A princesa de Krósvia
9 Um baile real. Parte 2 + Aspirante a Lady Di 1
Notas iniciais
Ruby percebeu a mudança do clima, minha mãe percebeu, vovó Nanci percebeu, acho que todo mundo notou. Mas eu fiquei de boca fechada, não por medo de Nome de Cachorro, e sim porque ali não era lugar para descarregar a bomba. Porém, o baile perdeu a graça para mim.
Mesmo a banda tocando lindamente e todas as outras pessoas sendo simpáticas e amáveis comigo, fui murchando e perdendo as energias pouco a pouco. Lacey conseguira estragar minha festa, literalmente.
Mas eu tive que resistir, com bravura ainda por cima. Teve uma hora em que todo o restante parou para meu pai e eu dançarmos pelo salão. Não me lembrava dessa parte no script de Irina. Roxa de vergonha, dancei — ou melhor, tentei dançar — uma valsa nos braços de David, coisa que eu não fazia desde... nunca. O que era aquilo, uma festa de debutante?
Depois de nós, os convidados sentiram-se animados para fazer o mesmo. De repente, o centro do salão havia se transformado numa grande pista de dança e o povo aproveitou. Eu também, mas para escapulir à francesa. Dei um perdido em todo mundo, até em Ruby. Necessitava de solidão.
Escapei até o jardim do castelo e me esgueirei entre os canteiros de flores. Eu ainda não sabia o nome delas, mas estava apaixonada por todas. Uma coisa era certa: assim que voltasse para o Brasil, teria meu próprio jardim na varanda de meu quarto.
Baixei meus dedos até as pétalas e as acariciei. Um gesto quase automático, mas que me fez relaxar um pouco. E colocar a cabeça no lugar. Eu não sairia correndo da Krósvia só por causa de Lacey, só porque ela estava cismada comigo. Isso era problema dela.
Fazia frio do lado de fora do castelo. Era outono na Krósvia. Senti meu corpo se arrepiar ao ser envolvido por uma brisa gelada. Estava na hora de entrar.
— Por que está sozinha aqui
A brisa fez meu corpo tremer. Aquela voz injetou calor em minhas veias. Como eu poderia ignorar a dona dela?
Mudei de posição para não olhar para ela. Não queria que ela lesse em meus olhos toda a minha agonia.
— Vim tomar um ar, respirar um pouco. Estou cansada.
— Está frio e seu vestido é meio... pelado — Ela notou. — Vista esse casaco. — Ela estendeu a mão com o casaco que segurava.
— Não! — quase gritei. — Quero dizer, não precisa. Já vou entrar.
Regina fingiu que não me ouviu. Mee envolveu no casaco sem minha permissão. Não sei o que mexeu mais comigo: 1, seu gesto, 2, o cheiro dela no casaco, ou 3, o breve encontro de seus dedos com minha pele.
— Você está bem? — ela quis saber, procurando meus olhos.
— Só cansada, como já disse — suspirei, inalando ainda mais o aroma de maçã que exalava de sua roupa. Não mencionaria minha conversa com Lacey. Não queria resgatar aquilo naquela hora.
Regina sorriu.
— Caso você não saiba, fiquei orgulhosa de ver você hoje. Não sei se aguentaria firme, como você fez. O cansaço agora é mais que natural.
Para tudo! Regina estava me elogiando!
Ela percebeu meu espanto e continuou.
— É sério. Esteve demais, Emma.
— Obrigada. Vindo de você, esse elogio tem uma conotação muito maior.
— Como assim? — ela franziu a testa. — Vindo de mim?
— Ah, não se faça de boba. Temos nossas diferenças, não é?
Ela ficou ainda mais séria.
— Temos, é? Não sabia.
Pronto! Agora, aquela. Como se nunca tivéssemos discutido nem nada.
— Regina, por favor... Lembra quando a gente se conheceu? Lembra da cena na biblioteca, das palavras que me disse na cozinha, na frente da Cora? Garanto que não estou inventando.
— São águas passadas, Emma. Eu não conhecia você direito — justificou-se e fez aquilo de novo, quero dizer, o que sempre fazia quando ficava desconfortável: passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os um pouco. — Mas agora tudo mudou.
— Mudou, é? Que bom! — Tentei parecer tranquila, indiferente. Mas meu peito palpitava. Que espécie de conversa estávamos tendo? Seria minha imaginação ou havia um clima de flerte no ar?
