A penitente
1 Mariposa
Notas iniciais
Maria Dolores do Nascimento era em tudo muitíssimo caricata, durante doze anos de vida lhe findou na pele uma cor de nata, amarelo febril que em muito faziam par a seus olhos opacos, pretos eram a pupila e íris os quais brilho nenhum penetrava, olhos de peixe, de menina sofrida que as olheiras maculavam. E as sobrancelhas muito negras contrastavam com a palidez da testa, quão grandeza incomparável, seus cabelos crespos espicaçados possuíam um volume tal que não lhe apetecia. E nesse rosto colérico, ainda havia pelos e espinhas e uns dentes amarelos que há muito estavam separados.
Maria Dolores ainda cheirava a bicho, animal assustado, ratinho que era. Andava de postura corcunda e passos engraçados, não lhe bastasse a estranheza da aparência ainda era esquisita: sua mente habitava as nuvens e se por ventura alguém a fizesse regressar, só lhe respondia em balbucios tímidos e dela se riam e faziam algazarra. Maria Dolores era de fato mistura incerta entre tristeza e desgraça.
Morava no frio, pobre enraizada, além de um agasalho rasgado apenas o uniforme escolar lhe vestia o corpo, nem por tanto a frieza debandava. Andava sozinha até a escola com sua bolsinha rosa recheada de livros pesados que faziam sua coluna doer, mas não se fazia perceber já que tudo lhe doía, a alma, as juntas e até os pés castigados. Tremia penosa, se não chorava era porque a lagrima iria gelar seu rosto, não se encontrava menina de mediocridade igual.
A escola era católica, de freiras rígidas e moral elevada, a pobre Dolores fazia papel de jesus, mas para as freiras toda penitência era sagrada e a sua cruz era delegado mais cuidados que a ela própria. Todos os dias sentava-se naquela sala mofada, da cor de tristeza, e de humildade tal que apenas bancos de madeira havia, um quadro negro, uma unha de giz, um tamborete para castigos, uma professora amassada e um armário para o resguardo dos livros e deveres diários.
A saia marrom lhe cobria as pernas o cabelo lhe escondia a cara, sentava no fundo procurando refúgio, mas a professora em seus ódios matinais lhe delegava a sentar no meio da sala por puro deleito, e entravam alunas e alunas até que tocavam o sino e a penitência iniciava, entre rezas e álgebra era tudo sofrimento, até de Deus Dolores duvidava.
De riso frouxo e leveza da alma as alunas pareciam meninas bonitas e bem-educadas, verdadeiros anjinhos de cachos louros e brancura rosada de modo que encantavam a todos que viam e estes diziam “Só podes ser abençoada”, mas guardavam no fundo um demônio encarnado que grudava na alma lhes tomava o coração e nem as mães sabiam que a prole era de fases, um verdadeiro diabo em forma de gente.
Dolores pagava os pecados de uma vida que nunca tivera, de troça a pano de chão, virava de tudo que as suas senhorinhas lhe desejavam, e não é que lhes queria a amizade, era apenas uma pobre alma deixada a mercê de Satã, o senhor das trevas encarnado no corpo de meia dúzia de garotinhas. Se havia no mundo criatura com menos dignidade não se há de saber, mas Dolores aguentava do modo que podia, engolia o orgulho ferido tantas vezes o vomitasse.
Havia quem se apiedasse, mas de medo carcomido respiravam e existiam em silencio, ao menos para Dolores, para ela não havia olhos, ouvidos e muito menos bocas, não passava de almas no limbo com medo de serem mandadas ao inferno para compartilharem do mesmo castigo. Era possível perdoar o egoísmo alheio se este não ferisse o seu.
Não passava de uma quarta-feira mal-amada de nuvens pesadas e espíritos estarrecidos, enquanto o mundo corria louco, nesta mesma escola, na mesma sala estavam as alunas prisioneiras, reféns da biologia. Como em todos os outros dias Dolores estava sentada no meio da sala, de modo que era rodeada pelas outras alunas.
Neste mesmo momento elas gozavam em pleno esplendor do infortúnio da triste Dolores, que distraída em seus pensamentos fora pega em flagra pela Irmã Clementina que ministrava a aula, esta primeiro fez uma pergunta de elevado nível a respeito do assunto debatido e vendo que Dolores encontrava na cabeça apenas o vazio do silencio e não as respostas apresentou um clamoroso sermão a respeito de como crianças desobedientes eram castigadas do fogo infernal, pôs também a menina de castigo na humilhação do tamborete e deu lhe algumas palmadas na mão com o apagador.
Na décima e última palmada uma das garotas não aguentou e pôs-se a quebrar a tensão da sala com seu riso atroz, e logo foi acompanhado por todas as outras. Na cabeça de Dolores aquele momento durou uma eternidade, sua visão estava turva devido a humilhação de ser levada ao tamborete, e no momento em que os risos irromperam ela só conseguiu ver o borrão de rostos deformados, as bocas escancaradas, os dentes proeminentes, os olhos semicerrados e o som diabólico pareciam vozes de almas desesperadas, era lento, forte e doloroso.
Em realidade aquilo tudo durou poucos segundos, Irmã Clementina já estava com raiva por tantas intromissões e mal os risos surgiram ela já os calara novamente, proferindo novamente um sermão, mas dessa vez mais curto e dirigido a toda sala. Claro que Dolores mal percebeu, seu olhar só focava nos ladrilhos envelhecidos do chão, a boca levemente entreaberta, sem conseguir pensar em absolutamente nada e com o olhar fixo, tão grande fora o impacto.
