pesada de repente, e o que se seguiu não foi nada além do esperado. Kovu capturou seus lábios em ânsia e avidez, louco para sentir seu gosto mais uma vez, para sentir-se completo novamente. Ele segurou seu rosto e a trouxe para mais perto de si, aprofundando o beijo. Sua língua pediu permissão e Kiara concedeu sua passagem, correspondendo-o na mesma fome. A outra mão do exilado apertava sua cintura, enquanto debruçava o corpo sobre o dela na grama. Logo os dois estavam deitados nefastamente no chão do cemitério, Kovu por cima da princesa. A mão que estava na cintura passou a correr pelo corpo inexperiente da garota, passeando pela lateral dos seios e o quadril. Ela deleitava-se de prazer a cada novo toque, que até então havia apenas desejado; sentia-se eletrizada. O jovem homem estava ensandecido pelo desejo, queria fazê-la sua para sempre, ali mesmo. Porém, lembrou-se de onde estavam e que deveria respeitar a honra da princesa. Assim, afastou-se abruptamente, antes que não pudesse mais se conter. Os dois estavam estupidamente sem ar, Kiara ainda tremia pela exacerbação dos sentimentos. Chorou ainda mais.
— Por que ainda choras? – Kovu indagou, limpando suas lágrimas.
— Porque mal posso acreditar que está realmente aqui, Kovu. – ela passou a sorrir e beijar seu rosto mais uma vez; o exilado também deu um meio sorriso, constrangido, recebendo o carinho. – Não sabe o quanto sofri em sua ausência! Nem sei como sobrevivi... – então a realidade bateu a invadiu como um choque. – Mas por que se fingiu de morto? É uma espécie de chiste para ti? Meu sofrimento, por acaso, o regozija? – levantou-se num salto e afastou-se dele como se fosse um monstro. Como poderia tê-la deixado no escuro por tanto tempo?
— Claro que não! Eu jamais faria algo...
— Mas já fez! Quantas vezes já fez zombarias de mim? Tinha prazer em me atormentar e me tirar do sério...
— Apenas porque já a desejava ardentemente! – cortou de volta. Era difícil a ele dizer a verdade olhando em seus olhos, desnudando sua alma, e revelar a verdadeira natureza de seus sentimentos, que tanto buscou negar. Uma coisa era escrever um poema ou trocar confissões moribundas, mas agora, ele estava bastante são na frente da garota que o desarmava completamente; e isso tornava o processo muito mais árduo. Kiara o escutou, estupefata. – Apenas porque precisava extrair alguma reação da senhorita, e acreditei piamente que o ódio seria mais saudável para nossa relação. Sua aversão a mim era um escudo contra um sentimento mais perigoso e tentador. O ódio é o único sentimento equiparado ao amor. E eu estava certo, não estava em meus planos me apaixonar por Vossa Alteza. Deveríamos ter permanecido nos odiando. – abaixou a cabeça em pesar. Kiara esqueceu momentaneamente o porquê estava aborrecida e deu um passo em sua direção, tocando-lhe a face com delicadeza.
— O plano do senhor estava fadado a falhar desde o início, pois se houve algum ódio de sua parte, da minha sempre houve a mais pura devoção. – sorriu tímida. – Você atormenta meus pensamentos desde a primeira vez que o conheci. A partir daquele dia, passei a sonhar com o garoto que me salvou da cobra e, mais tarde, passei a sonhar com o homem que me salvou no meu aniversário de 18 primaveras e continuou me salvando e me ensinando a lutar, desde então. – segurou a face do exilado entre as duas mãos, o obrigando a olhá-la nos olhos. – Se com provocações pretendia despertar minha aversão, apenas conseguiu instigar um sentimento que já existia, e era destinado apenas a ti. – beijou seus lábios mais uma vez, castamente. Kovu sentia-se humilhado, não merecia receber aquelas palavras, sentia-se indigno e culpado por degustar de seu afeto tão puro. Se ela soubesse de seus planos originais... Se soubesse da vil criatura que era na realidade... O monstro que tinha planejado tomar sua coroa e seduzi-la para tanto. – Por tudo o que fez por mim, não tenho outra saída, senão perdoá-lo pela ausência; ainda que o ato tenha me feito beirar um sofrimento sobre-humano. Se quis fugir de mim, dos sentimentos que nutria e o assustavam, poderia tê-lo feito de outra forma. Mas, estou inclinada a perdoá-lo, se prometeres nunca mais se afastar novamente. – Kovu piscou rapidamente, compreendendo as conclusões que a princesa chegou.
— Não, Alteza. Eu não pretendia mais fugir dos meus sentimentos, porém, uma força maior me impediu de vê-la quando despertei na ala hospitalar. – fez uma pausa e suspirou. – Seu pai me impediu. O rei disse que jamais abençoaria nossa união e que o melhor a fazer seria forjar minha morte; caso contrário, prometeu me matar. Em troca, me ofereceu ouro para recomeçar a vida em outro lugar. Também me convenceu de que Vossa Alteza estaria melhor sem mim.