— Claro! — ela garantiu. — Temos saído juntas e eu pude ver que você é uma mulher maravilhosa. Gosto do seu jeito, da sua maneira natural, dos seus ataques de sinceridade. Você é divertida e me faz rir.
Corei. Aquilo não era uma declaração de amor nem nada, mas servia. Regina gostava de mim! Então, não era um avanço?
Andei um pouco entre as flores, afastando-me de Regina para tomar fôlego. Eu havia acabado de escutar todo tipo de asneira da namorada dela. Não tinha nada que ficar praticamente flertando com Regina pelo jardim. Se eu fosse mais esperta daria no pé o quanto antes.
Mas quem disse que eu era? Quis ficar para ver aonde tudo ia dar.
— Sabe, Regina, quando soube que era filha de um rei, meu mundo virou de cabeça para baixo. — Senti-me compelida a abrir meu coração. O momento se revelou muito adequado. — Eu jamais esperei conhecer meu pai, muito menos receber uma mensagem dele pelo Facebook.
— Então, essa parte da história não é lenda? — debochou ela.
— Não. Foi assim mesmo.
Meus pés latejavam dentro da sandália nova de salto dez. Precisei me sentar um pouco para dar conforto a eles. Ainda bem que o jardim era contornado por bancos.
— Minha mãe mentiu para mim a vida inteira — assumi, aconchegando-me ainda mais no casaco dela. — Segundo ela, meu pai sumiu no mundo quando soube da gravidez. Mas, na verdade, quem sumiu foi ela, e sem contar a ele que seria pai. Ela tentou se proteger e preservar a imagem da família real da Krósvia ao mesmo tempo. Não fosse o David ter me achado, eu jamais estaria aqui.
Regina também se sentou. No entanto, continuou calada, incentivando a continuação do meu discurso.
— Fazia séculos que eu havia parado de desejar ter um pai. Quando era pequena, pensava nisso o tempo todo. Mas eu cresci e abri mão. Deixou de ser importante.
— Até o David aparecer — Regina concluiu por mim.
— Sim. Ele chegou metendo a cara, cheio de certeza, e mudou meu mundo. De uma hora para outra, eu me vi diante do meu pai, e um pai que não era qualquer um, não. Simplesmente o rei de uma nação europeia, um cara poderoso, influente e... perfeito. Regina, eu esperei 20 anos para conhecer o homem que me deu a vida!
— Não deve ter sido fácil.
— Pior que não mesmo. Mas eu não pedi tudo isso — fiz um gesto com os braços, como se estivesse abarcando tudo ao meu redor. — Você pode não acreditar, mas o fato de o David ser um rei é um mero detalhe para mim. Não foi esse fato que me fez amá-lo.
Regina segurou minha mão e ficou massageando o dorso com o polegar. Minúsculos cristais de gelo acertaram minhas entranhas, fazendo-me ter um calafrio, uma onda súbita de prazer.
— Eu sei — ela disse, bem baixinho. — O David é um dos homens mais íntegros que conheço.
— É. Ele é demais, com sua honestidade, bondade, paciência. Eu fiquei louca por ele e foi impossível negar seu pedido, mesmo tremendo nas bases de tanto medo.
Regina franziu a testa.
— Que pedido?
— De vir passar uns meses com ele aqui — esclareci. Apesar de parecer segura, minha voz saía meio entrecortada devido ao frenesi que os dedos de Regina estavam provocando em meu corpo. — Eu não queria vir, mas todo mundo ficou insistindo para eu vir. Ninguém me entendeu...
Regina subiu as carícias da mão para o pulso. Aquilo era tortura. Imagina se Lacey resolvesse aparecer por ali. Entenderia tudo errado. Bom, eu mesma não estava entendendo muita coisa...
— Então, termina a história. Você não queria vir, mas as pessoas acharam que deveria.
— Resumindo tudo, sim. Relutei bastante, mas vim. Morri de medo de não conseguir me comunicar, mas graças a Deus todo mundo neste país é fluente em inglês. Bom, quase todo mundo. — Lembrei-me de Kristof. Figuraça. — Fiquei insegura quanto à recepção das pessoas, à reação de todo mundo, e quebrei a cara de novo, no bom sentido, pois fui muito bem tratada. Estou sendo, quero dizer. Não tenho do que reclamar. — Exceto por Lacey. Mas isso eu não disse em voz alta.
