A princesa e o dragão
2 Capítulo 2: Idiotas nunca desistem (Hazel)
— Até quando aquele idiota vai continuar te perseguindo?- Eu pensei em voz alta, sem realmente esperar que a Luna ouvisse ou respondesse.
— Ele não é assim tão ruim, Hazel.- É, pelo jeito ela me ouviu.
— Ele mal te conhece e ainda assim está tão desesperado para sair com você. Isso só pode significar uma coisa.
— ... Você acha que é só por causa disso que eu atraio os garotos?- Ela me perguntou com um bico e eu não resisti a sua fofura. Baguncei o cabelo loiro dela.
— É claro que não, né. Mas nós duas sabemos que você tem um azar surreal com homens e só atrai o tipo cafajeste.
Ela desviou o rosto emburrada, mas não respondeu porque sabia que eu estava certa.
A verdade é que eu e a Luna nos conhecemos desde os 12 anos, quando nossas mães se tornaram amigas, e até hoje de todos os namorados que ela já teve nenhum prestava. Até que eu decidi dar um ponto final nisso e cuidar para que ela não voltasse a namorar nunca mais. Ou pelo menos até a gente se formar. Ou o final da faculdade. Depende se ela vai deixar de ser tão inocente até lá.
— Ei, vamos passar na livraria depois da aula? Hoje vai chegar um volume novo de Nagoya Ghoul! Eu preciso ir lá comprar!
E lá ia ela, já parecendo toda animada de novo. A Luna parecia com um bichinho de estimação as vezes. Ela desperta nas pessoas esse desejo de protegê-la, então eu entendo porque tem tantos garotos a fim dela. Mas aposto que eles não imaginam que ela na verdade é um otaku viciada. Ou que ela acredita ferrenhamente que aliens são reais e estão infiltrados entre nós. Essas partes mais esquisitas dela a Luna geralmente guarda para mim.
Tanto quanto eu gosto que sejam segredos que ela só confia para mim, eu também queria que ela não tivesse vergonha dessas coisas. As vezes ela se apega demais a essa imagem de “princesinha” que os outros construíram para ela.
— Certo, vamos passar por lá.
— Oba! Você é a melhor, Hazel-chan!
Eu ri com o apelido e guiei nosso caminho de volta para a sala. O intervalo estava acabando e nossa próxima aula começaria em breve.
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A verdade é que eu nunca soube muito bem como agir como uma garota. Minha mãe morreu pouco depois de eu nascer e eu cresci com meu pai e dois irmãos mais velhos. Quando um garotinha tem irmãos mais velhos eles normalmente assumem uma entre duas posturas: se tornam supreprotetores e não querem que ninguém se aproxime de sua irmãzinha ou então são verdadeiros idiotas implicantes e tratam ela como se fosse um irmão e não uma irmã.
No meu caso, eu ganhei dois do segundo tipo. Talvez eu tenha me aproximado tanto da Luna porque ela é, ao menos a primeira vista, exatamente o que eu sempre imaginei que uma garota deva ser: bonita, fofa, doce e feminina. E talvez eu seja tão protetora perto dela porque quando eu era pequena eu gostaria que meus irmãos tivessem sido mais protetores comigo.
Mas já chega de toda essa psicologia. O fato é que por causa da minha criação eu tive que aprender a me virar e me defender sozinha. Eu comecei a treinar judô e a me destacar mais nos estudos. Sinceramente é bem melhor assim. No passado eu era apenas uma criança, mas a Hazel de hoje detestaria depender de alguém para protegê-la.
— Ei, Hazel? O sinal já abriu.
— Ah, desculpe, Luna. Eu me destrai por um momento.
Nós atravessamos a rua e paramos bem em frente à loja de mangás favoritos da Luna. Ela deu uma grande inspirada, como se pudesse realmente sentir o cheiro de seus mangás favoritos, e então nós entramos. Haviam prateleiras e prateleiras de mangás e outros livros em japonês e coreano. A Luna imediatamente saiu saltitando por ai e eu deixei ela se divertir. Enquanto isso foi para uma seção no canto da livraria, onde ficavam os exemplares de mistério e terror.
Alguns deles até que eram bem interessantes e eu me distrai lendo as sinopses até uma voz infantil ao meu lado chamar minha atenção.
— Esse dai é muito assustador! Você não vai conseguir dormir se ler de noite!
Eu me virei e encontrei uma garotinha, de uns onze ou doze anos, usando maria-chiquinha.
— Ugh. Não se preocupe, eu não tenho medo dessas coisas...- Droga, eu sou péssima com crianças. Será que se eu olhar para o outro lado ela simplesmente vai embora?