Kiara sentiu como se o chão se abrisse sob seus pés. Seu pai havia a enganado todo esse tempo, ele era o verdadeiro vilão daquela história e o responsável por sua miséria. Simba a viu sofrer e jurou pela honra que Kovu estava morto! Um ódio descomunal se abateu pela figura paterna, mas de alguma forma, não estava realmente surpresa. A atitude do pai quanto à ameaça de sir. Thompson revelou seu caráter dúbio. O ódio a Kovu transcendia qualquer tipo de racionalidade e justiça que o pai possuía. Não iria se irritar com Simba no momento, apesar do desprezo que sentia, queria focar-se em Kovu.
— Se ele o convenceu, por que voltou? Se ainda está tão convicto de que o ódio, ou mesmo a morte, seria o mais saudável para nós, por que retornou? – Kiara retorquiu amargamente, se afastando dele. Os dois caminhavam pelo jardim do cemitério como num jogo de xadrez, cada passo era uma nova jogada. Os dois eram jogadores de polos diferente, adversários, que contra as regras, buscavam em seu íntimo ocupar o mesmo espaço de uma casa; uma estratégia impossível.
— Porque o que fiz me custou tudo, e percebi que sem Vossa Alteza, não tenho realmente nada. Nenhuma terra, ouro ou qualquer outra coisa seria o suficiente sem que estivesse ao meu lado. – o coração de Kiara disparou aquecido e virou-se para ele, encurralada entre o homem e a velha macieira do jardim. – Deixá-la foi a coisa mais difícil que já fiz em minha existência, Kiara. – suspirou, colando seu corpo novamente ao dela. Afastou seus cabelos e a pressionou ainda mais contra a madeira. – Eu precisava vê-la, pelo menos mais uma vez. – A princesa já havia fechado os olhos de prazer, embalada pelas palavras aveludadas na voz rouca.
Os lábios do exilado selaram novamente os da jovem mulher num beijo profundo e cheio de significado. O coração dos dois batia na mesma frequência e seus corpos esquentavam mais a cada segundo. A mão da princesa encontrou o pescoço do exilado e o reivindicou para si, queria senti-lo por inteiro, cada centímetro de seu ser. Kovu, então, mordeu seu lábio inferior e a garota gemeu prazerosamente, sentindo uma brasa se alastrar outra vez pelo corpo, como quando estavam na grama. Queria sentir ainda mais aquela sensação que somente Kovu provocava, aquele calor que se acumulava em seu baixo ventre. De repente, uma maçã caiu em suas cabeças, interrompendo o beijo fervoroso. Os dois se separaram e riram, desconcertados.
— Aceita? – Kovu apanhou o fruto do chão e ofereceu à Kiara com um sorriso malicioso. A princesa sorriu de volta, sem intimidar-se e mordeu um pedaço. O exilado viu um pouco do suco escorrer pelo queixo da garota e o lambeu, provocando mais arrepios. Em seguida, continuou a trilha de beijos abaixo do queixo, concentrando-se no pescoço alvo, que exalava um aroma delicioso. Kovu o beijou e o sugou levemente, enquanto as mãos subiam pelas coxas da garota, tentando descobrir o tecido pesado. – Maldição! Tens que usar tantos panos? – rosnou e voltou a beijá-la.
— Sou uma princesa, preciso estar bela. – retrucou entre risos e beijos.
— Eu a acharia ainda mais bela sem esse vestido. – sussurrou irônico ao pé do ouvido, antes de mordiscar seu lóbulo.
— Kovu... – Kiara gemeu o nome dele, segurando seus cabelos sedosos. – Eu o quero tanto... – empurrou-o um pouco e concertou a vestimenta; o outro a encarou em confusão. – Coloque a máscara e venha... – ele confiou nela e colocou o objeto de porcelana no rosto, assim como a própria e guiados apenas pela luz do luar cheio e as estrelas, seguiram para um caminho já conhecido pelos dois.
O casal de amantes demorou para chegar no local pretendido, pois não se contentavam com a distância dos corpos e paravam no meio do caminho para marcarem as árvores do percurso com seus beijos ardentes.
— Está lindo. – Kiara arfou ao mirar a cachoeira. Após adentrarem a floresta, os dois abandonaram novamente as máscaras e desfrutavam da vista com olhos limpos.
A noite estava tão clara que era possível observar as manchas compridas e mais claras que pintavam o céu; também chamadas de braços de Deus. De fato, parecia que o divino os abraçava no momento, talvez tivesse recorrido aos céus um momento de piedade e compaixão ao amor conturbado dos jovens. O ambiente também estava repleto de vagalumes, que iluminavam as águas da cachoeira, produzindo um efeito florescente na lagoa, assim como formavam pontinhos de luz na grama, e as flores noturnas exalavam um perfume doce e inebriante no local. A brisa noturna estava bastante agradável para uma noite de início de outono. Era uma visão espetacular.