Regina assentiu, meio encantada.
— A Cora, o Killian, o Daniel, a Irina... Olha só o que ela faz comigo! Levantei-me e contornei meu corpo com as mãos. Caso não tenha entendido, estava me referindo a meu visual elegante e fashion.
— Atesto para os devidos fins que as intervenções de Irina são de muita valia — brincou. Os olhos dela adquiriram um brilho felino ao visualizarem minha aparência.
Senti meu rosto arder. Eu estava me arriscando demais ficando sozinha com Regina por tanto tempo naquele jardim.
— Você não contou o que pensa de mim — ela protestou, batendo com a palma da mão no banco, exigindo que eu voltasse a me sentar a seu lado. — Babou no David, elogiou o povo todo do castelo. Não sobrou nada para mim?
Eu poderia dar várias respostas. Ou nenhuma. Mas eu precisaria buscar a verdade lá no fundo de minha alma e estar de peito aberto para aceitar a realidade. Quem procura demais acaba encontrando e eu tinha receio de não gostar do que veria.
— Eu ainda não tenho uma definição específica a seu respeito. — Resposta mais em cima do muro impossível.
Regina se sobressaltou.
— Sério? Nossa, estou me sentindo rejeitada.
Bem feito. Quem mandou ser tão volúvel? Ou bipolar, na pior das hipóteses.
— Sério, Regina. Embora a gente esteja tendo uns momentos legais, como agora, por exemplo, ou quando a gente sai por aí e você me apresenta todas as facetas da Krósvia, há momentos em que você se retrai, fica vaga, até rude. Ainda não consegui te desvendar direito.
— Isso quer dizer que você está tentando? — arriscou ela. — Tentando me desvendar?
— Ah, não fique convencida! — Voltei a ficar de pé. — E está na minha hora. Nosso batepapo foi ótimo, mas tenho que ir.
Não consegui ir muito longe. Regina prendeu meu braço com seus dedos e me fez ficar paradinha perto dela. Depois, esticou-se até ficar de pé. Eu sou alta. Para a maioria das mulheres no Brasil, ter 1,70 metro é um privilégio. Por sorte, Regina deve ter uns bons 10 centímetros a menos, senão estaríamos cara a cara, com as bocas tão próximas que seria impossível não tentar beijá-la.
— É impressão minha ou você está tentando fugir de mim, Emma? — questionou Regina, maliciosa como ela só.
— É impressão minha ou você está tentando me confundir, Regina? — devolvi a pergunta, mas não esperei a resposta.
Soltei meu braço abruptamente, retirei o casaco de meus ombros — mesmo sofrendo muito para tomar essa decisão, pois ele já estava se tornando parte de meu corpo — e tratei de fugir dali. Regina era uma ameaça à minha saúde mental — e talvez até corporal, já que Nome de Cachorro deixara meio implícito que não se acanharia em acabar com minha raça caso eu me engraçasse para o lado dela.
Mas, pelo menos, descobri o nome do que eu vinha sentindo por Regina. Paixão. E por pior que fosse — na verdade é —eu consegui admitir isso pra mim, mas estou correndo um enorme risco de me machucar gravemente.
***
Que saudade do anonimato! Ser uma pessoa pública implica privação — e invasão — de privacidade, além de desestruturar uma vida das mais pacatas, como a minha. Comecei a ter ideia da enormidade da situação no dia seguinte à cerimônia de apresentação. Eu bem achando que poderia dar uma volta pelo Centro de Perla com mamãe, vovó e Ruby, como se fosse uma turista feliz, mas David e Irina cortaram meu barato assim que mencionei a possibilidade.
Meu pai perguntou se eu queria ser atropelada pelas câmeras dos jornalistas ou pisoteada pelos curiosos de plantão, que não desgrudavam da entrada do Palácio Sorvinski desde a noite anterior. A guarda do castelo teve que ser reforçada com mais nem sei quantos homens fardados e eu fui terminantemente proibida de sair desacompanhada. Por desacompanhada, entenda-se sem um ou dois guarda-costas truculentos.
