A princesa de Krósvia

11 Pescadora de coração!


Notas iniciais
VOLTEI. Demorei? Desculpem, mas ta complicado hahahaha enfim, espero que curtam, eu AMEI esse capitulo, é o meu favorito até agora, e espero que vocês gostem também, e não me matem, até porque, as coisas estão melhorando. E gente, sério que vocês querem que a Lacey morra? Ou seja abduzida? hahaha vocês são demais... vou responder os comentários que estão pendentes, desculpem a demora, mas o tempo é corrido demais... LEIAM AS NOTAS FINAIS ...

RUBY: Você vai o quê Emma?

EU: Você escutou, Ruby. Ouviu muito bem, por sinal.

RUBY: Sim, queria confirmar se ouvi direito mesmo. Então você vai trabalhar com crianças orfãs, e COM A REGINA?

EU: Meninas.

RUBY: Como?

EU: São somente meninas. — Disse, enquanto mastigava uma maçã.

RUBY: Dá pra parar de mastigar enquanto fala?

EU: Nossa, que estresse é esse?

RUBY: Desculpa. Me explica direito essa história.

EU: De novo. Ok. Vou trabalhar como voluntária, porque fiquei realmente comovida com as meninas e suas histórias de vida. Já que eu só como, leio e durmo aqui na Krósvia, fazer algo produtivo vai ser, no mínimo, uma distração. E a Regina resolveu que quer ajudar.

RUBY: E como pretende despistar os paparazzi?

EU: Decidimos que não vou sair de casa. As meninas vão vir aqui.

RUBY: Hum. Agora me fale sobre você e Regina.

Por mais que eu queria contar tudo para Ruby, ainda queria guardar os ultimos acontecimentos só para mim, não queria dividir com ninguém ainda. Nem com a minha melhor amiga.

EU: — Vamos parar por aqui, certo? Principalmente porque a conta de telefone vai chegar mordendo o bolso do meu pai.

RUBY (rindo de alívio): — Antes o dele do que o meu.

***

Na faculdade, durante as aulas do curso de Direito, eu aprendi que todas as pessoas são inocentes até que se prove o contrário. Mas, observando os rostinhos embevecidos das garotas do Lar Irmã Celeste, comecei a questionar que tipo de ser humano é capaz de abandonar seus filhos. Sim, porque penso que existem pouquíssimas justificativas, ou melhor, só uma: a morte dos pais e a total falta de parentes próximos. Qualquer outro motivo não cola.

Elas chegaram ao castelo numa van. Vestiam o uniforme do orfanato — camisa branca, saia azul-marinho plissada, na altura do joelho, casaco da mesma cor, meias brancas e sapatos pretos. Nas costas, todas carregavam uma mochilinha.

Eram apenas dez garotas, com idades entre 6 e 10 anos. Na última hora, eu disse a tia Ariel que não precisava vir com elas. Se eu e Regina não fossemos capazes de dar conta de algumas poucas crianças, como lidaria com audiências no fórum no futuro? E Regina? Se pretendia ter filhos, como faria isso?

Ficamos um dia inteiro por conta dos preparativos. Organizamos a biblioteca de modo que parecesse mais aconchegante. Regina me ajudou a escolher umas almofadas bem coloridas e fofas, que deram um ar infantil à sala. E me deixou mais surpresa por ela entender disso.

Cora preparou um banquete digno de chefes de Estado. Caprichou num cardápio com o gosto das crianças e abusou de doces e guloseimas com zero teor de nutrientes.

Por tudo isso, meu coração só faltava transbordar no peito de tanta agitação. Eu queria que as meninas gostassem de passar o dia comigo, queria que elas se divertissem e ficassem à vontade.

Portanto, desci a escadaria da entrada do castelo parecendo um filhotinho de cachorro, ou seja, só faltei balançar o rabinho — caso tivesse um, é claro. Mas antes de chegar até onde as meninas estavam, Regina me parou dizendo:

— Você vai se sair muito bem. Você é boa em tudo Emma, por que não seria hoje? — Regina chegou bem próximo a mim, e me deu um beijo no rosto.

