A princesa de Krósvia
16 Meu caminho é você.
Notas iniciais
Foi muito mais complicado deixar a Krósvia do que ir embora do Brasil. Naquele dia, na festa surpresa no salão de eventos do prédio de meus avós, as despedidas foram dolorosas, mas suportáveis, pois eu tinha me dado um prazo de permanência fora do país. No entanto, no momento em que me vi diante de Irina e Cora, de Daniel e de todos os demais funcionários do castelo, meu mundo virou uma cambalhota. Pois ao virar as costas para aquelas pessoas que se tornaram parte de minha vida, eu não sabia quando — nem se — voltaria a encontrá-las.
Ninguém entendeu direito minha partida repentina. Pedi a meu pai que desse uma desculpa qualquer, mas acabei me justificando de uma forma bem boba: estava com saudade de casa.
Cora estreitou o olhar e pareceu ver em meu rosto o tamanho da mentira. Sei que desconfiou de algo, mas deixou passar. A ausência de Regina em minha despedida também foi notada e só aumentou a suspeita de todos.
Mais cedo, ainda a sós, meu pai contou que tinha conversado com Regina logo depois que eu fora dormir. Levei um susto ao saber que Regina havia estado tão perto. Poderíamos ter nos esbarrado, o que me mataria de desgosto. Mas não deixei de me abalar por ela não ter me procurado. Se Regina fosse mesmo inocente, será não tentaria me convencer de qualquer jeito?
Meu pai disse que a conversa só comprovou o que ele já sabia: Regina era tão vítima da situação como eu e estava, além de chocada e com raiva, muito, mas muito mesmo, magoada comigo.
Ora, faça-me um favor! Ela apronta uma mega emboscada para cima de mim e depois vai dar uma de coitada com meu pai? Fique sabendo, cara-pálida, que mágoa maior do que a minha estava para existir!
— Escute o que estou dizendo, Emma. Você ainda vai se arrepender por não ter acreditado na Regina. Ela é inocente, disso eu tenho certeza.
— Pai, vai me desculpar, mas essa sua enteada é uma atriz e tanto. Hollywood não sabe o que está perdendo. A Angelina Jolie que se cuide.
— É por isso que ela está chateada. Pela sua falta de confiança, seu descrédito, como se ela não tivesse lhe dado provas suficientes do tamanho do amor que sente por você.
Fiquei constrangida. Esse não é um tema ideal para se discutir com um pai. Mas David prosseguiu, um advogado de defesa nato:
— Emma, ela desmanchou o namoro com a Lacey. Não enganou você.
— Ha, ha, ha! — desdenhei. — Isso é o que ela disse para você. Aposto que neste exato momento as duas estão tomando café da manhã de frente uma para a outra, envolvidas por roupões felpudos e macios, com os cabelos molhados.
— Filha, não seja cínica. Essa característica não combina com você.
Ah, que seja!
— Pai, por favor, não vamos mais falar da Regina — pedi. — Pretendo esquecê-la e vou ser bem forte para alcançar esse objetivo. E o primeiro passo é não pronunciar o nome dela, nem em pensamento. Posso contar com você?
David fez que sim. Mas sua contrariedade ficou bem explícita.
— Só uma última notícia. Na verdade, é um recado, um pedido da Regina.
— Pai...
— Emma, ela quer que você descubra que está errada e diz que vai conseguir provar isso em breve.
— Até parece — retruquei, sufocando uma vontade louca de atirar um objeto qualquer na parede. — Pois diga a ela que não precisa se preocupar tanto. Não quero mais saber. E diga também que já estou deixando vago o lugarzinho dela, que, no fim das contas, é o que ela sempre quis.
— Jesus, quanto rancor! — exclamou meu pai. — Mas fique tranquila. Regina sabe que você está indo embora. Contei para ela ontem.
— Então, já deu tempo de ela organizar uma festa para comemorar.
Dessa vez David riu.
— Do jeito que ela recebeu a notícia, é mais fácil a pobre coitada estar agarrada a uma garrafa de tequila, tentando esquecer essa minha filha cabeça-dura e turrona. Nesse aspecto, você é igualzinha à sua mãe.
