A princesa de Krósvia
21 Dentro do olho do furacão
Notas iniciais
Não sei se escutei direito ou se meu cérebro custou a processar a informação. Só me lembro de ter perdido o senso da realidade no momento em que Regina transmitiu a notícia.
Acho que nem cheguei a perguntar quem havia sido o relator da desgraça.
Minha mente só fazia repetir feito um papagaio irritante: EU AVISEI. EU AVISEI.
Por que eu vivia sendo assombrada por sonhos premonitórios, meu Deus?
Minha mãe saiu do quarto e voltou depressa, carregando um copo que foi entregue a mim sem eu ter pedido nada, Bebi parte do líquido adocicado, pois minha garganta rejeitou o restante.
Regina tirou o copo de minhas mãos e me puxou para seu colo, onde fui embalada feito um bebê. Pelo menos eu a tinha para me consolar. Porém, devido ás circunstâncias, quem faria isso por ela?
– Pode falar, Regina. Ele morreu? — Indaguei, entre soluços.
– Não, minha linda. Não!
Isso sim era um alívio. Por que ela não contou antes?
– Mas não vou mentir, Em. David foi levado ao hospital em estado grave. O piloto não resistiu.
Estava explicado. Claro que, entre estar morto e correndo risco de vida, eu escolheria a segunda opção. No entanto, ainda assim, eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido arrancada. MEU PAI NÃO.
– Regina, por favor, preciso conversar com a Irina. Preciso saber o que houve de verdade. — Levantei-me de supetão e peguei a primeira roupa que vi na frente. — Vamos embora. Meu pai está precisando de mim. Quero vê-lo.
Ameacei tirar o pijama, mas Regina segurou meus braços, detendo-me com seu corpo.
– Emma, calma. Vamos ligar para a Irina. Não dá para sair daqui agora. São quase três da manhã!
Tomada pelo desespero — e mais ainda pelo medo -, acabei agindo igual a uma adolescente birrenta:
– Mas é o MEU pai! É fácil para você, Regina, que não é nada dele!
Regina olhou para mim com o olhar cheio de fúria. Agarrou meus ombros e me fez encará-la. Ignorou completamente o fato de minha mãe estar presente, podendo interpretar mal aquela reação.
– Eu vou fingir que não escutei esse absurdo Swan, porque sei que você está transtornada. Mas NUNCA mais diga que eu não me importo com o David. Ele pode até ser o SEU pai, ter o SEU sangue, mas foi ele quem me criou. Então não desmereça os meus sentimentos.
Ao terminar o aviso, minha namorada me soltou e saiu do quarto. Que geniozinho do cão!
Voltei a me sentar na cama, incapaz de dar um passo. Minha mãe ficou firme ao meu lado, apesar de muda. Eu nem imaginava o que ela poderia estar sentindo.
– E se ele morrer?
Não suportava pensar nisso, mas era só o que passava pela minha cabeça.
–Filha, precisamos ser otimistas. Com certeza seu pai está nas melhores mãos do país. Temos que ter esperança.
– Estou com medo. Com muito, muito medo, mãe. Queria estar lá...
Mamãe me abraçou apertado. Não foi difícil notar que ela também chorava. E podia ser diferente? Eles tinham uma filha em comum, afinal...
Segundos depois, Regina voltou. Estendeu o celular para mim.
– Irina — disse, tenso.
Ela já não parecia brava, pois beijou minha testa assim que me entregou o telefone. Como eu tremia demais, não consegui apoiar o aparelho no ouvido. Delicadamente, Regina o pegou de volta e acionou o viva-voz.
– Irina, estamos te escutando — avisou ela, sentada novamente ao meu lado e com um braço sobre meus ombros.
Antes de começar a falar, ela deu um longo suspiro.
– Emma, minha querida, como você está? — Com tudo o que estava acontecendo com David, ela queria saber de mim?