A atitude fez meu coração vibrar, minhas pernas bambearam, tinha certeza que iria cair ali mesmo, mas antes de qualquer coisa, ela continuou:

— Você é uma princesa, não pode deixar ninguém esperando. — E seguimos para encontrar as meninas, e Deus me perdoe, mas perdi a vontade, só queria mais uns minutos a sós com Regina.

— Olá! — disse num tom alegre — Que bom que vocês chegaram!

Eu precisava fazer de tudo para não pensar em Regina.

As garotas sorriram timidamente, menos uma, que se manteve séria e deu um passo à frente. Logo deduzi que deveria ser uma espécie de líder, a que tinha a responsabilidade de falar pelas outras.

— Bom dia, princesa Emma. Olá senhorita Regina. Em nome de todas nós, eu gostaria de agradecer pelo convite — disse a menina, mais parecendo uma funcionária de telemarketing do que uma criança.

— Bom dia, minha linda. E me chame só de Emma — pedi. — É mais fácil. Também gostaria de saber o nome de vocês. Mas vamos combinar uma coisa? Cada uma diz o seu. Legal assim?

Como se tivessem combinado, as meninas esperaram a líder falar primeiro.

— Eu sou Sofia. A Ariel pediu para eu tomar conta das outras. É que eu já tenho 10 anos e sou a mais velha do grupo.

— Que ótimo, Sofia! É uma responsabilidade muito grande. Parabéns. — Regina disse, estendendo a mão para a menina de 10 anos como se ela tivesse 20.
Ela esboçou uma risada, deliciando-se com o elogio.

Em seguida, uma a uma, todas foram se pronunciando, não apenas revelando os nomes — alguns mega difíceis de pronunciar —, mas também complementando as apresentações com pequenos comentários sobre assuntos diversos. Achei tão divertido...

— Princesa Emma, as irmãs pediram que entregássemos isto para você. — Sofia retirou da mochila um embrulho impecável, feito com papel azul e fita amarela.

Peguei o pacote de suas mãos e, com cuidado, retirei a fita adesiva que prendia as laterais do papel. Lá dentro, havia uma toalha de banho branca, com meu nome bordado.

— Que linda! — Fiquei emocionada com o gesto carinhoso.

— Foi a Sofia que bordou — alguém contou.

— Menina, como você é prendada! — elogiei. — Eu realmente adorei.

Regina me olhava com orgulho nos olhos, e tinha muito aprovação. Não estava ajudando.

Fiz um sinal para que elas me acompanhassem e segui ao lado das garotas em direção ao interior do castelo, enquanto Regina ia atrás.

Nenhuma delas conseguiu segurar os “ahs” e “ohs”. É a reação natural de todo mundo que entra pela primeira vez num castelo de verdade, digo, com moradores ainda vivos, se é que me entendem.

Deixei que as garotas perguntassem o que quisessem e admirassem tudo. Até mesmo eu ainda me impressionava com tanta ostentação. Teríamos o dia inteiro para ler histórias e, se elas achassem mais interessante ficar perambulando pelo palácio, eu não me oporia.

— Nós podemos ir à praia? — indagou uma delas, Karol, eu acho.

— Karol! — Sofia puxou-a pela camisa e fechou a cara para ela. Ela devia ter recebido mil vezes a recomendação de não permitir que as colegas perdessem o controle.

Mas a pequena Karol não se intimidou. — Nós trouxemos maiô. Colocamos na mochila, escondidos das Irmãs. — Ela me olhou com a carinha mais fofa do universo, dessas que fazem gelo derreter. — Por favor...