Não pude deixar de conectar as duas histórias: a de minha mãe, há 20 anos, e a minha. A diferença era que ela abandonara meu pai por medo de um futuro com ele. Enquanto que, no meu caso, não havia futuro nenhum com Regina. O resultado? Dois corações partidos em duas gerações seguidas.
Embarquei às 9h da manhã do dia 2 de dezembro. Exatamente quatro meses depois de eu ter colocado meus pés, pela primeira vez, em solo krosviano. Lá do alto, no meio das nuvens, Perla foi diminuindo até se tornar um pontinho minúsculo abaixo do avião. Eu não fora até lá para encontrar um amor, mas acabara me apaixonando. Também não percorrera quilômetros e mais quilômetros para ser decepcionada. De um modo ordinário, eu tinha aprendido que do futuro não sabemos nada. Pois, se eu tivesse previsto tudo aquilo, jamais teria aceitado passar nem um único dia com meu pai na Krósvia.
***
Imaginei que o tempo seria meu maior aliado na luta contra a doença chamada Regina Mills, mas me enganei.
Um mês havia se passado e eu continuava deprimida, desgostosa, sem ânimo. Pelo menos, algo positivo aconteceu: as fotos jamais foram publicadas. E quem resolveu esse problema não foi nem meu pai, nem seus advogados. Soube, dias depois de desembarcar no aeroporto de Guarulhos, que Regina impediu a divulgação usando seu excelente poder de persuasão. Irina me contou que ela não só ameaçou os fotógrafos como chegou a quebrar uma das câmeras assim que eu fui embora às pressas da Ilha de Zelena.
Também ficou provada sua não participação na emboscada. Isso foi meu pai quem me relatou, com um tom de eu não disse? Pelo telefone, David esclareceu como tudo ocorreu:
— O namoro entre o Regina e a Lacey não andava bem há muito tempo, mesmo antes de você chegar. E ele piorou depois, porque ela morria de ciúmes de vocês duas. Com razão, né?
— Como assim? — questionei. — Eu não ficava dando em cima da Regina, como se eu fosse uma piriguete.
— Mas ela dava sinais de que estava interessada em você. Por que outro motivo ficaria passeando para todo lado com você, Emma? Quando ela deu essa sugestão, eu não refleti, mas a verdade era clara. E a raiva da maluca da Lacey foi só aumentando. A gota d’água foi o término do namoro. Desesperada, ela contratou os paparazzi e pediu a eles que ficassem no pé da Regina.
— Até encontrarem a oportunidade para fazer o que fizeram — completei, totalmente sem chão.
Foi difícil encarar minha burrice. Tanto tempo louca de amor por Regina, tanta expectativa, para eu simplesmente estragar tudo. Como eu me odiei naquele momento!
Mais horrível ainda foi escutar meu pai dizer que Regina ainda estava bastante magoada, a ponto de não querer conversar comigo. E eu poderia criticá-la? Eu fora uma megera, uma insensível sem coração.
Aqui no Brasil, todo mundo tentou me animar. Passei o mês de dezembro sendo paparicada em excesso por minha mãe e meus avós. Até Ruby entrou na onda deles. Resultado: o dia inteiro tinha alguém me perguntando: você está bem?
Claro que a qualquer momento eu teria que sair daquela fossa. Burra eu não sou, portanto, ou eu fazia um esforço e me recuperava, ou ficava doente e me enterrava de vez na depressão.
Então, entendi que, para virar esse capítulo nebuloso, eu precisava tomar uma atitude. E o primeiro passo seria me desculpar com Regina. Não pessoalmente, nem por telefone, pois não possuía tanta coragem assim. Quem sabe se eu escrevesse uma mensagem bem sincera ela acabasse me perdoando? Não custava tentar. E foi o que fiz.
No décimo segundo dia após meu retorno ao Brasil, sentei-me diante do computador e digitei:
De: Emma Swan Markov
Para: Regina Mills
Assunto: Desculpa.