– Chocada, mortificada, apavorada — declarei, impaciente. — Mas nada disso importa. Preciso saber como o meu pai está.
– Acabou de entrar no bloco cirúrgico. — Sua voz saiu embargada. Irina nunca me confessou nada, mas sempre desconfiei de seus sentimentos pelo rei. Naquela hora, com as emoções á flor da pele, era ainda mais complicado escondê-los. — Ele perdeu muito sangue, Emma...
– A situação é muito grave? — eu quis saber, mesmo prevendo a resposta.
– Infelizmente, sim.
Segurei o pingente de diamante em formato de cisne, que pertenceu a Zelena. Papai me dera no dia da minha apresentação á população da Krósvia. Raramente eu o tirava dos pescoço. Isso só acontecia quando a ocasião exigia outro adorno qualquer.
Regina pousou a mão sobre a minha e a apertou de leve. Aquele colar significava tanto para mim quando para ela.
– Irina, já sabem o que houve com o helicóptero? — Regina perguntou.
– Estão investigando. Não sabem ainda.
Achei-a reticente. Dava a impressão de que não queria se aprofundar no assunto. Pelo menos, não naquele momento.
– Você está com ele?
– Estou no hospital, Emma, com a Ariel e o Eric, aguardando noticias. Não temos informações sobre o andamento da cirurgia.
– Vamos para Krósvia amanhã bem cedo — disse Regina, sem nunca se afastar de mim. — Mas nos mantenha a par de tudo enquanto não chegamos aí, certo?
– É claro, Regina. — Irina fungou, deixando claro que também não conseguia segurar as lágrimas.
– Irina, pode me fazer um favor? — pedi.
– Evidente que sim, querida.
– Cuide do meu pai até eu chegar.
Uma breve pausa se fez. Em seguida, outra fungada.
– Não precisava nem ter pedido.
***
"Rei da Krósvia sofre grave acidente de helicóptero e fica entre a vida e a morte."
Olhei para o monitor dependurado bem na minha frente na sala de embarque do Aeroporto de Guarulhos só para me arrepender logo em seguida. As noticias sobre David estavam em todos os jornais, e eu não aguentava ler nem ouvir falar sobre esse assunto.
Era difícil demais saber que meu pai poderia não suportar os traumas causados pela queda do helicóptero. Ficar vendo as cenas da aeronave toda estraçalhada e a imagem da ambulância seguindo rumo ao hospital não ajudava muito.
De acordo com as últimas informações dadas por Irina, a cirurgia havia terminado, mas os médicos não deram um parecer muito animador a respeito do estado de saúde de David.
Chorei desde o momento em que soube do acidente até um pouco antes de sair de casa. Acho que meu mecanismo de produção de lágrimas resolveu parar de funcionar para me poupar de uma desidratação. Mesmo assim, não tirei os óculos escuros nem na hora de passar pelo detector de metais. Poderiam pensar que eu estava dopada ou coisa parecida, tamanho o inchaço dos meus olhos.
– Em, vai dar tudo certo. Sei disso.
Fazia pouco mais de dois anos que Regina e eu estávamos juntas. Eram raros os nossos momentos ruins. Ás vezes discutíamos, com qualquer casal normal, mas, na maior parte do tempo, ficávamos bem. Isso porque, apesar de um pouco irascível, Regina sempre me fez acreditar em contos de fadas e finais felizes, mesmo sendo a melhor versão da rainha má.
Sendo assim, quando ela afirmou que as coisas ficariam bem, comecei a me permitir ter um pouquinho de esperança.
– Como você pode saber? — questionei mesmo assim. Querer explicação para tudo sempre foi uma característica minha.
– O David é um homem de fibra. Já passou por uma porrada de coisa...
Eu sabia sobre o que ela tentava falar mas também sabia que não conseguiria ir até o fim. Minha namorada tinha muita dificuldade em conversar abertamente a respeito do que acontecera com sua mãe, a rainha Zelena.