Realmente, eu havia planejado de tudo, menos levar as garotas à praia. Em primeiro lugar, não queria me arriscar caso algumas — ou todas — não soubessem nadar e acabassem se afogando. Depois, estava fazendo frio. E não há nada neste mundo que eu deteste mais do que água gelada em minhas costas. Regina viu que estava perdida, e se manifestou:

— Bom, podemos combinar o seguinte... — Regina disse, tentando ganhar tempo para elaborar uma ideia brilhante. — A gente vai à biblioteca primeiro. Quando nos cansarmos de ler, fazemos um piquenique na praia, mas sem usar roupa de banho por enquanto. Legal assim?

Ela me olhou esperando aprovação, e eu sussurrei um "obrigado" timido. Que isso Emma, já se perdeu com as meninas?

A proposta dela foi aceita com entusiasmo. Para quem não vivia rodeada por crianças, a não ser Henry, ela até que levava jeito.

Eu sabia que os livros não me decepcionariam. Por quase três horas, ficamos mergulhadas em páginas e mais páginas de ficção. Pedro Bandeira fez o maior sucesso com o grupo Os Karas, mas só com as mais velhas. As menores acabaram escolhendo histórias mais infantis e também se deixaram levar pelo mundo da imaginação.

Gosto de ler desde pequena, graças ao estímulo e ao exemplo de minha mãe. Ela sempre foi uma leitora frenética e nunca negou sequer um livro para mim. Na verdade, tomei gosto pela coisa com as revistinhas da Turma da Mônica. E não parei mais desde então.

Cora entrou com o lanche, depois voltou para buscar o que restara e, nas duas vezes, encontrou todas elas esparramadas pelos tapetes e almofadas, concentradíssimas em suas histórias. Ela apenas piscou para mim e Regina e saiu toda satisfeita, também com sua dose própria de orgulho no olhar.

Quando chegasse a hora de voltar para São Paulo, uma parte de meu coração ficaria para trás. Digo isso sem querer ser sentimental demais. O fato é que me apeguei às pessoas. Cora, Killian, Irina, tia Ariel, meus primos, as meninas do orfanato — de quem eu queria cuidar, proteger, dar carinho —, meu pai... Regina...

— Emma, você deixa a gente ir para a praia agora? Hein?

Devanear perto de crianças não é legal. Elas não esperam a gente voltar a raciocinar.

— Podemos, Emma?

— Claro que a Emma vai deixar, não é, princesa? . — Regina disse, me chamando de princesa e me fazendo tremer.

— Se vocês estiverem mesmo cansadas de ler por hoje, não vejo nenhum problema em levá-las à praia. Mas não vamos nadar, certo? E só vamos sair depois de guardarmos os livros.

Rapidamente, as meninas deram conta de organizar a sala. Quer motivação melhor que a promessa de um passeio ao ar livre na praia particular do Palácio Sorvinski?

Durante todo o momento de arrumação, senti os olhos de Regina me observando. Ela ficou parada, com um ombro encostado na parede, de maneira despojada, de olho em tudo em mim. Nem se preocupou em nos ajudar, nem disse mais nada. Só ficou lá, com aquele olhar, avaliando meus movimentos, como um encarregado de turma numa fábrica. Nem parecia a mesma pessoa de cinco minutos atrás. Bipolar.

— Você tem que trabalhar? — questionei. Sim, pois, de acordo com Nome de Cachorro, Regina já tinha perdido tempo demais comigo.

— Na verdade sim, mas prefiro continuar aqui. Tudo bem pra vocês meninas?

— Siiiiim!

— Aliás, tive outra ideia.O que vocês acham de a gente pescar? — sugeriu Regina, toda empolgada. — Conheço um lugar superlegal.

— Como assim, pescar? — perguntei, de um jeito nada atraente.

— Bom, a gente usa vara, anzol e isca e joga na água. — Regina cruzou os braços no peito e plantou no rosto uma expressão bem safada. — Se o peixe for fisgado, significa que a gente pescou. Entendeu agora?