Coloquei meu plano em prática, mas a tal garotinha continuou parada lá e depois de uns instantes eu desisti e me virei para ela.
Ela me encarava com um olhar admirado.
— Meeeeesmo? Como você é tão corajosa?
— Deve ser porque eu sou mais velha...
— Nem pensar! Meu irmão tem a sua idade e ele tem mais medo dessas histórias do que eu!
— É mesmo...?
— É.
— ...
— Você achou alguma coisa, Haz?
Eu me virei para a Luna, que entrava no corredor. Ufa, ela vai poder me salvar.
— Sim, eu achei...
Ela deve ter notado meu pedido de ajuda silencioso pois piscou os olhos duas vezes e depois abriu um sorriso simpático para a criança.
— Oi, como você se chama?
— Alicia.
A garotinha, Alicia, olhou para o exemplar de Nagoya Ghoul na mão da Luna e sua boca se abriu em um “O”.
— Você também lê Nagoya Ghoul? Que legal! Qual o seu personagem favorito?
E assim foram as duas. Perdi a conta dos minutos em que elas conversaram sobre o mangá enquanto só entendia parcialmente o que elas estavam dizendo devido a vezes anteriores em que a Luna me contou fatos sobre Nagoya Ghoul. Enfim a garotinha falou:
— Ah, você gosta do Ash? Então eu tenho que te mostrar uma coisa! Vem aqui!
A garotinha segurou a mão da Luna e saiu arrastando ela. Foi a vez da minha amiga me dar um sorriso nervoso pedindo ajuda e eu acompanhei as duas com um suspiro.
Nós fomos para uma porta nos fundos da loja que parecia muito um lugar exclusivo para funcionários, mas a Alicia entrou com tanta convicção que eu nem perguntei nada e só a segui. Dentro havia o que parecia uma mistura de escritório e depósito, com uma mesa grande e várias caixas espalhadas. Havia apenas uma pessoa na sala: um garoto vestindo uma fantasia, de costas para nós. Eu reconheci, pelos desenhos dos mangás da Luna, que era um dos personagens do Nagoya Ghoul. Provavelmente o tal Ash.
— Uau!- A Luna exclamou.
E então o garoto se virou. Cabelos castanhos, olhos grandes e abobalhados, pele morena. Eu tive que fechar os olhos por um segundo e abri-los de novo para ter certeza do que eu estava vendo.
É claro, o idiota do Leon aqui, na mesma loja que eu e a Luna, vestido em uma fantasia de um personagem de anime. Sinceramente, quais são as chances?
— L-Leon?- A Luna perguntou, quase ao mesmo tempo em que o idiota falava:
— L-Luna? E Hazel...
Eu revirei os olhos.
— Ué, vocês se conhecem?- Alicia perguntou com inocência. O que é bom porque significa que ela não tinha planejado nada daquilo e eu não precidaria ficar irritada com uma garotinha.
— É... Nós estudamos na mesma classe.- Disse o Leon.
— Ah! Então você é amiga do meu irmão?
— Ele é seu irmão?- A Luna perguntou se abaixando um pouco para ficar da altura da Alicia, como havia feito quando conversou com ela antes, e intercalando o olhar entre os dois irmãos.- É verdade, vocês são parecidos!
Eu pude ver claramente o vermelho subindo em câmera lenta no rosto do Leon quando a Luna deu um daqueles sorrisos adoráveis dela. Fechei minhas mãos em punho e me adiantei para perto deles.
— E o que você está fazendo vestido assim?
— Ah, isso?- Se ele já não estivesse corado, tenho certeza que coraria de novo. Aquele idiota fica vermelho com uma facilidade assustadora para alguém de pele morena.- Eu estou fazendo um trabalho temporário para a loja.
— Meu irmãozão está fazendo cosplay para ajudar a vender os mangás e as roupas da loja! Não é legal? Quando o senhor Adel me perguntou se eu conhecia alguém para o trabalho eu sabia que o Leon seria perfeito. Ele até parece com o Ash, não acha Luna?
Senhor Adel era o dono daquela loja, disso eu sabia. Aquilo também deixava claro que a irmã do Leon era uma cliente frequente. Eu me surpreendi que nunca tivesse encontrado com ela ou com o Leon lá antes.
A Luna se afastou um passo e encarou lentamente e com intensidade o idiota do basquete, dos pés a cabeça, como se o analisasse. Eu quis dar um tapa na testa com quão inocente ela era. Ela realmente não via como o Leon interpretaria aquilo na mente dele?
— Não, não parece nenhum pouco. O Ash é muito mais bonito que isso.- Eu disse sem pensar e três pares de olhos se voltaram para mim.
— Mas da última vez você me disse que não achava o Ash bonito...
— Para você ver.