Ela a perdera havia quase cinco anos. Mesmo já sendo uma mulher prestes a se formar na faculdade, não lidou bem com a morte dela.
Sei que Regina se fazia de forte mas sofria a perda calada, bem diferente de Killian. Prova disso era a inexistência de fotos da mãe em seu apartamento. Uma vez perguntei por que ela não tinha um retrato dela em algum canto da casa. Regina respondeu que não conseguiria se contentar apenas com a imagem da rainha.
Fiquei triste por ela e a abracei com força. Naquela noite, enquanto mergulhávamos nos braços uma da outra Regina repetia sem parar que me amava e que me queria ao seu lado para sempre. Foi o mais próximo que chegou de um pedido de casamento.
– Eu já disse que te amo? — com os lábios colados ao meu ouvido, Regina sussurrou, fazendo meu coração se esparramar feito gelatina derretida.
– Não hoje — murmurei de volta com uma sombra de sorriso se insinuando em meu rosto.
– Pois eu amo Em, hoje e sempre. Perdi minha mãe muito cedo, mas, de certa forma, superei. Não posso perder você. Entende isso?
Havia um certo desespero em sua voz.
– Você não vai me perder, amor. Nunca.
– Então vem cá.
E ela me puxou para junto de si. Só então minha ficha caiu. Como eu estava sendo egoísta! Regina estava com tanto medo quanto eu. Precisava de consolo também. Afinal, como ela própria dissera na madrugada anterior, David até podia ser meu pai verdadeiro, mas significava o mesmo para Regina, há muito mais tempo inclusive.
***
Na primeira vez que sobrevoei a Krósvia, meu peito estava tão apertado quanto naquele momento. No entanto, os sentimentos que me inundavam eram completamente diferentes.
Naquela época, o desconhecido me amedrontava, mas, ao mesmo tempo, a curiosidade de conhecer minhas origens paternas me instigava a seguir em frente. E olha que havia um monte de barreiras, hein? O idiota era só a menor delas.
Dessa vez, pousar em Krósvia implicava outras coisas. Eu seria obrigada a lidar com uma realidade mil vezes mais assustadora do que as incertezas de ser ou não bem recebida nas terras de meu pai.
Infelizmente minha mãe não estava ali comigo — nesse ponto a história se repeita, não é mesmo? -, mas só porque não pôde abrir mão de dois ou três eventos marcados para os próximos dias. Ela prometera que viria em, no máximo, uma semana.
O avião taxiou a pista, daquele jeito que nos obriga a apoiar na poltrona da frente se não quisermos ser lançados adiante. Mal as rodas tocaram o solo, liguei o celular, sem me importar com o aviso da comissária de só religar os aparelhos quando estivéssemos no saguão do aeroporto. Precisava falar com alguém, ter notícias frescas. Afinal, ficamos incomunicáveis por treze horas.
Minhas intenções foram por água abaixo assim que um dos passageiros me reconheceu. Por mais que estivesse tomando todas as precauções para passar despercebida, sempre havia um ou outro mais atento. Essa pessoa — no caso, uma senhora com seus setenta anos ou mais — segurou-me pelos ombros e me abraçou, do nada, como se fôssemos velhas conhecidas. Ficou dizendo que estava rezando pela saúde do meu pai, enquanto tudo o que eu mais queria era escapar logo dali e ver David com meus próprios olhos. Mas eu não podia ser indelicada com uma idosa, podia? Então permiti que ela dissesse o que queria, porque, se tem uma coisa que minha mãe lutou para que eu aprendesse, foi respeitar os mais velhos.
– Deixa que eu ligo para a Ariel, Em — Regina cochichou em meu ouvido. Pela expressão, deu para perceber que estava se divertindo com minha aflição.
A senhora enganchou seu braço na curva do meu. Caminhamos juntas até a saída do túnel de acesso ao aeroporto. Durante o curto trajeto, tudo o que fiz foi escutar seu falatório desenfreado. Ainda bem que estava acostumada. Vovó era campeã na categoria língua solta.