Ela estava zoando com minha cara. Que sujeitinha mais irritante! Ou ele se achava muito engraçado, ou sabia que me afetava. Senti o sangue subir para minha face, rompendo o restante de autocontrole que eu ainda possuía. Como ela conseguia ser maravilhosa em um momento, e irritante no outro?

— Nossa! Essa piada foi hilária. Viu como eu ri? — ironizei. — Agora, vamos, meninas, senão fica tarde.

— Emma, eu estou falando sério. Quero levá-las para pescar. O lago da Caverna do Pirata é um lugar excelente para pescaria. Qual é o problema?

Pus as mãos da cintura e empinei o nariz.

— O problema, Regina, é que não dá para ir a pé até a Caverna do Pirata. E também não temos o equipamento adequado para essa atividade.

Ela não se deixou vencer. Como aspirante a advogada, meu poder de persuasão ia de mal a pior.

— As meninas chegaram aqui de quê? Numa van. — Então, ela andou até parar bem perto de mim e completou: — E o castelo tem um depósito cheio de apetrechos de pescaria. Podemos até escolher. E agora? Mais algum empecilho?

A derrotada na discussão acabou sendo eu. O que mais eu poderia alegar? Não, Regina, não vamos lá com você porque quase morro quando lembro que lá foi o primeiro lugar que fomos juntas.

Murchei os ombros, sentindo-me diminuída. Em compensação, as crianças ficaram em êxtase. Dispararam um falatório em krosvi e rodearam Regina, resolvendo deliberadamente que a companhia dela gerava muito mais diversão do que a minha.

Olhei para minhas roupas. Não eram adequadas para uma pescaria. Afinal, um conjunto de confortável foi feito para, no máximo, uma caminhada com pouco suor.
Regina, percebendo minha hesitação, questionou:

— O que houve agora?

— Nem as garotas nem eu estamos vestidas para a ocasião.

Com a paciência por um fio, Regina passou a mão pelos cabelos e suspirou:

— Emma, pelo amor de Deus, qualquer roupa serve. Vamos ficar sentadas na beira do lago, com as varas estendidas sobre a água. Não estamos saindo para mergulhar. Deixa de fazer drama.

Pronto. Agora ela tinha mexido com meu orgulho. Cadê o clima harminiozo em que estávamos?

— Tudo bem. — Virei as palmas das mãos na direção de Regina e baixei a guarda.

— Mas vamos depressa, antes que fique muito tarde.

Não preciso nem comentar que o sorriso que ela me lançou fez minhas pernas amolecerem e meu coração mudar de ritmo. Não preciso, embora não me canse de contar.

***

— Os peixes desse lago não são ornamentais?

— Não se tiverem mais de 30 centímetros. E aqui a maioria tem.

Não gosto muito de pescar porque morro de pena dos peixes. Odeio ver o anzol agarrado na boca dos bichos, o que deve causar uma dor horripilante. Mesmo quando a pescaria é do tipo “pesca e solta”, fico imaginando a sensação de ter a boca furada e ser largado de volta na água.

Mas as meninas estavam achando o máximo. Cada uma ganhou uma vara e se ajeitou em torno do lago da caverna, repetindo tudo o que Regina havia explicado a elas sobre pescaria.

Graças aos céus, o trajeto até a Caverna do Pirata fora tranquilo. Depois das primeiras semanas falando da princesa declarada da Krósvia, os jornalistas começaram a se dispersar e meu pai manteve as medidas de segurança só por garantia. Está certo que eu ainda não tinha permissão para ir e vir a meu prazer, mas só o fato de poder entrar numa van sem Zlafer e Boris já era um imenso progresso.

Achei prudente avisar tia Ariel antes de nos aventurarmos fora dos limites do castelo, mas ela concordou que fôssemos passear, especialmente porque Regina iria junto.

Ele aproveitou o percurso para contar a história do pirata Barba Longa para as garotas e elas ficaram tão ou mais impressionadas do que eu.