— Ei!- Veio a vozinha infantil e eu olhei para baixo.- Não pode falar do meu irmão assim! O Leon é bonito! Muito bonito!
Certo. Tudo bem, eu não devia ter falado mal do Leon na frente da irmãzinha dele. A tal Alicia teve razão de ficar brava. Mas, por outro lado, eu não conheço muitos irmãos que abertamente defenderiam uns aos outros assim... Certamente não os meus. Eles provavelmente ajudariam a me provocar.
— O que eu quis dizer é... O Ash tem cabelo azul e o Leon é moreno...
— Ah! Então você gosta de garotos de cabelo azul?- Perguntou a Alicia e o Leon começou a rir da minha cara. Um segundo depois a Luna se juntou a ele.
Por algum motivo aquilo era tão absurdo que antes mesmo que eu percebesse eu estava rindo junto com eles e a Alicia também. Pouco depois o Leon cessou os risos aos poucos e me encarou surpreso.
— O que foi?- Eu perguntei.
— Nada. É só que eu acho que nunca tinha te visto rir antes.
Eu desviei o olhar porque aquelas palavras, ditas daquela forma calma e surpresa, eram estranhamente constrangedoras.
— Por que eu riria perto de você afinal?
Ele só deu de ombros. Então a porta se abriu e um homem mais velho, com uns quarenta anos, acho, espiou para dentro.
— Você está pronto, Leon... O que vocês estão fazendo ai, meninas?
— Senhor Adel! Elas são amigas do Leon.- Disse a Alicia.
— Amigas do Leon?- O homem coçou a cabeça.- Eu não sabia disso. Desculpe, mas vocês não podem ficar aqui, é só para funcionários.
— Ah, tudo bem. Desculpe.- A Luna disse apressada.- Tchau, Leon, te vejo na escola. E tchau, Alicia, foi muito legal te conhecer!
Eu sorri e acenei uma despedida para os dois e eu a Luna pagamos o mangá dela e voltamos para casa.
—- // --
No dia seguinte nós tivemos um teste surpresa na escola. Não foi um problema para mim, pois eu costumo estudar para me manter em dia com a matéria, mas a Luna ficou um pouco desesperada. Ela não é má aluna nem demora para aprender, pelo contrário. Ela consegue entender a matéria rápido, mas é preguiçosa, por isso sempre deixa para estudar nas vésperas das provas. Ou seja, ela não sabia nada da matéria e com certeza se ferrou no teste. Por sorte ela também é fácil de se consolar, tudo o que precisamos fazer foi tomar um sorvete na sua sorveteria favorita.
O real problema surgiu uma semana depois, quando a professora responsável pela nossa classe entrou com as provas corrigidas.
— Muito bem, crianças. Eu trouxe o resultado dos testes de vocês, e também vim fazer um anúncio importante. Alguns de vocês podem estar se perguntando o motivo de terem feito essa prova surpresa tão de repente e agora eu vou responder. Nossa escola está adotando um novo sistema experimental esse ano, com os alunos do primeiro ano do ensino médio. De acordo com os resultados dessa prova vocês serão divididos em grupos de estudo. A partir de hoje e até o final do ano vocês devem estudar juntos, apoiar uns aos outros com suas dificuldades e também fazer trabalhos em grupo em conjunto.
Imediatamente os burburinhos começaram. Ninguém pareceu ter gostado muito daquilo, pelos mais diversos motivos, e eu também me incomodei. Eu gosto de estudar sozinha, ou com a Luna, e de escolher com quem eu vou fazer meus trabalhos... Tudo isso vai ser só uma complicação a mais.
— Ei, ei, se acalmem.- A professora continuou.- Eu tentei ser razoável e deixar vocês juntos com seus amigos. Mas também tive quer ser justa e misturar os alunos que se destacaram mais com aqueles que precisam de ajuda, para que esses grupos de estudo tragam resultados positivos. E antes de serem contra a ideia vocês precisam saber que um quinto da sua nota final em todas as matérias vai depender de quanto vocês todos conseguiram se ajudar, então levem isso a sério.
O que? Agora sim houve reclamações em alto e bom som e eu mesma não pude me manter calada, especialmente quando eu ouvi o Jessen, um garoto idiota que senta atrás de mim, dizer:
— Isso ai. Agora os nerds vão fazer todo o trabalho pela gente.
— Professora!- Eu me levantei da cadeira.- Isso não é justo. Nossas notas deveriam depender apenas de nós mesmos!
Ela virou para mim com um sorriso cansado.