Regina seguiu atrás de nós, falando ao telefone. Como me esforcei para ouvir a conversa dela com tia Ariel, mas a senhora — chamada Catarina — não me deu trégua.
Conformada, apeguei-me á certeza de que logo, teria noticias de meu pai para prosseguir. Mas o pior ainda estava por vir. Nem bem apontei na entrada do saguão, fui cercada por centenas de jornalistas, todos atrás da primeira palavra da princesa sobre o acidente do rei.
– Emma, como está se sentindo? — Nossa, superbem. Não está vendo?
– Interrompeu sua viagem ao Brasil para ver seu pai? — Não, criatura, voltei para ir a um baile.
– Regina, como tem lidado com a tragédia? — Ainda bem que essa pergunta sagaz não foi para mim.
– Emma, se o rei David Markov morrer, você se tornará a rainha da Krósvia. Está preparada para isso? — PQP!!!
Respeito demais o trabalho dos jornalistas, reconheço o valor do serviço que prestam á sociedade. Mas isso não me impediu de quase agir como uma celebridade embriagada e enfiar a mão na cara de pau do repórter que teve a petulância de perguntar aquilo. Por sorte, Regina me impediu. Caso contrário, eu começaria a ser carinhosamente chamada de agressora de profissionais da imprensa. Só essa que me faltava!
Estava prestes a dar várias respostas atravessadas quando avistei os seguranças! Ah, era a visão do paraíso.
Dois brutamontes foram abrindo caminho entre os jornalistas, empurrando a urubuzada para o lado, como se faz com os pinos de boliche.
Eles conseguiram nos tirar de dentro do aeroporto — e ainda deram conta de nossas bagagens. Num instante, sentávamos, aliviados, no banco de couro do carro com pinta de propriedade de gângster. Ufa!
Só não deu para me despedir da dona Catarina. Coitada... Eu esperava que ela estivesse bem.
– A senhorita está bem? — perguntou o motorista.
– Fisicamente, sim. Obrigado por nos salvar.
Não rendi conversa com ele. Queria que Regina me contasse o resultado da ligação para tia Ariel.
– O que ela disse?
Antes de falar, minha namorada gata bagunçou com uma das mãos os cabelos já não muito penteados. Eu conhecia esse seu gesto. Ela estava nervosa.
– A situação parece um pouco melhor — Regina disse, por fim. Dei um longo suspiro de alívio. — Os médicos apresentaram um boletim agora há pouco. Segundo eles, o quadro é estável, apesar do coma.
Coma?
– Meu pai está em coma? Induzido? — Torci para que fosse.
– Não, Em. — Regina entrelaçou seus dedos nos meus. — Ele não acordou depois da cirurgia e os médicos ainda não sabem quando isso vai acontecer.
Um "se" bem grande ficou pairando entre nós;
Afundei no banco de couro, ciente até demais de que a vida não avisa a hora em que vai dar uma bela rasteira na gente.
***
Se o saguão do aeroporto estava cheio de jornalistas, vocês nem imaginam o que era o pátio de entrada dos hospital. Talvez, se a ocasião fosse outra e o cenário também, como a final da Copa do Mundo no Brasil, eu até compreendesse aquilo.
Sempre questionei a necessidade do ser humano de se deixar atrair pela tragédias alheias. É como se cada um vivesse com um mini lobo-mau pa espreita, louco para mostrar os dentes.
Dessa vez, nem mesmo os brutamontes dos seguranças conseguiram abrir caminho pela multidão. Ou dávamos meia-volta e tentávamos entrar de outro jeito, ou corríamos o risco de enfrentar a avidez da imprensa.
Optamos pela segunda alternativa por pura ansiedade.
