A pedra no meu sapato
10 Eu devia
Notas iniciais
Eu vi em sua face uma expressão que eu nunca vira antes. De raiva, fúria, ou alguma coisa tão terrível assim.
— Filho da... — Ele se levantou e com toda a força deu um soco na parede.
Observei o sangue sair da sua mão enquanto ele a fitava, segurando-a com a outra mão. Ele gemeu.
—Idiota. — murmurei.
— Se eu ver ele. Eu. — Ele bufou. — Mato.
— Nem brinca com isso. — Disse, apoiando-me e logo me sentando na cama. — Isso aqui, passa... Em uns dias.
— Você é retardada? — Ele gritou, virando-se para mim. — Você acha que uma lesão na barriga e no rosto passa rapidinho? Pode até passar, mas você não sabe se não tem uma lesão interna. Ele te chutou só uma vez?
— ...
— Desgraçado! — Ele colocou as mãos sobre os cabelos loiros, puxando-os. Jurei que ele iria arrancá-los. — Filho da puta!
Ele continuou esbravejando enquanto eu apenas me acomodei lentamente na cama, fechando os olhos. Deixei algumas lágrimas escaparem, o que era inevitável mas... Eu ignorei totalmente os gritos de Peter. Eu não devia ter chamado ele. Não devia ter pedido ajuda de ninguém. Sempre vivi e me virei sozinha, e, eu tinha que continuar assim. Sempre foi assim. E assim vai continuar sendo. Cochilei.
—
Abri os olhos e senti um calor na minha barriga. Olhei para o lado e percebi que Peter havia deitado do meu lado. Sua cabeça estava encostada em meu ombro e seus olhos fechados. Um braço estava jogado por cima de mim e o outro para fora da cama. A expressão inocente dele, dormindo, era perfeita. Os fios loiros faziam curvas perfeitas enquanto caíam sobre a face angelical que ele tinha e, por um momento eu esqueci a dor.
Lentamente tirei seu braço que me envolvia e aconcheguei sua cabeça no travesseiro, o qual eu estava deitada. Me movi vagarosamente para não fazer barulho e ao mesmo tempo para não sentir muita dor. Apoiei-me na parede e, me mantendo nela, fui caminhando até a porta do quarto. A dor na minha barriga me impedia até de respirar normalmente. Eu estava ofegante. Meu olho ardia quando eu piscava.
Fazia tempo que eu não sentia uma dor assim. Eu havia até me esquecido de como era. Dei um passo em falso e senti meu corpo despencar, mas fui rapidamente impedida porque Peter me segurou pela cintura. Soltei um grito instantaneamente pois ele segurou onde estava roxo. Tentei com as minhas tirar as mãos dele que me seguravam.
— Me... Solta! — murmurei.
Ele me virou de frente para si e envolveu suas mãos em minhas costas.
— Eu só não quero que você se quebre mais ainda no chão. — Ele disse.
— Eu não preciso de você.
— Isso foi culpa minha.
— O quê? — Indaguei confusa.
— Eu não devia ter te deixado sozinha com aquele monstro.
E ele tocar no assunto monstro, me deu vontade de chorar. Apertei os olhos e olhei para baixo.
— Não é culpa sua ele ser um monstro. — Murmurei. — É culpa minha ser tão fraca e não poder fazer nada para lutar contra ele. Mas... Quero que você me deixe... sozinha...
— Não posso te deix...
— Pode. Peter. — Me aproximei dele e apoiei-me na parede, mostrando a ele que eu poderia ficar de pé sozinha. Peter me soltou e manteve o olhar fixo no meu. — Eu posso me virar. Não quero te prejudicar principalmente na escola por causa de mim. O problema vai ser meu.
— Não. — Ele disse teimoso.
Revirei os olhos. Encarei-o o mais seriamente que eu consegui, até porque eu não estava brincando.
— É sério. Me deixa sozinha.
Ele refez a expressão furiosa e ergueu os dois braços para os lados.
— Tá legal. Tá. — Ele disse já se dirigindo até a porta. — Você que manda.
Ele fez um certinho para mim, caminhando de costas. Virou-se para a porta e saiu. Fui até ela e a tranquei, correndo. A dor passou a ficar mais forte, pois eu havia me esforçado demais. Andei um pouco e apoiei-me na bancada da cozinha. E, minha barriga começou a doer demais. Merda. O Peter era algum remédio humano? Quando ele estava perto de mim eu não sentia tanta dor.
Senti algo subir dentro de mim e, sem segurar, vomitei. No chão da sala. Ótimo. Estava me sentindo nauseada e caí no chão novamente. Adormeci ali mesmo.
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