A PRINCESA E A ERVILHA

- Oi! Será que eu posso usar o seu telefone? Meu celular está sem bateria e... Bem, estou um pouco perdida. Preciso chamar um táxi. — Sorriu.

Ethan Saint Clair mediu a garota a sua frente com seus olhos: Estava encharcada, a roupa colando em sua pele morena, o cabelo escorrendo por seus ombros e testa e apertava os braços em volta do corpo magro. Sua mãe sempre dizia para não abrir a porta a estranhos, mas ela parecia ridicularmente inofensiva.

- Claro, entre.

E era isso. A garota — sem um nome, até agora — pegaria o telefone, chamaria um táxi e seria só mais uma das milhares pessoas que passaram pela vida do pequeno Saint Clair. Acontece que o universo não deixaria isso acontecer, e em algum lugar ali perto, uma árvore foi derrubada pelo forte vento que chicoteava lá fora e caiu, precisamente, sobre os fios de telefone da torre mais próxima.

O loiro pegou o telefone.

- Ahn, está sem linha. Bem, sente-se, você pode esperar a chuva passar aqui.

Ela sorriu sem graça.

- Acho que se eu sentar, seus móveis vão apodrecer.

Ethan se assustou com o comentário, mas riu. Arrumou o óculos de armação preta e grossa sobre o nariz, sorrindo.

- Vou te arrumar uma toalha.

Saiu por alguns minutos, e quando voltou encontrou-a olhando curiosamente as fotos sobre a lareira. Colocou a toalha sobre seus ombros. Ela estremeceu. Era bom sentir algo quente e felpudo depois de água gelada e vento.

- Que família bonita — Ela se virou — Obrigada.

Ele se curvou, olhando as fotos e ficando da altura da morena.

- Obrigado. Aliás, meu nome é Ethan — Apontou para uma foto com dois garotos em uniformes de futebol — Esse é meu irmão, Étienne. Ele está estudando em Paris agora.

- Meu nome é Melody Jones. Pode me chamar de Mel.

- Quer um chá, Mel?

- Adoraria.

Ethan fez chá e trouxe biscoitos polvilhados com açúcar. As roupas de Melody continhavam molhadas, mas seu cabelo começava a se secar, mostrando os cachos na altura do ombro e uma franja descontraída e reta sob as sobrancelhas.

- Como veio parar em Lyon, Melody?

- Estou estudando em Marselha, mas decidi fazer uma pequena viagem no fim de semana. Tudo aqui é tão lindo! — Sorriu — Eu vim do Novo México, sabe? As coisas lá são bem diferentes.

- Ah, já fui ao Novo México!

- Mesmo?

As luzes de repente se apagaram, o drama do momento se acentuando com o som forte de um trovão lá fora. Ethan se levantou e voltou alguns minutos depois com duas velas. Parou na porta, observando a estranha. Olhava com admiração para as fotos espalhadas pela sala, sorrindo para si mesma, a xícara de porcelana entre os dedos finos. Estava descalça, o jeans úmido, o suéter creme escurecido pela água. A toalha sobre os ombros. O grande casaco negro jogado no chão, ao lado da bolsa e da alpargata.

Recostou-se no sofá, olhando-a vagar pelo aposento mal iluminado. Seus cabelos adquiriam um tom entre o castanho e o ouro sob a luz das velas, a pele clara reluzia.

- Espero que não se importe. Você sabe, uma estranha presa na sua casa, rondando pela sala olhando as fotos. Devo parecer meio maníaca, não?

Ethan riu.

- Só falta tirar uma serra elétrica da bolsa.

Mel se virou para ele.

- Na bolsa só tenho um livro e lembrancinhas.

- Que livro?

- Um de poesias. Você não deve gostar.

- "Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida e para quando morrer, não descobrir que não vivi."

A morena ergueu as sobrancelhas.

- Henry David Thoreau... Uau.

- Trabalhei por um ano em uma biblioteca, para ter dinheiro para viajar. Mas já gostava de ler.

Melody olhou em volta. A sala era grande e bem mobiliada, e ela desconfiava que o quadro sobre a lareira era de algum pintor promissor que cobrava caro. Ethan não parecia ser o tipo de garoto que precisava trabalhar para ter o que quiser.

Ethan pôde adivinhar o que passava pela mente da estranha a sua frente. Era o que todos pensavam. Os Saint Clair eram uma família muito bem de vida, obrigado, mas seus filhos tinham um caráter de ouro. Étienne, dois anos mais velho, estudava medicina em Paris, e pagava seus estudos com uma bolsa de jogador. Ethan trabalhara como bibliotecário enquanto terminava o ensino médio, para então tirar um ano de férias e poder conhecer o mundo.