De fato, poderia parecer apenas mais um ato corriqueiro e comum nas escolas, mas estava ela de um modo tão saturada de toda essa situação vivenciada todos os dias de sua vida, que um acontecimento tal acabou por impactar profundamente sua constituição já quebradiça. O sino da salvação ressoou e enquanto Irmã Clementina suspirou de frustração as outras garotas ressoaram alegres seus cantos de passarinha joviais e saíram piando pelos corredores até que só restava estas duas coitadas na sala.
A professora já exausta olhou para a menina no tamborete e franziu a sobrancelha, ela continuava lá, tão pálida quanto um ser humano poderia ser e parecendo um cadáver que se esqueceram de enterrar. Mas ela própria possuía seus problemas e ignorou os da aluna, que embora evidentes lhe eram insignificantes. Saiu para fumar no banheiro, era freira, mas não santa.
E a pobre Dolores ainda em choque saiu de sua cadeira, mas seu olhar continuava fixo em algum lugar e não se podia dizer qual, não enxergava a sua frente, talvez só conseguisse ver o vazio de sua alma, silenciada pelo sofrimento. Dolores surtou, sentou no banco de madeira que lhe fazia doer as ancas e começou a riscar seu caderno freneticamente, queria escrever então olhou para a sala e procurou o nome da primeira coisa que viu, e era uma mariposa desenhada no quadro.
Assim se pôs a escrever a palavra mariposa tantas vezes que esta perdeu o sentido, escrevia com tanta força, rapidez e vigor que seu próprio dedo começava a rasgar no lugar em que a pele encostava no lápis áspero, e as próprias palavras foram se misturando umas em cimas das outras até serem somente um borrão inteligível e frenético. Mal conseguira acalmar o próprio coração e vira que o intervalo estava prestes a acabar, logo percebeu e fechou o caderno e pôs-se imóvel em seu lugar.
Novamente o movimento da entrada das alunas, os anjos caídos em pleno caos até que irmã Clementina chegou e pôs em ordem as garotas. Esperou em pé até que a ultima aluna chegasse e esta sofreu com uma breve reprimenda, e enfim todos em ordem a aula prosseguiu sem maiores inconveniências. Dolores sentiu em sua nuca o impacto suave de uma bola de papel, mas continuou imóvel, não denunciou a professora os abusos, nem mesmo quando sentia os puxões de cabelo tão frequentes que sua sensibilidade tinha diminuído. Não falava também dos olhares atravessados e nem dos bilhetes com xingamentos, absorvia tudo para si, escorria por dentro o seu sofrimento.
Nessa mesma tarde sentia que lhe puxavam o cabelo e escutou o rangido baixinho de uma tesoura, quando olhou para trás viu o anjo mais lindo do céu segurando uma mecha quebradiça de seu cabelo, não fez caso, a professora estava apagando o quadro negro e a poeira branca que desprendia lhe tampava os olhos por algumas piscadas.
Dolores virou-se para frente rapidamente e tapou a boca com a mão, sentia uma vontade incontrolável de chorar, as meninas que sentavam ao seu lado viram, e uma avisou para as outras que estavam atrás, e riram-se risinhos abafados como se festejassem alguma grande coisa.
Atolada na própria tristeza Dolores pensava sobre qual luz amaldiçoada havia nascido, deprimida por Ele ter gasto seu dom divino criando essa criatura sem vida, que respirava já morta, mas Dele não se entende e nem se faz cobranças, se sentiu ainda pior por estar questionando algo que sempre fora tido como certo e inquestionável, mas estaria mesmo correto ela viver uma vida de cachorro apenas pelo mero sadismo do acaso?
Dolores não saberia responder, mas um vento frio surrupiou pela brecha da janela e seu caderninho se abriu na página das mariposas, ela viu exposta nas marcas fundas do papel amarelo todo seu sofrimento, os anos de humilhação e teve uma certeza na vida, Ele a negava, e se assim o fazia devia ela nega-lo em dobro, abandonara sua ovelha e esta não deveria voltar ao pasto.
Como que um sinal do acaso, ressoou o ultimo badalar do sino, anunciando o final da aula, esse momento foi prosseguido por uma breve reza qual Dolores proferiu com amargor característico da descrença e as alunas se achavam libertas. Dolores olhou para Irmã Clementina e ela lhe retribuiu e ficou implícito o adeus, partiu deixando-a sozinha na sala.
Foi a passos lentos até a capela da escola, que em tudo contrastava com o resto já que era muito alta e belissimamente adornada, de fato um lugar sagrado, mas findava hoje sua glória.
Quem a viu entrando julgou que ia rezar, mas fora com outro propósito, subiu as escadas com a pressa de quem espera a morte e foi até o lugar que sentenciava sua liberdade, ela e o sino disputando pelo lugar mais alto, já passava das três horas e sol estava coberto pelas nuvens e embora tudo fosse frio surpreendentemente uma brisa morna lhe tocou em última consideração, não havia luz em seu destino.
Foi naquela tarde que Maria Dolores do Nascimento se tornou pássaro sem asas, percorreu o caminho inverso qual havia feito nem meio minuto antes, maculou o chão sagrado da calçada da capela com o vermelho do seu sofrimento e ainda havia quem lhe chamasse de amaldiçoada a menina sofrida que nunca teve paz.
E dos pais para ela se fizeram em prantos, e dos demônios em coitadas, a professora em virgem preocupada, mas Dolores estava qual a tornaram a ser, morta e enterrada, a penitente era ela, de jesus a judas não lhe importava, já dormia em sono calmo e nem com multidão de mariposas seria possível para lhe acordar.
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