Preciso confessar um fato por demais vergonhoso. A gente não deve rir da desgraça alheia, pois há sempre um imenso risco de que ela recaia sobre nós mesmos. É o que está acontecendo comigo. Nunca critiquei tanto uma pessoa como fiz ao ver a Xuxa, numa foto feita por um paparazzo, passeando por um shopping no Rio de Janeiro com seu yorkshire vaporoso e dois armários ambulantes ao lado dela. Pois é. O fato vergonhoso é que agora eu tenho meus próprios armários: Zlafer e Boris.
Resultado dessa medida disparatada: decidi que era melhor ficar em casa, na segurança de quatro paredes, do que sair e ser seguida por duas sombras gigantescas, de terno preto e óculos escuros. Nem se eu me chamasse Stefani Joanne Angelina Germanotta, vulgo Lady Gaga, eu desejaria isso para mim.
Mas, tadinhos, até que Zlafer e Boris eram gente boa. Nunca falavam nada, não me interrompiam jamais. Só ficavam parados, como duas estátuas. O problema eram o tamanho e a envergadura deles. Imaginem aqueles lutadores de MMA, as Artes Marciais Mistas. Então... É bem sinistro.
Sendo assim, em vez de passar dias agradáveis ao lado de mamãe, vovó e Ruby, andando despreocupadamente pelas ruas da capital, tive que me contentar com as imediações do castelo. Ou seja, foi um tédio só, até porque as três puderam aproveitar a liberdade delas, enquanto eu fiquei de castigo dentro de casa.
E tem gente que gosta de ser famosa.
Não demorou nada e minhas três convidadas brasileiras já estavam de partida. Por pouco não entrei em depressão, porque foi muito ruim vê-las indo embora e me deixando para trás. Quase desejei nunca ter sido encontrada por meu pai. Eu disse quase.
Acabei estabelecendo uma rotina bem caseira: acordar por volta das 9h, levantar às 9h30, tomar café na cozinha com Cora, caminhar na praia com Pongo, dar um mergulho e pegar um pouco de sol — quando o tempo ajudava, porque, como já disse, estávamos no outono —, voltar para casa, tomar um banho, almoçar com Irina e, às vezes, com David e Killian, me enfiar na biblioteca e passar as demais horas do dia entocada, vivendo a vida através dos livros.
Havia dias um pouco diferentes. Eram aqueles em que eu me arriscava a cozinhar um pouco com Cora. Da última vez, ensinei-a a fazer brigadeiro. Acredita que ela não conhecia esse doce tão popular no Brasil?
Eu ainda estava devendo a feijoada para tia Ariel. Mas nossas agendas — quero dizer, a dela, a de meu pai e a de Eric — cismavam em não combinar.
Pelo menos eu recebia algumas visitas, especialmente de meus primos com cara de anjo — só cara mesmo, e também do Henry, filho o Killian, que eu estou apaixonadíssima. Mas a companhia deles era deliciosa. A gente se divertia horrores fazendo brincadeiras pelos incontáveis aposentos do castelo. Eu nem sabia que gostava tanto de crianças.
Outro dia, Grace me fez passar horas debaixo de uma cabana improvisada, feita com lençóis e pregadores de roupa, lendo para ela um livro com apenas a luz de uma lanterna. Acabei dormindo sem terminar a história. Já Laxie gostava de conversar e fazer perguntas, algumas um tanto constrangedoras, como querer saber com quantos anos dei meu primeiro beijo e em quem foi. Menti dizendo que foi aos 15 anos, mas, na verdade, meu primeiro beijo rolou aos 13, com um colega de escola. Detestei, principalmente porque ele usava aparelho e eu fiquei com um pouco de nojo, com medo de ter algum resto de comida agarrado nele. Eu sei. É nojento da minha parte, mas foi esse meu pensamento na hora. Fazer o quê?
Agora, Neal era um caso à parte. Ele era esperto, agitado, inteligente. Era necessária muita energia para acompanhar as peripécias do garoto. Até o Pongo se rendeu numa dessas ocasiões e desistiu de nos acompanhar numa ida à praia. Claro. O menino não deu sossego para o pobre cachorro.
No fim de dias como esses, era gostoso contar com a companhia de tia Ariel. Era sempre ela quem buscava os meninos e aproveitávamos esse tempo para nos conhecer melhor. Ela era tão jovem e engajada! Eu adorava ouvir suas histórias, principalmente sobre as meninas do orfanato onde ela trabalhava como voluntária.