Gina,
Nem sei por onde começar esta mensagem. Tenho consciência do tamanho da sua mágoa e, acredite, dou razão a você. Porque, se fosse o contrário, se você tivesse duvidado de mim como duvidei da sua palavra, eu também teria preferido me afastar, pois confiança é a base para qualquer relacionamento.
Estou com vergonha da minha atitude infantil, principalmente porque minha imaturidade causou sofrimento para muitas pessoas: meu pai, Irina, Cora, tia Ariel, meus primos, as meninas do Lar Irmã Celeste e Killian. E, claro, também fiz você sofrer, depois de tudo o que fez por mim.
Mas, por favor, não me queira mal. Perdoe-me por ter sido burra, ridícula e paranoica. Estou muito arrependida, com vontade de voltar no tempo e fazer tudo de novo, só que da maneira certa.
Liga para mim para a gente conversar, por favor. E, se não fizer isso, vou aceitar sua decisão, mesmo que contrariada. Não quero perder você, Gina. Agora eu sei.
Porque eu amo você.
Sua Emma.
Meu dedo indicador ficou passeando pelo ícone Enviar do gerenciador de e-mails antes de finalmente clicar e mandar a mensagem para a caixa de entrada de Regina. Depois disso, passei algumas horas checando meu Outlook para ver se a resposta estava lá. Mas as horas viraram dias, que se transformaram em semanas.
E Regina nunca respondeu.
Sim. Eu era cabeça-dura. Mas igual a ela nunca conheci ninguém!
Dias mais tarde, soube por meu pai que Regina havia tirado umas férias e saído pelo mundo, numa dessas viagens de mochila cheia nas costas e preocupação zero na cabeça.
Então, era assim que nossa história terminava? Cada uma seguindo seu próprio caminho, em sentidos inteiramente opostos?
O Natal chegou e passou depressa e eu pude voltar a experimentar uma reunião de família normal. Foi legal, porque ninguém tocou no assunto proibido. Não mencionaram sequer o nome Krósvia. Só tive notícias de lá quando meu pai ligou à noite, mas me recusei a perguntar sobre mais Regina e a ouvir informações sobre ela. Se era para esquecer, o tratamento tinha que ser de choque.
Por falar em normalidade, agradecia a Deus todos os dias por ter voltado a ser uma pessoa comum. Felizmente, a imprensa brasileira não estava mais interessada na atrapalhada filha do rei da Krósvia e, tirando algumas poucas ocorrências, deixaram-me em paz. Afinal, os tabloides vivem de novidades e tinham gente famosa de verdade para perseguir.
***
— Eu proíbo você de ficar em casa hoje. — Ruby apontou o dedo para minha cara e esbravejou: — Já lhe demos seu período de luto, mas agora chega! Não vou deixar você sofrer eternamente. Faça-me o favor!
Era 31 de dezembro. Eu tinha passado o dia deitada em minha cama, lendo um romance água com açúcar e enchendo minha barriga de porcaria, tipo brigadeiro e doce de leite em barra. Até Ruby chegar e começar a metralhar meus ouvidos com sua ladainha sem fim. Será que o ser humano não tem o direito de escolher passar sua virada de ano da maneira que bem entender? Por acaso é algum tipo de crime escolher ficar em casa?
Minha mãe insistira para que eu fosse com ela a uma festa que seu buffet havia organizado. Dissera que só ia dar gente bonita e jovem e que a banda seria uma dessas que tocam em festas de formatura. Traduzindo: bem animada. Eu negara com veemência, mesmo ela tendo quase me arrastado para fora da cama.
Mas as pessoas têm a mania de pensar que querer ficar sozinho é sinônimo de suicídio. Como se eu fosse pular da varanda do quarto sobre o trânsito caótico da Avenida Paulista ou enfiar a cabeça dentro do forno com o gás ligado. Até parece.
Prova disso é que nem bem curti uma hora de solidão e Ruby apareceu toda saltitante, exalando felicidade e otimismo pelos poros.
— Daqui a pouco é reveillon e você aqui, toda largada e malvestida.
