A primeira explosão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Harrison Cook caminhava arrastando os pés pela rua da pequena vila bruxa em direção a sua casa. A lua já estava alta no céu e as casas a sua volta já estavam todas mergulhadas no silêncio da noite. Havia meses que não conseguia chegar em casa em um horário aceitável. Com a guerra cada vez mais intensa, mais trabalho surgia para os aurores e menos tempo eles passavam com suas famílias.
Cook gostava de pensar que isso era para o bem de seus filhos. Passar menos tempo com eles hoje para que amanhã eles possam passar mais tempo com seus futuros filhos. Era um pensamento que o ajudava a enfrentar as grandes jornadas de trabalho.
Estava com os ombros tensos. Nos últimos meses, ele e os outros aurores do departamento trabalhavam incessantemente em um projeto muito bem bolado para a captura de um número efetivo de comensais da morte. Saber planos como esse sempre causavam grande apreensão em quem estava envolvido, era como andar com alvos luminosos nas costas.
Mal o pensamento pousou em sua cabeça e o auror foi surpreendido por três homens encapuzados com máscaras de comensais. Feitiços voaram tão rápido em sua direção que ele jamais saberia dizer qual o real lado de que vieram.
Um raio verde passou raspando por sua orelha, fazendo os cabelos de sua nuca se arrepiarem. Ouviu um dos homens brigar com o outro pelo uso da maldição da morte. Algo se acendeu em sua mente. Eles lhe queriam vivo.
Foi a sua vez de lançar maldições. A regra de não matar poderia estar valendo para eles, mas ele não pensava o mesmo. Eram apenas três comensais, mas pareciam se multiplicar, via feitiços vindo de todos os lados.
Até que um desses feitiços acertou-lhe uma das pernas, sentia o sangue escorrer em abundância pelo grande corte recém adquirido. Reunindo as forças continuou lançando maldições aos homens a sua frente, porém não demorou muito para que um feitiço de desarmamento o acertasse. A dor na perna pareceu aumentar ainda mais como efeito do medo que se instalou sobre ele, na tentativa de correr em alguma direção se desequilibrou e caiu.
Uma gargalhada fria foi ouvida.
— Rodolphus, ande... amarre nosso querido amigo, vamos leva-lo ao Lorde. – Uma voz calma e arrastada ordenou.
Rodolphus Lestrange com o rosto agora amostra, causado por algum feitiço que provavelmente o acertara fazendo sua máscara cair, tinha uma expressão distante, parecia preocupado com algo muito além da luta que acabara de participar. A verdade é que a mente dele estava pousada em sua mulher e não na atual missão. Haviam questões que o estavam tirando o sono nos últimos dias, questões que preferia que jamais tivessem surgido.
— Rodolphus? Está me ouvindo?
Era agora, pensou Harrison, era o momento perfeito, aproveitaria da distração dos comensais e chamaria ajuda.
Tocou na medalhinha pendurada em uma corrente em seu pescoço e em segundos pôde ouvir o barulho de aparatação ali perto. Tudo foi muito rápido. Quando olhou para o lado vinham seus dois colegas Yardley Hall e Harold Patel lançando maldições em direção aos homens vestidos em longas capas pretas.
O comensal que antes havia mandado Lestrange o amarrar agilmente puxou os outros dois pelo braço aparatando antes que os aurores pudessem prendê-los. As últimas maldições lançadas na direção dos mascarados ainda podiam ser vistas voando na noite escura sem um alvo certo.
Apenas por mais essa noite Harrison Cook poderia suspirar aliviado, as trevas ainda não tinham vencido.
***
O estalo que foi ouvido no pequeno bosque espantou os pequenos animais que procuravam por comida ali.
Lucius Malfoy não teve tempo ao menos de organizar a mente após a aparatação feita às pressas e seus dois companheiros já estavam aos gritos.
— Qual o seu problema hein, Lestrange? Cook estava ali, pronto para ser levado, era só amarrar o idiota. – Evan Rosier atirou a máscara de comensal que usava longe descontando sua raiva.
— Ah cala a boca! Não sou obrigado a ouvir besteiras de um pivete como você.
— Posso ser novo mas tenho certeza que sou muito mais homem que você, posso afirmar que Bella concorda comigo. – disse Evan com ar de sarcasmo.
— O que você está querendo dizer, hein? Estou cansado desses seus deboches para cima de mim, moleque! Não pense que por ser da família da minha mulher tenho que lhe aguentar. — Berrou Rodolphus, os olhos transbordando de raiva.
— Pessoal, vamos nos acalmar, por favor! Uma briga não vai nos ajudar em nada, precisamos ver qual caminho seguir agora que perdemos o auror e as informações que conseguiríamos tirar ele. – Lucius tentava a todo custo chamar os homens de volta a tranquilidade. Não bastava saber que precisaria dar satisfações ao Lorde, agora ainda teria que lidar com seus parentes se digladiando.