- Não gosto de depender das pessoas. Mesmo dos meus pais. Então sim, trabalhei por um ano para me sustentar em um ano de viagem.

- Um ano? — Ela bebeu o último gole do chá.

- Vem aqui. — A morena se sentou ao seu lado — Agora sim. Viajei por um ano, pelo mundo inteiro. Conheci os índios de Amazonas, no Brasil. Os esquimós e seus iglus, no Ártico. Fui à Tailândia, ao Egito e a Angola. A Nova York também, e à Rússica e ao Japão.

Ethan contou um pouco de cada lugar. Contou como se sentiu pequeno ao lado da estátua do Buda, e como era apertado o seu quarto no Japão. Contou que queria provar cada comida, cada cultura, cada momento.

No fim, Melody contou como era a cidade em que vivia no Novo México. Contou como deu duro para conseguir estudar Astronomia em Marselha, como era ter quatro irmãos e como odiava café.

Eram parecidos entre as imensas diferenças. Se Ethan pensava ter encontrado só mais uma garota que se perdera para ir a uma festa, se enganara tremendamente. Conversaram sobre livros, filmes, política e comida. Riram até que as velas quase se consumissem, e só pararam quando a porta da frente se encancarou.

- Oh, Ethan! Você não disse que chamaria uma amiga!

A mulher alta entrou, fechando o guarda-chuva em suas mãos.O homem grisalho atrás dela, fechou a porta.

- Por que estão com as luzes apagadas? — Mexeu no interruptor, acendendo as luzes.

Os jovens perceberam que, tendo se distraído com a conversa, não notaram quando a luz voltou.

- Helena! Eles podiam estar no meio de algo romântico aqui! — O homem coçou os olhos — Olá filho, olá...

- Melody — Ela se levantou, o rosto totalmente vermelho — Na verdade eu e seu filho nos conhecemos hoje. Não! Espera, não assim. Eu estudo em Marselha, e me perdi quando a chuva começou. Acabei na sua porta, mas só ia chamar um táxi...

- O telefone ficou sem linha, pai. E ela não podia ficar lá fora com essa chuva.

- Oh, é claro que não! — A mulher se adiantou — Sou Helena. Esse é Aaron. Somos os pais de Ethan. Você ia chamar um táxi? Podemos te dar uma carona até a estação.

A morena calçou os sapatos, desajeitada.

- Não seria incômodo?

- Claro que não! Não é, Aaron?

O homem acenou.

- Nos dê alguns minutos, e te levamos.

***

A viagem até a estação de trens foi tranquila. Conversaram amenidades e chegando lá, Melody conseguiu uma passagem para o trem das sete e meia.

Quando saíram da lanchonete, faltavam quinte minutos para a partida. Melody agradeceu a cortesia e educação dos Saint Clair e pretendia entrar no seu vagão. Ethan a puxou, dispensando os pais com um olhar. Mexia em uma linha solta na ponta de seu blusão azul e volta e meia despenteava mais seus cabelos loiros.

- Então é isso.

- É isso. — Ela respondeu.

Ethan Saint Clair havia viajado por todo o mundo. Conhecido mais do que a maioria das pessoas teve a chance de conhecer. E só agora, com uma garota estranha do Novo México, é que conhecia o amor. Viajara o mundo procurando se sentir completo, mas só agora, com Melody Jones se despedindo, se sentia totalmente completo. Era como se a ida da garota levasse um pedaço de si mesmo.

Não fazia sentido. Os dois se conheciam a menos de três horas. Três horas em uma casa sem luz, mas cheia de histórias.

- Não faz sentido, Melody Jones.

- O quê, Ethan?

- Se me permite adaptar William Sheakespeare: Tarde demais a conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-la, amei-a profundamente.

Antes que Mel pudesse responder, Ethan a beijou.

E por mais que o príncipe procurasse o amor, só o encontrou quando a princesa bateu a sua porta.

FIM

Notas finais
E é isso. E sim, o nome "Étienne" eu tirei do livro "Anna e o beijo francês", e "Melody Jones" é uma referência a Doctor Who (Melody de Melody Pond, e Jones de Martha Jones).

Elogios, críticas e tudo o que há no meio, só comentar.
Sério, comentem. A cada comentário, um escritor ganha mais um ano de vida.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!