Olhei para minhas roupas. Qual mal havia em usar um short de corrida velho e a camisa do terceiro ano do Ensino Médio se não pretendia ir a lugar nenhum?
— Ruby, eu estou em casa. Sozinha. Não sabia que precisava estar de longo.
— Ai, que engraçado! Você sabe o que eu quis dizer, Emma. Não seja carrancuda.
Suspirei. Ruby é um amor de pessoa, mas também sabe ser uma chata quando quer. Nossa Senhora!
— E o que você pretende fazer mais tarde? — perguntei por perguntar.
— Eu, não. Nós. Nós vamos a uma festa, uma festa super-restrita que o noivo da minha prima ajudou a organizar. Vai ser lá no Alphaville.
— Ah não, Ruby. Não estou no clima de balada.
— Emma? Você pirou, minha filha? Vai ter um dos DJs mais badalados do mundo. Fala besteira, não! E você não tem como se recusar a ir, porque para nós a festa saiu ao estilo 0800. De graça.
Engoli em seco. A coisa estava começando a ficar feia para meu lado. A danada da Ruby sempre tinha uma carta na manga.
— Eu tenho mesmo que ir? — choraminguei. — Estou tão desanimada!
— Vai tomar um banho e botar uma roupa bonita. Garanto que não vai conseguir ficar parada quando chegar lá. De mais a mais, é hora de enterrar aquela história que estou proibida de mencionar. Quem sabe apareça um gato ou uma gata no pedaço e tire você de uma vez por todas dessa fossa.
É desse jeito. Ruby é que nem criança. Não sabe receber um não como resposta. Fiquei sem saída. Ou ia com ela àquela maldita festa ou aguentava sua ladainha descontrolada pelo resto da vida. Nem sei o que poderia ser pior. Mas pensei melhor e concluí que deixá-la insistir até a morte não era a opção mais adequada.
Tomei um banho rápido de chuveiro — que saudade da banheira de meu quarto no castelo! — e coloquei um vestido curto, simples e branco, para não fugir à tradição do réveillon. Liguei para minha mãe e avisei que tinha resolvido sair, o que muito a agradou.
Ruby e eu pegamos um táxi. Por mais que a corrida ficasse cara, seria mais seguro. Pois quem garantiria que não beberíamos todas?
Chegamos à festa por volta das 23h. Nunca vi tanta gente debaixo do mesmo teto. Parecia um mar de pessoas ensandecidas, sendo guiadas pela batida da música.
— Ai, que maravilha! — gritou Ruby ao se deparar com as possibilidades. Ela sempre defendia a seguinte teoria: quanto mais pessoas estivessem num lugar, maiores eram suas chances de conseguir um bom amasso durante a noite. — Acho que deve ter uns 20 gatos por metro quadrado. Uau! Deu até calor.
— Amiga, está fazendo calor, independente da quantidade de gatos que você esteja enxergando.
A festa era do tipo open bar. Então, poderíamos beber à vontade, pois as bebidas estavam incluídas no preço da entrada. Mas, no nosso caso, sairiam de graça, já que tínhamos ganhado os ingressos.
— Hoje eu quero só Absolut. — anunciou Ruby aos berros, para fazer-se ouvir. E olhe que eu estava a dois passos dela.
— Vodca? Não sei, não... — respondi, temerosa. Uma vez eu tomara um porre de vodca, quando tinha acabado de completar 18 anos, e ficara mal, mas muito mal mesmo, a ponto de ter amnésia alcoólica. A última cena que ficara registrada em meu cérebro fora um poste e eu agarrada a ele para não cair de cara no chão. Quando recobrei a lucidez, já estava em casa, com a maior dor de cabeça e um balde ao lado de minha cama. Nem preciso explicar por quê, né?
E lá fomos nós! Começamos timidamente, mas nem bem chegamos aos últimos minutos do ano e já estávamos meio tontas. Ou melhor, eu estava. Porque, num determinado momento, acho que Ruby parou de beber. Pelo menos, não vi mais nenhum copo na mão dela.