— Eu entendo como está se sentindo, Hazel, mas não é assim que as coisas funcionam. Vocês estão crescendo e precisam começar a entender como o mundo adulto funciona. No futuro vocês vão trabalhar em equipe e o resultado da equipe vai depender de cada um de vocês e de como conseguem cooperar uns com os outros.- Ela suspirou.- É claro que se tiverem grandes problemas ou se algum membro se recusar a participar vocês podem falar comigo e nós tentaremos resolver.
Eu me sentei, contrariada. O que ela estava falando podia até ser verdade, mas eu ainda não gostava nem um pouco daquilo. Para piorar, a Luna do meu lado estava conversando com uma outra garota da turma sobre como aquilo seria divertido e como nós teríamos chance de conhecer melhor uns aos outros. Acho que ela captou meu olhar, porque se virou para e me deu um sorriso que dizia: “Não vai ser tão ruim, por que você não dá uma chance?”.
Eu desviei o olhar. Bem, não importava o que eu achasse, eu ainda teria de fazer aquilo. Então eu daria meu melhor para que minha equipe trabalhasse bem em conjunto e todos se saíssem bem nas provas. Talvez eu até aprendesse algo com aquilo, afinal. É, talvez a Luna estivesse certa. Não podia ser tão ruim assim.
Foi o que eu pensei por uns vinte segundos, até a professora começar a anunciar os grupos e chamar:
— Grupo três: Hazel, Leon, Owen e Luna.
Por que eu sempre acabo com aquele idiota?
Foi tudo o que eu consegui pensar por um instante. Então a Luna se virou para mim com um sorriso que envergonharia o Sol.
— Ei, Hazel! Nós ficamos juntas! Isso é ótimo não é?
Por um momento eu não reagi. Só agora eu percebi que também estava no grupo da Luna, o que de fato era muito bom. Por que eu me foquei tanto no fato do Leon também estar no grupo? A única importância dele era o fato dele não parar de perseguir a Luna há semanas... Eu estava deixando ele subir demais a minha cabeça.
— É.- Eu sorri.- É muito bom.
— Hazel, Luna. Nós estamos no mesmo grupo.
Eu levantei o olhar e encontrei com o do Owen. Ele estava com a mesma expressão meio indiferente que ele parece sempre ter, até seu tom de voz é sempre calmo. Bem, ele de fato é inteligente. Até mesmo eu posso acabar pegando umas boas dicas estudando junto com ele. E atrás dele... O Leon, é claro. Por que alguém esperto como o Owen é tão próximo do Leon é algo que eu nunca vou entender.
Aquela altura nossa professora já havia terminado de falar e todos estavam se reunindo em seus respectivos grupos, então nós quatro arrumamos as cadeiras para ficarmos uns voltados para os outros e nos sentamos.
— Bem... Acho que nós devíamos marcar um horário e local para nos encontrarmos regularmente...
O Owen tomou a iniciativa em falar, o que por si só deveria demonstrar que algo estava errado. Ele também parecia desconfortável com a situação e eu parei para imaginá-la como ele deveria estar vendo: o Leon, que de alguma forma acabara sentado ao lado Luna, mandando corações voadores para ela com o olhar e com um sorriso bobo no rosto. Eu mesma com uma expressão nada boa voltada para o Leon e provavelmente uma aura negra ao meu redor. E a Luna entre nós dois fingindo que nada disso está acontecento e tentando agir normalmente.
Isso me fez perceber que, tristemente, eu era a que estava sendo mais imatura e tornando aquilo difícil para todos então respirei fundo e me forcei a me acalmar.
— Sim, boa ideia. Tem um café aqui perto que abriu há pouco tempo. Podemos nos encontrar lá.
— Café?- O Leon perguntou, a atenção finalmente saindo da Luna e vindo para mim.- Qual o nome?
— Tea&Cream?- Eu falei, embora parecesse mais uma pergunta pois eu fiquei surpresa pela súbita empolgação dele com o assunto.
— Owen!- Leon gritou e puxou o outro garoto de lado, pelo pescoço, no que ele deveria pensar que era um abraço.- Não é o café que a sua irmã abriu? Vamos lá sim! Vamos ser os primeiros clientes!
— O café já abriu há um semana, idiota. Como você quer ser o primeiro cliente agora?- O Owen sussurrou.
O Leon só riu em resposta. Era estranho como ele estava sempre rindo. Como ele podia levar a vida tão levianamente? Ele não tinha nenhuma preocupação ou problema?
— É uma ótima ideia!- Disse a Luna, juntando as mãos como se batesse uma palma.- Podemos ir lá amanhã? Às 16h?
— Parece bom.- Eu concordei e os meninos também.
E assim nosso encontro estava marcado e eu só podia esperar que tudo desse certo.
Mas é claro, com Leon Serrandes envolvido no meio, esperar que tudo desse certo era pedir demais.
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