Sentada numa pedra, meio longe de todo mundo, como boa observadora que sou, fiquei analisando a situação, tentando ser a mais imparcial possível. Regina era mesmo uma mulher diferente. Além de todas as características que já contei e repeti não sei quantas vezes, ela também sabia lidar com crianças. Na maior paciência, ela ensinou como segurar a vara e lançar o anzol até mesmo para as menores. Quando uma delas errava, Regina a encorajava a tentar de novo. Ela evitava falar em krosvi para não me excluir, mas a afinidade que criou com as meninas levou-o a acabar se comunicando na língua materna deles, um ato inconsciente.

Tanta observação me deu sono. Eu acabei deitada sobre a pedra e nem vi quando cochilei. Só sei que tudo começou a perder o foco e as vozes foram ficando abafadas e distantes.

— Você não vai se aproveitar de mim.

Os pingos de água fria e aquela voz de general me libertaram de meu sonho recorrente. Já me disseram que podemos sonhar uma história inteira durante um sono de 30 segundos. E foi justamente isso o que aconteceu comigo. Nem bem fechei os olhos, todo aquele drama de vestido vermelho, ventania, cabelos revoltos e olhares perdidos passou como um filme em minha cabeça. Esse enredo ainda era um mistério para mim.

— O quê? — ofeguei, assustada.

— Pensa que vai ficar numa boa, dormindo por aí, enquanto tomo conta de todas as meninas?

— As meninas? — Meu susto se elevou ao cubo. — O que houve? Com um pulo, já estava de pé.

Regina começou a rir de um jeito gostoso, relaxada. Então, esticou o braço e tirou uma mecha de cabelo de meu rosto, ajeitando-a atrás da orelha. A sensação foi a mesma de ter sido eletrocutada numa cadeira elétrica.

— Calma, estou brincando. Não aconteceu nada. As meninas continuam bem ali. — Ela apontou para elas, mas continuou olhando diretamente em meus olhos. Temi que eles revelassem meu segredo mais bem guardado.

— Está na hora de voltar?

— Não. Está na hora de você tentar.

Não entendi, de verdade. Tentar o quê, minha mãe? Falar krosvi? Pilotar a moto dela? Beijá-la?

Regina pegou minha mão e me puxou consigo.

— Você agora vai pescar.

Retirei a mão e empaquei.

— Não. De jeito nenhum. Não tenho vocação para torturadora de animais. Já é bem difícil para mim ver vocês fazerem isso.

— Emma, não estamos torturando nada. É só uma pescaria. Vem. Eu te ajudo.
Com a mão mais uma vez capturada, deixei Regina me arrastar até a beirada do lago. Olhei para as garotas com cara de “socorro”, mas elas só riram de mim e nenhuma tomou meu partido. Traidoras.

— Regina, é sério, me deixe fora dessa. Além de dó, eu tenho nojo de peixe, morto ou vivo.

Ela nem ligou. Limitou-se a me repassar as regras básicas, fazendo os gestos certos de modo que eu o imitasse.

— Pensei que bastasse lançar a isca na água e esperar o peixe fisgar, se fisgar — comentei, esforçando-me para copiar o que Regina fazia. — Em Minas Gerais, um estado que eu sempre visitava, as pessoas têm o costume de ir a pesque-pagues. Geralmente, são sítios ou chácaras com lagoas e a gente tem que pagar para pescar. Se quiser, pode levar o peixe pescado para casa ou devolvê-lo à água.

— E o que isso tem de emocionante? — Regina questionou.

— Absolutamente nada. — Eu ri.

— É isso o que estou tentando dizer.

— Não, senhora. Deve ser chato pescar peixes confinados, mas esse não é nosso caso.

Olhei para o lago.

— Não?

— Emma, esse lago é formado pelo mar. Se você mergulhar nele, vai enxergar por onde a água do oceano entra.

— Sério?! — exclamei. — Que bacana!