E aí houve a contagem regressiva para o término do ano, seguida de uma chuva de papel prateado picado e muito champanhe estourando sobre a multidão. De repente, fui abraçada por pessoas que nunca tinha visto na vida, mas àquela altura não me importava muito com isso. Até que o calor humano estava agradável. Ou seria a Absolut?
— Ruby, já falei que você é uma amiga maravilhosa? — Quem pensa que a frase saiu bonitinha assim está enganado. Levei uns 15 segundos para pronunciar aquelas nove palavras. — E que eu tenho muita sorte?
— É claro que tem — concordou ela, mais sóbria, mas nem tanto. — Além de ser minha amiga, é também uma princesa. De verdade.
— É... E meu pai é um rei e ele mora num castelo. E eu deixei todas as minhas roupas bonitas lá!
Alguém esbarrou em mim, quase levando-me ao chão. Eu me segurei a tempo no braço de Ruby e soltei uma gargalhada de hiena, horrorosa. Mas logo a gargalhada se transformou em choro e um guincho agudo escapou de minha garganta.
— Larguei tudo para trás, Ruby. Meus Manolos, meu Dior Couture, minhas lingeries da Victoria’s Secret. Eu quero tudo de volta. Estou com saudade até do Pongo, aquele dálmata pateta.
— Por que você não liga para o seu pai e diz isso para ele? — sugeriu minha amiga, tentando se equilibrar em cima de seus sapatos meia pata de verniz rosa-choque.
— Porque eu bebi muito e ele vai brigar comigo e eu não lembro o número do celular dele! — Minhas lágrimas desciam copiosamente.
— Então, liga para a Regina. Isso! Liga para ela, Emma. Diz que tá aqui totalmente bêbada e que a culpa é dela.
Dei outra gargalhada medonha. Que vexame!
— Você tá louca! Não posso fazer isso. Ela não quer mais saber de mim. — Mais choradeira.
— Porque você é uma tonta. Como conseguiu dormir com ela e dizer tanta asneira no dia seguinte?
— Psiu! Fala baixo! Quer que todo mundo saiba desse detalhe?
— Ah, e daí? De que importa para esse povo se você transou com uma mulher?
Sabe esses momentos peculiares da existência do ser humano nos quais o universo inteiro parece conspirar contra você? Pois é. Ultimamente, o universo resolveu me fazer de Cristo. A música fez uma pausa justamente no instante em que Ruby berrou aos quatro ventos aquela maldita frase. E todo ser vivo num raio de 20 metros escutou com nitidez a indagação infeliz de minha amiga.
Olhei para ela com ódio, quase curada do pileque, e saí marchando — quero dizer, cambaleando — até a porta de saída, ouvindo risinhos ordinários enquanto eu passava.
Ruby me seguiu.
— Emma, volta aqui! Que culpa eu tenho se a música parou bem na hora?
— Táxi! — Balancei a mão no ar, igual a uma donzela de filme de época, mas muito mais desajeitada. — Eu vou embora. Já chega.
— Para com isso, amiga. Relaxa. Ninguém ali dentro te conhece. Quero dizer, não se a gente não contar para eles que você é a Emma Swan Markov.
— Eu vou para a Krósvia agora.
— Você tá completamente bêbada, Emma. Não pode ir para casa assim. E se o taxista for um tarado?
— Que tarado o quê, Ruby! Nunca ouvi nenhuma história de taxista estuprador. Agora, me deixa ir. É verdade. Eu tô bêbada. Prefiro passar mal em casa.
Com uma sincronia perfeita, um táxi brecou bem a meu lado e eu entrei pela porta de trás, enquanto tentava lembrar meu endereço para passar ao motorista. Maldita vodca!
— Então eu vou com você. — Ruby me empurrou para o meio do banco e se sentou, bufando de contrariedade.
Pelo retrovisor, o taxista nos olhou com impaciência, talvez desejando ter passado a madrugada comemorando a virada de ano em vez de transportar passageiras com alto teor alcoólico no sangue e zero juízo na cabeça.
— Para onde, senhoritas?
— Para a Krósvia! — gritei, iniciando mais uma sessão de lágrimas.