— Você podia ir lá conhecer, Emma — ela me convidou, enquanto tomávamos um maravilhoso café da tarde no terraço.
As crianças perambulavam por perto e, de vez em quando, beliscavam alguma coisa.
— Jura? Nossa, tia, eu adoraria! Não aguento mais ficar presa aqui, com aqueles dois trogloditas atrás de mim. Uma visita ao orfanato seria maravilhosa.
— Então, a gente pode combinar isso direito. É claro que preciso falar com seu pai e ajeitar tudo, de modo que você não corra riscos — disse ela, prevenida. — E podemos fazer isso quanto antes. As meninas gostam tanto de visitantes, especialmente de moças bonitas como você. E famosas. Pensa que elas não sabem?
Sorri. Mas estava com dor na consciência. Tia Ariel estava ali, toda solidária e dedicada, mesmo cheia de trabalhos e compromissos profissionais e pessoais. Eu sempre fui meio indiferente, não daquelas que chutam mendigos na praça, mas entre participar de ações solidárias e dar dinheiro, normalmente optava pela segunda alternativa. Conhecer o orfanato feminino poderia significar um recomeço.
— Eu topo! Mas acho melhor você falar com o David. Ele anda muito protetor ultimamente.
— Com razão, não é?
E foi assim que nasceu minha nova missão. Do nada, eu deixei de ser expectadora para me tornar gente que faz. Ou que tenta, pelo menos.
Meu pai achou a ideia excelente. Encaixava-se direitinho com o futuro que ele almejava para mim: eu definitivamente instalada na Krósvia, realizando atividades condizentes com o papel de princesa, sendo sua representante na comunidade. Através de seus sonhos, eu me via vestida com um tailleur¹ cor de pérola e coque no cabelo, quase uma Lady Di, com uma única diferença: o comprimento dos cabelos. Ah não, duas: não existia um príncipe em minha vida.
Mas David quis articular tudinho do jeito dele. Quem disse que ele não poderia se tornar um pai impositivo? Foi assim:
1º: Nada de chamar atenção. A visita não seria divulgada para não alarmar a imprensa, e todos os envolvidos — inclusive as freiras do orfanato — deveriam manter a máxima discrição. Credo, pai, duvidar de irmãs de caridade? Essa foi demais.
2º: Daniel não seria o motorista da rodada, porque já estava ficando visado. Tia Ariel também não poderia me apanhar no castelo, pois pareceria suspeito. Achei essa lógica um pouco estranha. Tia Ariel ia muito ao palácio. Sua presença não levantaria suspeitas. Mas, enfim...
3º: Regina me levaria, mas não na BMW S1000RR, por razões que nem vou me dar o trabalho de explicar. O fato de ela ser figurinha constante no castelo lhe dava a invisibilidade necessária para não chamar atenção. Portanto ela, eu e vidros fumês éramos a equação perfeita.
Pena que, na prática, a continha maluca de meu pai tivesse um denominador fora do lugar.
No dia marcado para a visita ao Lar Irmã Celeste — sim, Celeste; a freira que dera nome ao orfanato não era krosviana —, Regina apareceu de carro. Não entendo muito de marcas, mas sei reconhecer uma bela máquina. Regina surgiu num Audi R8 (li o nome na traseira) prateado, com óculos escuros Ray Ban no rosto e uma Lacey muito empertigada no banco do carona. Quase não acreditei no que meus olhos estavam enxergando. Desejei nunca ter combinado nada com tia Ariel.
Respirei fundo umas cinco vezes para não perder meu autocontrole. Já era difícil ter consciência de que Nome de Cachorro vivia no mesmo planeta que eu, imagine dividir espaço com ela num carro apertado por quase duas horas (só de ida), sem mencionar o tempo que passaríamos no orfanato. Eu não merecia aquele castigo. Em quem eu deveria colocar a culpa por aquela mocreia estar estragando meu dia? Em Regina, no destino, em Deus?
Que saco!
Regina saiu do carro e deu um sorriso torto. Fiquei sem ar ao vê-la de jeans preto surrado, camiseta branca , casaco de couro — vermelho — e botas — Aquilo não era uma mulher. Estava mais perto de uma deusa grega, ou que tal uma galã de cinema meio Angelina Jolie? Hum...
