A pedra no meu sapato
23 Tudo ia tão bem
Notas iniciais
Eu descansava fisicamente enquanto minha mente explodia em sentimentos que mal posso expressar. Raiva, ódio. Mandei o Colin embora fazem cinco horas.
E essa porcaria desse celular não para de tocar. Ele vibra, toca, e tudo o que eu posso fazer é apenas encarar aquela merda da foto de um loiro de olhos azuis sorrindo, com o nome "Peter" em baixo.
Eu até cogitei em segurar aquela coisa de metal em minhas mãos e deslizar o moderno touch screen para a esquerda, atendendo a chamada. Perguntar o que estava acontecendo. Mas meus olhos viram o que estava acontecendo. Meus olhos viram aquela maldita foto, com ele e sua querida Lily. Eu nem ousei olhar duas vezes. Nem ousei porque não queria sentir meu coração mais machucado que antes.
Minha barriga ronca. Estou com fome. Mas eu não sinto nenhuma vontade de levantar daqui. Claro que eu jamais me suicidaria por um homem. Muito menos por um desse nível. Mas, eu só preciso digerir as coisas agora.
— Sarah. — Ouço batidas e gritos vindos do andar de baixo, da porta. — Sarah, abre a porta.
Eu não sei por que, mas eu desci. Desci até a porta. Mas eu não tinha a mínima vontade de abri-la. Escorei meus braços nela e logo minha cabeça.
— Sarah. Eu tô ouvindo você aqui. Tô vendo a sua sombra por baixo da porta. — Ele insistia. — Abre.
— Vai embora. — Falei com dificuldade aquelas palavras, voltando a vontade de chorar desesperadamente.
— Sarah?
Fui até o sofá lentamente e ignorei as palavras que saíam da boca suja do Peter, que estava batendo na minha porta. Peguei aquela foto na minha mão sem olhar para ela novamente. Não diretamente.
Dei passos curtos e lentos novamente até a porta. Me abaixei enquanto ainda ouvia as batidas. Peguei aquela enorme foto e a enfiei lentamente por baixo da porta.
As batidas cessaram. Me levantei ainda sem vontade de caminhar e o encarei pelo olho mágico. O loiro segurava em suas mãos aquela coisa, com um olhar incrédulo.
— Agora, por favor. Vai embora. — Falei, ainda o observando.
Eu não iria aceitar nenhuma palavra da boca dele. Mas, confesso que eu esperava que ele brigasse comigo e dissesse como tudo aquilo era mentira. Dissesse como eu estava errada, e como ele me amava e jamais encostaria seus lábios nos de outra sem que fosse eu.
Eu queria, como queria. Ao mesmo tempo que não queria ouvi-lo, eu queria que ele gritasse pra mim.
Observei-o abrir e fechar a boca umas três vezes. Ele encarou o olho mágico. Ele sabia que eu estava ali.
Discorde, Peter. Grite. Fale, que não é verdade. Minha mente berrava. Eu queria pedir que ele ficasse. Mas novamente, tudo o que saiu de meus lábios foi:
— Vai embora.
Não é verdade, é? Peter? Peter?!
E eu continuei observando-o sair do pátio da minha casa, cabisbaixo. Ele foi até o lado do motorista em frente ao seu carro. E me encarou pela última vez. E aí Peter Johnson foi embora da minha casa.
Instantaneamente meus joelhos frágeis se dobraram, encontrando o chão. Não hesitei em deixar as lágrimas rolarem. Eu estava tão confusa. Eu não podia acreditar, que... O meu Peter...
Ele é um idiota, cafajeste, canalha. Você deve esquecê-lo, Sarah.
Por quê ele não se explicou?!
Ele é como todos os outros. Você é burra.
— Eu te odeio! — Berrei. Coloquei as duas mãos sobre minha cabeça e segurei com força meus cabelos. — Odeio!
Eu queria odiá-lo. Ódio era só um sentimento momentâneo que eu sentia por ele. Porque os meus sentimentos por Peter Johnson eram exatamente o contrário de ódio.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali. Mas no fim, fiz uma janta e comi. Deitei na cama e apaguei.
(...)
Não me pergunte como eu vim para a escola hoje. Mas aqui estou eu, em frente ao portão. Pensando se entro ou não. Minha mente pede que sim, mas meu coração diz não.