— Hein?
— Desculpa, moço. Minha amiga aqui não tá passando bem e se confundiu — Ruby explicou com a voz mais doce do mundo e uma fúria assassina no olhar.
— Krósviiiiiiiia — disse, tanto com a boca quanto com o dedo indicador, que mexia para baixo e para cima, como o Chaves da televisão.
— Tsc, tsc. Essa meninada de hoje só sabe beber — resmungou o taxista para si mesmo.
— Moço, hoje é reveillon — Ruby argumentou. — Normalmente não fazemos isso, não, sabia?
Ele só balançou a cabeça, nem um pouquinho convencido.
— Ah... Queria que ele fosse o Daniel... — solucei. — Por que, hein, moço? Por que você não pode ser o Daniel?
— Emma, pelo amor de Deus!
— O Daniel era bonzinho comigo e me levava para onde eu queria. E você — quase enfiei o dedo na cara pálida do motorista — está me magoando.
— Emma! Quer calar essa boca? — Ruby esbravejou.
— Então, põe uma música! Pelo menos tem música neste carro? — indaguei, com uma mão em cada encosto de cabeça dos bancos da frente, prestes a meter o indicador no botão “ligar” do aparelho de som.
— Só tenho música sertaneja — respondeu o motorista, meio que se justificando.
— Vocês gostam?
— Sim — disse Ruby, resignada.
— Serve — respondi, topetuda.
— Humpf — fez ele.
De repente, a voz de Luan Santana dominou o interior do veículo. Num dia normal, eu não prestaria muita atenção, pois não sou fã desse gênero musical. Mas naquela hora soltei a voz — num volume bem alto — e cantei junto com ele. Gritei mesmo. Ruby até tapou os ouvidos e fez careta. O taxista devia estar se perguntando se merecia aquele castigo.
Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado E se eu tiver errado
Que se dane o mundo Eu só quero você
— Eu quero a Regina! — desatei a chorar novamente. Dali para a frente eu só chorei, que nem criança contrariada.
Até o pobre coitado do motorista se sensibilizou e me passou uma caixa de lenços de papel, gentileza que eu aceitei prontamente.
— Por que ela está tão triste? — escutei-o perguntar para Ruby.
— Desilusão amorosa.
— Entendo — concordou o taxista, cheio de piedade no olhar.
— Escuta, filha. Não fique triste. Já passei por isso. Fique tranquila que o tempo cura tudo, viu?
Funguei. Olhei para Ruby e a vi encolhida de vergonha. Não entendi o motivo. Eu só estava botando para fora todo o meu desespero. Que mal havia nisso?
Só sei que em poucos minutos paramos em frente do meu prédio. Mal consegui alcançar o elevador sem quase cair umas três vezes. Ruby quis me acompanhar, mas recusei a oferta. Nada melhor do que uma fossa bem curtida na companhia da completa solidão.
***
— Ai, minha cabeça — choraminguei, enquanto tentava me levantar da cama para tomar um comprimido de Neosaldina.
— Que bonito, né, dona Emma Swan? Bebendo sem moderação!
Seriam meus tímpanos ou a voz de minha mãe havia subido para uns 200 decibéis?
— Não me diga que agora vai começar a compensar suas mágoas com bebida?
Joguei o travesseiro sobre o rosto e abafei um grito. Tinha uma caixa de abelha zunindo dentro de meu cérebro e minha mãe ficava armando sermão.
— Mãe — gemi —, pode acreditar. A bebedeira de ontem foi um fato isolado. Não vou virar alcoólatra por isso, né? Agora, me deixa dormir. Ainda é muito cedo.
— Realmente — disse ela, escancarando as cortinas para que eu visse o céu. — Cedo demais, afinal são “só” cinco horas da tarde.
Como era horário de verão, o sol ainda reluzia sobre a cidade.
— Você está dormindo há mais de 12 horas. E deve ter tido um sono agitado, pois gemeu e falou o tempo inteiro, principalmente o nome da Regina.
Encolhi. Por que o amor nos transforma em seres tão ridículos?