— Não me lembro muito do meu pai, mas tenho uma lembrança dele dizendo que estrelas eram vagalumes capturados pelos grandes reis do passado no céu, e ficaram presos lá. – riu-se sem perceber as implicações do assunto.
— O meu também. – admitiu surpresa. – Meu pai disse que o pai dele contava essa história. – falar sobre Simba trazia certo incômodo, mas não deixaria o pai estragar o momento dos dois. Afastaria os pensamentos hostis relacionados ao rei e os colocaria em perspectiva quando necessário. Simba não atrapalharia mais sua história com Kovu, nunca mais.
— Talvez Scar tenha contado a Mufasa... – suspirou. Era uma droga ter lembrado do maldito pai no momento, pois isso acarretava uma série de outros pensamentos que tentava ignorar.
— É uma herança da nossa família. – concluiu.
— Incomodaria a ti o fato de eu ser seu possível tio? – Kovu indagou de repente, lembrando-se da história que Kiara revelou sobre o diário da avó.
— Ah... – enrubesceu. – Não, isso é impossível. Meu... Simba me contou que isso é inviável. – Então, Kiara relatou a história que o pai pediu que nunca contasse a ninguém. Mas sua jura não importava, se ele havia descumprido sua própria. Contou que Scar e Mufasa eram irmãos apenas pela parte de pai e sobre a mancha atrás do lóbulo da orelha ser da família de Tara, a mãe verdadeira de Mufasa. – Kovu... O que foi? Você está bem?
Não estava tudo bem. Kovu estava bestificado e empurrava a todo o custo os pensamentos gananciosos que vinham à mente, sem sucesso. Se Mufasa era um filho bastardo, ele nunca foi um rei legítimo realmente, muito menos Simba. A profecia de Rafiki fazia todo o sentido agora, era uma tentativa de legitimar o trono ao herdeiro original. O grande problema é que Kiara o merecia. Kiara seria uma rainha justa e bondosa, diferente de todos os anteriores. Ela era honesta, altruísta, sábia e corajosa, tinha todas as características de liderança que nem ele, Scar ou Simba possuíam. Acima de tudo, Kiara não possuía ganância ou soberba. O devaneio apenas retomou o sentimento de culpa, por ter mentido para ela sobre quase tudo até ali.
A princesa retirou as luvas do rapaz e sentiu suas mãos finalmente contra as suas, acariciando-as com fascínio. O material escondia sua pele marcada a ferro, o grande “E” nas costas da mão direita. Kiara levou a mão até os lábios e beijou a cicatriz, quase como um pedido de desculpa por tudo o que seu pai fez Kovu passar. Em seguida, beijou a marca que atravessava o olho esquerda, adquirida por culpa de Zira, um castigo por salvar a filha de Simba. Isso era demais para o exilado, a princesa estava se desculpando por coisas que nem ao menos eram sua responsabilidade; já ele estava cheio de culpas reais. Como ele a deixava tocá-lo e como tocava sua pele sabendo que foi o responsável por tanto sofrimento da mulher que amava? E que o amor dela se baseava numa mentira orquestrada por ele?
— Kiara... – sussurrou angustiado, segurando suas mãos. – Há coisas que você precisa saber sobre mim. Muitas, na verdade. Eu não tenho sido completamente honesto com Vossa Alteza. Eu sou uma pessoa ruim, já fiz coisas que...
— Kovu. – ela o calou com as mãos. – Já não havíamos combinado que parasse de fazer-me mudar de sentimentos ao seu respeito? Eu o amo! – disse com convicção. – O amo hoje, ontem e amanhã, quando o senhor certamente pode esperar para contar seja lá o que for!
— Poderia amar um homem de passado duvidoso e moral questionável? – indagou; ele precisava saber que Kiara o aceitaria de qualquer forma.
— Kovu, sei que cresceu em um ambiente diferente do meu e que a criação no exílio é bastante dura. – passou a mão cheia de compaixão pela cicatriz no olho novamente, enxugando agora a singela lágrima que caía. – Posso não conhecer tudo de seu passado, porém, quando olho em seus olhos, vejo sua alma. E ela é igual a minha. Não tenho dúvidas quando diz que me amas. E para mim, isso é o que importa. Quanto ao seu caráter e passado... terei uma vida inteira para decidir a respeito. Contudo, esta noite eu apenas almejo a ti e ao amor que declarou sentir.
Ouvindo isso, Kovu foi guiado apenas pelo desejo que sentia, ignorando todas as implicações morais. Ele precisava de Kiara e não teria forças para negá-la após tantas declarações. Tê-la ali ao seu dispor e tomá-la para si era uma questão de autopreservação, sentia que se não o fizesse, morreria. Cada entranha e cada membro de seu corpo gritava por Kiara. Que se danassem as consequências das suas atitudes! Ele a queria e a teria, nem que fosse seu último ato.
