A princesa e o gladiador
6 Capítulo 5: O calabouço de Iyerck
O calabouço de Iyerck
Ao se passar por um portal o corpo sofre de um breve apagão, o efeito dura não mais que um piscar de olhos. De um instante para o outro, a fachada da biblioteca formada por pedras lisas desapareceu dando lugar a um ambiente escuro e malcheiroso.
No centro de um imenso pátio estavam o grupo de soldados equipados juntamente com o garoto de cabelos negros.
— Pronto, siga-me garoto. — Graham avançou junto com a comitiva de soldados, Sieghart estava cercado e logo foi obrigado a caminhar na mesma direção que o grupo. — Você têm ideia do que fez? Sabia que sequestrar um membro da família real é um crime passível de execução imediata? — As passadas ecoavam pelo salão.
O jovem não podia enxergar muito bem as coisas ao seu redor, os homens altos e de armaduras completas obstruíam-lhe a visão, porém quando ergueu o olhar deparou-se com um lugar se afunilava a medida que subia, uma espécie de pirâmide subterrânea. Diversos níveis iam se destacando cada um com uma iluminação diferente.
Respirações pesadas e cheiro de suor impreguinavam os corredores, o piso mesmo brilhante como prata parecia imundo como um chiqueiro. Cada passo dado para frente fazia o jovem de madeixas negras sentir-se mais e mais vigiado, e de fato estava. Além dos soldados que o escoltavam muitas figuras escondidas nas sombras de suas celas o fitavam com desejos quase sexuais.
— Você vai ficar aqui no primeiro piso. Dentro deste lugar você vai refletir por algumas encarnações.
Sieghart e Graham estavam frente a frente, o soldado de barba e cabelos dourados o encarou por um momento tentando estudar suas reações. O garoto permaneceu em silêncio.
— Não vai falar nada? — O guerreiro abaixou-se para falar com o garoto. — Vai simplesmente ir para a cadeia sem reclamar?
— Sieghart, — Respondeu ele levando o punho fechado ao peito. — Esqueci de dizer meu nome para você naquele dia. Aliás — Apontou para o grupo de guerreiros ao seu redor. — estes é que são seus guerreiros Graham?
— Sim, eles adoraram o urso. — Apontou para uma cela a esquerda.
O pequeno espaço possuía poucos metros e parecia ter sido palco de uma guerra de tão sujo e fedido que estava. Embora os carceres próximos estivessem vazios o jovem sabia que logo teria companhia.
— Uma prisão não deveria possuir grades? — Sieghart constatou a falha estrutural ao adentrar no confinamento.
— Claro que possui, — Respondeu o líder do pelotão estalando os dedos. Ao fazê-lo, barras de aço rígidas obstruíram a saída. — acho que melhorou; bom as regras daqui são as seguintes: o horário de almoço é quando o sol centralizar no hall, o jantar quando o raiar da lua adentrar pelo quinto nível. E o PvP é apenas um contra um.
— PvP? — O termo lhe causou estranheza.
— Prisioneiro versus Prisioneiro.— Esclareceu Arteep, o braço esquerdo do líder. — É melhor respeitar as regras se quiser se manter com vida, baixinho.
O garoto abriu um sorriso falso e foi até o fundo de sua cela. O grupo começou a retornar para o centro do salão, mas de todas sombras que antes ali estavam, apenas uma restou.
— Por que não contou o que houve? Você e eu sabemos que você não fez nada, porque ficar aqui se pode acusar a princesa de tê-lo arrastado?
— Sua sobrinha é encantadora sabia? Mas é apenas uma garota inocente com um sorriso no rosto. — O jovem não se virara. — Não sei porque, mas eu não consigo colocar a culpa nela, mesmo sabendo que estou certo. Além disso não tenho muito o que fazer na cidade.
Era dever do líder da guarda zelar pela preservação do sangue real, na ocasião em que se encontrava o garoto não poderia permanecer solto. O primeiro ministro fora aquele que convocara seu grupo e suas ordens de contenção eram absolutas até mesmo sobre a da pequena Mari. A decisão da prisão de Sieghart poderia ser revogada, porém isso demoraria, e até lá ele deveria permanecer preso.