— Não me diga que continua tendo aquele sonho recorrente. Pensei que já tivesse passado.
Olhei para minha mãe, não querendo exatamente enxergá-la, mas fiquei pensando sobre o que ela disse, sobre os dois assuntos que mamãe, sem querer, abordou na mesma conversa. Ela afirmou que eu havia dito o nome de Regina enquanto dormia e perguntou se meu sonho recorrente ainda existia.
De repente, algo se acendeu dentro de mim. Foi como se uma luz tivesse entrado em minha cabeça para iluminar meu raciocínio. Por que eu nunca tinha feito as conexões corretas? Por que ficara cega por tanto tempo? O tempo todo, a resposta estivera bem na minha frente.
— Está escutando, Emma?
— O quê? — Minha cabeça estava longe.
— Eu mandei você levantar dessa cama e tomar um banho para ver se esse corpo melhora. Depois, vê se come alguma coisa. Fiz uma lasanha. Vou ter que sair agora, pois tenho um evento mais tarde.
Concordei. Mas, depois de minha brilhante constatação, concordaria com tudo para me livrar logo de minha mãe. Assim que ela saiu, fui para o chuveiro. Prestes a tomar uma decisão importante, eu precisava estar cem por cento segura a respeito do que faria.
Minha boca continuava seca, sintoma da bebedeira da noite anterior, mas meu corpo não exalava mais nenhum cheiro da noitada. Respirando fundo para acalmar meus ânimos, liguei o computador, acessei o gerenciador de emails e me pus a escrever o texto mais difícil — e também o mais libertador — de minha vida.
De: Emma Swan Markov
Para: Regina Mills
Assunto: Meu lugar.
Querida Regina,
Esta é a última vez que procuro você. Prometo que não a incomodarei mais depois que terminar de escrever esta mensagem. Aliás, já estava determinada a te esquecer desde aquele meu e-mail que ficou sem resposta. Sou boa em interpretação e entendi seu recado silencioso. Sei que pareço insistente e pegajosa, mas não posso deixar de compartilhar com você a revelação que tive hoje mais cedo, depois de quase ter morrido de tanto beber vodca na virada do ano. Pelo menos, a bebedeira serviu para clarear minha mente. Contraditório, não?
Bom, estou enrolando. É melhor eu ir direto ao assunto antes que você decida deletar a mensagem. Espero conseguir me expressar com clareza, de modo que, depois de ler este texto, você pelo menos entenda minhas atitudes durante o tempo que fiquei na Krósvia.
Gina, nunca comentei isso com você, mas desde pequena uma história se apodera de meus sonhos. Sempre a mesma história. Não que eu tenha o mesmo sonho todas as noites, mas ele é frequente, a ponto de eu conhecer intimamente cada detalhe. Começou quando eu tinha uns 7 anos e entendi que era diferente das outras crianças porque, ao contrário delas, o nome do meu pai não estava registrado na minha certidão de nascimento.
A história falsa que minha mãe me contou foi compreensível, mas deixou um buraco no meu peito, pois não é fácil para uma menininha ficar sabendo que o pai abandonou a mãe quando soube da gravidez. Claro que, na época, ela amenizou o fato, mas eu me via como a garota com o registro de nascimento incompleto.
De certa forma, acredito que o conhecimento desse episódio tenha provocado o sonho. Sei lá! O surgimento dele foi tão imediato! E olha que eu tentei entendê-lo recorrendo a tudo quanto é tipo de profissional, desde psicólogos até sensitivos. Mas ninguém me deu uma explicação satisfatória.
Até que o David apareceu. Ao mesmo tempo em que foi maravilhoso descobrir que eu tinha, sim, um pai e que ele também estava feliz por me conhecer, fiquei apavorada ao saber que ele era um rei e queria que eu me tornasse a princesa do país dele.