[ALERTA: se não curte hot explícito, ou se tem menos de 18 aninhos, pule para o final. Terá um segundo aviso vermelho indicando que as cenas acabaram]
(Need – Hanna Pestle; My love – Sia; The night we met – Lord Huron; Con las Ganas – Zahara)
— Diga- me o quanto me quer... – Kovu se aproximou, tomando suas mãos nas dele, a fala e olhos sombrios. Kiara engoliu em seco. – Diga novamente, por favor. – acariciou a bochecha da garota, sentindo a pele alva se arrepiar.
— Eu o quero para mim. Eu o desejo com a intensidade de mil sois e... – Kovu passou o polegar pelos lábios trêmulos; ela fechou os olhos. – Quando me tocas, sinto-me arder como um fogo que não se consome. – abriu os olhos e viu que as esmeraldas crepitavam luxuriosamente. Ao mesmo tempo que se sentia inibida por falar coisas do tipo, não queria parar. Era como estar presa a um feitiço, ele a compelia a falar deste modo.
— Queres que eu o consuma? – rodeou o corpo da princesa como um predador e parou às suas costas, colando seus corpos. Em seguida, passou os lábios pelo pescoço da garota e entrelaçou suas mãos fazendo carinho no nó dos dedos. Sorriu presunçoso ao sentir a pulsação acelerada naquele ponto, e os arrepios que se seguiram ao toque. – Quer que eu misture seu fogo ao meu para, enfim, queimarmos juntos? – ela não respondeu, apenas prendeu a respiração quando a mão dele prendeu sua cintura de forma possessiva, colando sua traseira à frente dele. – Sabe o quanto eu desejei tocá-la durante todo esse tempo? Tê-la somente para mim? – desabotoou o primeiro botão do vestido da garota e beijou a pele que se expôs ali. – Eu esperei tanto por isso... Eu a desejo tanto, Alteza, que seria irracional descrever tal intensidade. Mas não duvides um segundo de meu amor, porque por ti tenho feito loucuras. Diga que não vai duvidar. – desabotoou mais oito botões do vestido, pontuando as frases com beijos cálidos. Kiara sentia-se derreter lentamente, inebriada pelo tom sedutor.
— Não duvidarei. – prometeu em voz baixa. Tinha certeza de que cairia a qualquer momento, suas pernas cederiam se ele não estivesse a segurando.
— Bom. – desabotoou o último botão e afrouxou os laços, de modo que o vestido pesado caiu no chão como um baque. Vermelho e branco, a cor da sedução e inocência. A princesa sentiu um ímpeto de agachar-se e se cobrir, mas estava estática. Lembrou-se de quando ele retirou seu vestido no treinamento e que desejou que a tocasse mais. Kovu retirou o gibão e a camisa que trajava e retornou para a frente da garota, já mais envergonhada, os braços cobriam o busto no corpete branco. – Não se cubras, por favor, minha querida. Em toda minha vida não vi algo mais belo.
Então Kiara olhou para o próprio tronco desnudo de Kovu, sentindo um ímpeto de tocá-lo. A princesa percebeu que suas ilusões e sonhos sobre ele não poderiam ser mais falhos, pois não lhe faziam justiça. Kovu era lindo e somente sua forma real poderia captar a expressão de tão singela beleza, não havia versos, pinturas ou pensamentos oníricos que poderiam reproduzi-lo. O príncipe do exílio era único e tentador como um anjo caído, cada traço seu parecia ter sido delimitado por forças celestiais.
As mãos trêmulas da princesa alcançaram seu abdômen, tocando-o com curiosidade e assombro. Os dedos passearam pelas cicatrizes, cada uma parecia relatar a história do exilado e o tornavam mais atraente, por algum motivo. Kovu estava gostando que ela o tocasse daquela forma, com desejo; adorava ver a luxúria em olhos tão inocentes. Era uma mistura deliciosa. Então, a princesa ergueu o olhar para o dele, havia tanto misto de sentimentos que palavras não eram suficientes. Ela tinha vontade de mergulhar para sempre nas esmeraldas escuras. Nunca mais queria se afastar dele. Encabulada, o abraçou com desespero, tinha medo de piscar e ele desaparecer. Kiara deslizava os dedos por suas costas largas, degustando seu calor e aroma almiscarado inebriante. Seus quadris involuntariamente buscaram os dele, esfregando-se involuntariamente num ritmo sôfrego, e assim, sentiu o membro já rígido na altura da cintura.
O impulso inicial de Kovu seria atacá-la como um animal selvagem, como fizera tantas vezes com outras mulheres, porém, queria ser diferente com Kiara. Queria que aquele momento durasse o máximo possível, pois tudo o que tinham era o presente; o futuro era demasiado incerto. Portanto, iria tratá-la com delicadeza e cuidado digno da realeza. Seus braços a envolveram na mesma ânsia, alisando a pele exposta, queria prendê-la ali para sempre. O exilado afastou-se por alguns centímetros e passou a acariciar o rosto da princesa com o seu próprio.