— Ela é doce como o primeiro floco de neve a cair em uma nevasca. Nem te conhece e já confiou plenamente em você como amigo. — O líder ameaçou sair mas deteve-se. — Aqui dentro os prisioneiros não são muito tolerantes a novatos confiantes e arrogantes, quando lutar tente não ser chamativo. Os únicos que eles temem somo nós, os guerreiros da guarda.
Graham saiu da ala se encontrando com seus companheiros no centro da prisão piramidal. O jovem Sieghart não os viu partir, mas soube que eles se foram pelo brilho do portal que adentrou o corredor.
— Droga menina; princesa ou não eu vou acabar com você da próxima vez que te vir. — Bateu a cabeça levemente na grade. — Será que ela vai tomar alguma bronca? Espero que não.
Dez minutos se passaram e o sol raiou no centro da prisão; luz no piso, múrmuros baixos elevaram o tom, uma histeria se iniciou. Por todos os andares se ouviam gritos e batidas nas grades.
— Carne nova!
— Humano, macho e jovem!
Esses e outros gritos chegavam até o jovem deixando-o apreensivo. Não sabia como os almoços eram distribuídos e muito menos por que aquela agitação acontecia. Em sua cabeça martelavam as palavras “quando lutar” e “PvP”
— Trim queria ser um guerreiro de Calnat, um gladiador. — Olhou para cima. Teto de rocha sólida. — Estou embaixo do lugar onde você treinaria meu amigo.
Um brilho atravessou os corredores, algo fora transportado.
O jovem ainda não vira, mas no mesmo lugar onde o grupo a principio chegara surgira várias cestas de alimentos, em cada uma delas era marcado a identificação de qual ala era destinada os alimentos. Porém ali dentro a civilidade era algo completamente desprezável e tola, se alguém quisesse realmente se alimentar era preciso ser rápido e preci so em seus movimentos.
Uma voz soou por todas as paredes da cadeia.
“O almoço foi servido, as celas serão liberadas em dez segundos”
Ainda agarrado a grade Sieghart não sabia o que iria de fato ocorrer, no entanto, em seu âmago tinha um palpite, uma suposição que seria horrível se fosse verdade. As grades desapareceram de um instante para o outro fazendo o garoto desequilibrar-se e cair de bruços no corredor.
“Vocês têm exatamente dez minutos para o almoço” — Soou novamente a voz disforme.
Desnorteado pela queda súbita o jovem virou-se para o corredor que dava para o centro da prisão. Lá viu uma imensa quantidade de feras se amontoando e se esbofeteando por um espaço entre as cestas. Eram trolls, goblins, anões, elfas e outros tipos de seres que o garoto não pôde reconhecer. Em meio a grunhidos de agonia e alguns esporádicos golpes na criatura ao lado, eles se alimentavam.
— Saiam agora vermes! — Gritou uma voz do alto.
Em um baque rápido uma figura laranja e gorda aterrizou sobre o piso do salão central, sua forma corpulenta, porém musculosa, denotava que a fera se alimentava bem e praticava constantes exercícios físicos. O hobgoblin de quase dois metros passava a imponência a todos os demais demonstrando claramente ser o líder da cadeia, seu salto de metros era impressionante até mesmo para os seres alados ali confinados. A natureza da espécie era, em geral, pacifica e amistosa. Porém ele era diferente, pois se ali estava confinado, não foi por algum feito bom.
— Senhor Iyerck, temos um recém chegado. — Um goblin de cerca de um metro e meio se aproximou do monstro com um cesta cheia de maçãs. — Ele foi escoltado por toda a equipe do guerreiro-ave.
— Então aquele cheiro de covarde medroso era do Gram, interessante... — Levou a mão cheia de frutas da cesta a boca. — onde ele está? Em que ala? Humano apareça!
Sieghart se escondeu dentro de sua cela, porém as grades não mais existiam e qualquer um que por ali passasse poderia vê-lo, e foi justamente o que ocorreu. Desarmado e sem qualquer rota de fuga o jovem foi levado até o saguão central.