Regina se colocou atrás de mim, prendendo-me a ela com seus braços, enquanto os seguranças iam adiante, empurrando as pessoas como se elas fossem peças de dominó. Mesmo assim foi duro, viu? Cheguei a me colocar no lugar dos soldados, á frente das batalhas épicas, quando precisavam vencer os inimigos com uma espada numa mão e o escudo em outra. Coitados...
– Emma, só uma palavrinha! — gritou um repórter.
– Agora, não, gente — Regina se manifestou, falando por mim. Sei que esse tipo de atitude revela certa dependência, mas eu não estava em condições de assumir uma postura por minha própria conta.
– Ei, é com a princesa que a gente quer falar.
– EU DISSE, AGORA NÃO!
Se pensam que os jornalistas desistiram porque Regina falou "não". não conhecem a persistência deles. Eu fico impressionada.
No entanto, a teimosia deles só serviu para aumentar a minha. A imprensa ansiava por uma paçavra da boca da princesa. Quanto a mim, naquele momento, resolvi adotar o voto de silêncio. EU escolheria a hora certa de falar.
Avançamos bravamente, mesmo sofrendo alguns arranhões e puxadas de cabelo. Esses momentos me faziam desejar voltar ao passado e ser apenas a Emma Swan, brasileira de São Paulo, torcedora do Corinthians e fã da Ana Carolina.
Ainda bem que tudo nesta vida passa. Pode ter demorado mais do que eu gostaria, mas alcançamos a entrada do hospital sem danos irreversíveis. Lá dentro, outra comitiva nos aguardava: Irina, tia Ariel e, infelizmente, Eric, além de parte da equipe de assessores de meu pai.
Ao encontrar os olhos de minha tia, corri até ela e caí em prantos em seus braços.
– Emma, minha querida, calma — ela tentou me consolar, alisando meus cabelos desgrenhados. — A situação está sob controle.
– Onde ele está, tia? Preciso ver meu pai — choraminguei, sem deixar de fungar, pois não queria molhar a camisa dela.
Esperava que a tia Ariel respondesse, mas foi a indesejada voz de meu tio torto que trouxe a resposta:
– Emma, David está agora no CTI e não pode receber visitas — ele explicou, com aquela cara de membro da máfia italiana.
Franzi a testa ao escutá-lo. Nem em mil anos eu conseguiria sentir alguma simpatia por ele. Então, retruquei:
– Eric, eu sou a filha dele. Os médicos não podem me impedir de visitar meu próprio pai. — Erguendo o rosto molhado, olhei para tia Ariel. — Podem, tia?
– Acho que não, Emma.
– Deixem comigo — Regina falou. Com um gesto cuidadoso, retirou uma mecha de cabelo grudada em meu rosto por causa das lágrimas e prendeu-a atrás de uma de minhas orelhas. — Vou procurar os médicos. Melhor assim?
– Muito melhor.
COM A PALAVRA, REGINA.
Eu entendo quando a Emma diz que a dor dela não tem tamanho. Afinal, ela nunca perdeu ninguém muito próximo. É difícil fazer comparações quando não se consegue dimensionar esse tipo de sofrimento. Mas não cabe a mim alertá-la sobre isso. Sei que sua dor é real e imensa, porque também a sinto, duplamente até: por David e por ela.
Mas meu temor vai além. Embora eu não queira acreditar numa tragédia bem maior, isso não está descartado. Se David morrer, toda a responsabilidade de comandar o País recairá sobre a minha namorada. Meu medo é que ela não suporte a pressão.
Desde que a conheci, fui atraído por sua espontaneidade, seu jeito ingênuo e puro de ver a vida. É fato que, á primeira vista, desconfiei de suas intenções. Queria proteger David, meu segundo pai, de uma potencial golpista. Mesmo com aquela sua carinha de anjo e jeito de menina, foi impossível não levantar suspeitas. Sou uma mulher pé no chão.
Só que eu estava muito errada.