Kiara sentiu a barba rala do exilado arranhar sua pele levemente e suspirou de prazer, recebendo um ronronar em resposta. As mãos da garota se envolveram no cabelo negro e sedoso, acariciando-os; amava sua textura. Então, os lábios se encontraram mais uma vez naquela noite, apenas uma fricção de início, estavam se degustando. Lábios firmes e carnudos contra os suaves e finos. Eles sentiam a maciez um do outro, até Kiara lamber o lábio inferior do príncipe do exílio, e aquilo foi o suficiente para mudar o ritmo do contato. Kovu eletrizado pela provocação, puxou-a pela cintura num solavanco, assustando a garota e a fitou profundamente, antes de devorar a boca rosada.
O ardor daquele beijo era algo que Kiara jamais sentira antes. Tudo nela pulsava com brilho e emoção, seus dedos tinham dificuldade em conter-se em um ponto específico, tudo clamava para ser tocado e contemplado. As mãos do exilado tocaram suas nádegas cobertas pela calçola de linho com afinco, massageando-as. Ela gemeu em resposta, os corpos estavam em brasas. Kovu invadia a boca da princesa como um guerreiro conquistava um território novo, sua língua macia encontrava a dela com precisão e maestria. Estavam famintos um pelo outro. Com leves mordidas no lábio inferior, o homem abandonou a boca rósea e desceu devassamente pelo pescoço, distribuindo beijos e sugadas, alternadamente. Então, parou no ponto em que desejava, entre o vale dos seios, e a viu arfar ao sentir a respiração pesada passando pelo corpete. Um sorriso afetado se espalhou no rosto.
— Quer que eu pare? – indagou brincando com os cordões frontais da peça. A boca desenhava o contorno do tecido, roçando nos seios agitados pela respiração acelerada.
— Não... – seus olhos estavam fechados, aguardando angustiada pelo próximo contato.
Kovu desfez o nós que reservavam seus olhos dos montes ainda intocados por um homem. Excitava-o ainda mais saber que era o primeiro, e seria o último no que dependesse dele, a tocá-los. A face da princesa se tornou escarlate, tentava colar o corpo ao dele para esconder-se, mas o exilado desejava contemplá-la.
— São lindos. – a voz rouca sussurrou. – Feitos sob medida para minhas mãos. – disse antes de apalpar os seios medianos com as mãos cheias. Kiara gemeu quando ele esfregou seus mamilos contra a palma das mãos, sentindo-os endurecer. Ele deleitava-se ainda mais com as reações da princesa, seu sorriso perverso apenas aumentava ao vê-la revirar os olhos.
— Isso... é tão bom. Seu toque é tão bom. – Kiara sussurrava sem pensar.
— Ainda estou só começando, minha querida. – ele devolveu prepotente. Então, Kovu a pegou no colo e a levou até a próxima árvore para apoio.
Ele viu seus seios desnudos banhados ao luar e os mamilos rosados e duros empinados em sua direção. Com avidez, lambeu o mamilo direito, observando o corpo delicado requebrar em reação. Em seguida, chupou o seio da garota, devorando-o. Uma mão desceu até as calçolas e sua mão invadiu o interior do tecido, recebendo um arfar em resposta. A princesa estava completamente encharcada, na mesma proporção que seu rosto estava corado em profunda vergonha. Tinha certeza de que não agiria assim se tudo tivesse corrido de acordo com as normas de cortejo, mas nada em relação a eles era normal e ela já havia se conformado com isso. Não havia por que resistir aos toques ousados do exilado se o desejava tão avidamente; não quando passara meses apenas sonhando com ele.
— Está da cor dos morangos em época de colheita, Alteza. – Kovu sussurrou com um sorriso perverso, tocando-a lentamente, viu seus olhos se revirarem de prazer, a respiração pesar e um gemido menos contido escapar.
— O senhor... está... – dizia sem coerência, as ondas de calor que se espalhavam do seu cerne para todo o corpo não permitiam que produzisse frases muito coerentes. – Isso... Kovu, Hmm... – gemeu, alargando o sorriso dele. Kiara abriu os olhos, então, e mordeu o nó do próprio dedo para se controlar. – Não zombe de mim, por favor. Não sabe o quanto... hmmm... É constrangedor que me toques assim.
— Apenas fiz um elogio, Kiara. Morango é a fruta mais deliciosa de todo o pomar. A mais aguardada. Doce. E suculenta. – a maneira pausada e rouca que ele a descrevia, apenas aumentava seu desejo. Em seguida, Kovu tomou seus lábios, enquanto os dedos ainda esfregavam a intimidade quente e latejante, o dedo médio trabalhava especialmente em seu botãozinho delicado. De repente, as pernas femininas tremeram, a respiração ficou ainda mais acelerada e ela se abriu mais para ele, quase caindo.
