A princesa de Illéa
23 Projeto de filantropia das Selecionadas
Notas iniciais
Uma semana depois foi a apresentação das selecionadas no jornal oficial. No lugar onde geralmente meu pai dava as noticias ou eram feitas as entrevistas, havia uma mesinha, um cavalete e um tela para projeção de slides.
Cada uma terá oito minutos para apresentação e depois quem quiser pode fazer perguntas intermediadas por Gavril a respeito do projeto. As apresentações serão na ordem em que as Selecionadas estão sentadas.
Sou a primeira da minha família a chegar, Natalie, Kriss, Elise e Celeste já estão sentadas. Um pouco depois América chega e Silvia começa a dar instruções sobre a apresentação.
Depois que ela terminou meus pais chegaram conversando sobre algo que parecia sério. Maxon veio em seguida arrumando as abotoaduras em quanto caminhava até seu assento, Emily chegou logo depois junto com uma criada.
A primeira a se apresentar foi Natalie e a apresentação dela pode ser resumida em apenas uma palavra: decepcionante. Ela disse que as ações rebeldes eram detestáveis e odiosas e que deviam ser consideradas ilegais para proteção das províncias. O que ela não sabia é que já são e isso não os impede a fazer nada. Minha mãe foi a que pareceu mais decepcionada com a apresentação ingênua.
Elise propôs troca de cartas entre membros de castas superiores e pessoas na nova Ásia, pois isso ajudaria a por um fim na guerra. A ideia era boa, embora eu não entenda porque apenas membros de castas superiores devam participar, os de castas mais baixas que soubessem ler deviam poder participar também, mas fiquei com vergonha de perguntar o porque, sei que meu pai não ia gostar da pergunta. Minha mãe perguntou se ela conhecia alguém que estava disposto a participar e Elise respondeu que sim.
Kriss foi a melhor até aquele momento. Ela queria melhorar o sistema de educação publica. Usou o projetor para mostrar fotos enviadas por seus pais de algumas escolas, em algumas o professor parecia cansado de mais para dar aula e em outras tinha até crianças sentadas no chão por falta de cadeiras. Minha mãe fez uma serie de perguntas que Kriss respondeu rapidamente, até mostrou de onde poderíamos retirar dinheiro e como continuar cobrindo os gastos.
Celeste propões um salário mínimo para as castas inferiores, de acordo com uma escala gradual, baseada em diplomas. Se você pensar bem, se o projeto da Kriss der certo, consequentemente o de Celeste vai dar mais retorno, porém acho pouco provável que tenham combinado algo entre si.
América colocou o cartaz dela no cavalete, um diagrama com a ordem das castas. Depois respirou fundo e segurou suas fichas.
— Boa noite, Illéa. Hoje, me dirijo a vocês não como membro da Elite, não como uma Três ou uma Cinco, mas como uma cidadã, uma igual. De acordo com a casta de cada um, a experiência neste país é diferente, tingida de tons bastante definidos. Digo isso por mim mesma. Mas não foi senão recentemente que descobri o quão profundo era meu amor por Illéa. Apesar de ter sido criada em meio à escassez de comida e eletricidade; apesar de ver entes queridos serem obrigados a assumir, com poucas esperanças de mudança, tarefas de que somos incumbidos desde o nascimento; apesar de ver diferenças entre mim e as outras pessoas por causa de um número, muito embora não sejamos tão diferentes assim — Ela olha para as outras Selecionadas — apesar de tudo isso, amo este país.
— O que proponho não seria simples. Pode até ser doloroso, mas realmente acredito que poderia ser benéfico para todo o reino. — Ela toma folego como se se preparasse para algo grande — Eu proponho que eliminemos as castas.
Fiquei boquiaberta sem reação. Eu ouvi direito? Fim das castas? Simplesmente fiquei sem reação, sem certeza se tinha ouvido certo.
— Sei que houve um tempo em que nosso país era novo, quando a atribuição desses números ajudou a organizar algo que estava a ponto de desaparecer. Mas não somos mais aquele país. Somos muito mais agora. Permitir que pessoas incapazes tenham inúmeros privilégios e suprimir aqueles que poderiam ser as mentes mais brilhantes do mundo em nome de um sistema arcaico de organização é algo muito cruel. Apenas nos impede de sermos melhores, de chegarmos ao nosso máximo. — América continuou como se não tivesse dizendo nada de mais.
Ela menciona uma pesquisa feita em uma revista, cita um artigo de um relatório e comenta que devíamos ter vergonha de ter pessoas confinadas para cavar canais quando poderiam realizar cirurgias do coração.