— Um moleque? Porque esse pirralho foi trazido para o calabouço de Iyerck? — O monstro fez a referência a síim mesmo na terceira pessoa. Estalou os ossos das mãos de quatro dedos. — Diga-me criança, quem é você e por que está aqui?
— Iyerck, certo? —
— Sim? — A fera respondeu com a boca cheia de alimentos de outra cesta.
— Não sou obrigado a te dizer minhas razões e muito menos meu nome. — O jovem se desvencilhou dos seres que o seguravam pelos braços. Seu jeito ríspido fez todos os detentos se calarem. — Espero ter sido claro.
Os olhos arregalados da fera o encararam, a boca parou a mastigação da carne que encontrara. A surpresa do chefe era nítida, ver alguem tão novo e recém chegado o desafiar daquela forma era algo intolerável. Caso fosse benevolente seu respeito ali dentro poderia se perder.
— Insolente, gosto disso... — Balançou o indicador em sua direção. — O problema é que aqui os insolentes não vivem muito sabia?
O jovem percebeu que um anão próximo de sí sacara da cinta uma faca improvisada de uma rocha lapidada, aguardou o ataque com paciência e cautela. O ser diminuto se aproximou com um salto tentando ferir o torso de Sieghart, no entanto, sua investida não teve sucesso. A pedra afiada encontrou o vazio e com um movimento rápido o jovem agarrou a arma da mão do atacante e o chutou para longe fazendo se encontrar com a parede mais próxima em um baque estrondoso que abalou todos os níveis.
— Pronto, agora eu tenho uma arma. — Inverteu a pegada da faca, seu olhar de guerreiro encontrou-se com os de Iyerck. — Posso comer algo, ou vou ter de derrotar um por um até sobrar tudo para mim?
O monstro sorriu, era deveras intrigante ver aquele pequeno garoto agir como um experiente assassino, mesmo que este fosse só um “moleque”.
— Largue a arma e vamos aproveitar esse oito minutos restantes para um PvP. — O hobgoblin esticava as costas enquanto sinalizava para os subordinados afastarem os alimentos e dividirem-nos igualmente entre sí.
— Estou bem confortável com essa arma aqui, se tiver algo com que possa me enfrentar não farei objeção.
A cadeia veio à baixo e um ovacionar típico de quem assiste a uma batalha dentro de um coliseu, mas naquele caso os combatentes eram de duas raças distintas e seu público era diversificado. Os espectadores subiram para um nível acima do que estavam, de lá um anão lançou um martelo de guerra de quase um metro de tamanho e que deveria pesar ao menos três vezes o total do garoto.
— Eu fico confortável com essa. — Anunciou o monstro girando a arma. Olhou malicioso para o jovem. — Ei criança, vamos começar?
Sieghart colocou a faca entre os dentes e postou-se como um animal prestes a avançar em direção a sua presa, seu coração acelerou e seus olhos se focaram nos movimentos do inimigo a frente. Este iniciou uma investida em sua direção, inicialmente a besta armada com o metal pareceu lenta. Porém em um piscar de olhos o jovem viu a distância entre eles desaparecer e o martelo descer sobre sí.
— Uma ilusão de falsa velocidade. — O jovem desviou em um movimento de cambalhota para trás. Tentou golpear o inimigo com um soco, porém o mesmo desviou em um movimento rápido de agachamento. O jovem recuou cinco metros. — Alguém aqui sabe brigar, só me pergunto como você conseguiu manter esse martelo dentro de uma prisão.
— Não é da sua conta. — Girou a marreta pegando mais impulso para acertar o garoto.
O jovem não se esquivou, o equipamento de aço veio da esquerda para a direita em alta velocidade. Com a faca na mão ele segurou o golpe parcialmente, a pedra lapidada transformou-se em pó e o martelo encontrou-se com o braço do jovem. O estalo do encontro da arma com o braço do garotou foi audível. O corpo de Sieghart foi arrastado uns cinco centímetros para direita até parar.
— Iyerck sinto dizer, mas seus ataques são tão gentis quanto a brisa do mar...— Falou Sieghart com um sorriso estampado na face.
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