— Kovu... Eu... Ahnn... – murmurava de prazer. Ele deleitou-se ao ver a estrutura frágil tremer violentamente e liberar o primeiro orgasmo daquela noite em seus dedos longos. Kiara puxou seu pescoço violentamente para si e colou suas bocas, antes de dar um último gemido, sentindo a pressão naquele ponto aumentar ainda mais. A sensação foi de estar nas nuvens e num lago de chamas, ao mesmo tempo, era muito bom. Já havia feito aquilo sozinha, pensando nele inclusive, mas os dedos dele proporcionavam algo muito além do que imaginara.
Após alguns segundos, Kiara abriu os olhos e encontrou esmeraldas curiosas e perturbadoramente calmas a fitando. Kovu conseguia enxergar o céu e as estrelas refletidas pelos olhos castanhos. A princesa sentiu-se completamente encabulada depois de passada aquela onda intensa de ardor, mas não se arrependia, então, passou uma mão trêmula pelo rosto dele, agradecida. Será que ele esperava retribuição da mesma forma?
— Não quero que faça algo que não esteja pronta, ou que não se sinta confortável. – ele respondeu seu pensamento, adivinhando de primeira.
— Eu quero... – retorquiu tímida, desviando o olhar por um instante. – O problema é que não sei... – não conseguiu terminar a frase.
— Não pense que espero algo em troca. – ele beijou sua têmpora carinhosamente.
— Mas eu quero! – devolveu decidida, mordendo o lábio inferior. Queria tocá-lo, apenas tenho receio de não fazer direito. – O senhor pode me ajudar? – indagou, receosa.
Sem mais delongas, afinal, ele estaria mentindo se dissesse que não ansiava pela mão aveludada ao redor do seu membro, Kovu abaixou suas calças e Kiara pode senti-lo na cintura. A princesa mordeu o lábio com mais força e deixou que a mão direita dele guiasse a sua até o mastro ereto. Ela entendia sobre anatomia, já tivera aulas e sabia o que significava quando o membro estava daquele modo, o que não compreendia é como ele conseguia manter-se de pé, tão controlado e sereno naquela situação. Será que o desejo que sentia por ele era muito maior do que o contrário?
Enfim os dedos femininos e inexperientes envolveram o membro exposto, os dois arfaram com o novo contato. Kiara pode sentir o quanto ele era grosso e cumprido, assustando-se levemente, não resistiu e olhou para baixo para contemplá-lo curiosamente. Kovu colocou a mão por cima da dela e direcionou o movimento, mais lento no começo até que foi ganhando ritmo, então, soltou-a e deixou a princesa livre para tocá-lo como gostaria. Kiara continuou a movimentação e foi sua vez de deleitar-se com os gemidos, expressões e postura do exilado, sentia prazer em tê-lo em seu domínio. Sorriu.
— Diabos! – amaldiçoou em prazer e ela sorriu, como ele faria. Em seguida, aumentou o ritmo, torcendo a mão de uma forma diferente algumas vezes, percebeu que Kovu gostou, mirando-a surpreso. – Kiara! – ele se apoiou na árvore atrás da garota e seu corpo entrou em ebulição antes de derramar suas sementes na mão da princesa.
Kovu recolheu suas roupas e levou-as até o vestido da princesa, esquecido perto do lago, fazendo, assim, um amontoado de tecidos para deitarem-se. Kiara o seguiu prontamente e estirou-se ao seu lado sem que a grama pinicasse seu corpo, abraçando timidamente o tórax definido. Colou a cabeça no lado esquerdo do peito do exilado, ouvindo o coração bater tranquilamente; ela tinha inveja da calma de seus batimentos. Eles eram tão diferentes dos seus, sempre acelerados na presença dele. Mas, era grata por cada pulsação que ouvia daquele órgão tão vital, o coração deles parecia estar interligado, de alguma forma, para sempre. A única certeza de Kiara a partir de agora é que enquanto o coração dele palpitasse sereno assim, como sempre fora, o dela palpitaria feliz.
— Eu tive esse sonho tantas vezes. Você aqui, comigo. – beijou o local onde estaria o coração de Kovu e ouviu uma oscilação das batidas.
— Como era o sonho? – Kovu trouxe o rosto dela para si e beijou, enfim, seus lábios. O corpo de Kiara foi se posicionando de maneira que estivesse por cima do dele, quase sentada em sua cintura.
— Era como este, mas você desaparecia antes de... algo bom acontecer. – sua intimidade já estava emitindo ondas de calor pelo corpo mais uma vez. Naquela posição, ela podia sentir o membro roçar sua feminilidade, e involuntariamente, seu quadril se acomodou de maneira que ficasse em cima do mastro, produzindo movimentos de fricção enquanto se beijavam luxuriosamente. De repente, Kovu rolou seus corpos, de modo que ficasse por cima.