Finalmente conclui:
— Talvez nosso país tenha falhas, mas não podemos negar sua força. Temo que, sem mudanças, sua força estagnará. E amo demais nosso país para deixar isso acontecer. Tenho esperanças demais para deixar isso acontecer. — Ela engole em seco — Obrigada pelo tempo de vocês
Olhei para minha família, Maxon está com uma expressão meio tensa, quase petrificada, minha mãe desviou o olhar, aparentemente decepcionada, meu pai pelo contrário encarava América com um olhar desafiador e Emily, é claro, não estava entendendo absolutamente nada e apenas olhava para todos procurando explicações. Faço que nem minha mãe e desvio o olhar discretamente.
— E como você sugere que eliminemos as castas? — Diz meu pai em tom de desafio. — Simplesmente as removemos?
— Bem... não sei.
— E você não acha que isso causaria tumultos? O caos completo? Daria oportunidade para os rebeldes tirarem vantagem da confusão geral?
— Acredito que a criação das castas tenha gerado uma confusão considerável. Mas sobrevivemos. De fato — Ela põe a mão em um livro — tenho uma descrição aqui.
Com apenas um gesto, meu pai mandou cortarem a transmissão. As câmeras foram apontadas para baixo e as luzes foram apagadas.
— Estamos fora do ar? — o meu pai berrou.
— Sim, Majestade — uma voz respondeu.
— Aponte as câmeras para o chão. — Ele ordenou
E cada uma delas foi virada para o piso.
Ele se aproximou e arrancou o livro das mãos de América.
— Onde você conseguiu isto? — ele gritou.
— Pai, pare! — acorreu Maxon.
— Onde ela conseguiu isto? Responda-me!
— De mim. Queríamos saber o que era o Halloween. Ele escreveu sobre isso nos diários, e pensei que talvez ela gostasse de ler mais. — Maxon confessa
— Seu imbecil! — vociferou meu pai. — Eu sabia que devia tê-lo feito ler isto antes. Você está completamente perdido. Não faz ideia do seu próprio dever.
— Ela parte hoje — ordenou. — Estou farto dela.
As Selecionadas estão nervosas, acho que todo nós estamos, minha mãe, conselheiros, até mesmo Emily, quando meu pai fica assim... Melhor sair de perto.
— Você não pode mandá-la embora. A escolha é minha e eu digo que ela fica — Maxon afirmou com a voz calma.
— Maxon Calix Schreave, eu sou o rei de Illéa e digo...
Apesar da tensão tenho vontade de rir, o nome do meio de Maxon é simplesmente ridículo, Calix...
— Você poderia deixar de ser o rei de Illéa por cinco minutos e ser apenas meu pai? — Maxon gritou. — A escolha é minha. Você pôde fazer a sua, e eu quero fazer a minha. Ninguém sai sem que eu diga para sair!
Amberly, leve isso de volta ao seu lugar — ele disse, jogando o livro nas mãos da minha mãe. Ela permaneceu ali, balançando a cabeça sem se mover. — Maxon, preciso vê-lo no meu escritório.
Terror fica claro na cara de Maxon, ele sabe bem o que está por vir, chicotadas.
— Ou eu poderia simplesmente falar com ela — propôs
— Não — Maxon reagiu de imediato, com a mão levantada em protesto. — Isso não é necessário. Senhoritas — ele acrescentou — por que vocês não sobem para o quarto? Cuidaremos para que lhes sirvam o jantar lá.
Ele faz uma pausa e completa:
— America, talvez você devesse ir primeiro e fazer suas malas. Só para o caso de acontecer alguma coisa.
Meu pai sorri
— Excelente ideia. Depois de você, filho.
Maxon abre a boca para falar algo mas logo desiste.
— Clarkson? — minha mãe com uma voz serena — E o outro assunto?
— Qual? — perguntou ele, irritado.
— As notícias — lembrou ela. Isso me deixa nervosa, tem mais?
— Ah, sim. — A voz dele sua firme e calma ao mesmo tempo — Natalie, não queríamos contar antes do Jornal Oficial, mas recebemos más notícias.
– Más notícias? — perguntou ela, ansiosa, com a mão sobre o colar.
Ele se aproxima de Natalie.
— Sim, sinto muito, mas parece que os rebeldes levaram sua irmã esta manhã.
— O quê? — ela falou, quase sem voz.
— Seus restos mortais foram encontrados à tarde. Sentimos muito. — Havia certa compaixão em sua voz, mas não parecia verdadeiro e sim treinada.
Em seguida ele conduziu Maxon a força até seu escritório, Maxon deve amar muito América, pois essa é a primeira vez que vejo ele enfrentar meu pai. Elise e Celeste também se retiram. Kriss tentou confortar Natalie, mas acho que como é filha única não podia fazer muita coisa. Minha mãe disse a Natalie que guardas acompanhariam seus pais por precaução e que ela poderia sair para acompanhar o funeral, se quisesse. Tudo isso sem deixar de abraçar Natalie por um instante.
Pensei em como sofreria se perdesse um de meus irmão e ia acalmar Natalie, mas no caminho uma coisa me chamou atenção: o livro que causara toda essa confusão, minha mãe ainda não devolveu.
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