E eu não sei se essa constatação me animou ou me deixou assustada na época. A partir do momento em que me permiti enxergar a Emma com os outros olhos, abri as postas para um sentimento que não desejava ter. Não pelo fato de estar namorando Lacey. Nossa relação já estava tão esquisita e desgastada, que mais dia, menos dia, iria para o espaço, de todo modo.
O problema se resumia ao fato de eu achar que o amor não era para mim.
Daí, a Emma chegou e mudou tudo. Ela me deixou tão confusa que eu quase me estrepei. Vivia fantasiando situações com ela, que acabavam descartadas porque meus conflitos mentais não me deixavam agir.
Eu não estava acostumada com aquele tipo de temperamento. A Lacey me tirava do sério por outros motivos. Em dois anos, brigamos feito loucas. Ela era tudo, menos serena e compreensível.
Então a Emma me aparece, sem máscaras, desarmada, sendo só ela mesma.
De princesa, não tinha nada.
O dia em que a encontrei cozinhando com a Cora foi uma puta surpresa. Sem contar a sutileza de suas roupas. Caramba! Fui á cozinha beliscar alguma coisa e encontro a filha recém- descoberta do meu padrasto assumindo o lugar da cozinheira-chefe vestida apenas com uma saída de praia que mal escondia o não muito comportado biquiní com estampa de bolinhas. Assim que a vi de costas para mim, senti a pulsação aumentar. Acabei agindo como uma idiota. Lembro-me de ter deixado bem claro o que pensava a meu respeito.
Apesar de me ter condenado depois pela idiotice, pensei que a Emma fosse aproveitar a oportunidade para de fazer de vitima. Mas, então, ela se levantou, toda indignada, presenteando-me com uma visão em close de sua silhueta tentadora.
Nessa hora, tomei uma decisão repentina: faria tudo para passar um tempo sozinha com ela. Por isso me ofereci para ser sua acompanhante nos passeios pela Krósvia.
E deu no que deu. Também, né? Como ficar indiferente a uma coisinha que se esconde atrás das cobertas, com vergonha de sua aparência matinal, e xinga você de cretina minutos depois? Eu exagerava na abordagem, admito.
Não sei quando me apaixonei.
Fato. Sou desligada, não me ligo nesses lances de "quando" e "como".
Mas sou capaz de precisar o momento em que notei o interesse dela por mim. Porque a Emma é assim: transparente, verdadeira e apaixonada — pela vida, por tudo. Não tem como eu não amar essa garota.
Por isso ando preocupada. Politica não é brincadeira. Eu jamais quis me meter nessa canoa furada, e não á toa. Mesmo na Krósvia, onde as coisas funcionam bem, há um expressivo grupo de cobras politiqueiras, doidas por uma oportunidade de darem seu bote.
E minhas previsões são claras: sei muito bem a quem essa gente pretende atacar.
***
Enxerguei a figura empertigada do Senhor Gold no final do corredor. Atrás dele, dois outros homens conversavam entre si, um bem mais novo que o outro. Eu não os conhecia pessoalmente, mas sabia que eram da equipe de governo de David.
Enquanto fui á caça dos médicos, Ariel levou Emma para lanchonete. Ela precisava comer, já que sua última refeição havia sido um sanduíche servido no avião;
Eu estava um bagaço. Fazia horas que não dormia. Esperava poder levar a Emma para casa mais tarde — para a minha, evidente — e cair no sono com minha namorada nos braços. Mas isso só seria possível quando ela finalmente visse o pai e se certificasse de que não tinha nada a fazer além de aguardar.
O Doutor Whale, chefe da equipe que cuidava da recuperação de David, consentira que Emma fizesse uma visita ao pai por alguns minutos. Mas ela ainda não havia sido avisada sobre a decisão dele. Minhas intenção era dar a noticia o mais rápido possível, mas fui detida no corredor por Gold, o primeiro-ministro da Krósvia.
– Como vai, Regina? — Ele me estendeu a mão e eu retribui o gesto, apertando-a. Os outros homens só movimentaram a cabeça em minha direção.