Regina balançou a cabeça, me desaprovando como se eu fosse uma tapada de carteirinha. E eu devia ser mesmo, porque a linha de meu anzol não ficava reta nem por decreto, enquanto a dela estava esticadinha.

— Emma, você precisa fazer o movimento certo com os braços.

— Eu estou fazendo.

— Não está, não. Precisa fazer assim.

Em questão de milésimos de segundo, Regina largou seu anzol no chão e passou por trás de mim. Antes que eu tivesse tempo de raciocinar sobre o que acontecia ali, ela encostou o corpo no meu e fechou sua mão direita sobre a minha. Meu corpo inteiro se enrijeceu com o contato e eu perdi a noção do que estava fazendo.

— Levante o braço até aqui.

Com a boca a centímetros de minha orelha, seu comando soou como um mantra inebriante. Tive que lutar para não fechar os olhos e deixar meu corpo se recostar no dela. De repente, eu me tornei ultrassensível. Podia sentir todos os músculos dela e também as batidas de seu coração, além do cheiro de maçã que exalava. Tortura pura e lenta.

— Depois, lance a linha desse jeito.

Que linha? E eu lá ligava para aqueles movimentos de pesca idiotas? Se bem que era por causa deles que Regina estava grudada em mim. Acho que vou amar pescarias para sempre.

Todas as partes de meu torturado corpo começaram a dar sinal de vida. Fui ficando lânguida e muito empolgada, a ponto de quase perder a rigidez nas pernas e cair de cara no lago.

Será que Regina tinha ideia do que estava fazendo comigo? Já não era fácil quando não havia aproximação entre nós...

Mas ela não se afastou. Parecia tão entusiasmada como eu, presa naquele joguinho safado de sedução. Mais antigo e barato, impossível.

— Não deu certo — sussurrei, quase inaudível.

— Não. Vamos tentar de novo. — Com uma voz rouca, Regina pronunciou pausadamente cada uma daquelas palavras, prolongando ao máximo aquele momento.

Só que, em vez de explicar os movimentos novamente, ela fez com que meus dedos abrissem e soltassem o anzol, que caiu no chão de qualquer jeito. Acariciou minha nuca com o nariz, abrindo espaço entre meus cabelos soltos, enquanto subia as mãos lentamente por meus braços, só deixandoos para segurar minha cintura.

A respiração dela se tornou mais difícil e pesada e dessa vez eu fechei os olhos para potencializar a sensação de seu toque. Apesar de minha pele estar quase toda coberta pelas roupas, sentia meu corpo queimar onde Regina tocava. Eu estava prestes a entrar em combustão na frente das dez meninas do Lar Irmã Celeste, mesmo que elas nem estivessem prestando atenção. Se aquilo não era loucura, não sei mais o que seria. Mesmo assim, eu só queria estar ali e em mais nenhum outro lugar no mundo.

E pelo jeito Regina queria o mesmo. Não havia dúvidas. Ela estava se aproveitando de mim, mas de uma forma boa. Seu nariz manteve o movimento através de meus cabelos, o que me deixou toda arrepiada.

Já fora beijada antes, é claro, muitas vezes até — ok, não tanto. Mas nenhum dos beijos que recebera chegou a ser tão excitante e sedutor quanto o toque sutil de Regina A frase “subindo pelas paredes” tinha acabado de ganhar uma nova versão.

— Emma — ela sussurrou em meu ouvido, roçando os lábios em minha orelha, tão de leve que eu poderia ter apenas imaginado. — Eu...

— Ai, pesquei um! — alguém gritou.

Justamente na hora que as coisas estavam ficando quentes, muito quentes mesmo. Entretanto, elas ficaram frias num piscar de olhos, pois o susto fez Regina se deslocar para trás numa rapidez... Sobraram apenas o vácuo e uma sensação estranha de vazio. Meu corpo queria o dela de volta.