— Prometo que não irei embora antes de algo bom acontecer. – beijou a clavícula da princesa, antes de fita-la seriamente. Era uma visão que nem em 100 anos esqueceria, ela entregue entre suas pernas, nua, sob a luz dos astros noturnos. Estaria mentindo se dissesse que não havia sonhado com isso também, mesmo desfrutando de belas camponeses e nobres em sua terra inglesa. – Preciso que fique relaxada agora, você quer que eu a torne minha? – indagou, sentindo com o próprio membro o quão molhada ela estava. Kiara mordeu o lábio inferior e assombro se passou por seus olhos, não tinha dúvidas de que o queria, mas aquilo mudaria tantas coisas... E ela ainda era uma princesa! Mesmo que por essa noite fingisse que não o era. – Eu preciso que me consinta.
— Sim. – respondeu sem pestanejar.
— Então, eu a farei minha, Alteza. Venho ansiando por muito tempo o momento em que meu caule descerá ao teu. – disse sensualmente. – Kiara, você vai sentir um pouco de dor, mas não se contraia, amor. – alertou, percebendo pânico em suas feições. – Não se preocupe, se sentir muito incômodo, eu irei parar, está bem? – ela assentiu. – Arranhe minhas costas para aliviar a dor. – Kiara achou o ato estranho, mas posicionou os dedos nas costas do exilado.
Kovu se posicionou melhor entre as pernas da mulher com delicadeza, seu pênis completamente ereto, os dois tremiam em ansiedade. O exilado acariciou os cabelos da princesa e depois masturbou a cabeça do pênis da entrada da intimidade até o clitóris inchado, esfregando-se demoradamente ali, queria que ela estivesse bem-preparada para recebê-lo. Então, sem mais delongas, Kovu a penetrou até sentir o limite de sua virgindade. Kiara soltou um gritinho de surpresa e fincou as unhas na carne do rapaz.
— Confie em mim, serei o mais gentil dos cavalheiros. – sussurrou no pé do ouvido dela e a olhou, seu semblante estava um pouco tenso, mas nada como as demais garotas com quem dormira pela primeira vez, Kiara parecia confiar nele.
— Eu confio. – ela soltou o mais confiante que pôde, Kovu recebeu as palavras como uma carícia ao ego. O membro ainda mais latejante queria seguir adiante, e assim o fez. Kiara sentiu o momento em que ele atravessou sua membrana e o sangue escorreu, foi dolorido, ela soltou um granido de dor. – Pode esperar um pouco? – a voz esganiçada se controlava, tentando esconder a presença de uma lágrima solitária que escorria do olho direito. O exilado tremia, queria muito se movimentar, ela era tão apertada e delicada, seus instintos diziam para agir brutalmente, mas Kovu respeitaria o tempo que lhe pediu. – Pode prosseguir. – ela indicou, após alguns segundos se acostumando com aquele homem dentro de si.
Ao mesmo tempo que ele se movimentou, a princesa arranhou mais suas costas, Kovu achou justo e sentiu até certo prazer. Kiara percebia uma energia diferente tomando conta de todo local, era doce, lasciva e calma ao mesmo tempo. Kovu tinha a mesma sensação ao preenchê-la, era quente e acolhedor como estar em casa ao lado de uma lareira depois de vários dias na labuta. Os dois se observaram por alguns segundos e beijaram-se sofregamente, é como se uma saudade avassaladora e repentina tivesse se apossado deles, mesmo que estivessem unidos ao limite humanamente possível. Queriam mais, e não parecia bastar o fato de Kovu estar dentro dela, suas línguas travavam uma batalha feroz enquanto o moreno se movimentava languidamente sem recuar o membro. O príncipe dos exilados deslizou a face até ombro da mulher, beijando o local; em seguida, entrelaçou seus dedos e ergueu ambas as mãos acima da cabeça dela.
— Kovu... – gemeu seu nome novamente com os olhos fechados e ele nunca mais quis ouvir o som de seu nome de outra forma. Com um senso de urgência, Kovu saiu quase completamente dela e a penetrou novamente com mais força. – Eu... Como é bom... Isso... – suas palavras eram desconexas, intercaladas pelos suspiros de prazer.
— Kiara... – ele também chamava por ela, a cada estocada queria ir mais profundamente, precisava desvendar aquela mulher e o feitiço que fizera para querê-la mais do que o ar que inalava.
As respirações estavam aceleradas, os corações disparados, os gemidos de ambos formavam uma canção ardente na calada da noite. Ambos sentiam estar no limite do prazer, não queriam se liberar, aquele momento precisava se fazer eterno, porém, Kovu ia mais rápido e estimulava seu botãozinho com o dedo, de modo que Kiara não conseguiu se aguentar. Com um gemido alto, ela derramou seu mel, suas paredes se apertaram e o homem tendo o membro estimulado daquela maneira, não resistiu e num urro gutural derramou sua semente dentro dela. Os amantes chegaram juntos ao ápice. Os dois completamente extasiados sentiam os membros pulsando e a pele formigar em prazer, nunca tiveram em suas vidas uma noite parecida. Ficaram assim pelo que pareceram longos minutos, não queriam deixar-se, mas seus corpos pareciam tão anestesiados e pesados para qualquer movimentação, que duvidavam conseguir. Então, Kovu reuniu toda a força restante e jogou-se ao lado de Kiara no emaranhado de roupas.