— Estou querendo dizer isso mesmo que você entendeu. Você é um merda, Rodolphus! Aparentemente além de não conseguir segurar a própria mulher, consegue deixar escapar um auror desarmado sangrando no chão. Agora consigo entender por que minha prima prefere compartilhar a cama com o Lorde ao invés de se deitar com você. – Os gritos do jovem Rosier eram tão altos e cheio de ódio que mesmo longe de possíveis ouvintes Malfoy teve medo de aurores aparecerem atraídos pela confusão.
— Evan cale a boca, pelo sangue de Slytherin! – Exclamou Lucius já vendo o desastre que daria aquela discussão.
— Ora seu fedelho desprezível! Arrancarei a sua língua e farei você engoli-la! – Urrou Lestrange, a cólera que emanava do homem era tamanha que jamais tivera sido vista antes.
A súplica de Lucius parecia se quer ter sido ouvida. Lestrange e Rosier apontavam as varinhas um para o outro, as maldições imperdoáveis já podiam ser ouvidas sendo formadas em suas bocas quando Malfoy ergueu sua varinha conjurando um escudo entre os dois.
— Evan já chega! Todos nós estamos irritados por não ter conseguido mas vamos ter outras chances de colocar as mãos naqueles planos. E você Rodolphus, pare de dar ouvido as besteiras do Evan, você sabe como ele é impulsivo, sabe que ele não pensa quando fala. Vá para sua casa e se acalme, quando vocês dois tiverem voltado ao normal quero os dois na mansão para que possamos traçar outra estratégia para a missão. Agora vamos parar com essa palhaçada! Estou cansado, irritado e vocês estão me deixando mais zangado ainda agindo como crianças. Estou aqui perdendo meu tempo separando as briguinhas de vocês quando poderia estar em casa com minha mulher. – Tudo precisou ser falado em um grito ainda mais alto que os outros para ser ouvido.
Lucius sabia, assim como diversos outros comensais, que as palavras de Rosier não eram realmente besteiras. Todos já podiam notar como Bellatrix olhava para Voldemort, só o cunhado ainda não havia percebido. Era cada vez mais difícil esconder os comentários de Rodolphus, mas todos se esforçavam. Menos Evan... sua antipatia pelo marido da prima o incentivava a jogar cada vez mais piadas e indiretas ao homem, além dos risos de deboche soltados em todas as oportunidades que tinha. Lucius já estava pressentindo aquela tragédia a tempos.
A raiva que transparecia nos olhos de Rodolphus Lestrange era quase uma áurea solida a sua volta, antes de seguir o conselho do cunhado e aparatar para casa, pôde ver o sorriso irônico nos lábios de Evan Rosier.
O jovem de longos cabelos e ar nobre tinha conseguido colocar fogo na pólvora, agora era só esperar a explosão.
***
O homem chegou em casa como um furacão, batendo todas as portas que encontrava. Estava à procura de sua mulher, hoje colocaria aquela história em pratos limpos.
Entrou em uma das salas de sua mansão e encontrou Bellatrix atirada como uma rainha egípcia no sofá, o vestido de espartilho tão negro quanto seus cabelos esvoaçantes estava amontoado de forma a deixar a mostra boa parte de uma de suas pernas.
Até quando estava sozinha em um momento de relaxamento ela conseguia ser a mais sensual e nobre entre as mulheres. O pensamento que normalmente deixava Rodolphus orgulhoso, naquele momento o deixou com mais raiva ainda. Talvez se sua mulher não chamasse tanta a atenção... se fosse mais comum... ele não teria aqueles demônios o assombrando.
A mulher assim que o viu entrar de um rompante no cômodo, se levantou com um grande sorriso estampado no rosto indo em sua direção.
— Roddy! Você não vai acreditar no que o Mestre me ensinou hoje...
— De hoje em diante eu não quero ouvir um pio sobre esse homem dentro da minha casa, você está ouvindo, Bella? – o homem já tinha encurtado a distância entre eles e gritava tão forte que pingos de saliva respingaram no rosto da mulher a sua frente. – Os nossos assuntos de comensais terminam assim que colocarmos os pés aqui dentro. Você ouviu bem?
— Ma-mais por que? O que deu em você? – Perguntou a bruxa assustada com o comportamento do marido que em geral era tão calmo, ao menos com ela.
— Não interessa o que deu em mim! Sou seu marido e ordeno que de hoje em diante você não fica mais a sós com Voldemort, a não ser que seja extremamente necessário.
— O que? Você não pode fazer isso! – agora ela também gritava, um misto de raiva e indignação se apoderando de sua voz.
— Não posso? Não posso!? — repetiu ele, incrédulo. — Sabe o que eu não posso, querida esposa? Continuar ouvindo piadas do imbecil do seu primo! Continuar a ter cochichos a minha volta dos outros comensais falando que minha mulher está se comportando como uma prostituta barata dormindo com meu Lorde. – O rugido do homem foi tão forte que qualquer um diria que os leões na savana estavam sentindo inveja.
— Q-que? Quem te falou isso?