– Não muito bem, não é mesmo?
– Eu sei. Se já não fosse ruim o bastante o acidente de David...
Gold interrompeu a frase. Ele não continuou, mas eu sabia aonde ele iria chegar.
– A coisa vai ficar feia se ele não melhorar rápido — concluí. — Para a Krósvia, quero dizer — completei.
Os homens pigarrearam atrás do primeiro-ministro. Provavelmente estavam achando que algumas informações eram restritas demais para mim. Só não mandei os dois para o inferno porque minha conversa com Gold tinha uma importância maior.
– E para a Emma, principalmente — esclareceu, visivelmente consternado. — Acabei de sair de uma reunião com o conselho. Ficamos horas analisando a política de sucessão. O texto é claro, Regina.
Gold fez suspense enquanto se aproximava mais para sussurrar:
– Em caso de incapacidade do rei, quem deve assumir o trono é seu parente mais próximo.
Como eu suspeitava. Mesmo assim, não deixei de questionar:
– Mas e você? Não é essa a função do primeiro-ministro?
– Não sou um vice-rei, Regina. Jamais poderei ocupar o posto de David, até porque não tenho acedência nobre.
Puta merda!, pensei. Passei a vida satisfeita por não ter o direito de fazer parte do grupo de sucessores do rei, feliz por ter me livrado dessa responsabilidade ingrata, para, no final, ver minha namorada metida nesse pepino.
– Precisamos ter uma conversa com a Emma. Onde ela está? — Gold movimentou a cabeça, vasculhando o corredor para ver se a encontrava.
– Não acho que aqui seja o melhor lugar para esse tipo de conversa.
– Não temos tempo a perder.
Quem discordou de mim foi uma dos sujeitos que acompanhavam o primeiro-ministro, o mais novo, um idiota com pinta de almofadinha.
Dei uma fuzilada nele com o olhar, quando o que queria mesmo era testar sua resistência com um tapa bem no meio da cara.
– Eu posso saber quem é você? — inquiri. Já podia sentir o sangue ferver. Sempre fui boa de briga, fiz aulas de todos as lutas marciais que existem. Quando descia o braço em alguém, fosse homem ou mulher, raramente saía perdendo.
– Não sei se preciso lhe dar essa informação.
Imbecil de merda! Sem pensar, avancei para cima do engomadinho, doida para descontar os problemas das últimas vinte e quatro horas naquela cara de pau. Me aproximei de seu resto e disse:
– Você pode ser qualquer imbecil que trabalha para o estado, mas EU sou a namorada da princesa e filha postiça do rei, e EU estou dizendo que ela NÃO vai resolver nada AGORA. Entendeu?
Estava prestes a enfiar minha mãe na cara daquele imbecil, quando Gold me conteve, o que acabou sendo positivo, no final das contas. Caso contrário, no dia seguinte, a imprensa adoraria publicar o último podre da família.
– Ei, Regina, se acalma, vai. Este é o Merlin. Faz parte da equipe de governo. É o chefe das relações públicas de David. E ele está certo. Temos que preparar a Emma antes que o país inteiro comece a nos cobrar.
Esfreguei a cabeça, irritada demais para falar. Pior que Gold tinha razão. A situação exigia soluções imediatas, mesmo que elas fossem aniquilar a já quase inexistente paz da minha garota.
– Deixem que ela, pelo menos, veja o pai primeiro. — exigi.
– É claro.
– Ok. Vou procura-lá, então.
Já tinha me afastado uns passos quando me lembrei de uma última pergunta:
– Quem vai ajudar a Emma nesse período? Quero dizer, ela vai precisar de apoio, porque, é óbvio, é humanamente impossível aprender a governar uma nação como a Krósvia da noite para o dia.
– Eu vou — Merlin erguei o braço, com a boca retorcida num sorriso triunfante.
Era só o que me faltava!
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