Nossos olhares se encontraram de um modo caloroso e, mesmo que as lentes dos óculos estivessem bloqueando a visão dos olhos dela, pude sentir a atração.
— O que é isso? — ela perguntou, desviando o olhar para o pacote que eu levava nos braços. Custei a raciocinar e entender a que ela havia se referido. Dei pela coisa uns bons segundos depois da pergunta.
— Brigadeiro — esclareci sucintamente. — Estou levando para as meninas do orfanato.
Regina fungou em cima do embrulho para sentir melhor o aroma do doce. Mas foi o cheiro dela que prevaleceu. Para mim, pelo menos.
— Hummm... Parece bom — observou. — Posso provar?
E, antes que eu respondesse, ela já estava enfiando a mão no embrulho. Sem pensar, dei um tapa nela, como as mães fazem com as crianças gulosas que não conseguem esperar a hora dos parabéns para comer as guloseimas.
Acho que minha atitude irritou Lacey profundamente, pois ela abriu a porta do carro e saiu de lá pisando duro.
— Ei, amor, anda logo! Esqueceu que não temos o dia todo?
Para tudo! Em primeiro lugar, quem mandou a lambisgoia nos acompanhar? Ela que ficasse em casa tomando martíni com cereja numa taça de cristal. Ou fosse trabalhar, já que era uma grande executiva. Em segundo, como assim amor? Vai ser brega assim lá na casa do chapéu!
Bem feito. Regina se voltou para ela, mas abriu a porta para mim. Um a zero, cachorra magrela!
Acenei freneticamente para Irina e Cora, que, zelosas como elas só, acompanhavam minha saída. No fundo, elas ficavam com pena de mim, pois sabiam como eu detestava viver presa.
Ajeitei-me no banco de trás do carro de modo que não conseguisse enxergar o rosto de Lacey pelo retrovisor. Acabei focalizando a linda carinha de Regina. Mas baixei os olhos para não provocar a garota histérica, que fez questão de segurar a mão direita de Regina enquanto ela manobrava o carro.
— Santa insegurança! — murmurei em português. Aliás, que ideia brilhante! De agora em diante eu xingaria Nome de Cachorro quanto quisesse, mas sempre em minha língua nativa. Ninguém ia nem perceber.
Mas as mãos não ficaram juntas por muito tempo. Regina soltou a dela para mexer no aparelho de som e sintonizou uma música que eu conhecia da frente para trás e de trás para a frente.
Olho a cidade ao redor
Eu nunca volto atrás
Já não escondo a pressa
Já me escondi demais
Eu vou contar pra todo mundo
Eu vou pichar sua rua
Vou bater na sua porta de noite
Completamente nua
Quem sabe então assim
Você repara em mim
Ofeguei. Que Ana Carolina era uma cantora maravilhosa e amada pelos brasileiros — pelo menos os de bom gosto —, todo mundo sabia. Ou melhor, nós, do Brasil, sabíamos. Mas Regina conhecer ela e ainda ter o CD no próprio carro?
— Regina, que música é essa? — quis saber Lacey, mas não de um jeito “surpresa agradável”. — E em que língua horrorosa a mulher está cantando?
Ah, não! Agora ela tinha extrapolado. Porque tudo bem EU às vezes xingar o bendito ser que criou a língua portuguesa e sua gramática complicada. Mas eu posso, pois falo português desde que saí da barriga de minha mãe. Ou melhor, desde uns nove meses depois disso, vá. Mas ela...
Aproximei-me do banco do motorista, agarrando o encosto da cabeça para dar impulso, e exclamei:
— Regina, você conhece a Ana Carolina!
Regina estava se divertindo. Não deu bola para meu espanto, respondendo casualmente:
— Quem não conhece? Ela é ótima!
— Quem é Ana Carolina, gente? — indagou Lacey.
Ignoramos a dúvida de Nome de Cachorro.
— Faz tempo que você tem o CD dela? — perguntei, desconfiada. Tinha a impressão de que Regina só estava tentando me agradar.
— Não muito — ela deu de ombros.
— Você sabe o que a letra diz? — Essa pergunta eu fiz bem devagar.
Regina me olhou de esguelha, evitando encontrar meu olhar. Diante disso, levantei algumas hipóteses: Ela sabia. Se sabia, é porque buscara uma tradução para ela, pois não pronunciava nem “obrigado” em português. Se fora atrás da tradução, provavelmente queria entender a letra. E, se ficou sem graça com a minha pergunta, foi porque fizera tudo isso pensando em mim.