— O idiota do seu primo Evan Rosier! Não é a primeira vez que escuto gracinhas vindo dele. Aliás, já fique ciente que quando eu pegar aquele pivete não vai sobrar um dente em sua boca para dar mais um daqueles sorrisinhos repulsivos dele, é bom que você não o defenda. Eu estou cheio! Quero saber o que diabos você anda fazendo com o Lorde, Bella, e espero que pense muito bem antes de me responder por que não sei o que sou capaz de fazer com você.
As mãos de Bellatrix Lestrange tremiam, tinha tomado cuidado, sabia que tinha. Então como comentários daquele tipo tinham chegado aos ouvidos do seu marido? Já não podia resistir, o que sentia por Voldemort era tão forte que nem ela conseguia compreender. Mas tentava a todo custo esconder isso, ao menos dos outros. Afinal, carregava o sangue de uma das mais importantes famílias bruxas da história, tinha o dever de corresponder às expectativas que a rodeavam, devia manter o casamento perfeito que o pai tinha lhe arranjado, não podia deixar uma vergonha como uma traição manchar sua história.
— Rodolphus, m-meu amor... é lógico que Evan está fora de si, você sabe como ele é inconsequente. Como pode pensar algo assim de mim e principalmente do nosso mestre? – disse ela de forma mansa, sabia que esse era o melhor jeito de acalmar o homem a sua frente. — Ele jamais me olharia assim. – Completou. E essa pequena frase foi seu grande erro, não apenas as palavras, mas o sentido dado a elas quando deixou o tom de lamento escapar.
— Que? – o bruxo não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Sou apenas mais uma serva leal aos ideias do nosso Mestre, ele nunca me daria tal atenção. – A lamúria escorria de cada palavra e ali ela percebeu sua falha, tinha falado demais, fora traída por si própria.
O homem soltou uma gargalhada que gelou a espinha da mulher. Bella pela primeira vez sentiu medo, medo que até então só era sentido pelas vítimas do casal quando ouviam aquela risada.
— Você só pode estar brincando comigo, Bella. Quer dizer que só não acontece por que Voldemort não quer? Se ele dissesse “sim” você abriria as pernas para ele na mesma hora? Como uma trouxa nojenta de sangue imundo? – Brandiu ele enquanto andava de um lado para o outro pela sala. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo, não podia acreditar. Podia jurar que tinha feito uma boa escolha, achava que entre as irmãs Black tinha ficado com a melhor.
Estava errado.
O tom de voz do homem, junto com as risadas eram tão assustadores que até as tabuas do solo aos seus pés tremiam. Na grande sala da mansão Lestrange, Rodolphus parecia ter dobrado de altura, tamanha era a sensação de horror que causava.
— Ro-Rodolphus, meu a-amor, não é...
— Não me chame de meu amor! – Em poucos passos ele já estava grudado a ela, tinha uma mão apertando com força o braço fino da esposa enquanto a outra segurava seu queixo com igual pressão. – Escute aqui, sua vagabunda, você é minha! Está entendendo? – sussurrou. — Eu comprei você do seu velho pai e paguei caro pelo pacote intocado. Faço com você o que eu bem quiser e se eu ouvir mais uma gracinha se quer, de quem quer que seja, você vai ter sérios problemas. Eu espero nunca mais ter que escutar algo sobre esse seu comportamento inadequado. Fui claro?
Bellatrix Lestrange chorava. Não de medo, mas de vergonha. Vergonha por saber que tudo que ele falava era real.
Mas além da vergonha outro sentimento crescia rápido dentro dela. Ódio.
— Fui claro? – trovejou.
— Sim! – a resposta veio baixinho. O homem soltou ela com força a fazendo cair no chão sobre a tapeçaria cara.
Ali, jogada no chão, com os cabelos desgrenhados, o rosto e o braço marcados no que mais tarde se tornariam roxos, chorando, Bellatrix só sentia ódio.
— Você vai se arrepender por isso, Rodolphus! Juro que vai!
O bruxo se virou para a mulher caída aos seus pés, os olhos vazios de qualquer expressão, apontando-lhe a varinha proferiu em alto e bom som.
“Crucius.”
— Você não entendeu ainda, Bellatrix? Eu mando aqui, eu mando em você. Pode demorar, mas vou lhe ensinar a respeitar quem deve ser respeitado. Acredite... está doendo mais em mim do que em você.
Agora sim virando as costas, deixando para trás a mulher que agora chorava ainda mais, o homem saiu da sala.
Aquele dia seria marcado para sempre na vida dos dois.
Naquele dia Rodolphus Lestrange não podia imaginar o inferno que estava por vir em sua vida. Ainda não podia saber que teria que aprender a viver com os comentários, com os olhares. E o pior... por mais que tentasse negar, aceitaria tudo e qualquer coisa por ela.
E a desgraçada sabia muito bem disso. Sempre soube... desde o início.
Para Bellatrix, aquele dia ficou marcado como o dia em que a maldição Cruciatus se tornou a sua preferida. Usaria a raiva que estava sentido naquele momento para causar dor e medo em seus inimigos.
E o que um dia serviu para lhe causar dor, passaria a servir para lhe trazer prazer e encher ainda mais de orgulho seu precioso Mestre das Trevas.
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