— Vossa Alteza teve uma performance invejável ao esplendor do brilho da lua que paira sob nós. – Kovu soltou alguns instantes depois, e Kiara riu tímida.
— E o senhor é o mais afável dos amantes. – a jovem mulher rolou parte do corpo até encontrar o dele e deitar a cabeça sob o peito forte.
— Como sabes? Se fui teu primeiro... – indagou com divertimento.
— Coisa de princesa, apenas sei. – riram. Kovu acariciava as costas nuas de Kiara, traçando linhas invisíveis por sua extensão e percebeu satisfeito que ela ainda se arrepiava ao seu toque. Ela também deslizava os dedos pelo peitoral do príncipe numa carícia preguiçosa e tomava os suspiros como sinal de aprovação.
Não demorou muito até que princesa e exilado adormecessem enroscados um no outro, foram vencidos pela exaustão e descansaram em paz e felicidade plena. Não houve movimento algum na Terra que conseguisse perfurar aquela bolha de tranquilidade em que se encontravam.
***
[FIM DA PARTE HOT]
(Broken Crown – Mumford & Sons)
Kovu caminhava mascarado pelos corredores do castelo, estava a uma honra do amanhecer. Algumas pessoas embriagadas passavam com seus amantes até os quartos, mas de modo geral, estava bastante vazio. O exilado havia acabado de deixar sua princesa no quarto real e prometeu que se esconderia na clareira da floresta, onde não o achariam facilmente, e pelo entardecer, ela o encontraria para pensarem no futuro. O problema é que Kovu era um estrategista, não gostava de depender da sorte, do acaso e de incertezas. E a questão deles era insolúvel, estavam apenas se enganando ao prometerem que após uma noite de sono tudo estaria mais claro. Kiara se recusou terminantemente a fugir, disse que precisavam ficar e unir seus povos novamente. E ele sabia disso, queria mais do que tudo, mas havia um empecilho para que suas vontades se concretizassem. Simba.
O rei jamais poderia saber que Kovu voltou e não daria sua bênção para a filha casar-se com o inimigo, de qualquer forma. Kiara ignorava propositalmente esse ponto, iludindo-se. Ele foi tolo de retornar, sabia que não teria forças para resistir quando a visse. E agora que provara da sensação de amar e ser amado, não conseguiria se afastar novamente.
De repente, lembrou-se do plano inicial por um segundo, e notou o quanto se afastou da ideia original e, ao mesmo tempo, estava muito perto de concretizá-la. Kiara era sua, tinha sua plena confiança, todos achavam que ele estava morto e Kovu tinha acesso ao castelo. Ademais, por ironia, seus pés o levaram até o aposento de Simba sem que ele tivesse consciência do que fazia. A porta estava semiaberta e pelo feixe conseguia enxergar o rei sozinho e podia ouvir a voz pastosa, proveniente da embriaguez. Estava fácil demais, tentador demais. Entretanto, não poderia atingir Simba sem machucar Kiara. Por outro lado, o coração de Kiara também estaria ferido sem seu amor, e ele já não podia viver sem ela. Simba era um rei ilegítimo, um tirano, uma pedra no sapato que atrapalhava seus planos por completo. Kovu já mentira, fora soberbo e luxurioso, será que sua alma aguentaria o peso de mais um pecado? Será que Kiara o perdoaria, sabendo que um bem maior viria por tal feito? Não, a princesa jamais o amaria e ele não suportaria que a princesa o rejeitasse. Suspirou profundamente, tendo em consciência de que não poderia ter tudo.
***
O sol despontava vermelho sangue no horizonte, os padeiros que festejaram na noite anterior mal descansaram e já se aprontavam para a cozinha. A névoa da manhã se alastrava da grama e até as paredes frias e pedregosas do castelo, cobrindo a vista de curiosos madrugadores. Porém, do alto do terceiro andar, na ala dos nobres, foi possível avistar um pontinho vermelho caindo desenfreadamente como um saco de farinhas até o chão, aterrissando próximo a uma macieira. Foi um baque estrondoso, de cortar a alma, como uma peça delicada que se estilhaça ao atingir o piso. Da mesma janela pela qual o pontinho despencara, era possível ouvir um grito estridente e feminino. Alguns auxiliares da cozinha aproximaram-se vagarosamente e completamente aterrorizados, uniram-se em coro ao grito da rainha conforme constataram que o corpo enxague exposto no chão pertencia ao rei.
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