Dei dois passos e parei. Eu não vou fazer isso. Eu não preciso. Me virei para voltar para a casa e dei de cara com Louis.
— E aí, linda! — Ele gritou, sorrindo.
— Oi. — Falei, tentando sorrir. Tentativa falha.
— Nossa. — Ele fez uma cara feia. — Tá, eu sei que você não gosta de mim.
— Não é isso. É só um dia ruim. — Expliquei enquanto ele entrelaçava o braço ao redor dos meus ombros.
— É. Odeio escola também. Vamos subir de uma vez, se não estamos atrasadérrimos.
Não respondi. Eu não sei porquê me deixei levar, mas deixei. Já estávamos no segundo andar, onde ele finalmente me deixou caminhar mais afastada. Quando viramos o corredor, eu olhei diretamente para a frente. E, vi...
Lily.
Meus punhos se fecharam e meus olhos se encheram de raiva, enquanto meus pensamentos gritavam coisas que eu não gosto de dizer. Mas, ela corria em nossa direção. Ela parou em nossa frente, e me encarou com ódio.
Não durou muito tempo e ela entrou para dentro da sala. Fiquei ali, parada na porta, sem saber o que fazer.
Como ela voltou para a escola? Minha vida parece estar se voltando totalmente contra mim. Louis sussurrou algo como "vamos" e entrou dentro da sala. Coloquei um pé para dentro daquele cômodo e meus olhos pararam diretamente em Peter.
Engoli o choro e comecei a correr sem rumo pelos corredores. Corri rapidamente até o térreo, a fim de encontrar um lugar para ficar sozinha. Chegando lá, joguei a mochila em qualquer canto e me sentei, como sempre, escorada na parede ao lado da porta.
Seja forte, Sarah. Não chore. Você acha coisa melhor.... Não acha?
— Sarah. — Ouvi aquela voz e instantaneamente levantei. — Sarah.
Olhei para a minha mochila e a peguei pela alça. Senti aquele maldito segurar o meu braço. Diretamente, meus olhos pararam de encontro com os seus.
— Você tá me machucando, Peter. — Murmurei, com ódio.
— Você vai ter que me ouvir. — Ele me encarava, monótono. — Você tem que deixar eu me explicar.
— Explicar? — Ri, sínica. — Você podia ter se explicado ontem. Eu te esperei. Você foi embora sem dizer nenhuma palavra.
— Eu achei que você não iria querer me escut—
— Não iria. E não quero. — Forcei meu braço e o fiz me soltar. — Eu deveria ter escutado meu pai.
— Quê? — Ele perguntou num tom incrédulo enquanto eu ia até a porta.
— Sábias palavras. — Sorri irônica e fitei-o virando-se para mim (eu estava na porta). — "Peter. Você acha que ele gosta de você?"
Ignorei suas palavras, sem nem prestar atenção nelas. Se é que ele disse alguma coisa depois que eu fechei a porta. Ele que fique com a Lily. E com aquela cara de paisagem dele.
Desci rapidamente as escadas que levavam até aquele lugar no teto. Nem lá eu não podia mais ficar em paz. Fui descendo até o segundo piso. Lá, fui até meu armário e joguei minha mochila dentro. Eu iria ficar na escola, pra pensar no que fazer. Mas não com esse peso no ombro.
Tranquei o pequeno espaço de metal e coloquei a chave no bolso. No recreio eu iria caçar a Julie, porque ela sempre me ajuda quando preciso. Desci até o primeiro andar, buscando o que fazer. Andei até o fim do corredor e dobrei à direita.
— Hey. — Ouvi uma voz feminina me chamar. — Você viu meu Peter?
Encarei bem aquela vadia e esperava que ela me desse a brecha para eu espancá-la ali mesmo, ignorando totalmente as regras da escola que citavam "Agressão grave = Expulsão".
— Seu — Ri. — Peter?
— É. Tô procurando por ele faz um tempão desde que ele saiu da sala...
— Atrás de mim. — Completei.
— Escuta aqui, sua vadia. — Ela se aproximou de mim, incrédula. — Você tem que aceitar. Você perdeu. Ele é meu agora.
— Se você se contenta com resto, não posso fazer nada. — Arqueei uma sobrancelha.
Ela soltou um berro e levantou uma mão rapidamente para me estapear.
Isso vai ficar bem divertido.
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