Foi aí que conectei meu sonho com a descoberta da outra metade de minha vida. Ambos pareciam tão semelhantes! Para que você mesmo tire suas conclusões, vou resumir a história: nesse sonho, eu sempre apareço sozinha, num campo muito verde, com flores numa espécie de canteiro nas laterais. Uso um vestido vermelho, longo, tomara que caia e bem rodado a partir da cintura. Para meu espanto, ele é idêntico a um que encontrei no armário de sua mãe Zelena, na ilha. Pensando nisso, agora vejo claramente como tudo faz sentido. Meus cabelos estão presos num coque perfeito. Atrás de mim existe uma escadaria sem fim. Não sei para onde ela vai. Fico olhando para o alto, primeiro com uma expressão confusa, mas sorrio depois. Então, de repente, começa a ventar, e venta tanto que meus cabelos se soltam e rodopiam em volta de minha cabeça. Olho para cima outra vez e fico transtornada. Não sei o que vejo, mas não deve ser coisa boa. Em seguida, algo chama minha atenção do outro lado do campo e eu me viro. Alguma coisa me deixa contente e então estendo a mão. Mas não chego a tocar em nada, pois, quando estou prestes a fazer isso, acordo.
Não me considero uma garota espiritualista, com dons mediúnicos nem nada. Mas desde que “encontrei” o vestido vermelho do sonho, tenho me perguntado sobre a possibilidade de estar recebendo algum sinal do céu, dos deuses, sei lá! Então, concluí que o sonho foi uma premonição, um aviso para que eu me preparasse para encarar a nova vida que caiu de surpresa sobre mim. Também deduzi que estar entre dois lados no meio da ventania simbolizava minha dificuldade de conviver com minhas duas nacionalidades: a brasileira e a krosviana.
Como eu estava enganada! De certa forma. Porque o problema verdadeiro é outro. Eu só me permiti ser dividida em duas — uma Emma do Brasil e uma Emma da Krósvia — porque não enxerguei antes que só posso ser uma pessoa plena se me aceitar como a união de minhas partes. Não posso ser só Emma Swan, nem só Emma Markov, pois o que define minha identidade é a soma de todos esses nomes, ou seja, sou Emma Swan Markov. Independentemente do país onde esteja, da língua que fale, sou una.
Portanto, não preciso optar entre o Brasil e a Krósvia. Pertenço aos dois. E, se naquele dia não acreditei em sua palavra, hoje sei que foi por medo. Inconscientemente, associei a escolha de ficar com você com a extinção de minha personalidade brasileira. Como fui burra! A ventania de meu sonho é a paranoia que me consumiu nos últimos meses. O susto em meu olhar simboliza o tal receio de me perder. A escadaria sem fim, minha indecisão. Mas a mão que estendo para algo ou alguém que não vejo é para você, porque você é que está lá do outro lado, que é a mulher que me deixou à vontade para ser eu mesma. E o vestido? Apenas um recado da Zelena. Ela queria que eu escolhesse o caminho certo e me conduziu até ele.
Pena que eu não soube reconhecê-lo no momento certo. Mas agora tudo está claro. Meu caminho é você.
Regina, se tiver lido até aqui, peço, mais uma vez, que me perdoe. Entretanto, se nossa história não tiver mais jeito, saiba que vou seguir minha vida. Já sofri e me condenei demais. Agora, chega. Também não vou desaparecer da Krósvia só para evitar esbarrar em você. Lá é meu lugar também.
Eu realmente te amo demais, mas não posso viver afundada no que perdi.
Sinto sua falta. Chega a doer. Mas, se tiver que ser assim, vou superar.
Um grande beijo!
Emma.
Nem sei quantas vezes reli a mensagem. Também não tinha certeza se fizera bem de escrevê-la. Mas o que mais poderia fazer? Eu devia explicações para Regina e pelo menos pude contar a verdade, já que finalmente eu a tinha descoberto.
Fechei os olhos e enviei. Meu coração batia acelerado de tanto imaginar as repercussões daquele e-mail, se é que teria alguma. No entanto, eu não queria me iludir. Vai saber o que Regina faria quando lesse meu nome em sua caixa de entrada. Talvez nem chegasse a abrir a mensagem. Porém, eu encerrava por ali. Não me manifestaria mais. Meu orgulho me impedia de prosseguir.
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