Só fui capaz de perceber de onde e por que o grito havia surgido quando meu cérebro tomou as rédeas da situação. Assim que voltei a pensar racionalmente, enxerguei Karol esforçando-se para puxar da água um peixe muito bem fisgado.

Como se nada tivesse acontecido momentos antes, Regina agiu como salvadora, dando a força necessária para que a menina conseguisse fazer o peixe emergir. E, com a ajuda dela, isso não demorou a acontecer. Em poucos segundos, o animal surgiu chacoalhando-se todo, lutando pela vida prestes a ir embora.

As garotas comemoraram com palmas. Estavam maravilhadas com o resultado da atividade que entrara na agenda do dia de maneira inusitada e tornara-se a sensação do passeio. Mesmo não tendo sido ideia minha, a pescaria completou a felicidade delas e só por isso eu já era grata a Regina.

Por outro lado, meu corpo ainda tentava processar o fato de Regina e eu termos nos deixado levar pelo impulso, o que poderia ter tomado proporções medonhas caso tivéssemos sido flagrados pelas meninas. E eu não me perdoava por ter sido tão descuidada e tão óbvia. Minha aceitação às suas carícias pode ter revelado a ela o que eu sinto. Como eu sabia que o sentimento não era compartilhado — se fosse, ela não estaria com Nome de Cachorro —, tudo o que eu podia fazer era, além de lamentar, fingir que estava tranquila em relação ao fato. Se Regina quisesse se explicar e pedir desculpas, eu daria de ombros e perguntaria: “Está se desculpando por quê?”.

Eu não aguentaria ouvi-la dizer que nosso esfrega-esfrega havia sido um erro e que não se repetiria mais, nem que ela tinha sido levado pelo calor do momento etc. Preferia seu silêncio a seu remorso.

— Emma, venha ver o peixe que eu pesquei!

A vozinha excitada da pequena Karol me tirou de minha autorreflexão. Olhei para ela com um sorriso amarelo para disfarçar a angústia. Ignorei Regina deliberadamente.

— Puxa, que peixão! — E, realmente, era um dos grandes. — O que quer fazer com ele? Devolver para o lago ou levar para a Cora preparar um assado?

Não sei de onde tirei tanta tranquilidade para falar sem gaguejar. Acho que foi o receio de me expor ainda mais.

— Posso mesmo ficar com ele? — Karol indagou, com uma súplica muito mal encoberta. — Queria tirar uma foto para mostrar para minhas amigas que não vieram hoje.

— Se o problema é esse, então está resolvido — Regina disse, muito à vontade por sinal. — Estou com meu celular e ele tem uma câmera excelente.

— Então eu quero uma foto que nem as dos pescadores de verdade!

Segurando o peixe pela cauda, Karol posou para a máquina. Enquanto eu torcia o nariz de nojo do bicho, ela e as outras meninas se divertiram, encorajadas por uma Regina alegre e despreocupada. Por fim, acabei me rendendo e me juntei ao grupo para uma foto coletiva. Só não consegui encarar a câmera. Como poderia sorrir para a fotógrafa se eu mal conseguia olhar para ela? Então me lembrei, Ana Carolina fez uma música e eu mal sabia que a usaria para esse momento:

A canção tocou na hora errada,

E eu que pensei que eu sabia tudo

Mas se é você eu não sei nada,

Quando ouvi a canção, era madrugada

Eu vi você, até senti tua mão e achei até que me caia bem como uma luva

Mas veio a chuva e ficou tudo tão desigual ...

Notas finais
Capitulo SEM Lacey, o que acharam? eu particularmente adorei... e vocês? comentem POR FAVOR... se forem legais eu juro que volto rapidinho, até porque é feriado prolongado e to com tempo HAHAHA a música é essa aqui http://www.vagalume.com.br/ana-carolina/a-cancao-tocou-na-hora-errada.html e a história é essa https://www.youtube.com/watch?v=aX_dMN2SIQk beijooooooooooooooooos