Ou não. Ela poderia muito bem gostar mesmo da Ana Carolina e já ter esse CD há tempos. E também ser uma mulher supercuriosa a ponto de traduzir todas as línguas que escutava — ou pelo menos as músicas. Mas por que então nunca comentara que curtia um conjunto musical brasileiro? Mistério...
— De onde é essa banda, Gina? — Lacey guinchou. Estava na cara que ela surtaria a qualquer momento.
— Do Brasil — ela e eu respondemos juntos.
Lacey fez uma careta cheia de significado, tipo “eu vou ter mesmo que matar essa garota”.
— O que diz a letra, Regina? — a doida varrida exigiu saber. Mas pela primeira vez eu estava com ela. Vamos, Regina, justifica agora?
— Sei lá — ela se esquivou, girando a chave para ligar o carro. — Como eu posso saber, Lacey? Não falo português.
—Fala de uma mulher — Resolvi explicar — Que quer chamar a atenção de alguém, pois está cansada de se esconder, no final ela diz que vai bater na porta da casa de uma pessoa, nua, pra ver se assim a pessoa repara nela.
Lacey torceu o nariz sem a menor discrição.
Por outro lado, achei que Regina ficou um pouco mais desconfortável. Para evitar faíscas assassinas em minha direção, coloquei meus óculos escuros no rosto e fingi estar concentradíssima na paisagem.
No entanto, não parei de pensar um minuto sequer em tudo o que vinha acontecendo com Regina e comigo nos últimos tempos. Olhando em retrospecto, a análise revelou elementos bastante contraditórios.
Ela já tinha me odiado — embora não admitisse —, já tinha desconfiado de minhas intenções. Também já me levara para conhecer boa parte da região de Perla e até lugares exóticos, como a Caverna do Pirata. Já me fizera rir de seu gênio sinuoso e até me protegera.
Fora sarcástica e indiferente, mas demonstrara ter senso de humor. Chegara a se emocionar, mesmo que de leve, em algumas ocasiões, como quando me contara algumas histórias ou reconhecera o colar de sua mãe em meu pescoço.
Às vezes, demonstrava gostar de mim e até me admirar e me provocava o tempo todo, fosse com palavras, fosse ou atitudes. Mas, independentemente de qualquer uma dessas supracitadas posturas, ela era sempre Regina, a Regina. Aquela que não me dava folga, que me atormentava até nos sonhos e que me fazia sentir coisas que eu nunca sentira antes.
Era por causa dela que eu andava com vontade de quebrar o nariz de Nome de Cachorro desde o dia em que a vira pela primeira vez. Aliás, Nome de Cachorro era um apelido que surgira por instinto, antes mesmo de eu conhecer o caráter podre da garota. Fui motivada por um ciúme que até então desconhecia, já que nunca fora uma pessoa ciumenta.
Afundei ainda mais no banco de trás, temendo que de repente essa paixão ficasse estampada em minha cara. Eu podia estar apaixonada, mas não admitiria essa verdade para ninguém, nem sob tortura. Já era humilhante demais gostar de uma mulher comprometida e que não sentia o mesmo por mim.
Pior foi ter que aguentar Nome de Cachorro lá na frente, fazendo carinho na nuca de Regina enquanto ela dirigia, conversando com ela em krosvi para me excluir de propósito. Antes eu tivesse levado meu iPod, só para ficar surda durante o trajeto.
Como coisas ruins tendem a demorar mais a passar do que as boas, achei a viagem lenta demais. No entanto, quando pensava que não chegaríamos jamais, avistei um portão de ferro fundido com uma placa ao lado, cujas palavras em krosvi pareceriam escritas em código, não fosse o nome Celeste. Esse eu não só consegui ler como reconheci. Estávamos, finalmente, no lar das meninas órfãs de Craiev.
Lacey desceu do carro primeiro, como se estivesse saindo da prisão, quando ia abrir a porta Regina disse:
— Emma espera.
— O que foi? — Meu tom foi de irritação. De propósito.
— A música. Eu traduzi a letra, e coloquei especialmente para você.
— Por que? — Meu coração estava a mil e Lacey estava voltando.
— Queria que soubesse como me sinto, achei que a música falaria por mim.
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